A SANTÍSSIMA TRINDADE NOS ESCRITOS DOS SANTOS PADRES

DOS PRIMEIROS SÉCULOS

   

XII - A controvérsia entre o Papa e o bispo de Alexandria

1. Introdução

Após quase 30 anos de ensino na escola catequética de Alexandria, Orígenes transferiu-se para Cesaréia da Palestina, passando à frente da escola o sacerdote Héraclas, seu antigo auxiliar. No ano seguinte Héraclas tornou-se bispo de Alexandria e na direção da escola de Alexandria sucedeu-o Dionísio, antigo discípulo de Orígenes. Dezesseis anos depois Dionísio também acabou sucedendo a Héraclas como bispo da cidade, a segunda em importância no Império Romano.

Por volta da segunda metade do século III Dionísio de Alexandria foi obrigado pelas circunstâncias a defender a ortodoxia da fé diante de um surto de heresia Sabeliana nas cidades do leste do Egito. Não fora de propósito, já que seu objetivo era o de refutar o monarquianismo, ,ele trouxe à tona a questão da distinção pessoal entre o Pai e o Filho.

Em relação a isto, os Sabelianos escreveram uma queixa formal ao Papa em Roma, que também chamava-se Dionísio, fazendo diversas acusações ao bispo de Alexandria.

2. As acusações dos Sabelianos contra o bispo de Alexandria

Em sua carta ao papa S. Dionísio, os sabelianistas acusaram o bispo de Alexandria dos seguintes pontos: De colocar uma divisão nítida, implicando em uma separação, entre o Pai e o Filho; de negar a eternidade do Filho, afirmando que o Pai nem sempre foi Pai e que o "Filho não existia antes que Ele viesse à existência";  de nomear o Pai sem o Filho e o Filho sem o Pai, como se eles não fossem inseparáveis em seus próprios seres; de não descrever o Filho como `homoousios', (isto é, de mesma essência ou substância) com o Pai; de afirmar que o Filho seria uma criatura, tão diferente do Pai em substância como a vinha do agricultor.

Referências:
S. Atanásio : De Sent. Dion. 4; 14; 16; 18

3. A reação do Papa

Em resposta, o Papa elaborou um breve no qual, sem mencionar o nome do bispo de Alexandria, foi na verdade uma dura crítica ao mesmo.

Não há dúvida que Dionísio de Alexandria, em seu zelo anti-sabeliano, usou de uma linguagem infeliz ao se expressar; embora no século seguinte Santo Atanásio tenha tentado desculpá-lo, mais tarde São Basílio, comentando o episódio, colocou que em seu zelo, Dionísio de Alexandria tinha se deixado levar ao extremo oposto.

Por outro lado, porém, é possível que alguns desentendimentos quanto à terminologia tenham contribuído para a tomada de posição do Papa. Este, por exemplo, ficou claramente chocado com a doutrina, inspirada em Orígenes, das três hipóstases, que para ele parecia negar a unidade divina, chegando a afirmar que os teólogos de Alexandria que defendiam a posição eram, virtualmente, triteístas. Ora, conforme vimos ao tratarmos de Orígenes, - e não nos devemos esquecer de que Dionísio de Alexandria havia sido seu discípulo -, `hipóstase' em grego é sinônimo de `ousia', e significa `essência'; Orígenes, entretanto, costuma empregar este termo no sentido de substância individual. Assim, embora a tradução literal de `hipóstase' para o latim fosse `essência', ou `substância', considerando-se o contexto origenista do termo, a tradução não literal pela palavra latina `persona' lhe corresponderia mais fielmente. Não é impossível, pois, que o Papa, baseando-se em um significado etimologicamente correto, julgasse que `hipóstase' fosse o equivalente grego para `substância'.

Afirmando, pois, que a colocação de três hipóstases na divindade por parte dos teólogos alexandrinos fosse um triteísmo virtual, S. Dionísio de Roma em resposta declara que o Verbo e o Espírito Santo devem, ao contrário, ser vistos como inseparáveis do Deus do Universo, o qual nunca pode ter existido sem seu verbo e seu Espírito, já que eles pertencem ao seu próprio ser.

