A SANTÍSSIMA TRINDADE NOS ESCRITOS DOS SANTOS PADRES

DOS PRIMEIROS SÉCULOS

   

VI - O Espírito Santo e a Trindade nos escritos dos Padres apologistas

1. Comentário geral

O que os Apologistas têm a declarar sobre o Espírito Santo é muito mais escasso, pois o problema que principalmente os ocupou foi o da relação de Cristo com a divindade. Entretanto, sendo homens da Igreja, cumpriram com o seu dever ao proclamar a fé da Igreja, cujo modelo é claramente ternário.

2. Os Padres apologistas e o Espírito Santo

Assim, em comparação com suas colocações sobre o Verbo, os Apologistas foram extremamente vagos quanto à posição e função do Espírito Santo. Aos seus olhos, a função essencial do espírito Santo seria a de inspirar os profetas. Mesmo assim, entretanto, há passagens nos escritos de São Justino onde ele atribui a inspiração dos profetas ao Verbo; e Teófilo também sugere que foi o verbo quem, sendo espírito divino, iluminou a mente dos profetas; não há dúvida que aqui o pensamento dos Apologistas é bastante confuso.

Também vimos (V/2, 3c) que Justino interpretou os textos do Antigo Testamento que falam da Sabedoria pré existente como se referindo ao Verbo; mas neste ponto Teófilo, separando-se de Justino, identificou a Sabedoria com o Espírito Santo. De acordo com Taciano, "o Espírito de Deus não está presente em todos, mas descendo sobre aqueles que vivem como justos,  une-se às suas almas, e pelas suas predições anunciou o futuro escondido às almas".

Atenágoras definiu o Espírito Santo como uma "efluência de Deus, fluindo dEle e a Ele retornando  como um raio de Sol".

Referências:
Justino: 1 Apol. 33,9; 36,1;
Teófilo : Ad Autol. 2,10; 1,7; 2,18;
Taciano: Oratio 13,3;
Atenágoras : Supplic. 7,2; 9,1

 

3. Os Padres apologistas e a Trindade

Apesar das incoerências, entretanto, as linhas gerais de uma doutrina trinitária são claramente visíveis nos Apologistas. O Espírito Santo era para eles o Espírito de Deus; e, assim como o Verbo, ele compartilha da natureza divina, sendo, nas palavras de Atenágoras, uma "efluência" da Deidade.

Em diversas ocasiões Justino coordena as três Pessoas, algumas vezes citando fórmulas derivadas do Batismo e da Eucaristia, outras vêzes sendo eco dos ensinamentos catequéticos oficiais. Assim, por exemplo, ele defende os cristãos da acusação de ateísmo apontando a veneração que eles tem para com o Pai, o Filho e o "Espírito profético".

Atenágoras protesta também contra os que acusam de ateísmo os cristãos, "homens que reconhecem Deus Pai, Deus Filho e o Espírito Santo, e declaram tanto o Seu poder na união e Sua distinção na ordem".

Esta ordem não se refere a graus de subordinação na Divindade, mas é atribuída aos três segundo que eles se manifestam na Criação e na Revelação.

Teófilo foi o primeiro escritor a aplicar a palavra "tríade" à Divindade, afirmando que os três dias que precederam a criação do Sol e da Lua "foram figuras da tríade, isto é, de Deus, de seu Verbo e sua Sabedoria".

Ele via Deus como tendo Seu Verbo e Sua Sabedoria eternamente em si mesmo, e gerando-os para os propósitos da Criação; e também ele foi claro que quando Deus os gerou, não esvaziou a Si mesmo dEles, mas está "em eterno colóquio com o Seu Verbo" 

Referências:
Justino: 1 Apol. 61,3-12; 65,3; 6,1 ss;
Atenágoras: Supplic. 10,3;
Teófilo: Ad Autol. 2,15; 2,10; 2,22.

 

4. Conclusão

Assim os Apologistas trabalharam a Trindade numa imagem de um homem gerando o seu pensamento e seu espírito em atividade externa. Esta imagem os capacitou a reconhecer, embora obscuramente, a pluralidade da divindade, e também a mostrar como o Verbo e o Espírito, enquanto realmente manifestados no mundo do espaço e tempo, podiam também residir no ser do Pai, permanecendo intacta sua unidade essencial com Ele.

