POR QUE   A   IGREJA   DISTINGUE   VÁRIOS   GRAUS,

SE   TODOS   SOMOS   CHAMADOS   À   SANTIDADE?

Fala-se sempre que os santos estão no meio de nós. Existe muita gente, de fato, que faz bem feito e sempre os seus deveres, é fiel às suas responsabilidades e, por isso, apresenta algo de “heróico” dentro da realidade cotidiana, que é a própria base da “santidade”. A coisa é bem clara sobretudo no cristianismo porque o compromisso é imitar a Deus, através do modelo que é Jesus Cristo, próprio como ele proclamou: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6). Jesus é o “santo de Deus” (Jo 6, 9) e cada santidade provem dEle e relaciona-se com Ele.

Dimensão pessoal e social

Ser santos significa ser homens e mulheres no sentido mais autêntico e completo da palavra, isto é filhos(as) de Deus; ser santo significa realizar-se nesta vida e para a eternidade. A santidade é, portanto, o problema pessoal mais importante do cristão. É também verdade que ninguém vive e se realiza sem o resto da humanidade e da criação. A santidade apresenta também um aspecto social: a partir desta dimensão surgem os santos “canonizados” (i.é. inseridos no “cânon”, no elenco oficial da Igreja) e são todos aqueles que a tradição cristã aprendeu a cultuar como servos de Deus: veneráveis, beatos e santos.

a origem todos os cristãos eram chamados de “santos” (sinônimo de “irmãos”), de tal maneira que são Paulo escrevia aos Romanos e recomendava: ”Tomai parte nas necessidades dos santos” (12, 13). A mesma expressão “comunhão dos santos” queria indicar e indica hoje em dia a comunhão dos fiéis em Cristo: os que já morreram, os presentes e os que virão depois de nós. Mas as circunstâncias da vida são muitas e também a santidade não é a mesma para todos. Pode acontecer que alguém viva a santidade de forma escondida e na forma mais discreta possível; como podem existir pessoas que a vivam de maneira mais ou menos “perigosa”. Em épocas passadas os cristãos foram perseguidos e uns “santos” precisaram testemunhar a própria fé publicamente, correndo risco de vida: são chamados de “confessores” da fé ou “mártires” (palavra que significa “confessores” ou “testemunhas”). O sacrifício destas pessoas impressionou logo as primeiras comunidades cristãs da época e foram, por elas venerados, até o ponto de se guardar relíquias, reservar para estes santos tumbas especiais, confiando em suas intercessão junto a Deus. Esta foi a primeira forma de prestar devoção aos santos. Quando as perseguições diminuíram de intensidade, os casos mais expressivos de santidade referiam-se à vida dos monges, dos missionários, dos benfeitores e dos taumaturgos.

  Solicitada a autoridade do Papa

Em todos os casos, nos primeiros séculos, o reconhecimento da santidade acontecia em âmbito local, a partir da fama popular do santo e com a aprovação dos bispos. Ao longo do tempo e sobretudo no ocidente, começou a ser solicitada a intervenção do Papa a fim de conferir um maior grau de autoridade às canonizações dos santos. A primeira intervenção papal deste tipo foi de João XV em 993, que declarou santo o bispo Udalrico de Augusta, que tinha morrido vinte anos antes.  As canonizações se tornaram exclusividade do pontífice por decisão de Gregório IX em 1234. No decorrer do século XVI começou-se a distinguir entre “beatificação”, isto é, o reconhecimento da santidade de uma pessoa com culto somente em âmbito local e “canonização”, o reconhecimento da santidade com a prática do culto universal, para toda a Igreja. Também a beatificação se tornou uma prerrogativa da Santa Sé, e o primeiro ato deste tipo refere-se ao papa Alessandro VII em 1662 na beatificação de Francisco de Sales. Hoje em dia todas estas normas encontram-se na constituição apostólica Divinus perfectionis Magister (1983) de João Paulo II e nas normas traçadas pela Sagrada Congregação pelas causas dos Santos.

Do processo à canonização

Em nossos dias, a tramitação do processo de santidade de um católico morto com fama de santo, passa através de etapas bem distintas. Após cinco anos de sua morte, qualquer pessoa pode iniciar o “processo”, através de um(a) “postulador(a)” aprovado pelo bispo local. Juntam-se os testemunhos e pede-se a permissão à Santa Sé. Quando consegue-se esta permissão, procede-se ao exame detalhado dos relatos das testemunhas, a fim de apurar de que forma a pessoa em questão (chamada nesta fase do processo de “servo/a de Deus”) exercitou a heroicidade das virtudes cristãs ou vivenciou o martírio. Este levantamento de informações é enviado à Santa Sé. Se o exame dos documentos é positivo, o(a) “servo(a) de Deus” é proclamado(a) “venerável”. A segunda etapa do processo consiste no exame dos milagres atribuídos à intercessão do(a) “venerável”. Se um deste milagres é considerado autêntico, o(a) “venerável” é considerado(a) “beato(a)”. Se após a beatificação verifica-se um outro milagre, devidamente reconhecido (esta é a terceira etapa), então o/a beato(a) é proclamado(a) “santo(a)”.

Texto originário de Franco Pierini (teólogo)