QUEM  PODE  IMPOR  AS  MÃOS  PARA   CURAR  DOENTES?

A imposição das mãos é um dos sinais litúrgicos mais antigos que remonta, na memória, à própria prática de Jesus. Através da imposição das mãos, Jesus curava os doentes (Marcos 6, 5 e 7, 32) e, a partir do seu exemplo, os discípulos fizeram o mesmo (Atos 9, 12 - 17). Entretanto o sentido deste gesto não pode se limitar ao âmbito taumaturgo. Já no Antigo Testamento, mas sobretudo no Novo, o gesto de impor às mãos expressava o momento da consagração e a preparação para um ministério (Atos 6, 6). Na tradição da Igreja, foi este próprio gesto a prevalecer, tornando-se um dos momentos essenciais na ordenação de presbíteros e bispos. Por isso, o gesto de impor as mãos foi circunscrito à prática do sacerdócio ministerial, assumindo um significado exclusivamente “espiritual”.

Além das palavras

Todavia, na promessa de Cristo aos seus, o gesto de impor as mãos refere-se à cura física dos males e pode ser realizado por todo batizado: “Imporão as mãos sobre os enfermos e estes ficarão curados” (Mc. 16,18).

Acontece, porém, que o entendimento deste versículo ao pé da letra, corre o perigo de ser desmentido pelos fatos (não é todo cristão que, impondo as mãos, consegue curar o seu próximo!) e pelos outros elementos do versículo, onde aos próprios cristãos é garantida a integridade física, caso bebam um veneno.

Sem ter a pretensão de entrar em discussões exegéticas mais detalhadas, precisa então ler esta afirmação de Marcos como uma efetiva possibilidade terapêutica ligada à presença do Espírito em cada homem de fé, garantida pelo sacramento do batismo.

Portanto, o simples fato de que leigos possam impor as mãos e operar curas não deve, por si, escandalizar ninguém, visto que não se trata de uma atribuição exclusiva do ministro ordenado. Além disso, precisa também considerar que o gesto de “impor as mãos” para curar não é exclusivo da tradição religiosa, mas é praticado pela medicina alternativa e nas práticas “pranoterapicas” pode ser misturado a uma possível cura carismática.

Um carisma entre muitos

A grande tarefa, portanto, é demonstrar sua efetiva consistência; como também devem ser avaliadas as condições para sua execução e o fato de que possa ser estendido a todo fiel ou somente a um grupo ou movimento específico. Como bem sabemos, o dom de cura foi um dos carismas presentes na Igreja primitiva. Isso não quer dizer, como lembra o apóstolo Paulo, que todos o possuíssem, sendo a presença dos carismas diversificada em relação às várias exigências da comunidade (1 Cor.12, 4 - 9).

Ora, por motivos de ordem histórico-sociológicos, mas que no fundo são fruto do misterioso desígnio do Espírito, este carisma desapareceu naquelas comunidades iniciais, tidas como carismáticas, mas não desapareceu na Igreja no seu conjunto e isso é confirmado pela prática de muitos santos. Ainda uma vez é oportuno lembrar que o dom de cura não foi exercidos por todos os santos e nem em igual medida. Como exemplo podemos citar a abundante ação taumaturga de santo Antônio e santa Rita em relação a santa Teresa ou santo Inácio.

Os novos movimentos

O carisma da cura, como efetivo dom concedido pelo Espírito Santo para o bem de todos, parece aflorar na Igreja através de uns movimentos, nos anos sessenta. No início somente no mundo protestante e, em seguida, na Igreja católica. Isso não significa, que, quando acontece, toda presunta cura possa ser definida carismática e que, arrastados por um sensacionalismo milagreiro, cada leigo julgue por si de poder operar curas. A simples pertença a um determinado movimento ou a convivência com um “ser carismático” não constitui motivo de privilégio neste sentido.

Se algumas vezes estas curas suscitam em nós surpresa e nos deixam sem explicações racionais plausíveis, diante de um Deus que “deu um tal poder aos homens” (Mt. 9, 8), outras vezes, porém, deve ressoar como admoestação, a decepção de Jesus, ao constatar que somente vendo o prodígio surpreendente, é que o homem é levado a crer (Jo 14, 8).
E são as atitudes de estupor e gratidão diante do dom da vida, renovado a cada dia, o verdadeiro milagre na existência de todo homem de fé.

Texto originário de Salvino Leone (teólogo)