SÃO  BENTO

Houve um Homem de vida venerável, Bento pela graça e pelo nome, (...) que ainda muito jovem, retirando os pés que quase colocara no mundo, (...) desejando só a Deus agradar, abandonou os bens da casa paterna, para viver vida monástica e buscar somente a Deus" (II Livro dos diálogos; são Gregório Magno, monge beneditino eleito Papa em 490 d.C).

 

É significativo que na aurora do terceiro milênio do cristianismo, "Transcorridos mais de mil e quinhentos anos do nascimento e morte daquele que é chamado de Patriarca dos monges do ocidente", a vida, a regra e a pessoa de São Bento ainda hoje atraiam tantos homens e mulheres em todo o mundo, desejosos também, como ele, de somente a Deus agradar e de "Nada antepor ao amor de Cristo" (Regra de São Bento 4,21).

 

No momento atual da história da humanidade e do cristianismo, muitas são as semelhanças com a época na qual viveu São Bento, final do século V e início do Século VI depois de Cristo, quando o mundo antigo greco-romano agonizava afogado numa grande crise de valores culturais, sociais, políticos, morais e religiosos. Não muito diferente, também, era a situação da Igreja interna e externamente, dividida em seu seio por disputas teológicas, lutas pelo poder político e pelo reconhecimento do Império e da sociedade romana que, embora se declarassem cristãos, de fato ainda viviam majoritariamente no paganismo; desafiada externamente ao diálogo com as novas crenças e culturas não-cristãs: os bárbaros, sedentos do Absoluto, porém carentes de orientação no caminho para chegar até Ele.

 

Não obstante ao que dissemos, para compreendermos com profundidade o conceito beneditino de mosteiro como sendo uma "Schola Dominici Servitii" (RB Prólogo, 45), isto é, "Escola de Serviço do Senhor", devemos ter bem claro que São Bento não é o fundador da vida monástica, mas situa-se dentro de uma longa tradição que o precede e que remonta ao século III, com a figura de Santo Antão (fundador da vida monástica eremítica, 270 d.C); e ao Século IV, com as figuras de São Pacômio (fundador da monástica vida cenobítica, 320 d.C) e São Basílio Magno (organizador da vida monástica cenobítica no Oriente, +377 d.C), a quem São Bento chama de Santo Pai (RB 73,5).

São Bento e seus filhos espirituais

Tendo apresentado os pressupostos históricos que prepararão o ambiente cultural e religioso pré-beneditino, passamos a tratar do tema fundamental dessa nossa exposição, ou seja, São Bento, sua vida e sua obra, seus filhos e filhas espirituais.

 

Nascido no ano de 480 d.C, em Núrcia, Itália, São Bento, ainda muito jovem, abandona os estudos clássicos, em Roma, e a casa de seus pais, em Núrcia, para recolher-se como eremita numa gruta na região de Subiáco, recebendo o hábito monástico de um monge chamado Romano. Em 429 d.C funda o Mosteiro de Monte Cassino e mais doze mosteiros circunvizinhos. No final de sua vida terrena "escreveu uma Regra Monástica, mestra pela experiência e pela doutrina, pois nela nada escreveu que antes não tenha vivido" (II Livro dos Diálogos; São Gregório Magno).

 

Sendo companheiro de vida monástica de sua irmã, Santa Escolástica (+547 d.C), que logo cedo entrou para um mosteiro de virgens consagradas adotando posteriormente a Regra de São Bento, as mulheres iniciam a vida beneditina feminina. Mais tarde surgirão além dos monges e monjas, religiosos missionários e religiosas missionárias, como também leigos e leigas ligados espiritualmente aos mosteiros por uma oblação, vivendo a espiritualidade da Santa Regra no meio da sociedade como cristãos batizados. Pois a vida monástica nada mais é do que a vivência radical do batismo cristão.