VII - Santo Irineu

1. Comentário geral

Santo Irineu foi o teólogo que resumiu o pensamento do século segundo e dominou a ortodoxia cristã antes de Orígenes. A visão de Irineu da Divindade foi a mais completa e a mais explicitamente trinitária antes de Tertuliano. Conforme veremos, Santo Irineu, seguindo a Teófilo em vez de Justino, identificou o Espírito Santo com a Sabedoria divina, com o que pôde fortalecer sua doutrina da terceira pessoa com uma base escriturística segura. Com isto deixou uma imagem no fim do século segundo da Divindade, não de três pessoas co-iguais, mas de um único personagem, o Pai, que é a própria divindade, inefavelmente uno, contendo em si mesmo desde toda a eternidade o Verbo, sua mente ou racionalidade, e sua Sabedoria; o qual, ao manifestar-se, ou ao empenhar-se na Criação e Redenção, extrapolou e manifestou a estes como o Filho e o Espírito.

2. A doutrina de Irineu

Nos escritos de Santo Irineu encontramos que ele aborda Deus sob dois ângulos diferentes: Enquanto Ele existe em Seu ser intrínseco, e  enquanto Ele manifesta a si mesmo na "economia", isto é, no processo ordenado de sua auto revelação.

Do ponto de vista de seu ser intrínseco, Deus é o Pai de todas as coisas, inefavelmente uno e contendo em si mesmo desde toda a eternidade seu Verbo e sua Sabedoria.

Do ponto de vista de sua auto-revelação, ou empenhando-se na Criação e na Redenção, Deus extrapola ou manifesta o Verbo e a Sabedoria. Estes, como Filho e Espírito, são suas "mãos", imagem sem dúvida tirada de Jó 10,8: "Tuas mãos me fizeram, e me plasmaram todo";  e de Salmos 118,73:  "Tuas mãos me fizeram e me formaram".  Assim, Irineu afirma que "pela própria essência e natureza de Seu ser existe apenas um só Deus", enquanto que ao mesmo tempo,  "de acordo com a economia de nossa Redenção
existem tanto o Pai como o Filho",
ao que poderia acrescentar: "e o Espírito Santo".

Referências: S. Irineu: Adversus Hereses 4,20,1-3;    Idem: Demons. Pred. Apost. 47

3. A geração do Filho

Em Irineu nós temos a concepção familiar aos apologistas do Verbo como racionalidade imanente de Deus que Ele extrapola na criação. Ao contrário dos apologistas, porém, ele rejeita as tentativas de se explicar a geração do Verbo, citando Isaías 53,8: "Sua geração, quem a narrará?"

Além disso, ele coloca em relevo de uma maneira muito mais explícita a coexistência do Verbo com o Pai desde toda a eternidade mas, embora pareça claro que ele tenha concebido a existência de uma relação eterna do Verbo para com o Pai, em nenhum momento ele chegou a declarar que esta seria a geração do Verbo.

Referências: S. Irineu : Adv. Hereses 2,28,4-6; 2,13,8; 2,30,9; 3,18,1; 4,20,1

4. As funções do Verbo e do Espírito Santo: a Criação

O Verbo e o Espírito Santo, segundo Santo Irineu, colaboraram no trabalho da criação sendo, se tal fosse possível, as "mãos" de Deus, conforme vimos acima.  Foi função do Verbo trazer as criaturas à existência, e do Espírito ordená-los e adorná-los.

Referências:  S. Irineu: Adv. Hereses 4, pref., 4; 5,1,3; 5,5,1; 5,6,1; 4,20,2;    Idem: Demonst. 11
5. Outras funções do Verbo: revelar o Pai

Afirma Irineu: "Deus é inefável, mas o Verbo o declara para nós";  e também: "o que é invisível no Filho é o Pai, e o que é visível no Pai é o Filho". Nas Teofanias do Velho Testamento foi realmente o Verbo que falou com os patriarcas.

Referências:  S. Irineu: Adv. Hereses 4,6,3; 4,6,6; 4,9,1; 4,10,1

6. Outras funções do Espírito Santo: inspirar os profetas, revelar o Verbo, santificar os justos

Afirma Santo Irineu que foi através do Espírito Santo  "que os profetas profetizaram, e os justos foram levados ao caminho da justiça,  e foi ele que nos fins dos tempos foi derramado de uma nova maneira, renovando o homem para Deus".  Além disso, sem o espírito Santo, é "impossível ver o Verbo de Deus"; e também "o conhecimento do Pai é o Filho, mas o conhecimento do Filho de Deus
somente pode ser obtido através do Espírito Santo".
Nossa santificação é totalmente obra do Espírito Santo, "o qual o Filho ministra e dispensa a quem o Pai quer e como quer".

Referências: S. Irineu: Demonst. 6,7

7. Conclusão: Trinitarianismo Econômico de Santo Irineu

É evidente que a abordagem dos apologistas e mesmo de Santo irineu não é muito clara quanto à posição do Filho e do Espírito Santo antes de sua geração ou emissão.

