A moral cristã segundo

São Tomás de Aquino

A Igreja é «casa de Deus» (Domus Dei). O professor Iceta, autor de «A moral cristã habita na Igreja», comenta com Zenit esta imagem de Igreja como casa tomada de São Tomás de Aquino e a define como «a comunicação do homem na bem-aventurança».

 Mario Iceta é sacerdote e doutor em medicina e cirurgia pela Universidade de Navarra.

Em sua obra «A moral cristã habita na Igreja. Perspectiva eclesiológica da moral em São Tomás de Aquino», de EUNSA, explora a moral de São Tomás, que, segundo ele, é a da bem-aventurança e da primazia do amor.

Doutor em teologia moral pelo Pontifício Instituto João Paulo II para o estudo sobre o matrimônio e a família, Iceta é fundador da Sociedade Andaluza de Bioética e da revista especializada em Bioética e Ciências da Saúde.

Que quer dizer: a moral cristã habita na Igreja?

Parece-me que na atualidade se tem uma visão muito reduzida da identidade do cristão. Um cristão não é simplesmente um homem que tenta ser algo melhor que os demais porque recebeu como uma espécie de código moral que o obriga a isso. É esta uma visão um tanto caricaturada do ser cristão.

O cristão é um ser que renasceu quando se deixou surpreender pelo amor de Cristo; é um ser que nasceu do alto por meio do batismo, como afirma o Senhor em seu diálogo com Nicodemos. Este nascer do alto comporta um novo modo de obrar, próprio de quem foi transformado por Cristo.

A vida do cristão converte-se em um seguimento de Cristo, em um seguimento de Cristo («sequela Christi»). O nascer do alto e o conseguinte seguimento só podem dar-se de modo real se Cristo se faz contemporâneo a todo homem; e esta contemporaneidade de Cristo com o homem acontece na Igreja.

O novo modo de obrar só pode gerar-se no seio da comunidade eclesial. Nela o ser humano é gerado de novo, vai progressivamente adquirindo a forma de Cristo também com vistas à ação.

No seio da comunidade eclesial dão-se as condições para que o cristão possa aprender a realizar ações excelentes e santas e é capacitado para isso por meio da graça, recebida na celebração dos sacramentos.

Como se relacionam moral e eclesiologia concretamente?

As relações são múltiplas. Como já apontava anteriormente, a Igreja é o lugar que reúne as condições necessárias para a gênese da subjetividade cristã.

Em meu trabalho considero uma dupla perspectiva.

A primeira faz referência à edificação da Igreja por meio das ações excelentes do cristão. Efetivamente, a edificação da Igreja tem lugar por meio da ação meritória de Cristo e as ações santas dos cristãos que têm em Cristo seu princípio de operação que possibilita o acesso à bem-aventurança. Por meio de suas ações, sustentadas pela graça e participando do mérito de Cristo, o cristão vai edificando a Igreja como Corpo místico até que chegue a sua plenitude e perfeição em estado escatológico.

A segunda perspectiva é recíproca à anterior. Faz referência à geração do cristão no seio da Igreja. Na aquisição da forma cristã, o cristão precisa de um elemento interior que é fundamentalmente o sacramento do batismo, pelo qual é gerado a uma vida nova e capacitado para começar a forma cristã própria do «homo spiritualis».

Mas esta regeneração precisa por sua vez de fatores externos que vão modelando e configurando a perfeição cristã.

Estes fatores são: a imitação de Cristo (daí a necessidade da Sagrada Escritura e da pregação, pelas quais o cristão aprende a conhecer e imitar Cristo); a função pedagógica da lei moral, que atua como pedagogo até que o cristão adquira o «instinctus Spiritus Sancti» que o capacita para reconhecer e realiza ações excelentes e meritórias; o testemunho e a companhia dos cristãos virtuosos no contexto da amizade, por meio do qual o cristão aprende como por co-naturalidade a formar-se virtuosamente e a atuar excelente e meritoriamente e, por último, o ministério pastoral em sua função de engendrar e nutrir a vida cristã do homem, em dependência da paternidade de Deus com cada um de nós.

Qual é a perspectiva da Igreja que subjaz na moral de são Tomas de Aquino, que o senhor estudou?