 

Mesmo nesta vida e ainda mais após sua passagem para a vida eterna, em 547 d.C, São Bento viu, como Abraão, sua descendência tornar-se numerosa como as estrelas do céu e os grãos de areia do oceano. Os mosteiros tornaram-se centros de fé, espiritualidade e cultura, escolas de santidade, em grande parte responsáveis pela conversão dos bárbaros e evangelização da Europa. Por isso mesmo o Papa Paulo VI proclamou São Bento Padroeiro da Europa.

 

"Escuta, filho, os preceitos do mestre, inclina o ouvido do teu coração; recebe de boa vontade e executa eficazmente o conselho de um bom pai. (...) Tu, quem quer que sejas, que (...) te apressas para a pátria celeste e (...) desejas a vida. (...) com o progresso da fé e da vida monástica, dilata-se o coração e com inenarrável doçura de amor chega-se ao caminho da salvação, que nunca se abre senão por estrito início. (...) Executas, com o auxílio de Cristo, esta mínima Regra de iniciação e por fim chegarás aos mais altos cumes da virtude e da doutrina" (Regra de São Bento).

A espiritualidade

A espiritualidade beneditina é a espiritualidade bíblica e patrística, isto é, a espiritualidade cristã das primeiras comunidades apostólicas à luz e em torno da Palavra de Deus e do ensinamento da vida e da pessoa de Jesus Cristo, na interpretação católica e ortodoxa dos Padres da Igreja e da vivência do monaquismo cristão, acentuando-se alguns pontos próprios na vida beneditina, como a comunidade monástica em torno do Abade (pai espiritual que representa o Cristo na comunidade) e da Regra (forma de viver a Palavra de Deus concretamente); a oração coral-comunitária e a oração pessoal; a Lectio Divina; o silêncio; o trabalho; a humildade; o zelo bom; os instrumentos da arte espiritual; tudo isso exercido e cultivado na estabilidade na comunidade e nos claustros do mosteiro.

 

É nesta "Escola de Serviço do Senhor" que, na medida em que a natureza cooperou e coopera com a Graça Divina, incontáveis gerações de santos monges e monjas foram e continuam sendo formados no seio da Igreja, da qual a vida monástica parece ser a parte mais escondida, mas nem por isso a menos luminosa e irradiadora de humanidade e de Santidade. "Sobre ti, Jerusalém, colocarei sentinelas. Nem de dia nem de noite se calarão" (Is 62,6).

Os beneditinos no Brasil

Ao Brasil, os monges chegaram em 1582, oriundos de Portugal, para fundar um mosteiro na cidade de São Salvador da Bahia, o primeiro mosteiro das Américas, Arquiabadia de São Sebastião da Bahia, a pedido da população daquele local. Do mosteiro da Bahia a vida beneditina começa a se expandir para todo o Brasil (Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Distrito Federal, Ceará, Paraná e Rio Grande do Sul) e para o Caribe, Trinidad Tobago.

 

As monjas chegaram um pouco mais tarde, em 1911, vindas da Inglaterra, para fundar a Abadia de Santa Maria, na cidade de São Paulo, espalhando-se por todo o Brasil (Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Sergipe, Pernambuco, Espírito Santo, Roraima, Acre, Rio Grande do Sul).

 

A venerável Arquiabadia de São Sebastião da Bahia, mais conhecida pelo nome de Mosteiro de São Bento da Bahia, prepara-se para comemorar seus 420 anos na Páscoa de 2002. Do alto da montanha em que se encontra o mosteiro, seus monges velam pela cidade do Salvador como sentinelas sobre a cidade de Jerusalém, de dia e de noite louvando o nome do Senhor, lembrando a todos os seus habitantes as maravilhas realizadas por Ele; oferecendo a Deus um sacrifício de louvor por meio da oração e do trabalho.

Dom Clemente Medeiros da Rocha, OSB

Monge beneditino da arquiabadia de são Sebastião da Bahia