Por causa de sua ênfase na "economia", este tipo de pensamento recebeu posteriormente o nome de "Trinitarianismo Econômico". Especialmente no caso de Santo Irineu, esta expressão é correta, desde que não se presuma que a ênfase na "economia" impediu-o de reconhecer o mistério da trindade na unidade na vida interna da Divindade.

VIII - A Santíssima Trindade em Hipólito e Tertuliano

1. Hipólito e Tertuliano

Hipólito e Tertuliano situam-se quanto à Santíssima Trindade mais ou menos na mesma linha dos apologistas e Irineu. Ambos pertencem ao início do século III, sendo Hipólito de Roma e Tertuliano do norte da África.

Assim como no caso de Irineu, a chave para a sua doutrina é abordá-la simultaneamente de duas direções opostas, considerando Deus Enquanto Ele existe em Seu ser eterno; enquanto Ele se revela no processo da Criação e da Redenção.

Embora sigam a linha dos apologistas e de Irineu, sua doutrina é mais explícita do que a destes (em geral), (e, em particular, nos) seguintes pontos:

(Provavelmente por causa da tendência da Igreja Ocidental), (da qual faziam parte), (de acentuar a unidade da divindade), Hipólito e Tertuliano procuram tornar mais explícito como a Trindade revelada na economia não é incompatível com a unidade essencial de Deus.

Ao descreverem o Pai, o Filho e o Espírito Santo, usam o termo `Pessoa' (`Prosopon', no caso de Hipólito, um dos últimos escritores de língua grega no Ocidente; `Persona', no caso de Tertuliano). O termo `Pessoa' é aplicado por Hipólito ao Pai e ao Filho; e por Tertuliano ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Porém aplicam-lhes o termo `Pessoa' somente enquanto manifestados na ordem da Revelação. O termo `Pessoa' só mais tarde começou a ser aplicado ao Filho e ao Espírito Santo enquanto imanentes no ser eterno de Deus.

Nos escritos de Tertuliano surge pela primeira vez a expressão `Trindade'. Em uma passagem da obra Adversus Praxean, ele afirma que o Espírito Santo também é uma "Pessoa", de modo que a Divindade é uma "Trindade".

2. Deus antes da Economia (revelação, criação e redenção)

Tanto Hipólito como Tertuliano tinham a concepção de Deus existindo em total solidão desde toda a eternidade, tendo, porém, de modo imanente e em unidade indivisível consigo mesmo, sua razão ou Verbo.

A. Hipólito

Hipólito afirma que o Verbo de Deus e sua Sabedoria são distintos, sendo de fato o Filho e o Espírito Santo enquanto imanentes. Sempre houve uma pluralidade em Deus, pois, "embora sozinho, Ele era múltiplo, pois Ele não estava sem o seu Verbo e sua Sabedoria".

B. Tertuliano

Tertuliano é mais explícito: "Antes de todas as coisas, Deus estava sozinho, sendo Ele seu próprio universo. Ele estava sozinho, entretanto, no sentido em que não havia  nada de externo e Ele, pois mesmo então Ele não estava realmente sozinho, já que Ele tinha consigo aquela Razão que Ele possuía em Si mesmo, isto é, Sua própria Razão".

Em outra passagem ele tenta explicar, mais claramente que os seus antecessores, o ser-outro ou a individualidade desta razão imanente ou Verbo. Ele explica que a racionalidade ou o discurso, por meio do qual o homem cogita e faz planos é, de uma certa maneira, um "outro" e um "segundo" no homem, e assim é com o Verbo divino, com o qual Deus raciocina desde toda a eternidade e que constitui "um segundo para consigo".

Referências: Hipólito : Refut. 10,33,1;     Idem : Contra Noetus 10;     Tertuliano : Adv. Prax. 5

3. Deus, enquanto manifestado na economia

O caráter ternário do ser intrínseco de Deus é manifestado, em segundo lugar, na Criação e na Redenção.

A. Hipólito

Segundo Hipólito, quando Deus o quis, engendrou o seu verbo, usando-o para criar o universo, e sua Sabedoria para adorná-lo ou ordená-lo. Mais tarde, tendo em vista a salvação do mundo, Ele tornou o Verbo, até então invisível, visível na Encarnação. A partir daí, ao lado do Pai, o que no contexto dos seus escritos significa a Divindade em si mesmo, havia "um outro", uma segunda "Pessoa" (`Prosopon'), enquanto que o espírito completou a tríada. Entretanto, Hipólito reluta em designar o Verbo como Filho de maneira própria a não ser após a Encarnação.

Quanto à unidade divina, Hipólito insiste na unidade essencial de Deus, afirmando que "quando falo de `um outro', não me refiro a dois Deuses, mas como se (este outro) fosse luz da luz,  água de sua fonte, um raio do Sol".

