DA CONDIÇÃO SEXUAL DO HOMEM CONTEMPORÂNEO
 

No início do século XX, sobretudo com as pesquisas de Freud, nossa sociedade ocidental acreditava ser o tabu sexual e as diversas forma de controle civilizatório a causa imperiosa para os problemas em torno à realização humana. Em sua obra O mal-estar da civilização escrevia o próprio Freud:

Se a civilização impõe sacrifícios tão grandes, não apenas à sexualidade do homem, mas também à sua agressividade, podemos compreender melhor por que lhe é difícil viver na civilização. (S. Freud, O mal-estar da civilização, Rio de Janeiro: Imago, 1974, p. 75).

Essa constatação de Freud, de fato, descrevia a sociedade de então, sobre a qual se impunha todo o peso dos mecanismos reguladores da chamada sociedade vitoriana. A própria definição do cidadão dessa época: homem de ferro, revela a repressão dos instintos humanos.

Os homens dessa sociedade pagavam esse preço pela segurança que essa civilização vinha lhe garantindo na figura do Estado, esse Leviatã, como evidencia a teoria política de T. Hobbes, que contribuiu fortemente para esse estado de coisas. Contudo, a explosão das guerras, das quais o século XX foi cenário, trouxe ao homem civilizado a desilusão do controle da vida:

Dois fatores, durante a guerra, provocaram a nossa desilusão: a quebra da moralidade dos Estados e a brutalidade no comportamento do indivíduo, do qual, como colaborador e participante nos bens mais altos da cultura, não poderíamos esperar coisa nem de longe semelhante. (S. Freud: Psicanálise dos tempos neuróticos. EDIMAX, p. 31)

A partir das descobertas de Freud, assim como da decepção com a moral estatal, houve todo um movimento de derrocada seja do tabu sexual, seja dos mecanismos de controle social, que agora são vistos como formadores de culpa e que as barbaridades da guerra mostrou sua ineficácia. Em referência à sexualidade, esse movimento inicia um processo que culmina na chamada revolução sexual dos anos sessenta:

Nos anos 60, a moda da revolução sexual foi o ponto final de uma história de comportamentos sexuais que se desenrolou no decorrer dos dois séculos precedentes. Essa corrente de pensamento, incorporando as descobertas científicas da biologia, vai influenciar, ao longo de todo o século XX, os comportamentos e manifestar-se através da liberação sexual.(T. Anatrella, O sexos esquecido - Rio de Janeiro - Editora Campus, 1992, p. 1)

Nossa atual condição sexual, portanto, é filha dessa revolução do sexo.

Se a condição sexual do homem contemporâneo é um desdobramento da revolução sexual, para que a evidenciemos faz-se mister colocarmos essa revolução em questão. Destarte, T. Anatrella pergunta: Qual sexualidade foi liberada com essa revolução? (Ibidem, p. 3) Isto porque, não obstante seu mecanismo de controle, na sociedade vitoriana todas as aventuras em torno à sexualidade eram vividas, mas "por debaixo dos panos":

(...) a reprovação social só se abatia sobre os indivíduos quando a conduta destes era descoberta. O silêncio não era portanto, a expressão de uma inibição sexual, mas a recusa ou a dificuldade de falar do sexo e da sexualidade humana que se tornava mais subjetiva. (Ibidem, p. 2)

Tanto o contexto da revolução sexual, quanto seus desdobramentos, portam uma pluralidade de aspectos, tais como: libertação da mulher, supremacia do corpo, etc. Porém, um aspecto digno de nota - quando se pretende evidenciar a condição sexual dos homens e mulheres "pós-revolução" - é o fato de que a mesma foi um movimento sobretudo de protagonismo juvenil. Talvez seja esse o seu principal aspecto, pois, como mostrou M. Foucault, em sua História da sexualidade, na sociedade moderna as crianças e os adolescentes foram os principais objetos do controle sexual. Os anos sessenta são justamente o palco, no qual os jovem iniciam um discurso de libertação sexual, contestador da vigilância excessiva - seja dos pais, seja dos educadores - sobretudo à sexualidade juvenil.

O fato é que esse movimento teve eco e, portanto, desdobramentos:

Com essa revolução adolescente produzem-se uma evolução e uma inversão. Os jovens de ontem tornam-se adultos e, enquanto os seus predecessores desconfiavam dos adolescentes assim como desconfiavam da sexualidade, eles provocaram o fenômeno oposto afirmando a própria adolescência contra os adultos impondo sua sexualidade (...) A sexualidade adolescente foi não só liberada, mas também valorizada a ponto de tornar-se o modelo de referência. É bom permanecer jovem e fixar-se nos impulsos sexuais da adolescência (...) Curiosa revolução! Se felizmente rompe um confinamento educativo, em contra partida ela instalou igualmente as personalidades numa sexualidade que se recusa a desenvolver-se para além da adolescência. (Ibidem, p. 3, grifo nosso)

Não nos cabe aqui descrever a sexualidade adolescente, porém, sublinhar que a mesma constitui-se como apenas uma fase do desenvolvimento sexual da pessoa humana.

