A   DOR   EXISTE, MAS  DEUS  DESEJA  A  FELICIDADE  PARA  O  HOMEM

Deus não criou o homem para o sofrimento, mas o fez para que compartilhasse sua felicidade. É intrínseco à vocação humana viver a felicidade, tirando dentro de si e do mundo todas as formas e estruturas da maldade e da dor e promovendo o que é positivo e dignifica o ser humano.

Por que o mal no mundo?

Um grave dilema atormenta nossa vida: o homem conseguirá extinguir a dor e afirmar a felicidade? A história da humanidade ensina que o sofrimento nunca será totalmente abolido. Jesus dizia: “Os pobres sempre estarão convosco”. Pode-se aliviar o sofrimento do parto, mas terá sempre o sofrimento de gerar os filhos para vida, garantindo para eles uma criação sadia; pode-se eliminar o cansaço físico com maquinas e robôs, mas nunca será possível eliminar a fatiga de se viver. Sempre haverá sedentos que precisarão de água para matar a sede; presos que sofrem atrás de grades; marginalizados que precisam ser acolhidos e amparados; inocentes que aguardam a justiça se manifestar; angustiados e deprimidos que não sabem mais entender o valor e o sentido da vida. Apesar do ser humano lutar contra todas as formas do mal, ele,  se espalha como o joio da parábola do Evangelho e, devemos conviver com tantas situações de maldade, até o fim dos tempos.

Por que o ser humano passa por esta experiência dolorosa? G. B. Shaw um dia teve esta intuição: “Se eu fosse Deus, teria criado um pouco melhor o ser humano”. Pode parecer uma blasfêmia. Pelo contrário, esta mesma afirmação é encontrada – de outra forma -  em são Tomás, em sua obra Contra Gentes quando afirma que Deus é bom e providente e não pode ter criado um ser humano tão degradado em sua imagem divina. O santo doutor conclui sua reflexão dizendo que deve ter acontecido algo, nos primórdios da humanidade, que deformou o projeto inicial de Deus. O homem foi criado para participar das bem-aventuranças divinas; pelo contrário a criatura se parece mais um mendigo.

Porque o homem vive esta dolorosa contradição? Deseja a Paz e promove a guerra; deseja a vida e encontra a morte; deseja ser feliz e é mergulhado no sofrimento e na angustia. Até os gestos que deveriam expressar o máximo da jóia e da vitalidade – a procriação e o domínio do universo – se tornam um caminho de sofrimento e fatiga que terminam na morte.

A resposta na Revelação

O homem nunca encontrou uma resposta satisfatória para dor, por isso interpela Deus. O homem, ensina a Bíblia, é contraditório porque estragou a si mesmo. Sua própria soberbia e presunção foram a causa da ruína. Pensava de construir um projeto de vida em contraposição a Deus, mas enganou-se: somente arruinou-se por dentro e por fora. Feriu-se com as próprias mãos e sofre as conseqüências destas feridas: “Darás à luz no sofrimento, ganharás o teu pão com o suor da fronte”. Não são castigos divinos e, menos ainda, maldições contra sua própria criatura. Deus nunca amaldiçoa: Ele somente constata o mal que o homem causou a si próprio, quando se substitui ao próprio Criador e trilhou caminhos opostos daqueles traçados por Deus.

A cruz e a ressurreição

A este homem marcado pelo sofrimento, Deus conferiu a dignidade de ser o salvador de si mesmo, unindo sua vida, à vida do Filho: “Completo na minha carne o que falta das tribulações de Cristo”. (Cl. 1, 24). Porém Cristo redime o homem não só com o sofrimento e a cruz, mas sobretudo com sua Ressurreição e com aquela bondade misericordiosa que o leva a se debruçar sobre os doentes e sofredores. O homem, portanto, quando elimina no mundo o sofrimento, ajuda Cristo a salvar o próprio homem; mas o ajuda, também, quando une aos sofrimentos de Cristo, seus próprios sofrimentos, mesmo aqueles que não consegue superar ou vencer ainda.

O convite de Cristo é duplo: trabalhar para acabar com toda forma de mal no mundo e carregar com Ele a Cruz daqueles males até incuráveis, para morrer com Ele e com Ele ressuscitar.

Uma última reflexão. Existem males que não são constatados a olho nu e que fazem sofrer muito mais o ser humano: é a angustia daquelas pessoas que não sabem porque existem. Sentem-se como suspensas no vazio, inúteis. Vivem aquela trágica situação descrita por aquele paciente de hospital psiquiátrico: “Aqui neste lugar não se vive mal: temos comida, roupa, podemos dormir tranqüilos; quando tem sol, podemos passear nos jardins da clínica e quando faz frio somos bem agasalhados; mas ... é como possuir um carro com o tanque cheio de gasolina: você porém não sabe aonde ir!”.

Posso ter um carro veloz e bem equipado, mas se eu não souber para que serve o carro e para onde quero ir, a possante máquina não terá nenhuma utilidade. Da mesma forma a nossa vida!

Texto originário de Giordano Muraro (teólogo)