Da mesma forma, é uma blasfêmia falar do verbo como de uma criatura; sua origem não é um ato de criação, mas "uma geração divina inefável", conforme a Escritura a qual, na Versão dos Setenta, dela afirma que "Antes da aurora, de meio seio te gerei". Salmo 109, 3

Referências:
S. Atanásio : De Decret. 26; Idem : De Sent. Dion. 4;
S. Basílio : Epistola 9, 2

4. A resposta de Dionísio de Alexandria

Dionísio de Alexandria, embora sem renunciar a nenhuma de suas posições essenciais, reconheceu a impropriedade de algumas de suas expressões e analogias, e adotou a linguagem do papa ao reformular a sua doutrina.

Dionísio nega que separasse o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Os três são obviamente inseparáveis, como seus próprio títulos o demonstram, pois um Pai implica num Filho, e um Filho implica num Pai, e o Espírito implica tanto na fonte da qual procede como no meio pelo qual ele procede.

Sobre a eternidade do Filho, Dionísio afirmou sem ambigüidade que o Filho é eterno.

A respeito dele não ter usado o termo `homoousios', Dionísio respondeu que não o havia feito pois esta palavra não é usada nas Sagradas Escrituras. Apesar disso, ele aceita o seu significado, como o demonstram outras expressões de que ele se utiliza.

Referências:
S. Atanásio : De Sent. Dion. 14; 18; 17;
S. Basílio :De Spirit. Sanct. 72

5. Conclusão

A resposta de Dionísio de Alexandria ao Papa fêz com que os estudiosos freqüentemente explicassem a controvérsia como um resultado de desentendimento quanto à terminologia. Até um certo ponto realmente foi isso. Já comentamos como o papa pode ter inferido que `hipóstase' fosse o equivalente grego para o termo latino `substância'; daí a sua reação ao supor que a doutrina dos alexandrinos fosse o equivalente do triteísmo.

Mas a verdade é que havia algo mais profundo do que as palavras por detrás da controvérsia. O trinitarianismo ocidental, conforme vimos, foi marcado por uma tendência monarquianista e, com isso, o que era luminosamente claro para os teólogos ocidentais era a unidade divina. Embora eles estivessem realmente convencidos das distinções que existiam nesta unidade, julgavam-nas tão misteriosas que apenas timidamente estavam iniciando a pensar nelas como `Pessoas'. No Oriente, onde o clima intelectual estava impregnado com idéias provenientes do platonismo sobre a hierarquia do ser, tinha-se estabelecido uma abordagem diferente e abertamente pluralística.

XIII - As Colocações Trinitárias desde Orígenes até o Concílio de Nicéia

1. Introdução

Orígenes morreu mártir em 253 e a controvérsia entre o papa e o bispo Dionísio de Alexandria deu-se logo após, em torno do ano 260.

No começo do século seguinte, em Alexandria, durante o episcopado de Alexandre, iria irromper a heresia Ariana, pregada inicialmente por Ário, presbítero da Igreja de Alexandria. Apesar de um sínodo local, presidido pelo bispo Alexandre, ter condenado as posições de Ário, a heresia estendeu-se a tal ponto que tornou-se necessária a convocação do primeiro Concílio Ecumênico da história, realizado no ano 325 em Nicéia, onde a Igreja em conjunto começou a tomar posições oficiais sobre a questão.

O propósito deste capítulo é comentar as posições existentes entre os cristãos sobre a Trindade no período histórico intermediário entre estes dois acontecimentos.

2. Primeiro aspecto das colocações trinitárias antes do Concílio de Nicéia

Num primeiro aspecto, nesta época o que parece mais ter sido objeto de consideração para os cristãos não foi a Trindade enquanto tal, mas o Verbo em sua relação para com a Divindade, se Ele era plenamente divino ou se na verdade era uma criatura.

