SÃO LEONARDO

O aniversário da piedosa morte de são Leonardo, ocorrida no dia 30 de março de 1900, acontece enquanto a Igreja está a celebrar o grande Jubileu do ano 2000, e oferece ao vosso Instituto a oportunidade de re-percorrer as etapas significativas da vida e do ministério sacerdotal do Fundador, meditando ao mesmo tempo sobre as intuições proféticas e carismáticas que o tornaram fervoroso apóstolo da juventude.

O seu empenho a favor dos jovens é significativo testemunho da caridade social da Igreja. No século XIX, diante do surgir da indústria moderna com a conseqüente formação duma classe operária e proletária, a Igreja não promoveu uma emancipação dos trabalhadores pressionados pela necessidade e pelo sofrimento, mas ofereceu-lhes a ação de corajosas testemunhas do Evangelho, que os abriram progressivamente à consciência dos seus direitos e das suas responsabilidades

Tendo crescido numa família abastada, numa casa rica de afeto, Murialdo foi ordenado sacerdote em 1851. A sua espiritualidade, fundada sobre a Palavra de Deus e sobre a doutrina de autores seguros, tais como santo Afonso e são Francisco de Sales, para nomear apenas alguns, foi animada pela certeza do amor misericordioso de Deus.

O cumprimento da vontade de Deus na realidade quotidiana, a intensa vida de oração, o espírito de mortificação e uma ardente devoção à Eucaristia caracterizaram o seu caminho de fé. Mesmo antes de ser sacerdote, ele ocupava-se pessoalmente de meninos pobres e abandonados da periferia de Turim e dos jovens do cárcere para menores. Experiência que ele prosseguira no Oratório do anjo da guarda, entre os anos 1851 e 1856, e depois como diretor espiritual do Oratório de São Luís nos oito anos sucessivos.

Em outubro de 1866, com a idade de 38 anos, retornara a Turim depois de um período transcorrido junto do então bem conhecido seminário de são Sulpício em Paris, para onde fora enviado a fim de se aperfeiçoar nos estudos e conhecer algumas instituições em favor da juventude operária. Em seguida foi chamado pelo Bispo para dirigir, como responsável, o colégio dos pequenos artesãos, cargo que assumiu na certeza de que todo o homem, em qualquer momento, tem um dever a cumprir para fazer a vontade de Deus, e isto basta para alcançar a perfeição

São Leonardo Murialdo tornou-se amigo e pai dos jovens pobres, sabendo que em cada um deles há um segredo a decifrar: a beleza do Criador refletida nas suas almas. Via-os frágeis, deixados à mercê de si mesmos ou unidos a adultos sem escrúpulos, constrangidos a viver no ócio, na ignorância, na escravidão de paixões que haveriam de crescer sempre mais se não tivessem sido combatidas, ricos somente de ignorância, de selvajaria e de vícios (Mss., III, 397, 8).

Acolhia todos aqueles que a Providência lhe confiava, fiel ao mote que adotara: Pobres e abandonados: eis os dois requisitos essenciais para que um jovem seja um dos nossos; e quanto mais for pobre e abandonado, tanto mais será dos nossos (Mss., III, 397, 7). Para estes jovens quis despender as melhores energias, a fim de que nenhum deles se perdesse (cf. Mt. 18,14).

Foi ajudado por Coirmãos e por leigos de grande abertura de alma, que compreenderam e compartilharam as profundas motivações do seu ministério. Entre eles, apraz-me recordar os padres Reffo e Constantino e algumas pessoas que trabalhavam em estreito contacto com ele. São Leonardo dava-se conta da necessidade de pessoal idôneo para a missão profissional educativa, e isto constituía um ônus financeiro não de pouca monta.

As graves dificuldades não só econômicas do início causaram, então, incompreensões e houve a tentação de diminuir o número de jovens acolhidos gratuitamente, aumentando ao contrário o dos jovens a pagamento. Mas ele quis assumir pessoalmente o problema econômico. Abandonou assim a casa do irmão, para se estabelecer num colégio onde se ocupara dia e noite no meio de jovens difíceis, com uma tarefa de direção que comportava intervenções contrárias à sua índole.

Em 1869, dirá aos pequenos artesãos: "Somente pelo afeto que vos tenho não renunciava a assumir a direção do vosso Colégio, num momento em que ele passava pelas mais graves angústias financeiras" (Mss., VI, 1232, 4). Com esta opção heróica, são Leonardo deu um salto evangélico de qualidade: antes tinha dado algo aos jovens. Agora, dava tudo, um tudo que ele assumira durante 34 anos, até à morte em 1900.

