A  anticoncepção  é  pecado?

 Atualmente mais de 80% dos casais casados nos Estados Unidos usam algum tipo de método de controle da natalidade. A maior parte dos casais que têm relações sexuais sem estarem casados também usam anticonceptivos. Trinta por cento de todas as mulheres casadas em idade fértil foram esterilizadas.

No entanto, nenhum anticonceptivo é totalmente seguro e essa é a razão pela qual nosso mundo hedonista pede a gritos o mal chamado "direito" ao aborto. O aborto é sensivelmente a conseqüência da falha dos anticonceptivos. Também sabemos que pelo seu efeito todas as pílulas anticonceptivas às vezes são abortivas. Portanto, não se pode negar a conexão entre a anticoncepção e o aborto.

Um casal casado que pratica a anticoncepção faz duas coisas:

1) decide conscientemente praticar a anticoncepção e;

2) utiliza métodos concretos para impedir a concepção, como por exemplo, as pílulas anticonceptivas e os preservativos. Podemos nos dar conta com clareza de que estes casais se rebelam com toda a intenção contra sua fertilidade, ao frustrar deliberadamente a dimensão procriadora do ato conjugal.

Há razões válidas para que um casal casado (e só dentro do casamento) decida que agora não é o momento oportuno para ter um bebê. Por exemplo, a saúde da mãe pode ser precária. Porém, o fim não justifica os meios. Há uma diferença enorme entre a anticoncepção e o planejamento natural da família (PNF). O PNF é aceitável moralmente, quando os esposos têm motivos graves para espaçar os nascimentos de seus filhos, porque respeita inteiramente a dignidade das pessoas e o caráter do ato conjugal. A propósito, os métodos modernos de PNF não custam nada ou muito pouco, são fáceis de aprender, são eficazes e não dependem, para sua realização, de que a esposa tenha ciclos regulares ou irregulares.

O que é o pecado?

O pecado tem haver com a faculdade humana de decidir e atuar. Pecar significa querer fazer o mal. Pecar é muito mais que cometer um simples erro, como somar mal uns números. O pecado não é "ser surpreendido cometendo um crime", mas é a vontade de cometer um ato perverso. O pecado implica em Deus. Se não existisse Deus não falaríamos de pecado, mas de erros, decisões desacertadas, falta de prudência e conveniência.

Quando pecamos, escolhemos deliberadamente ir de encontro à lei moral de Deus. A moralidade se aplica a todas as pessoas e a todas as esferas da atividade humana. Posto que a moralidade é objetiva e foi estabelecida por Deus, não temos o direito de recusá-la, trocá-la ou decidir seletivamente quais de seus princípios são válidos. O Papa Pio XII ensinou que o maior pecado do século XX foi a perda do sentido do pecado, o qual é uma afronta à bondade e à santidade de Deus.

Alguns pecados são óbvios porque se podem detectar facilmente suas desastrosas conseqüências na sociedade; por exemplo: o genocídio, a escravidão, os campos de concentração. Porém outros pecados são mais sutis, seus efeitos daninhos estão ocultos à primeira vista.

O que ensina a Igreja Católica com respeito à anticoncepção?

            A doutrina da Igreja Católica sobre a anticoncepção chegou a ser quase única entre os diferentes grupos religiosos. Esta situação não era assim até pouco tempo na História. Desde que surgiu o protestantismo, todas as correntes cristãs condenaram a anticoncepção.

A Igreja Católica o fez desde seu começo. Somente a Conferência Anglicana de Lambeth em 1930 rompeu a tradição cristã de vinte séculos, com a decisão de que os casais casados, por razões graves, podiam praticar a anticoncepção. Esta desastrosa posição, desde logo, foi piorando ainda mais de forma constante. Pio XI escreveu sua encíclica sobre o casamento e a castidade conjugal, Casti Connubi, imediatamente depois da Conferência de Lambeth. Na mencionada Encíclica o Papa reiterou a condenação da anticoncepção por parte da doutrina da Igreja Católica.

Vejamos agora a encíclica do Papa Paulo VI, Humanae Vitae (HV), publicada em 1968. Nela o Papa escreve que "todo ato conjugal deve permanecer aberto à transmissão da vida" (HV 11). Aqui o Papa ensina que o aborto está total e absolutamente excluído como método de controle da natalidade, assim como também a esterilização e todo tipo de anticonceptivos e usos antinaturais do ato conjugal.

"Igualmente fica excluída toda ação que torne impossível a procriação quer seja antes do ato conjugal, durante o ato ou no desenvolvimento de suas conseqüências naturais" (HV 14). Aqui o Papa nos ensina que os dois significados essenciais do ato conjugal são o unitivo (doador de amor) e o procriador (doador de vida). Deus é o Autor de toda vida e de todo amor. Se quisermos expressar nossa sexualidade autentica, honesta e humanamente, teremos que faze-lo de acordo com o plano de Deus.