3. Segundo aspecto: duas tendências na abordagem da posição do Verbo na Divindade

Na Igreja Ocidental o problema era colocado numa ótica onde se percebia a influência do monarquianismo. Os teólogos do ocidente procuravam enfatizar a unidade divina sentindo mais profundamente o caráter misterioso das distinções dentro da Divindade.

Na Igreja Oriental, a influência dominante era a proveniente de Orígenes. Os orientais não tinham tantas dificuldades em descrever a distinção das pessoas dentro da Trindade; ao mesmo tempo, porém, havia uma divisão entre eles quanto ao modo de explicarem como esta distinção de pessoas não contradizia a unidade divina. De modo geral, antes do aparecimento do Arianismo, havia na Igreja Oriental duas posições derivadas de Orígenes: uma, mas moderada, insistia claramente na unidade existente entre as pessoas divinas e colocava que o Filho não era uma criatura; outra, mais radical, acentuou demasiadamente a tendência subordinacionista de Orígenes. Veremos a seguir as posições de alguns representantes destas tendências.

O Arianismo representou, mais tarde, uma posição muito mais radical que a dos origenistas mais extremos, praticamente impossível de vir a tornar-se aceita no Oriente, muito menos no Ocidente. A grande propaganda que teve esta heresia, entretanto, acabou por obrigar a Igreja universal a tomar uma posição oficial em Nicéia.

4. Um representante do origenismo moderado: Alexandre, bispo de Alexandria

Coube a Alexandre, bispo de Alexandria de 313 a 328, advertir primeiramente ao presbítero Ário,seu subordinado, para depois convocar um sínodo local com o fim de condenar as suas teorias. Das primeiras cartas que ele escreveu em crítica às doutrinas de Ário depreende-se um origenismo moderado.

Alexandre era acusado por Ário justamente por insistir na unidade da Tríade, apesar dele manifestamente conceber o Verbo como "Pessoa" (`hipóstase'), ou "Natureza" (em grego `fisis', sendo que em seus escritos esta palavra tem um sentido equivalente ao de `hipóstase', isto é, embora literalmente signifique `essência', é usada como `ser individual'). Esta "Pessoa" ou "Natureza" é distinta do Pai.

Em uma perspectiva claramente origenista, Alexandre descreve o verbo como a única natureza que media entre Deus e a criação. Mas Ele próprio não é uma criatura, sendo derivada do ser do Pai. Além disso, o Filho, enquanto Filho, é co-eterno com o Pai, e para explicar a sua co- eternidade, Alexandre faz pleno uso da concepção origenista da geração eterna.

Referências:
Alexandre de Alexandria : Epistola Enciclica, citada na História Eclesiástica de Sócrates 1,6;
Idem : Epistola ad Alex. Byz., citada na História Eclesiástica de Teodoreto 1,4.

5. Um representante do origenismo radical: Eusébio de Cesaréia

Quando completou quase trinta anos de ensino catequético em Alexandria, Orígenes mudou-se para cesaréia na Palestina, onde fundou, em 232, uma nova escola. Em pouco tempo organizou-se aí uma notável biblioteca cristã que se desenvolveu consideravelmente graças ao sucessor na direção da escola, o presbítero Pânfilo. Eusébio de Cesaréia, o autor da famosa História da Igreja, e depois bispo dessa cidade, estudou sob a orientação de Pânfilo na escola fundada por Orígenes. Através desta escola, a tradição de Alexandria estendeu-se também aos grandes padres da Capadócia de que falaremos adiante, a saber, São Basílio, São Gregório Nazianzeno e São Gregório de Nissa. São Gregório de Nazianzo, quando jovem e antes de receber o Batismo, chegou a freqüentar a escola de Cesaréia da Palestina. Ao contrário destes padres, porém, Eusébio levou a um extremo as posições de Orígenes.