O coirmão e biógrafo, padre Reffo, observa que Murialdo queria sempre dar-se conta precisamente das condições de família dos seus jovens, para saber regular-se com eles e com os seus pais, e tinha cuidados especiais por aqueles que provinham de famílias más e, por isso, já tinham adquirido princípios corruptos. Antes, ele cuidava de se ocupar individualmente de algum jovem mais ignorante ou mais lento em aprender e, com grande paciência, procurava instruí-lo (Pr. Ap. II, 850 r).

Soube ser pai para os seus jovens em tudo o que se referia ao seu bem-estar físico, moral e espiritual, preocupando-se da sua saúde, alimentação, vestuário e formação profissional. Favoreceu, ao mesmo tempo, a preparação e a qualificação dos responsáveis pelos vários laboratórios, procurando aperfeiçoar a sua capacidade educativa através de conferências pedagógico-religiosas.

Jamais descuidou o crescimento religioso, além do humano, dos jovens. O nosso programa - ele escreveu - não é apenas tornar os nossos jovens inteligentes e trabalhadores eficientes, nem sequer fazê-los sabichões orgulhosos..., mas antes de tudo fazê-los cristãos sinceros e francos (Mss., VI, 1233, 2). Por isto desenvolveu entre eles a catequese, favoreceu a prática sacramental e incrementou associações para os jovens e adolescentes, estimulando-os a ser apóstolos no meio dos seus companheiros e dando vida, quanto a isto, à Confraria de são José e à Congregação dos anjos da guarda.

Suave na maneira de agir, como notam os seus biógrafos, era sempre modesto e o seu rosto era suavizado por um sorriso que convidava à familiaridade. Mostrava-se sereno e afável, mesmo quando devia censurar, tanto que os seus pequenos artesãos, quando se tornaram adultos, o descreviam como um pai afetuoso, um verdadeiro pai, um pai amoroso.

Estava convicto de que sem fé não se agrada a Deus, sem doçura não se agrada ao próximo (Mss., II, 250, 2). Foi a experiência do amor misericordioso do Pai celeste que o impeliu a cuidar da juventude. Fez disto uma opção de vida, deixando-se guiar por um amor solícito e empreendedor, que transformou a sua existência e o tornou atento à realidade social e paciente para com o próximo. Manteve o olhar fixo no Pai celeste que espera os seus filhos, lhes respeita a liberdade e está pronto a abraçá-los com ternura, no momento do perdão.

Murialdo convida os seus filhos espirituais a serem para com os jovens, a eles confiados, amigos, irmãos, pais. Esta atitude interior é necessária mais do que nunca no nosso tempo. A atividade formativa, de modo particular quando é dirigida a adolescentes e jovens em dificuldade, requer um amor ainda mais aberto e paciente. Possa cada um de vós, filhos espirituais de tão generoso apóstolo da juventude, seguir os seus passos para difundir em toda a parte, especialmente entre os mais pobres e indefesos, o bálsamo da misericórdia de Deus.

Sede, como ele, amigos, irmãos e pais para os jovens. Tudo isto exige, porém, como demonstra a experiência do vosso Santo, uma incansável e íntima união com Cristo. É preciso amar a oração para ser zeloso apóstolo do Reino de Deus. Murialdo orava de dia e também de noite. No confiante diálogo com o Senhor encontrava a inspiração e a força de "fazer". E que dizer da santa Missa? Era o centro e o ato principal da sua vida de oração. Era por ele celebrada com reverência profunda e com singular lentidão, mesmo quando as situações podiam impedir a calma.

A eucaristia, recordava Murialdo, não é um rito a cumprir mas um mistério a viver. O tabernáculo constituía para ele um centro de amor (Mss., III, 518, 2), tanto que para o encontrar, atestam os contemporâneos, se não estava no quarto, bastava procurá-lo na igreja (Informatio, pág. 246). 7. Reverendíssimo padre, ao tomar parte na alegria deste especial Jubileu do vosso Instituto, de coração formulo votos por que todo o filho espiritual de Murialdo entreteça de oração e contemplação a sua jornada.

Embora entre tantas ocupações e preocupações, que poderiam impedir o diálogo com Deus, é preciso encontrar o tempo para orar bem, pois do coração imerso em Deus brota a energia espiritual para um apostolado eficaz. A fausta celebração do centenário da morte do Fundador seja ocasião propícia para um profético impulso do carisma de fundação. Perante as exigências sociais e missionárias deste nosso tempo, com particular atenção às formas antigas e novas de pobreza e de dificuldade juvenil, os filhos espirituais de Murialdo se empenhem com coragem em anunciar e testemunhar em toda a circunstância o Evangelho da misericórdia e da esperança.