SÃO  CAMILO  DE  LÉLLIS

São Camilo nasceu em 1550, em uma pequena cidade chamada Abruzzo, na Itália. O século XVI foi, sem dúvida, um dos mais agitados para a Igreja. Na Europa foi quebrada a unidade espiritual através das idéias de Lutero, Zuínglio, Calvino, Henrique VII e outros; idéias que “incendiaram” o mundo. Deus, na sua providencial misericórdia, fez desse século um período de grandes santos: Teresa de Ávila, João da Cruz, Inácio, Caetano, Felipe Néri, Félix, Luís de Gonzaga e Camilo, dentre tantos.

 

A família de Camilo era católica – ele era primo do Papa Pio II – e de tradição militar, de destaque nas batalhas. Seus pais, João e Camila, tiveram um filho que falecera ao nascer. Gerando pela segunda vez, deram à luz Camilo, que em latim significa “ajudante dos enfermos”.

 

Durante essa gravidez, Camila – que tinha 60 anos – em sonho, viu seu filho no comando de vários outros meninos carregando uma cruz vermelha. Ela não imaginava que aquela cruz vermelha inspiraria o símbolo da ajuda humanitária. Este símbolo foi escolhido por um empresário suíço ao ver Camilo e seus companheiros com a cruz no peito ajudando os enfermos em uma catástrofe.

 

Seu nascimento também foi agraciado: indo seus pais a uma festa do padroeiro da cidade vizinha, Camila sentiu as dores de parto e deu a luz ao menino numa estrebaria.
Camila falece deixando seu filho com apenas 13 anos de idade, e o pai – que em virtude dos serviços militares vivia em batalhas e não tinha tempo para o filho – o coloca em um orfanato. Aos 17 anos, Camilo alista-se no exército e com o pai freqüenta salões de jogos, bares e orgias. Tendo 19 anos, aparece-lhe uma pequena ferida no pé direito, que ao coçar infecciona e torna-se incurável. Durante os dias em que ia ao hospital cuidar da ferida, conheceu vários médicos e enfermeiros. Sempre os tratava com desprezo e sem nenhuma paciência.

 

Tendo-se tornado um jogador inveterado, Camilo perdeu as roupas na mesa de jogos e foi posto para fora despido. Ao pedir ajuda aos frades capuchinhos que passavam por ali, recebeu roupas e uma proposta de emprego. Aceitou e desempenhou com muito afinco a missão de comprador.
O contato, certamente, com aqueles homens santos e a escolha divina foram agindo lentamente no coração de Camilo, até que um dia, em uma de suas costumeiras viagens a trabalho, qual São Paulo, caiu do jumento e converteu-se. Isso foi aos 02 de fevereiro de 1575.

 

Camilo entra no noviciado dos capuchinhos, mas as suas vestes são incompatíveis com as chagas do pé, e constantemente retorna aos hospitais. Até que um dia um diretor da Ordem proíbe a permanência de Camilo no noviciado. Sem perder as esperanças de um dia ser capuchinho, começa a trabalhar no hospital de Roma e torna-se em pouco tempo colaborador de idéias e planos – até hoje a estrutura dos hospitais tem o dedo de Camilo.

 

Começa a reunir-se – em seu quarto, que transforma-se em “Cenáculo” – com quatro enfermeiros; preparam planos de tratamento e evangelização. Entretanto, a direção do hospital não entende bem esses encontros; chama a atenção de Camilo e retira-lhe certos privilégios. Certa noite, aos pés da cruz de madeira que trouxera de uma das missões, começa a orar e cochila; em sonho, o Crucificado lhe fala: “Não temas, caminha sempre avante, eu te ajudarei; hei de estar sempre contigo”. Ao amanhecer, contou o acontecido aos quatro amigos, e todos decidiram continuar com as reuniões.

 

Um fato que fazia Camilo sofrer era ver, todos os dias, enfermos morrerem sem o sacramento da unção dos enfermos. Decidiu, então, abraçar o sacerdócio, a fim de poder ministrar esse sacramento. Dessa forma, com quase 30 anos, entra no seminário menor para fazer o curso primário; seus colegas são meninos de 10 a 15 anos. Apesar das gozações, continua e consegue se ordenar.

 

Camilo via, realmente, no doente a pessoa de Jesus. Certa vez, o Papa Clemente VIII foi conhecer a obra de Camilo; o diretor do hospital mandou alguém chamá-lo com urgência, mas ele respondeu: “Diga ao Santo Papa que irei ter com ele logo que fizer o filho de Deus melhorar das dores”.

Camilo era devoto de Nossa Senhora, e a ela consagra seu trabalho: aos 15 de agosto de 1582, nasce a obra dos camilianos: “Madonnina dei miracoli” (Nossa Senhorinha dos Milagres).

 

O sofrimento é para Camilo caminho de purificação. Além da chaga no pé direito, ele tinha uma hérnia, calos na planta dos pés e cálculos renais. Exemplo de religioso, tinha o coração para servir. Certa vez, já doente e fraco, em pleno inverno colocaram uma lareira perto de sua cama; ao passar na enfermaria antes de deitar-se, viu um doente com muita febre, levou-o para a cama e veio dormir no lugar dele, na enfermaria.

 

Santamente, morreu em Roma, no dia 14 de julho de 1614. Ao morrer já deixava na Ordem dos Camilianos oito hospitais, 242 religiosos e 80 noviços. Camilo foi canonizado em 1746, pelo Papa Bento XIV, e em 1886, juntamente com São João da Cruz, foi declarado patrono dos enfermos. A Ordem dos Camilianos espalhou-se por todos os continentes e constantemente nos lembra – sobretudo pelos atos – o ensinamento de São Camilo: “Nada temos; o que nos pertence é apenas o que doamos”.

Cândido Couto Filho