B. Tertuliano

Seguindo os apologistas, Tertuliano data a "perfeita geração" do Verbo na sua extrapolação para a obra da Criação. Antes do momento da geração, não se poderia dizer que Deus tivesse um Filho num sentido estrito, enquanto que após a geração o termo Pai, que os teólogos anteriores utilizavam referindo-se a Deus como autor da realidade, passou a adquirir o significado especial de Pai do Filho. Enquanto assim gerado, o verbo ou Filho é uma "Pessoa" (`Persona') e "um segundo para com o Pai". Em terceiro lugar, existe o Espírito Santo, "representante" ou "força vigária" do Filho. O Espírito Santo procede do Pai por meio do Filho, "a Pater per Filium", sendo "um terceiro para com o Pai e o Filho". O Espírito Santo é também uma "Pessoa", de modo que a divindade é uma "Trindade". Os três são realmente distintos numericamente, sendo "passíveis de serem numerados", ou, na expressão original, "numerum patiuntur".

Quanto à unidade divina, devido às críticas dos herejes modalistas, Tertuliano esforça-se por mostrar como a trindade revelada na economia não é incompatível com a unidade essencial de Deus. Embora três, as pessoas são manifestações de um único poder indivisível, observando que analogamente, no governo imperial, uma única e mesma soberania pode ser exercida por órgãos coordenados. Entre os três há uma distinção ou disposição, não uma separação, como pode ilustrar-se pelo exemplo do Sol e sua luz. O modo característico de Tertuliano de expressar este fato é a afirmação de que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são uma única substância: o Pai e o Filho são uma idêntica substância que não foi dividida, mas estendida. Quando o Salvador afirmou "Eu e o pai somos um", mostrou que os três são "uma única realidade", não "uma única Pessoa", existindo uma identidade de substância e não uma mera unidade numérica. O Filho é "de uma única substância" para com o Pai, e o Filho e o Espírito Santo são "consortes da substância do Pai".

Referências:
Hipólito : Contra Noetus 7; 11; 14; 10; 8; 15;
Tertuliano: Adversus Prax. 7; 5; 4; 11; 3; 12; 2; 25; 3;
Idem : Adversus Hermog. 3;
Idem : De Praescr. 13;
Idem : De Pud. 21;
Idem :Apol. 21,12

 

IX   -  Heresias Anti Trinitárias na Igreja Ocidental no fim do Século Segundo. A posição da Igreja de Roma

1. O adocionismo

O adocionismo foi a teoria de que Cristo era um simples homem sobre o qual desceu o Espírito de Deus. Originou-a um mercador de couro bizantino chamado Teodoto, que a trouxe até Roma em torno do ano 190.

Teodoto sustentava que até o seu batismo Jesus viveu a vida de um homem ordinário, com a diferença, porém, que havia sido um homem supremamente virtuoso. O Espírito, ou Cristo, então desceu sobre Ele, e a partir daquele momento operou milagres sem, entretanto, tornar-se divino. Mais tarde, alguns dos seguidores de Teodoto admitiram que após sua ressurreição Jesus teria sido deificado.

Teodoto foi excomungado pelo Papa S. Vitor, mas a partir daí seus seguidores provavelmente passaram a suspeitar que a ortodoxia pregava a crença em dois Deuses, pois, segundo Novaciano, presbítero de Roma naquela época, afirmavam que "Se o Pai é um e o Filho é outro, e se o Pai é Deus e Cristo é Deus, então não há um só Deus,  mas há dois Deuses  simultaneamente colocados,  o Pai e o Filho".

Referências: Hipólito : Refutatio 7,35;     Novaciano : De Trinitate 30

2. A repercussão do adocionismo

O adocionismo foi uma heresia de um grupo relativamente isolado de pessoas, (pois, embora negando a Trindade, o faziam a partir da suposição de que Jesus não fosse Deus). Embora os adocionistas afirmassem que essa tinha sido sempre a posição da Igreja, Hipólito não teve dificuldade em apontar a grande sucessão de teólogos que, desde o primeiro século, "teologizaram a Cristo", e em cujas obras está proclamado que "Cristo é tanto Deus como homem".

Que a suposição fundamental do adocionismo nunca tivesse sido a posição da Igreja era, pois, bastante evidente para a maioria dos cristãos para que esta heresia pudesse ter se espalhado.

Este, porém, já não seria mais o caso para o monarquianismo, conforme será exposto a seguir.

Referências: Eusébio de Cesaréia : Hist. Ecles. 5,28

3. O monarquianismo

O primeiro teólogo que formalmente colocou as posições monarquianistas foi Noeto de Esmirna. Embora condenado em suas teorias pelos presbíteros de sua cidade, que as confrontaram, com as regras da fé da Igreja, um dos discípulos de Noeto trouxe suas idéias até Roma, onde se difundiram.