Segundo Eusébio, só o Pai é auto existente e sem princípio, causa de todas as coisas. O Verbo, uma hipóstase gerada do Pai antes de todas as eras, é seu intermediário para a Criação e governo do Universo, pois a ordem contingente não poderia ter um contato direto com o Ser absoluto. O Verbo difere de todas as criaturas, e é por causa dEle trazer em si mesmo a imagem da Divindade inefável que o chamamos de Deus. O Filho, porém, não é co-eterno com o Pai, pois, já que somente o Pai é não gerado, diz Eusébio de Cesaréia, "devemos admitir que o Pai é anterior e pré-existe ao Filho".

Eusébio também corrige a venerável analogia da luz e seu brilho, apontando que o brilho existe simultaneamente com a luz, enquanto que o Pai precede o Filho. Além disso, Eusébio abandona a posição de Orígenes segundo a qual o Pai e o Filho participam da mesma essência ou substância, convencido de que tal doutrina implica em uma divisão da Divindade que é, na realidade, indivisível, e levaria à posição absurda da existência de dois seres não gerados. Quanto à unidade do Filho com o Pai, de que fala o Evangelho de São João ao Cristo afirmar que "Eu e o Pai somos um", Jo. 10, 30 esta, segundo Eusébio de Cesaréia, consiste simplesmente no compartilhamento de uma glória idêntica; e Eusébio ainda acrescenta que os santos também podem desfrutar do mesmo tipo de comunhão com o Pai.

Referências:
Eusébio de Cesaréia : De Ecles. Theol. 2,6; 1,13,1; 3,19; Idem : Demonst. Evang. 4,1,145; 4,6,1-6; 5,1,14-20; 4,2,1; 4,3,5; Idem : Contra Marcellum 1,1,2; Idem : Epistola ad Caes. 5

XIV - O Arianismo

1. Introdução

Até a época em que surgiu o Arianismo, as heresias não eram coisa nova na Igreja. Quando apareciam, anteriormente, os bispos, como guardiães do depósito da fé, as condenavam e preveniam os fiéis; e os inovadores, ao serem expulsos da Igreja, não conseguiam, após sua condenação, manter sua posição na Igreja ou suas posições heréticas.

Com o Arianismo, porém, deu-se uma transformação a este respeito. No ano 318 Ário, presbítero da Igreja de Alexandria, começou a propagar suas idéias a respeito da natureza do Verbo. Segundo elas, o Verbo não seria Deus mas apenas uma criatura. O bispo de Alexandria, Alexandre, chamou-o à ordem e chegou a reunir um concílio local com cerca de cem bispos do Egito e da Líbia que condenaram os erros de Ário e o excomungaram junto com um grupo de cinco presbíteros, seis diáconos e dois bispos, seus partidários.

Ário, porém, não aceitou a condenação e procurou apoio exterior, na Palestina, e com o apoio conseguido iniciou uma verdadeira guerra de acaloradas controvérsias. O Oriente cristão acabou por transformar-se em toda a parte num cenário de conflitos e disputas.

2. A doutrina do Arianismo. I. A natureza de Deus

A doutrina ariana parte da afirmação da absoluta unidade e transcendência de Deus, fonte inoriginada de toda a realidade.

Sendo único, transcendente e indivisível, o ser ou essência (`ousia') da Divindade não pode ser compartilhado ou comunicado, pois Deus conceder Sua Substância a algum outro ser, não importa quão elevado, significaria ser Ele divisível e sujeito à mudança, o que é inconcebível. Além disso, se qualquer outro ser participasse da natureza divina em um sentido próprio, haveria uma dualidade de seres divinos, enquanto que a divindade é, por definição, única.

3. A doutrina do ArianismoII. A natureza do Verbo

Como o mundo contingente não podia suportar o impacto direto da ação do Pai, este usou o Filho ou Verbo como um seu órgão de criação e atividade cósmica.

Em relação à natureza deste Verbo, Ário colocou o seguinte:

A. O Verbo é uma criatura.
B. Como criatura, o Verbo teve um início

De fato, acerca do Verbo Ário afirmou que "embora nascido fora do tempo, antes de sua geração Ele não existia".

A posição segundo a qual o Verbo seria co-eterno com o Pai parecia para Ário que implicaria na existência de "dois princípios auto existentes", o que significaria a destruição do monoteísmo.

