SÃO  GREGÓRIO  DE  NISSA

Dentre os inúmeros santos que Deus suscitou no interior de sua Igreja no decorrer dos dois mil anos de história cristã, podemos encontrar um grupo que se destaca não só pela prática heróica das virtudes e pelo santo exemplo de vida, mas também porque recebeu de Deus uma missão toda particular e de extrema importância para as gerações cristãs futuras: a missão de meditar, rezar e escrever acerca dos mistérios salvíficos, para a edificação de toda a Igreja de ontem e de hoje.

Seus escritos são muito respeitados, tanto pelos teólogos quanto pelo Magistério da Igreja, que reconhece neles a solidez e a ortodoxia necessárias para fundamentar inúmeros documentos, encíclicas, aspectos doutrinais e posicionamentos teológicos e éticos oficiais da própria Igreja.

Esse grupo de santos que viveram entre o séc. I e VII d.C. é conhecido como os “Santos Padres ou Padres da Igreja”. Dentre eles, podemos citar alguns que são conhecidos por boa parte dos católicos de hoje: Santo Agostinho, São Jerônimo, Santo Atanásio, Santo Isidoro de Sevilha (que recentemente foi indicado pela Santa Sé como padroeiro da Internet), bem como outros que são praticamente desconhecidos pelo público em geral: Santo Hilário de Poitiers, São Gregório Nazianzeno, São Clemente de Alexandria e São Gregório de Nissa.

Escolhemos esse último para que possamos conhecê-lo melhor e perceber o quanto Deus realizou na vida dele, ele que abraçou com todas as forças a vontade de Deus e soube vivê-la de modo exemplar, num tempo em que ser cristão era ter de enfrentar não só imensos desafios, mas, até mesmo, a própria morte, se necessário.

O nome de Gregório de Nissa aparece sempre associado ao de seu irmão Basílio e ao de outro Gregório, o de Nazianzo (que desde jovem tornou-se amigo particular de Basílio); os três são conhecidos como Padres Capadócios.

O Século IV foi rico em cristãos valorosos, que por amor à fé enfrentaram inúmeras perseguições e heresias que assolavam a Igreja da época. Nesse contexto merece destaque a região da Capadócia, que gerou inúmeros santos, leigos e clérigos, que com suas vidas e testemunhos enriqueceram e enriquecem a vida, o martirológio e o patrimônio teológico da Igreja.

Situada na Capadócia, Cesaréia era uma verdadeira metrópole com teatros, termas, grandes festas e com uma aristocracia que primava pela cultura e, conseqüentemente, pela formação intelectual de seus filhos.

A família de Gregório de Nissa também buscou zelar pela formação de seus filhos, tanto é que enviou o seu primogênito, São Basílio Magno, para estudar em Constantinopla e Atenas, berços culturais da época.

Com o retorno de Basílio, este recebeu a missão de formar seu irmão mais novo nas artes da cultura clássica. Gregório não foi apenas um bom discípulo; segundo a avaliação dos teólogos especializados, chegou até mesmo a ultrapassar teologicamente o seu irmão, apesar de nunca ter tido a oportunidade de estudar em um dos grandes centros culturais do período em que viveu.

Gregório de Nissa pertencia a uma família tradicionalmente cristã, o pai era um retórico estimado e a mãe era uma mulher de muita fé e piedade. O avô de Gregório teve a honra de sofrer o martírio e sua irmã mais velha, Macrina, foi mais tarde canonizada.

Enquanto seu irmão recebeu o presbiterato e empreendeu seu ministério em Cesaréia, Gregório de Nissa decidiu dedicar-se ao magistério, parecia que ele se distanciava da vocação eclesiástica... Entretanto no ano 372, o imperador Valente decidiu enfraquecer o poder eclesiástico da região através da divisão da Capadócia em duas partes. Percebendo de imediato o ardil do imperador, Basílio, que nessa época já era bispo de Cesaréia e exercia grande influência em toda a região, decidiu agir rápido e nomeou novos bispos para a nova Capadócia, e entre eles estava Gregório; era a providência de Deus alterando os rumos da vida de nosso santo.