O monarquianismo, ao contrário do adocionismo, estava firmemente convencido tanto da unidade de Deus como da plena divindade de Cristo. Esta teoria começou a ganhar simpatizantes em Roma quando alguns teólogos, alguns dos quais já mencionados neste texto, começaram a representar a divindade como tendo se revelado na economia como tri- personal. Para os monarquianistas, qualquer sugestão de que o Verbo ou o Espírito pudessem ser um outro ou uma pessoa distinta do Pai seria uma afirmação da existência de dois deuses.

Para, entretanto, não negarem que Cristo era Deus, afirmaram que havia apenas um único Deus, o Pai. Se Cristo é Deus, então ele deve ser idêntico ao Pai, senão ele não seria Deus. Portanto, é o próprio Pai que sofreu e passou pelas experiências humanas do Cristo. Por isto, tal doutrina passou a conhecer-se como patripassianismo. Os monarquianistas rejeitaram a doutrina do Verbo, afirmando que o prólogo do Evangelho de São João deveria ser interpretado alegoricamente.

Os monarquianistas acreditavam em uma única e idêntica divindade, que podia ser designada indiferentemente como Pai ou Filho; estes termos diferentes não implicariam distinções reais, mas seriam apenas nomes aplicáveis em tempos diferentes.

Referências:   Hipólito : Contra Noetus 2; 6; 15;    Idem : Refutatio 9,10;    Epifânio : Haereses 57

4. Sabelianismo

Na pessoa de Sabélio surgiu uma forma de monarquianismo mais sofisticado, que de alguma forma percebia a ingenuidade do monarquianismo simples, e levava em conta elementos tomados de empréstimo ao trinitarianismo econômico que os monarquianistas criticavam.

Sabélio, embora afirmando a unidade de Deus, ensinou que a divindade se expressa em três operações. Comparando a divindade com o Sol, objeto único que irradia tanto calor como luz, o Pai seria a forma ou a essência da Divindade, o Filho e o Espírito Santo modos de sua auto expressão. Assim, a única Divindade, vista como Criadora e Legisladora seria o Pai; para a obra da Redenção operou como Filho; para inspirar e conferir a graça operou como Espírito.

Referências:    Hipólito : Refutatio 9,11 ss;    Epifânio : Haereses 6,1,4 ss; 62,1

5. A atitude da Igreja de Roma

a) Num estágio inicial, o movimento monarquianista esteve em ascendência na Igreja de Roma. Os papas do final do século segundo e início do terceiro (São Zeferino, entre 198 e 217 e São Calisto, entre 217 e 222), embora estivessem conscientes dos erros do monarquianismo, conforme mostra a afirmação do papa Zeferino citada por Hipólito de que "não foi o Pai quem morreu, mas o Filho", e a excomunhão de Sabélio pelo Papa Calisto, por outro lado simpatizavam com a reação popular contra as teorias de Hipólito e Tertuliano, que eles consideravam como conduzindo ao diteísmo. Estes papas viam com suspeita o uso que estes autores faziam do termo "Pessoa" aplicado à Trindade.

Em pouco tempo, porém, a teologia de Roma iria assimilar as principais colocações da doutrina de Tertuliano e inclusive aprofundá-la. É o que, no ano 250, encontramos na obra intitulada De Trinitate, escrita por um presbítero de Roma denominado Novaciano.

Referências:   Hipólito : Refutatio 9,11;    Tertuliano : Adv. Praxeam. 3

6. A atitude da Igreja de Roma

b) Novaciano

No ano 250 Novaciano, presbítero da Igreja de Roma, escrevia um livro intitulado De Trinitate onde encontra-se a doutrina de Tertuliano e mais o reconhecimento de que a geração do Filho e sua conseqüente distinção do Pai como Pessoa não é fruto da "economia", mas pertence à vida pré temporal da Divindade pois, já que o Pai é sempre Pai, sempre deve ter tido um Filho. Assim, pois, a geração do Filho é desvinculada da Criação. Segundo Novaciano a única Divindade é o Pai, autor de toda a realidade; mas além dEle, "quando Ele quis, gerou um Filho, seu Verbo".

Conforme dissemos, a geração do Filho não é vinculada à Criação, mas é pré-temporal. O Filho é Deus porque a Divindade lhe foi transmitida pelo Pai, existindo uma "uma comunhão de substâncias"  entre Eles. Esta doutrina, diz Novaciano, não implica uma dualidade de deuses, porque o Filho, embora uma "segunda Pessoa além do Pai", não é não gerado ou sem origem; se o fosse, haveria dois deuses, mas como o Verbo é outro além do Pai como Filho, e deve seu ser inteiramente ao Pai, não há divisão da natureza divina.