C. O Filho não tem comunhão nem conhecimento direto de seu Pai

Embora o Filho seja o Verbo e a Sabedoria de Deus, Ele é distinto daquele Verbo e daquela Sabedoria que pertencem à própria essência de Deus. O Filho é uma criatura pura e simples, e somente possui estes títulos porque Ele participa no Verbo e Sabedoria essenciais.

D. O Filho é sujeito à mudança e até ao pecado

Um dos arianos, em uma conferência, surpreendido por uma questão súbita, admitiu que o Filho poderia ter caído como o demônio caíu, e isto era o que eles em seus corações acreditavam. Sua doutrina oficial, entretanto, foi uma modificação desta afirmação no sentido de que, enquanto a natureza do Filho em princípio estaria sujeita ao pecado, Deus em sua previdência previu que Ele permaneceria virtuoso por sua própria e firme resolução.

Referências:
Santo Atanásio : Contra Arianos 2,24; 1,5; 2,37; Idem : De Decret. 8;
Idem : Epistola ad Alex. in op. De Synodis.
Alexandre : Epistola Encyc. 10.

4. Em que sentido o Verbo pode ser chamado Deus ou Filho de Deus

Perante estas colocações, poderia perguntar-se em que sentido, segundo os Arianos, o Verbo poderia ser chamado Deus, ou mesmo Filho de Deus.

Suas respostas seriam que estes, de fato, seriam apenas títulos de cortesia.

XV - O Concílio de Nicéia

1. Introdução

No ano de 325 reuniu-se em Nicéia o primeiro Concílio Ecumênico da história para uma toma de posição da Igreja Universal frente à heresia Ariana. Embora dificuldades de ordem material tivessem impedido muitos de se apresentarem, foram convocados todos os bispos da Igreja, comparecendo no total cerca de trezentos, a maioria dos quais do Oriente, das regiões da Ásia Menor, Síria, Palestina e Egito, e alguns poucos do Ocidente. O Papa São Silvestre enviou em seu lugar dois sacerdotes como representantes.

Podemos agrupar os participantes do Concílio de Nicéia em quatro grupos, dois dos quais bastante minoritários: Os arianos declarados, pequeníssima minoria; um número muito grande de tradição origenista mais radical, aos quais se associavam vários outros participantes inseguros, hostis a qualquer fórmula nova e partidários do uso de uma terminologia estritamente bíblica; outro grande grupo dos que souberam denunciar claramente o perigo do Arianismo, entre os quais estava Alexandre de Alexandria juntamente com um de seus diáconos, de nome Atanásio, que viria a ser seu sucessor na sede episcopal e um dos mais intrépidos defensores das resoluções do Concílio; uma pequena minoria cuja tendência anti-ariana era tão acentuada a ponto de cair no erro oposto do Monarquianismo ou Sabelianismo.

Assim, configurou-se sem dificuldade uma vigorosa maioria que reprovou os êrros de Ário. Apenas dois bispos, amigos de Ário, recusaram-se a aceitar as decisões do Concílio e foram exilados juntamente com Ário.

2. As resoluções do Concílio de Nicéia

Nas atas do Concílio de Nicéia, assinadas por todos os bispos participantes, com exceção dos dois amigos de Ário, constou o texto da seguinte profissão de fé: "Cremos em um só Deus, Pai todo poderoso, Criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis; E em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho de Deus, gerado do Pai, unigênito, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado,  consubstancial do Pai, por quem todas as coisas foram feitas no céu e na terra, o qual por causa de nós homens e por causa de nossa salvação desceu, se encarnou e se fêz homem, padeceu e ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus e virá para julgar os vivos e os mortos; E no Espírito Santo. Mas quantos àqueles que dizem: `existiu quando não era' e `antes que nascesse não era' e `foi feito do nada', ou àqueles que afirmam que o Filho de Deus é uma hipóstase ou substância diferente, ou foi criado, ou é sujeito à alteração e mudança, a estes a Igreja Católica anematiza".A seguir, vamos considerar a atitude teológica do Concílio, enquanto expressa principalmente neste Credo.