A Igreja sabe que será "um sinal de contradição" num mundo que não tem fé. No entanto, a Igreja não cessa de proclamar com humilde firmeza, a lei moral em sua totalidade, tanto natural como evangélica. "A igreja não é a autora de tais leis; conseqüentemente, não pode ser seu árbitro, ela é somente sua depositária e interprete, sem poder nunca declarar que é lícito o que não é por sua oposição íntima e imutável ao verdadeiro bem do homem" (HV 18a.)

Em 12 de novembro de 1988 o Papa João Paulo II se dirigiu a uns 400 teólogos no II Congresso Internacional de Teologia Moral em Roma, reunidos para celebrar o XX Aniversário da publicação da Humanae Vitae. O Papa falou sobre a origem da norma moral da encíclica. "O ensinamento da Humanae Vitae não é, certamente, uma doutrina inventada pelo homem, pois que foi impressa na mesma natureza humana pela mão de Deus Criador e confirmada por Ele na Revelação. Portanto, colocá-la em dúvida, equivale a recusar ao próprio Deus a obediência da nossa inteligência".

O Papa explicou que não há exceção a esta norma. "Paulo VI quis ensinar, ao descrever o ato anticonceptivo como intrinsecamente ilícito, que a norma moral é tal que não admite exceções. Nenhuma circunstância pessoal ou social pôde, pode ou poderá jamais fazer que tal ato seja lícito. A existência de normas particulares, em relação à maneira de atuar dos homens no mundo, as quais estão dotadas com uma força obrigatória que exclui sempre e em qualquer situação a possibilidade de exceções, constitui um ensinamento do Magistério da Igreja e da Tradição, que não podem ser matéria de discussão dos teólogos católicos" (N.5).

João Paulo II também se dirigiu aos bispos em Los Angeles, Estado da Califórnia, Estados Unidos, em 16 de setembro de 1987. Referindo-se a informações de que um grande número de católicos não tinha aderido ao ensinamento moral da Igreja sobre a anticoncepção e que mesmo assim, parece, recebe os sacramentos, o Papa disse: "Algumas vezes se proclama que o recusar a adesão ao Magistério é totalmente compatível com ser um "bom católico" e que não representa nenhum obstáculo para receber os sacramentos. Este é um grave erro que põe à prova a função de professores dos bispos nos Estados Unidos e em qualquer lugar".

Em 14 de março de 1988 o Santo Padre voltou a tratar do tema, desta vez dirigiu a palavra aos participantes da IV Conferência Internacional sobre a família na Europa e África. O Papa se referiu ao problema dos sacerdotes que estão mal situados e que praticam uma falsa "compreensão pastoral". "Realmente não posso ficar calado ante o fato de que muitos, todavia hoje, não ajudam os casais casados nesta sua grave responsabilidade e, mais ainda, colocam grandes obstáculos em seu caminho... isto pode levar consigo conseqüências graves e destrutivas, quando se põe em dúvida a doutrina da Encíclica, como tem acontecido algumas vezes, até com teólogos e pastores de almas. Esta atitude, de fato, pode inspirar dúvidas com respeito a um ensinamento certo da Igreja e, desta maneira, se encobre a percepção da verdade que não admite discussão. Este não é um sinal de compreensão pastoral, mas de um equívoco com respeito ao verdadeiro bem das pessoas. A verdade não pode basear-se em uma maioria de opiniões".

Portanto, a pessoa que tenha usado anticonceptivos não pode receber a Eucaristia sem um verdadeiro arrependimento, confissão e firme propósito de corrigir-se. E se caímos no pecado, Deus sempre nos perdoará, se nos arrependermos com sinceridade, nos confessarmos e tratarmos de viver uma vida cristã. Não tem sentido receber o próprio Autor de toda a vida e de todo amor na Eucaristia e ao mesmo tempo, conscientemente, estar indo de encontro ao dom de Deus da fertilidade e correr o risco de abortar, nas primeiras etapas da gravidez, um dos filhos ou filhas de Deus.

O que a anticoncepção tem de mal?

            Nunca se pode determinar a moralidade com números nem com pesquisas de opinião. Porém, visto que hoje em dia existe uma grande confusão sobre o pecado, a sexualidade e o abuso da mesma, e porque vivemos numa cultura que aceita o aborto, a esterilização e a anticoncepção, devemos tratar de explicar o porquê da anticoncepção ser um mal grave. O Papa João Paulo II escreveu extensamente sobre este tema.

O verdadeiro amor requer o dom de si mesmo. Antes que alguém possa dar este presente para a pessoa amada, primeiro deve ser dono de si mesmo incluindo as paixões, desejos e emoções. A luxúria implica que estamos decididos a obter o que desejamos a todo custo. Porém, o amor significa que podemos expressar nossa paixão sexual no casamento (e somente dentro dele) buscando uma união com a pessoa amada, honrando-a e desejando seu bem até chegar a dar sua própria vida por ela, se necessário for.

A mentalidade anticonceptiva é pecaminosa por muitos motivos. É um grave mal com conseqüências desastrosas. Quebra a conexão intrínseca entre as dimensões unitiva e procriadora do ato conjugal. Considera erroneamente que o período de abstinência necessário ao planejamento natural da família danifica o casamento e que o ato sexual por puro instinto é virtuoso. Considera o auto-sacrifício uma moléstia e eleva a busca do prazer ao nível da principal finalidade do casamento, depreciando a autodisciplina e o sacrifício. Reduz a pessoa amada a um objeto, a uma fonte sempre disponível para o prazer e considera a fertilidade como uma espécie enfermidade.