Novaciano afirma que o Pai necessariamente "precede" o Filho, e que antes que o Filho existisse com o Pai como uma Pessoa, Ele estava imanente "no Pai"; entretanto, esta prioridade não parece ser uma prioridade real, mas de razão, porque Novaciano também insiste que o Pai sempre teve o seu Filho.

Quanto ao Espírito Santo, a doutrina de Novaciano é rudimentar. Ele considera o Espírito Santo como a potência divina que operou nos profetas, nos apóstolos e na Igreja, inspirando-os e santificando-os. Não faz, porém, menção de sua subsistência como Pessoa.

Referências:   Novaciano : De Trinitate

X - Clemente de Alexandria

1. Introdução Histórica: a Escola de Alexandria

Clemente de Alexandria nasceu provavelmente em Atenas, filho de pais pagãos, por volta do ano 150. Bem dotado intelectualmente, empreendeu várias viagens em busca da verdade e do conhecimento pelo sul da Itália, Síria e Palestina, até que enfim conheceu Panteno, o responsável pela escola de catecúmenos da Igreja de Alexandria no Egito, que o converteu ao Cristianismo.

Panteno havia sido filósofo estóico e homem célebre pela sua instrução. Convertendo-se ao cristianismo, foi pregar o Evangelho aos pagãos do Oriente, chegando até à Índia. Mais tarde, pelos seus merecimentos, terminou a vida regendo a escola de catecúmenos de Alexandria.

Clemente, seu aluno, assistente e sucessor na direção da escola, é considerado por alguns autores como o primeiro sábio cristão. Conhecia a fundo não só a Escritura Sagrada e quase toda a literatura cristã da época, mas ainda a literatura grega clássica e filosófica, de que são prova as citações de seus livros tiradas de mais de 360 escritores profanos.

Clemente ensinou com êxito em Alexandria, acabando por formar diversos discípulos, dentre os quais se destacou Orígenes, que o sucedeu na direção da escola de catecúmenos.

Clemente e Orígenes, como os dois principais pensadores responsáveis pela escola catequética de Alexandria, deram a inspiração inicial para um outro desenvolvimento da especulação trinitária que iria se operar no Oriente cristão. Ambos foram profundamente influenciados, em suas tentativas de compreender e expor a Divindade triuna, pelo platonismo que neste tempo revivia em Alexandria.

2. A doutrina de Clemente

Trataremos brevemente de Clemente, pois este foi mais um moralista do que um teólogo sistemático. Para ele, Deus é absolutamente transcendente, inefável e incompreensível, e este é o Pai. O Pai somente pode ser conhecido através de seu Verbo, ou Filho, que é sua Imagem e é inseparável do Pai. O Verbo é a mente ou a racionalidade do Pai, compreendendo em si as idéias do Pai, e também as forças ativas pelas quais Ele anima o mundo das criaturas. A geração do Filho a partir do Pai é sem início, pois "o Pai não é sem o Filho, pois (enquanto Pai), é Pai do Filho".

O Filho é essencialmente uno com o Pai, já que o Pai está nEle e Ele está com o Pai.

O Espírito Santo é a luz que emana do Verbo a qual, dividida sem divisão real, ilumina o fiel. O Espírito Santo é a potência do Verbo que permeia o mundo a atrai os homens para Deus.

Referências:
Clemente Alexandrino :Pedagogo 1,71,1; 1,62,4; 1,71,3; 3,101,1; 1,24,3; 1,53,1;
Idem :Protreptico 98,3;
Idem : Stromata 2,6,1; 5,65,2; 5,78,3; 5,81,3; 5,16,3; 7,5,5; 4,156,1 ss; 5,16,3; 4,162,5; 5,1,3; 7,2,2; 6,138,1 ss; 7,9,4; 7,79,4
XI - Orígenes

1. Introdução

Orígenes nasceu por volta do ano 185 em Alexandria, filho de pais cristãos os quais, desde criança, antes mesmo que chegasse a freqüentar a escola, lhe transmitiram o gosto pelo estudo das Sagradas Escrituras, ao qual o menino passou a dedicar-se pelo resto de sua vida. Quando tinha dezessete anos, seu pai foi preso, vindo a morrer posteriormente como mártir na perseguição desencadeada por Sétimo Severo. Inflamado também pelo desejo do martírio, Orígenes só não se juntou ao pai por causa de sua mãe ter escondido suas roupas, obrigando o filho a permanecer em casa.