3. A atitude teológica do Concílio de Nicéia, considerada negativamente

Negativamente considerada, a atitude teológica do Concílio de Nicéia foi a condenação do Arianismo.

4. Razões que animavam os Padres conciliares na condenação do Arianismo

Possuímos poucas ou nenhumas evidências de primeira mão e respeito das razões que animavam os padres conciliares na sua condenação do Arianismo.

Provavelmente compartilhavam a convicção do bispo Alexandre de que a Escritura e a Tradição atestavam a divindade e a imutabilidade do Verbo.

Mais tarde Santo Atanásio iria desdobrar, em seus tratados anti-arianos, as seguintes considerações, que provavelmente podem ter tido peso no Concílio:

Primeiro, o Arianismo destruía a doutrina cristã de Deus, colocando que a tríade divina não é eterna e virtualmente re- introduzindo o politeísmo;

Segundo, o Arianismo tornava sem sentido os costumes litúrgicos e estabelecidos na Igreja de batizar em nome do Filho assim como do Pai, assim como a prática de dirigir orações ao Filho;

Terceiro, e talvez esta fosse para Santo Atanásio a mais importante, o Arianismo destruía a idéia cristã da Redenção em Cristo, já que somente se o mediador fosse ele próprio divino o homem poderia ter reestabelecido a comunhão com Deus.

Referências:
Santo Atanásio : Contra Arianos 1,17; 1,20; 3,15; 2,41; 2,67; 2,70. Idem : Ep. ad Episc. Aeg. et Lib. 4

5. A atitude teológica do Concílio de Nicéia, positivamente considerada

Mais difícil é considerar o ensino positivo do Concílio de Nicéia. O texto do Credo fornece algumas sugestões, afirmando que enquanto gerado o "Filho" é "da substância do Pai" e "consubstancial ao Pai" (`homoousios').

A dificuldade aqui está em que o termo "consubstancial" pode ser interpretado de duas maneiras. De um primeiro modo, pode significar que o Pai e o Filho possuem uma substância idêntica em seu gênero sem especificar se se trata de uma só ou de duas substâncias. De um segundo modo, "consubstancial" pode significar que o Pai e o Filho possuem uma só e mesma substância.

Antes do Concílio, o termo "consubstancial" (`homoousios') tinha sido empregado por Orígenes no sentido de identidade genérica. Mais tarde, após o Concílio, é fora de questão que a teologia católica passou a empregar o termo `homoousios' no sentido de `uma só substância'. Cabe agora perguntar qual dos dois significados os padres conciliares de Nicéia tiveram a intenção de dar ao termo.

Não há dúvida que, enquanto aplicado à divindade, o termo `homoousios' é suscetível deste segundo significado e, em última análise, exige tal significado. Como os teólogos posteriores perceberam, já que a natureza divina é imaterial e indivisível, segue-se que as Pessoas da Divindade que a compartilham devem ter, ou ser, uma única e idêntica substância. Mas a questão é se esta era a idéia proeminente nas mentes dos padres conciliares, ou pelo menos do grupo a cuja influência se deve o Credo de Nicéia.

A grande maioria dos estudiosos tem respondido afirmativamente sem hesitar, colocando que a doutrina da identidade numérica da substância foi o ensinamento específico do Concílio de Nicéia. Entretanto, temos as razões mais fortes possíveis para duvidar desta afirmação.

A principal destas razões é a história do próprio termo `homoousios', pois anteriormente ao Concílio de Nicéia tanto no seu uso secular como no teológico sempre significou, de modo primário, a identidade genérica. Em vista disso é paradoxal supor que os padres de Nicéia repentinamente começassem a empregar o que era uma palavra bastante familiar em um sentido inteiramente novo e inesperado.

Além disso, o grande debate anterior ao Concílio, no que todas as fontes concordam, não era a unidade da Divindade enquanto tal, mas a co-eternidade do Filho com o Pai, que os arianos negavam, e Sua plena divindade em contraste com a condição de criatura que os arianos lhe atribuíam.