São Tomas não se circunscreve a uma perspectiva unívoca da igreja. Em seus Comentários à Escritura, objeto de meu trabalho, utiliza diversas imagens eclesiológica, entre as quais predominam principalmente duas: a Igreja como «Corpus mysticum», própria da teologia paulina, e a Igreja considerada como «Domus» ou «Templum Dei», que é mais própria da teologia de São João e foi muito menos estudada.

Parece-me que uma contribuição interessante ao pensamento teológico atual é a recuperação desta visão da Igreja como «Domus» que tem riquíssimas implicações na perspectiva eclesiológica da moral.

São Tomas considera que habitar na «Domus Dei» consiste em permanecer estavelmente nas boas ações. Daí que os filhos, permanecendo operativamente no amor de Deus, permanecem na «Domus», que é a Igreja.

A «Domus» é considerada como a posse do fim último, quer dizer, a comunicação do homem na bem-aventurança. Cristo se converte no paradigma da edificação da «Domus», associando os cristãos a sua própria obra de glorificação.

Ademais desta concepção da Igreja como Corpus «mysticum», como «Domus» e «Templum», São Tomas emprega também outras imagens que estão diretamente relacionadas com estas duas.

As imagens de «societas ut civitas sanctorum», «Regnum» e «communio» dependem da concepção da Igreja como «Domus». E as imagens da Igreja como Esposa de Cristo, rebanho do bom Pastor e a imagem da vida e dos ramos vêm relacionadas com a consideração somática da Igreja. São Tomas sabe empregar os diversos registros que cada imagem representa para aprofundar as diversas dimensões eclesiológicas da ação do cristão.

O senhor defende que a moral de Tomas de Aquino é uma moral da bem-aventurança. Como seria?

A idéia que muitos têm na atualidade acerca da moral é uma idéia distorcida da moral própria de uma leitura atropelada da manualística.

Bem sabemos que a encíclica «Veritatis Splendor», seguindo a indicação do Decreto «Optatam totius», n. 16, do Concílio Vaticano II, urgia à moral mostrar ao cristão sua altíssima vocação em Cristo. Para esta renovação, é necessário, como indica o mesmo Concílio, um retorno às fontes, uma escuta atenta da Palavra de Deus e da rica fonte da Tradição, especialmente dos Santos Padres.

A este respeito, a releitura de São Tomas à luz dos problemas que atualmente se estabelecem na Teologia moral pode dar lugar a uma fecundidade assombrosa.

O esquema próprio da manualística (lei-consciência) era desconhecido para o Aquinate. Esse esquema, fruto da manualística, funde suas raízes no nominalismo, onde começa de modo inexorável a deterioração da estrutura fundamental da Teologia moral.

Na moral de São Tomas, Cristo e a caridade adquirem o status de pedra angular da estrutura moral enquanto que no contexto da amizade com Cristo, que é a caridade, o homem caminha para a bem-aventurança. A moral, portanto, consiste principalmente nessa «seqüela Christi», no caminho de retorno para o Pai por Cristo e o Espírito Santo onde o cristão alcança a bem-aventurança plena em que consiste sua própria perfeição e o objeto da moral.

No retorno das criaturas racionais a Deus, encontraria a Teologia moral seu lugar teológico adequado, enquanto ciência que trata sobre o fim último que é a comunhão com Deus. Não em vão, o primeiro tratado da parte moral da «Summa Theologiae» corresponde à bem-aventurança como fim último.

O homem progride para esta bem-aventurança no contexto da amizade com Cristo, apresentado como «máxime sapiens et amicus». Neste lugar, no encontro com Cristo, na resposta a seu Amor que provoca o homem a responder, o cristão por meio de suas ações sustentadas e movidas pela graça de Cristo vai caminhando e progredindo para a bem-aventurança.

Daí que a moral em são Tomas seja principalmente uma moral da bem-aventurança.

Por isso, o estudo atento do Aquinate pode ajudar a moral a sair do empobrecimento e, em certo modo, do impasse que a conduziu à manualística e retornar a seu contexto próprio que é o seguimento amoroso de Cristo no contexto de sua amizade oferecida de forma permanente na Igreja.