Pouco tempo após a morte do pai, com 18 anos, foi convidado pelo bispo de Alexandria a suceder Clemente na escola catequética da cidade, de quem tinha sido discípulo. Verificando que o procuravam pagãos e herejes cultos, começou a estudar filosofia para poder dialogar com os mesmos e converteu para o cristianismo diversos filósofos pagãos, vários dos quais vindo posteriormente a morrer mártires. Após doze anos de ensino, Orígenes empreendeu uma viagem a Roma para, conforme suas palavras, "ver a antiqüíssima Igreja dos romanos".

Lá, refere mais tarde São Jerônimo, pôde ouvir um sermão sobre o "louvor de Nosso Senhor e Salvador", pregado por Hipólito, então presbítero da Igreja Romana. O modo exemplar como vivia as virtudes cristãs atraíu multidões à escola catequética, onde Orígenes era procurado desde manhã até à noite. Morreu mártir aos 70 anos.

Quanto à doutrina, Orígenes tinha a intenção de ser cristão ortodoxo e o queria ser, o que se pode deduzir do simples fato de ter ele uma grande estima pelo magistério da Igreja e considerar um erro de doutrina mais pernicioso do que um desvio de moral. Entretanto, sob a influência da filosofia platônica, Orígenes incidiu em erros dogmáticos, tendo surgido, imediatamente após a sua morte, disputas acerca de sua ortodoxia, e algumas de suas interpretações da Sagrada Escritura tendo sido posteriormente condenadas pela Igreja.

2. A doutrina de Orígenes sobre a Trindade

A fonte e o fim de toda a existência é Deus o Pai. Somente Ele é Deus no sentido estrito, apenas Ele sendo não gerado. A este respeito, Orígenes afirma ser significativo que Cristo falou dEle no Evangelho de São João como "o único Deus verdadeiro" (Jo. 17, 3).

Sendo o Pai perfeita bondade e poder, sempre deve ter tido objetos em quem exercê-las. Portanto, o Pai trouxe à existência um mundo de seres espirituais, ou almas, que são co-eternas consigo.

Para servir de mediador entre sua absoluta unidade e a multiplicidade das almas, porém, Deus Pai tem o seu Filho, sua imagem expressa. Assim, o Filho possui uma dupla relação para com o Pai e para com o mundo.

O Pai gera o Filho por um ato eterno, fora da categoria do tempo, de modo que não se pode dizer que (Ele) existia quando (o Filho) não existia. Além disso, o Filho é Deus, embora sua deidade seja derivada, e portanto Ele é um Deus Secundário, ou, na expressão grega original, "Deuteros Teos".

Em terceiro lugar há o Espírito Santo, "o mais honorável de todos os seres trazidos à existência através do Verbo, o primeiro da série de todos os seres originados pelo Pai através de Cristo".

Referências:
Orígenes : In Johan. 2,2,16; 2,10,75; 1,20,119; 6,39,202;
Idem : De principiis 1,2,10; 1,4,3; 2,9,1; 1,2,4;
Idem : Contra Celsum 2,64; 5,39;
Idem : Hom. in Jerem. 9,4

 

3. - Distinção das Pessoas na Santíssima Trindade.

Orígenes afirmou que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são três Pessoas, a palavra empregada por ele para significar Pessoa sendo o termo grego "Hipóstase".

Já vimos anteriormente que Tertuliano e Hipólito se referem às "Pessoas" da Trindade; o primeiro utilizou o termo latino "Persona", e o segundo o termo grego "Prosopon".

O termo que Orígenes emprega, "Hipóstase", originalmente é sinônimo de "Ousia". Ambos significam "Essência", ou aquilo que uma coisa é, e não a substância individual. Em Orígenes, entretanto, embora "Hipóstase" seja empregado às vezes com o significado de essência, o mais freqüente é que ele lhe dê o sentido de subsistência individual.

Orígenes afirma que o erro do monarquianismo está em tratar os Três como numericamente indistintos, separáveis somente pela razão, "não um só na essência, mas também na subsistência". A doutrina verdadeira, na opinião de Orígenes, é que o Filho "é outro em subsistência além do Pai, mas um só em unanimidade, harmonia e identidade da vontade".

Assim, enquanto realmente distintos, os Três são de um outro ponto de vista um só; conforme Orígenes se expressa, "nós não temos receio de falar em um sentido de dois Deuses, em outro sentido de um Deus".

Referências:
Orígenes : In Johan. 2,10,75; 10,37,246; 2,2,16;
Idem : In Matth. 17,14   -   Idem :De Orat. 15,1;
Idem : Contra Celsum 8,12   -   Idem :Dial. Heracl. 2

 

4. A unidade das Pessoas na Santíssima Trindade

Em algumas passagens, Orígenes realmente representa a unidade das Pessoas como uma união moral. Ele afirma que elas são "um só em unanimidade, harmonia e identidade de vontade", suas vontades sendo virtualmente idênticas. Mas, consideradas isoladamente, tais passagens não fazem justiça ao pensamento integral de Orígenes a este respeito.

