COMO   SE   EXPLICA   O   ÚNICO   DEUS   DA    BÍBLIA COM   O   POLITEÍSMO   DOS   POVOS   PRIMITIVOS?

A difusão do conhecimento científico sobre as origens do mundo e o progresso das descobertas arqueológicas a respeito dos usos e costumes de vida dos primeiros seres humanos, suscitam muitas perguntas que interessam o aspecto religioso do homem, sobretudo a origem de nossa fé em Deus.

AS  TRÊS  RELIGIÕES  MONOTEÍSTAS

Na história das religiões, os povos monoteístas são aqueles que proclamam a existência de um Deus. É considerado monoteísta, no verdadeiro sentido da palavra, a religião hebraica e as duas outras religiões que provém dela, como o cristianismo e o islamismo. O politeísmo proclama, pelo contrário, sua crença da diversidade de divindades.

A discussão sobre qual dos dois modelos seja o mais antigos, não é uma simples curiosidade, mas foi objeto de estudo de filósofos excelsos como Voltaire e David Hume. O primeiro defendia a primogenitura do monoteísmo, enquanto o segundo afirmava o contrário. Na realidade é muito difícil responder a esta questão, porque os dados científicos que dispomos, não podem comprovar nenhuma hipótese por enquanto.

Até o presente momento, três teorias sobressaem e são as mais difundidas.

A teoria evolucionista afirma que, a partir de um primitivo animismo (2), passou-se a um mais elaborado politeísmo e, em seguida, ao monoteísmo. Esta tese é bastante criticada porque viciada por um defeito ideológico que chega a sustentar até a primogenitura do ateísmo. Os autores mais conhecidos desta tese são Comte e Taylor.

A segunda teoria do monoteísmo originário segundo a qual a fé dos povos se expressou através a idéia de um Deus único e, somente depois, teria-se produzido a multiplicidade das divindades. Também neste caso constata-se preconceitos ideológicos, como aquele que considera o politeísmo como algo de “degenerado” ou “selvagem” em relação ao racional monoteísmo. Entre os que defendem esta tese encontramos W. Schmidt.

MULTIFORMES  EXPERIÊNCIAS?

Uma terceira teoria, uma via de meio entre as duas primeiras, sustenta as multiformes experiências religiosas: no começo da vida humana não teve uma única visão de Deus, mas diferentes concepções ao mesmo tempo. Afirma-se também que o problema não pode ser encarado através de dois simples modelos (politeísmo ou monoteísmo), mas é necessário supor outras formas diferentes.

Até aqui tratamos das teorias filosóficas e cientificas.

Voltando ao monoteísmo bíblico, questiona-se a narrativa que se refere a Adão e Eva. Neste caso é necessário reafirmar uma convicção que é já bem aceita entre os estudiosos, mas pouco aceita em certos ambientes cristãos que continuam a ler a Palavra de Deus de  maneira “fundamentalista”. Nem tudo que é contido na Bíblia é “histórico” (conforme a maneira de nós entender a história), por isso é importante conhecer os vários gêneros literários, isto é as diversas maneiras de contar a única verdade (= a salvação) contida na Palavra Sagrada, sem cair em perigosos erros.

A  FÉ  DE  ISRAEL

Aquilo que nós devemos procurar na Sagrada Escritura é, portanto, em primeiro lugar, uma verdade de caráter teológico. Os primeiros onze capítulos do Gênesis não podem ser interpretados como uma “crónica jornalística” dos primeiros dias do mundo.
Deus não se substitui aos conhecimentos que o homem deve aprender sozinho, através do esforço cultural das diversas ciências.
A narração de Adão e Eva foi escrita muitíssimo tempo depois da criação, quando o povo de Israel já tinha selado sua aliança com o Deus Javé. Isso não constitui, portanto, um tratado de etnologia(3) ou de ciências naturais, mas um texto de teologia, contendo verdades fundamentais para nossa fé. O monoteísmo do “primeiro casal”, que passeia no paraíso terrestre em companhia de Deus, não é a explicação do surgimento humano do ponto de vista histórico. Aqui afirma-se a verdade teológica que o próprio povo de Israel descobriu muito mais tarde: um único Deus está na origem de todas as coisas criadas!

NÃO TERÁS OUTROS DEUSES ALÉM DE MIM  (Ex. 20,3)

Texto  originário de Giovanni Tangorra (teólogo)