A inferência razoável é que, ao escolherem o terno `homoousios', os padres conciliares pretenderam enfatizar, formal e explicitamente, sua convicção de que o Filho era plenamente Deus, no sentido de compartilhar a mesma natureza divina que o Seu Pai. A teologia do Concílio, portanto, se este argumento for sólido, teve um objetivo bem mais limitado do que algumas vezes foi suposto. Se do ponto de vista negativo inequivocamente o Concílio condenou o Arianismo, do ponto de vista positivo satisfez-se em afirmar a plena divindade do Filho e a Sua igualdade com o Pai, de cujo ser Ele derivou e cuja natureza conseqüentemente partilhou. O Concílio não tentou abordar o problema estritamente relacionado da unidade divina, embora a discussão agora estava inevitavelmente próxima.

XVI - A Igreja após o Concílio de Nicéia

1. Colocação do problema

Vimos no capítulo anterior que os participantes do Concílio de Nicéia podiam ser divididos em quatro grupos. Dois destes representavam posições extremas minoritárias, de um lado os arianos declarados, e de outro os tão excessivamente anti-arianos que na prática incidiam no erro oposto do monarquianismo ou sabelianismo. Estes dois grupos não teriam mais lugar na Igreja. O monarquianismo nunca teve chances na Igreja Oriental, e o Arianismo declarado tinha sido explicitamente condenado pelo Concílio.

Dos dois outros grupos majoritários, um era formado pelos que tinham uma consciência mais plena do erro ariano, entre os quais estava o bispo Alexandre e seu futuro sucessor Atanásio; o outro era formado pelos inseguros e pelos de tendência origenista mais radical.

Após o Concílio, alguns representantes do primeiro grupo começaram a definir o `homoousios' ou consubstancialidade do Pai e do Filho de uma tal maneira que fêz com que alguns do segundo grupo os acusassem de sabelianos; vendo isto, os do primeiro grupo interpretaram esta acusação como uma negação do `homoousios' e retrucaram acusando os segundos de arianos. Isto deu início a uma série de litígios sobre tendências e de acusações mútuas, e a literatura polêmica deste período, à primeira vista, dá a impressão de uma batalha entre sabelianos e arianos.

2. O primeiro grupo

De um lado estava o grupo liderado por Santo Atanásio, agora já bispo de Alexandria, pequeno em número, mas forte na consciência de que contavam com o apoio da Igreja Ocidental.

Eles eram defensores devotados do `homoousion' e percebiam que a identidade numérica da substância é conseqüência da doutrina de que o Pai e o Filho compartilham da mesma Divindade. Com uma ou duas exceções, estavam muito longe de serem sabelianos; mas, como tinham uma certa relutância em aceitar a fórmula "três hipóstases", pois julgavam que estava sendo usada pelo segundo grupo de uma maneira prejudicial para a unidade divina, esta relutância fazia o segundo grupo suspeitar de que eles ignoravam a distinção das pessoas na Divindade.

3. O segundo grupo

O segundo grupo era numericamente muito maior, abarcando a maior parte da Igreja Oriental. Uma pequena minoria eram realmente arianos, mas a maioria estava tão longe do arianismo quanto os seus oponentes do sabelianismo.

De perspectiva origenista, este segundo grupo tinha por natural pensar em termos de três hipóstases, e eram facilmente induzidos a acreditarem que a colocação do `homoousios' colocava a distinção das pessoas divinas em perigo.

Muitos dos que pertenciam a este grupo não eram verdadeiramente teólogos; eram conservadores que preferiam a tradicional falta de definição e tinham objeções à palavra chave do Concílio de Nicéia como um afastamento de uma terminologia puramente bíblica.