Ao mirarmos nossa época se nos evidencia, não obstante a pluralidade cultura, uma atmosfera - no que se refere à ética - de eclipse dos valores e - no que se refere à sexualidade - não diríamos de erotização, mas de "pornotização". Destarte, aquilo que Freud diagnosticava para o "mal-estar da civilização", parece ter perdido sua validade para os nossos dias, ou pelo menos ser interpretado em uma outra esfera. Pois, como mostra Rollo May:

...Em nossos dias os tabus sexuais são muitos mais frágeis (...), oportunidades de satisfação sexual podem ser encontradas sem grandes dificuldades por pessoas que mão manifestaram outros problemas os conflitos sexuais que hoje em dia as pessoas levam ao terapeuta, são, além disso, raramente lutas contra a proibições sociais, mas com muito mais freqüência deficiências que encontram em si mesmas, tais como impotência, ou incapacidade de reagir satisfatoriamente ao parceiro sexual. Em outras palavras, o problema mais comum não são os tabus sociais relativos à atividade sexual, ou os sentimentos de culpa referentes ao sexo em si mesmo, mas o fato de que este para tanta gente é uma experiência mecânica e vazia. (R. May, O homem à procura de si mesmo, Petrópolis: Vozes, 2000, p. 15)

De Freud a Rollo May houve, portanto, uma inversão na configuração antropológico-cultural da sexualidade humana. Sendo que a revolução sexual desempenhou papel relevante para isto. Se antes era o tabu o principal responsável pela ansiedade humana, agora é o vazio. Destarte, para situarmos a condição sexual do ser humano atual, impõe-se uma pergunta: de onde provem esse vazio?

Desde a Antiguidade, como mostra A. Moser, em torno à sexualidade humana girava uma atmosfera mistérica. Nesse contexto, diz esse autor:

A sexualidade é algo tão sublime que não se constitui em propriedade dos humanos, mas dos deuses. (A . Moser, O enigma da esfinge - a sexualidade, Petrópolis: Vozes, 2004, p. 28)

Enquanto realidade mistérica, a sexualidade emerge para a existência humana como enigma. Contudo, como já apontamos, a revolução sexual colocou a sexualidade num caminho de parcialidade, ou seja: em impondo a sexualidade juvenil como paradigma para toda a existência, colocou a sexualidade humana num caminho de anulação do mistério que a envolve.

A sexualidade juvenil é determinada sobretudo pela dimensão biológica. Esta se integra na totalidade da existência no processo de maturidade humana que visa levar o ser humano à conquista de si mesmo. Nesse processo de maturação, o ser humano descobre que, diferentemente do adolescente que vê o sexo pelo sexo, procura o prazer pelo prazer, o corpo pelo corpo, (T. Anatrella, op. cit., p. 11) o sexo ultrapassa a sua dimensão puramente biológica e a cópula genital. (Cf. Ibidem, p. 211) Aliás, é só nesse ponto que a própria sexualidade atinge sua maturidade. Fixar, portanto, a totalidade da existência no modelo juvenil de sexo, significa confiscar o sexo da existência. (Cf. ibidem, p. 87) Parece ser nesse confisco que se move nossa atual condição sexual, como mostra de maneira caricatural o clássico filme O império dos sentidos, do cineasta japonês Nagisa Oshima.

Configurando-se dessa maneira a sexualidade humana, a existência acontece de maneira parcial, uma vez que, a sexualidade é um edifício com muitas janelas, como diz A. Moser. (Anotação de sala de aula) É dessa maneira que o Brasil todo se mobiliza durante dias em torno do bumbum da Juliana Paes, que, como ressaltou o jornalista Arnaldo Jabor, se constituiu o assunto mais interessante da terceira semana de maio de 2004, porque no Brasil o bumbum virou um capital com vida própria. (Cf. Jornal O Globo, 18/05/2004)

O que mostra a alienação do homem de hoje, com seu desinteresse por tudo, da educação à política. Nesse contexto, o mesmo jornalista, em um outro artigo, põe a questão:

Como acreditar em harmonia futura, em bom senso, em arte, em cultura, em filosofia, depois da revolução da estupidez? (Jornal O Globo, 01/06/2004).

É justamente essa nova realidade que se (im)põe em face de toda a tradição ocidental, símbolo do humanismo e da cultura, onde se insere também o cristianismo não somente com seu "dogma", mas, sobretudo, com seu anúncio de "amor" pelo ser humano.

Antônio César Maciel Mota

graduando em teologia pelo Instituto teológico franciscano

Bibliografia

- ANATRELLA, Tony. O sexo esquecido.Rio de Janeiro: Campus, 1992;

- FREUD, Sigmund. O mal-estar da civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1974;

- Psicanálise dos tempos neuróticos. Edimax;

- FOUCAULT, Michel. História da sexualidade - I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal.

- JABOR, Arnaldo. "Meditações diante do bumbum de Juliana". In: O Globo, 18/05/2004;

- "Os psicopatas chiques estão chegando". In: O Globo, 01/06/2004;

- MAY, Rollo. O homem à procura de si mesmo. Petrópolis: Vozes, 2000;

- MOSER, Antonio. O enigma da esfinge - a sexualidade. Petrópolis: Vozes, 2004