PORQUE   A   IGREJA   ORTODOXA   NÃO   ACEITA

O   PRIMADO   DO   PAPA?

Os Evangelhos e os demais escritos do Novo Testamento revelam que Cristo constituiu Pedro como fundamento de sua Igreja e detentor do poder supremo de “ligar e desligar”. (Mt. 16, 18 – 19), confirmando-o pastor universal (João 21, 15 – 17), mas não tratam daquilo que aconteceu com Pedro em Roma. Para saber como ele foi até lá, como morreu e como os bispos de Roma se tornaram seus sucessores, precisa recorrer aos documentos da tradição eclesiástica e aos restos arqueológicos.

O império e as duas Roma

Trata-se de testemunhos complexos que devem ser analisados com serenidade e sem preconceitos. Essa tarefa, porém, não é fácil. Nos primeiros três séculos, os bispos de Roma aparecem no centro de toda vida do mundo cristão. As coisas começam a se complicar quando o império se divide e surgem dois centros de poder: Roma e Constantinopla. O concílio ecumênico de Nicéia (em 325) faz referencia a três grandes centros da cristandade: Roma, Alexandria e Antioquia. Em 330 uma pequena cidade chamada Bizâncio recebe, após nova fundação, o nome de Constantinopla. Passam somente poucos anos e, em 381, um novo concílio realizado em Constantinopla (e reconhecido como ecumênico somente a partir do ano 451) atribui a esta cidade o título de “nova Roma”, o segundo lugar após a “antiga Roma”.

O império romano (que coincidia com o mundo cristão), já destinado a rachar sob o aspecto político e cultural, dividiu-se também a nível teológico e o papa assumiu uma importância diferente no ocidente e no oriente. O papa continuava a desempenhar sempre a mesma função, mas as atitudes, em relação ao seu magistério, mudavam.

Na realidade ficou claro para todos que o papa era e continuava a ser o sucessor de Pedro (“Pedro falou pela boca de Leão!”, proclamaram os padres do concílio de Calcedônia em 451); todos recorriam a ele nos momentos difíceis, como se fosse um juiz acima de todas as partes e várias vezes solicitou-se sua ajuda (sobretudo na celebração dos concílios ecumênicos, como aconteceu em Nicéia em 787); mas ao mesmo tempo aumentavam as incompreensões  e  o mal-estar de ambas as partes. Começaram os primeiros cismas, como aquele de Acácio de 484 até 519; de Fózio de 867 até 880, e por fim, o mais grave de Miguel Cerulário a partir do ano 1054.

A invasão dos muçulmanos

As culpas deste mal-estar, na realidade, foram de ambas as partes envolvidas e todos sofreram com esta situação. Seja a Igreja latina, por culpa de uns imperadores bizantinos, sejam as igrejas orientais, sobretudo no tempo das cruzadas, experimentaram tribulações de todo tipo. Para piorar a situação, em 632 aconteceram as invasões muçulmanas. Após mais de 1.000 anos, ainda hoje sofremos as conseqüências destas invasões, com as guerras no Oriente Médio e na região dos Balcãs. Esforços sinceros para apaziguar os ânimos nunca faltaram. O cisma de Acácio terminou com o pleno reconhecimento da primazia do papa de Roma; a mesma coisa aconteceu com o cisma de Fózio. Também o cisma do ano 1.054 não chegou a ser generalizado ou insanável. Até na época das cruzadas realizaram-se concílios ecumênicos, como o de Lion (1274) e Florença (1439 – 1443). Logo em seguida aconteceu a tragédia definitiva: Constantinopla foi conquistada pelos turcos em 1.453 e, tudo isso, causou a interrupção do diálogo entre a igreja ocidental e oriental.

O caminho ruma à unidade

A partir deste momento os teólogos latinos começaram a exaltar sempre mais o primado papal e os bizantinos faziam todo o contrário, alegando motivos vários e até contraditórios, como por exemplo: 1) os apóstolos não se amarraram a nenhuma sede fixa, por isso nem Pedro a Roma; 2) o papa é o sucessor de Pedro para o episcopado romano mas não no primado; 3) a Igreja deve ser governada dos cinco patriarcas (Roma, Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém) e ao papa é reservado, todavia um primado de honra.

Mas, apesar de tudo isso, entre os mesmos ortodoxos, não faltou quem continuou a reconhecer, de uma forma ou outra, a primazia efectiva do papa. Dois exemplos se destacam entre muitos: Simeão de Tessalônica, no século XV escrevia: “O primado romano não é prejudicial à Igreja. Se provada sua fidelidade à fé de Pedro, então tenha todos os privilégios de Pedro”; e Elias Miniatis, em 1.727: “O papa é o verdadeiro sucessor dos apóstolos e detém a primeira cátedra na hierarquia da Igreja universal, assim como foi sancionado pelos sagrados concílios”.
Hoje em dia o famoso te
ólogo grego-ortodoxo Joannis Zizioulas deseja um concílio Vaticano III para esclarecer e “modernizar” o ministério do papa, o “serviço de Pedro” dentro da Igreja. Este, com certeza, será um dos grandes compromissos do mundo cristão para o próximo futuro. Na recente encíclica Ut unum sint (n. 95) o mesmo papa João Paulo II  admitiu a necessidade de se enfrentar esta temática no mundo cristão.

Texto originário de Franco Pierini (teólogo)