Mesmo contrariado em seus planos, Gregório assumiu com todo amor a missão que Deus lhe confiou. O povo de Nissa, cidade da região central da Capadócia, reconhecia nele o bom pastor à imagem de Jesus Cristo. Entretanto alguns hereges tramavam contra sua vida, e em 376 conseguiram que ele fosse expulso e exilado de Nissa através de falsas acusações de inexatidão na contabilidade de sua diocese.

Mas, Deus não tarda em socorrer os justos e apenas dois anos depois, após a morte do imperador Valente, Gregório retornou a Nissa, onde foi recebido triunfalmente pelo povo. Ele ainda se mostrava comovido com esse fato quando escreveu em uma de suas cartas: “Eles só faltaram sufocar-me com as demonstrações excessivas de sua afeição”.

A morte de seu irmão Basílio (379) obrigou Gregório a assumir um papel mais ativo na condução da cristandade da Capadócia. A partir de então, o aparentemente tímido bispo de Nissa passou a escrever inúmeras cartas, trabalhos teológicos e a proferir inúmeras homilias, das quais muitas se conservaram até os dias de hoje.

Ficou conhecido em sua época por sua fé inabalável, uma profunda cultura teológica e vastíssima ciência, e isso capacitava-o primorosamente para empreender, mesmo após a morte do irmão, uma verdadeira cruzada contra os hereges, especialmente os arianos.

Como bispo soube encontrar uma linguagem simples e direta para apresentar ao seu rebanho ensinamentos concretos, ao mesmo tempo que escrevia com profundidade teológica poucas vezes vista.

Entre outras obras escreveu: “A criação do homem”, onde desenvolve uma antropologia teológica; “A Grande Catequese”, que buscou ser um compêndio das principais verdades de fé da época; “Vida de Macrina”, onde faz a biografia de sua irmã.

Com o passar do tempo, Gregório vai sentindo a necessidade de voltar-se mais e mais para Deus e de ir gradativamente afastando-se de sua missão pastoral. Nesse período, ele escreve sublimes obras de teologia mística, onde demonstra originalidade e extrema sensibilidade para tratar de temas referentes à oração, à vida espiritual ... temas que na Idade Média serão retomados.

Segundo Gregório, o itinerário da vida espiritual pode ser descrito como uma caminhada incessante, através de purificações sucessivas, que são outras tantas aberturas a novas graças, até chegar-se ao despojamento total (...) Nesta total desapropriação, o homem se abre a Deus, no êxtase do puro amor, em que Deus o reconhece como amigo, ‘o que é meu, a meu ver, a perfeição de vida’ (Hamman, p. 163).

São Gregório de Nissa participou de inúmeros sínodos e concílios, entre os quais merece destaque o Concílio de Constantinopla (381), onde, juntamente com Gregório de Nazianzo, se destacou a favor da sã doutrina opondo-se a todo pensamento herético. Foi dele o discurso de abertura, e os demais bispos entusiasmaram-se com suas palavras cheias de vigor, temor a Deus e amor à Igreja de Cristo.

No fim desse Concílio, o imperador Teodósio o nomeou guardião da ortodoxia em toda a região do Ponto (Ásia Menor). Nesse cargo, ele era responsável por inteirar-se da fé professada por todos os cristãos dessa região e, principalmente, pela fé dos seus pastores; também tinha o poder de retirar de suas funções os bispos que aderissem a doutrinas não conformes à ortodoxia, bem como nomear novos bispos que professassem a verdadeira fé da Igreja.

Em 394 assistiu pela última vez a um sínodo, pois pouco tempo depois veio a falecer.

A história nem sempre foi justa com esse santo, muitas vezes foi envolvido em questões teológicas, acusado de ter aderido a pensamentos heréticos de Orígenes. Entretanto o pensamento de Gregório de Nissa chegou ao Ocidente através de Dionísio Areopagita, que se inspirou claramente em suas posições teológicas e filosóficas, também foi comentado por grandes doutores da Escolástica, entre eles, podemos destacar São Tomás de Aquino (séc. XIII).

“A grandeza de Gregório está no poder de seu pensamento e na profundidade de sua elaboração teológica, onde ele supera Basílio e o Nazianzeno. É um dos pensadores mais originais da história da Igreja. Nenhum outro Padre do século IV utilizou em igual medida a filosofia para aprofundar os mistérios da revelação” (Ibidem p.164).