O ponto básico é que o Filho foi gerado, não criado, pelo Pai. Como gerado do Pai, Ele é eternamente emanado do ser do Pai e assim participa em sua Divindade. O Filho procede do Pai como a vontade da mente, a qual não sofre divisão neste processo. De acordo com o Livro da Sabedoria, Ele é um "sopro do poder de Deus, uma pura efluência da glória do Todo Poderoso". Sab. 7, 25

Orígenes utiliza esta passagem para mostrar que "ambas estas ilustrações sugerem  uma comunidade de substância entre o Pai e o Filho, porque uma influência parece ser "homoousios", isto é, de uma só substância, com aquele corpo do qual esta é uma efluência ou vapor".

Assim segundo Orígenes, a unidade entre o Pai e o Filho corresponde àquela unidade que existe entre a luz e o seu brilho, ou entre a água e o vapor que dela emana.

Se, no sentido mais estrito, somente o Pai é Deus, não é porque o Filho não é também Deus ou não possui a Divindade, mas porque, como Filho, Ele a possui por participação ou de maneira derivada.

Referências:
Orígenes : In Johan. 13,36,228; 2,2,16;
Idem : De Principiis 1,2,6; 4,4,1;
Idem : Frag. in Hebr. PG 14,1308

5. O Espírito Santo

O Espírito Santo, diz Orígenes, "fornece àqueles que são chamados santos, por causa dEle e de sua participação nEle, a matéria de suas graças, se é possível descrevê-las assim"."Esta matéria de suas graças", continua Orígenes, "é feita por Deus, ministrada por Cristo, e chega à subsistência individual como o Espírito Santo".

Assim, a raiz última do ser do Espírito Santo é o Pai, mas Ele é mediado para com o Pai pelo Filho, do qual o Espírito Santo também deriva todos os seus atributos distintivos.

Referências:
Orígenes : In Johan. 2,10,77; 2,10,76

6. Comentário final

I. Triteísmo ou Monoteísmo?

Não é correto concluir, como muitos o fizeram, que Orígenes colocou uma tríade de seres independentes em vez de uma trindade. Mas a verdade é que uma tendência fortemente pluralista no seu trinitarianismo é uma sua característica saliente. Em sua análise, as três pessoas da Trindade são real e eternamente distintos.

Para satisfazer as exigências do monoteísmo, Orígenes insiste que a plenitude da Divindade inoriginada está concentrada no Pai, o qual só Ele é a "fonte da deidade". O Filho e o Espírito Santo são divinos, mas a divindade que Eles possuem e que constitui sua essência jorra e deriva do ser do Pai.

Referências:
Orígenes : In Johan. 2,3,20

7. Comentário final

II. A influência do Platonismo

Esta concepção do Trindade, conforme formulada por Orígenes, tem uma estrutura subjacente evidentemente tirada do platonismo e a ele contemporâneo. Uma ilustração disto é o fato de que, além do Filho ou Verbo, Orígenes concebeu todo o mundo dos seres espirituais como sendo coeternos com o Pai. Além disso, suas relações com o Verbo são exatamente paralelas àquela com que o Verbo, num nível mais alto, se relaciona para com o Pai. Estes seres espirituais são imagens do Verbo, assim como o Verbo é imagem do Pai, e em seus respectivos graus podem também ser chamados deuses.

Em relação ao Deus do Universo, o Filho merece assim um grau secundário de honra, pois Ele não é verdade e bondade absolutas, mas sua bondade e sua verdade são um reflexo e uma imagem da bondade e da verdade do Pai.

Por esta razão, Orígenes conclui que "nós não devemos rezar para qualquer ser gerado,
nem mesmo para Cristo, mas somente para o Deus e Pai do Universo, para quem nosso próprio Salvador orou".

Se a oração for oferecida a Cristo, esta será enviada por Ele ao Pai. De fato, o Filho e o Espírito Santo são transcendidos pelo Pai tanto quanto, se não mais, do que Eles Mesmos transcendem o conjunto dos seres inferiores.

Esta concepção de uma hierarquia descendente é ela própria o produto de idéias do platonismo.

Referências:
Orígenes : Contra Celsum 7,57; 8,13; Idem : De Principiis 1,2,13; Idem : In Johann. 13,25,151; 32,28; Idem : De Oratione 15,1; 16, início; Idem : In Matth. 15,10

obra de J.N.D.Kelly