4. Comentário de Sócrates

Sócrates, que no início do século quinto escreveu uma História da Igreja, escreveu sobre este período:

"A situação era como a de uma batalha travada à noite, porque ambos os lados pareciam estar no escuro a respeito dos motivos que os levavam a se acusarem mutuamente de cometerem abusos. Aqueles que tinham objeções para com o termo `homoousios' imaginavam que os seus defensores estavam propagando a doutrina de Sabélio. Por outro lado, os defensores do `homoousios' concluíam que os seus oponentes estavam introduzindo o politeísmo".

Referências:
Sócrates : História Eclesiástica 1,23.

XVII - Santo Atanásio

1. A definição de Santo Atanásio

Santo Atanásio representa na história a exposição clássica da Fé Nicena. Como pensador cristão, situou-se em completo contraste com Ário e também com Eusébio de Cesaréia.

Tanto Ário como Eusébio de Cesaréia eram racionalistas que partiam de idéias a priori sobre a transcendência divina e a criação. Colocavam que o Verbo não poderia ser divino porque seu ser era originado do Pai; já que a natureza divina é incomunicável, o Verbo deve ser uma criatura, e qualquer condição especial que ele possuísse se deveria ao seu papel como agente do Pai na Criação.

Já na abordagem de Santo Atanásio as considerações filosóficas e cosmológicas constituíam uma menor parte, e seu pensamento condutor foi a convicção da Redenção: o homem, por sua comunhão com Cristo, foi feito divino e se tornou filho de Deus; portanto, o Verbo deve ser intrinsecamente divino, caso contrário ele nunca poderia ter concedido a vida divina aos homens.

Referências:
Santo Atanásio : De Syn. 51

2. A doutrina acerca do Verbo

Deus não pode existir sem seu Verbo mais do que a luz pode deixar de brilhar. A geração do Verbo é um processo eterno; assim como "O Pai é sempre bom por natureza, assim é por natureza sempre generativo".
Não podemos, porém, concluir que o Filho é uma porção da substância divina separada do Pai; isto é impossível, porque a natureza divina é imaterial e sem partes.
A geração do Filho também não é, conforme afirmaram os arianos, o resultado de um ato definido da vontade do Pai, o que reduziria a condição do Filho à de uma criatura. Esta geração certamente acontece de acordo com a vontade do Pai, mas é um engano falar de um ato específico da vontade referindo-se a algo que é um processo eterno inerente à própria natureza de Deus.
Entretanto, enquanto gerado do Pai, o Filho é realmente distinto do Pai; e já que a geração é eterna, a distinção também é eterna, e não pertence simplesmente à `economia'.
Daqui para a unidade ou identidade da substância é apenas um passo, e Santo Atanásio não hesitou em dá-lo. Assim, ele declara que "a divindade do Filho é a divindade do Pai".

"O Filho é certamente distinto do Pai enquanto gerado, mas enquanto Deus Ele é um e o mesmo; Ele e o Pai são um na união íntima de sua natureza  e na identidade de sua divindade".

"Assim Eles são um, e a divindade do Filho é predicado do Pai".

Os seres humanos podem, certamente, ser descritos como `consubstanciais' (`homoousios'), mas, neste caso, enquanto que a natureza humana que eles compartilham é necessariamente repartida entre indivíduos, de tal modo que eles não podem possuir uma única e mesma substância, a natureza divina é indivisível.

Referências:
Santo Atanásio : Contra Arianos 2,32; 3,66; 3,59-66; 3,4; 1,61; 3,41; 1,26; 1,28; Idem : De Decret. 11,24;
Idem : Ad Serap. 2,3.

3. Observação quanto à terminologia de Santo Atanásio

Nas suas primeiras obras, Santo Atanásio não faz muito uso do termo `homoousios' para expressar a identidade numérica das substâncias, mas posteriormente veio a empregar a palavra chave do Concílio de Nicéia como sendo o único termo adequado para expressar o que ele acreditava ser a verdade sobre este assunto.

Porém ele não possuía um termo próprio para expressar a subsistência do Pai e do Filho como Pessoas, e parece ter discernido pouca ou nenhuma diferença entre os termos `ousia' e `hipóstase'.

obra de J.N.D.Kelly