Abusa da medicina e da profissão médica. Leva diretamente ao aborto; de fato, como temos notado, muitos anticonceptivos; como por exemplo, a pílula, o Norplant, o dispositivo intrauterino (DIU ou IUD) e a Depo-provera, causam abortos no início da gravidez.

A anticoncepção diz a Deus: "Não és o Senhor da Vida no nosso casamento nem colaboraremos Contigo para trazer novas vidas para Teu Reino". É um exemplo terrível para os jovens, os quais logicamente perguntam por que eles não podem gozar de uma vida sexual estéril, já que os adultos o fazem. Dá legitimidade para outros atos sexuais estéreis, como os atos homossexuais e outras perversões. A anticoncepção é na verdade um ataque ao casamento e à família que leva a toda uma sociedade à corrupção.

Como viver castamente?

É possível viver sem os anticoncepcionais? Sim! Nunca ninguém morreu por falta de relações sexuais. Se os solteiros, e há milhões deles no mundo, podem praticar a abstinência total, os casados certamente podem praticar a abstinência periódica.

Alguns argumentam que o planejamento natural da família é muito difícil de seguir e que destrói a espontaneidade. Isto não é certo. Usar anticoncepcionais não é, digamos, muito espontâneo. De todo modo, os seres humanos não são animais brutos, governados por instintos baixos. A razão, o amor, o raciocínio e o controle devem caracterizar a relação marido-mulher. É verdade que o planejamento natural da família não é fácil, porém o sacrifício e a disciplina que requerem são ganhos que valem a pena. Longe de destruir o amor e o prazer, a capacidade de se abster gera generosidade e certamente faz o casamento melhor. Sem auto-disciplina e controle de si mesmo, não pode haver doação de si mesmo. Ao contrário, a anticoncepção promove a falta de controle e as relações sexuais compulsivas. O ato sexual se torna uma rotina. A mulher se sente usada e o homem se aborrece.

A verdadeira liberdade cristã consiste na capacidade de controlar os impulsos e fazer o que de verdade é bom para si mesmo e para os demais. Jesus disse que se seguirmos seus mandamentos, conheceremos a verdade e que a verdade nos faria livres (cf. João 8, 31-32).

Algumas pessoas se queixam de que os jovens não podem ser castos e que é inútil dizer-lhes que se abstenham. Esta opinião equivocada não lhes faz justiça ao idealismo e à bondade básica da juventude. Quando têm experiências sexuais fora do casamento, os jovens (e outras pessoas também) sabem que estão usando a outros e que eles mesmos estão sendo usados. Além disso, Deus não nos dá um mandamento sem dar-nos ao mesmo tempo a força para cumpri-lo. "Seus mandamentos não são pesados, porque todo aquele que nasce de Deus conquista o mundo" (1Jo 5, 3-4).

O primeiro passo para viver uma vida cristã é aceitar Jesus como nosso Senhor e Salvador, entregando a Ele a soberania de todos os aspectos de nossas vidas. Necessitamos dar vida a nosso compromisso com Jesus. Necessitamos adotar meios práticos para assegurar nosso crescimento em Cristo. O primeiro é levar uma vida espiritual profunda e gozosa. Isto inclui a oração diária e os Sacramentos, especialmente a Confissão e a Eucaristia. Necessitamos chegar a conhecer o Senhor de uma maneira pessoal. Se não o fizermos, seremos demasiado fracos para resistir à tentação e às pressões do mundo.

A segunda maneira de crescer em Cristo é por meio do conhecimento da Palavra de Deus. Como podemos decidir o que fazer se não conhecemos o que Deus nos disse?

            Necessitamos ler a Bíblia todos os dias, especialmente os Evangelhos. Também necessitamos ler, antes de tudo, os ensinamentos da Igreja, assim como bons livros católicos, as vidas dos santos, etc., para nos instruir e inspirar. Se formos ignorantes, o mundo nos confundirá com suas mentiras e enganos.

A terceira maneira é por meio da comunidade cristã. Não podemos viver uma vida cristã nós sozinhos. O mundo é muito grande para nós. Há muitas pressões de outras pessoas e muitas vozes equivocadas. Necessitamos do apoio e da orientação de nossos irmãos e irmãs. Necessitamos construir relações fortes, saudáveis, inocentes e autenticamente cristãs para contradizer a visão distorcida da sexualidade que tem a sociedade.
            Por último, a maneira para crescer em Cristo é precisamente por meio do serviço cristão, a escola de amor que nos converte em pessoas maduras que sabem como dar e receber.

A disciplina e o amor de Jesus nos darão as forças para viver castamente; não nos será muito difícil. Aprenderemos que a abstinência antes do casamento é de fato a única maneira real de construir um futuro feliz para nossa vida sexual no casamento.

padre Matthew Habiger OSB, Ph.D