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A HERANÇA DE SANTO AGOSTINHO: O MONACATO

Já se disse que Santo Agostinho, quando morreu, não deixou patrimônio, exceto a biblioteca e as recomendações sobre a custódia da mesma.

Conservamos, no entanto, seu espírito: essa maneira característica de ser cristão, de ser santo, de ser pastor... e de ser monge! Aqui está o mais precioso de sua herança, não só para os Agostinianos, mas também para toda a Igreja Universal.

Não é fácil resumir o ideal monástico de Santo Agostinho. Entre todos os seus escritos não encontramos um sequer, que seja dedicado expressamente ao monacato. Suas idéias sobre o mesmo se encontram espalhadas ao longo de suas obras.

Ser monge no bispo de Hipona é ser Agostinho mesmo, isto é, toda a vida está ligada a esta idéia. Antes e depois da conversão, durante o sacerdócio e os longos anos do episcopado, em suas pregações ao povo, em suas cartas polêmicas e demais escritos, vibra sempre o ideal de ser monge. Por isso a Santo Agostinho pode ser dado o título de Monge e Pai dos Monges.

Santo Agostinho era intelectualmente curioso, mas com uma curiosidade do divino. Seu afã de ser monge só se entende à luz da busca de Deus. Já se falou também de suas lutas em busca da verdade. Ser monge, em Santo Agostinho, significa penetrar no mistério de Deus, conhecê-lo pela fé e possuí-lo através do amor.

Pouco antes de converter-se, faz uma primeira tentativa de vida comum.  Mas tudo vai por água abaixo, ante as dificuldades apresentadas pelo matrimônio. Depois de convertido em Cassiciaco, em Tagaste e durante os primeiros anos em Hipona, consegue fazer com que a idéia do monacato seja uma realidade um pouco idealista: se comove ante a beleza da natureza, vive um tanto separado de luta diária de seus contemporâneos, absorto na reflexão sobre a alma de Deus. A experiência pastoral, a polêmica antimaniqueia e o estudo mais atento de São Paulo lhe abrem um panorama mais real e universal.

A ordenação sacerdotal muda, em Agostinho, sua conceição sobre o monacato. Ele se dá conta de que deve se libertar dessa espécie de “egoísmo espiritual” e se entregar à obra da Igreja. Queria dedicar-se por inteiro à oração, à meditação-contemplação e ao estudo da Sagrada Escritura; mas a imensa comunidade chamada Igreja é mais importante que a pequena comunidade agostiniana. Por causa do serviço à Igreja de Cristo é necessário, às vezes, sacrificar o retiro e a tranqüilidade do mosteiro.

Neste estilo de vida, acolheu quem quisesse viver a sua herança espiritual. O membro da comunidade tinha que saber ser religioso e pastor, ativo e contemplativo, estudante e mestre, homem de oração e missionário. Tudo isto ao mesmo tempo. Mas tem que ser antes de tudo obediente: à Igreja e à comunidade.

Santo Agostinho teve que percorrer todo um caminho para chegar a converter-se em Monge e Pai dos Monges. Chamamos isso de ‘itinerário monástico do santo”.

O descobrimento de sua vocação de monge aconteceu no ano 386, aos 32 anos de idade quando Ponticiano, “cristão de longas e freqüentes orações” (Conf. VIII, 6, 4), narrou a Agostinho alguns detalhes da vida de Antão, o eremita e de outros mais, do qual Agostinho nada sabia. A narração ficou gravada de tal maneira em sua alma que desencadeou nela aquela feliz tempestade que o levou à conversão definitiva.

Agostinho já era crente antes do encontro com Ponticiano. Acreditava em Deus, em Cristo, na espiritualidade da alma e em outras verdades do cristianismo. O exemplo de Antão e dos cortesãos de Trévis, que haviam abandonado suas noivas para consagrar-se a Deus na vida monástica, veio em ajuda de sua fraca vontade, sacudiu sua covardia, proporcionou-lhe desapego da carne e o conduziu à vitória final.

Depois de convertido, Agostinho jamais seria um cristão comum. A luta o havia renovado e saia dela “sem desejo de mulher nem esperança alguma neste mundo” (Conf. VIII, 12, 30)

Em Cassiciaco, Agostinho inaugura um plano de vida que não corresponde plenamente a nenhum modelo precedente. Neste sentido, se pode falar de Santo Agostinho, não só como fundador, senão como inventor de um estilo de ser monge. Em companhia de seus amigos, dedica  longas horas ao estudo das Escrituras, ao trabalho manual, à oração dos salmos e à contemplação religiosa. Era, porém, um primeiro ensaio que necessitava urgentemente de retoques, correções e complementos a Agostinho não tardará em introduzi-los.

A experiência e o estudo lhe manifestam pouco a pouco o verdadeiro rosto do monacato. Lembremos as viagens que fez, conhecendo diferentes estilos de vida monacal para escolher o seu.

Admira os anacoretas pelo retiro e solidão, mas não se sente atraído por eles. Também tem simpatia pelos cenobitas, que são anacoretas de vida comum, mas também não o satisfazem plenamente. Ele tem suas preferências: a vida comum, a concórdia dos corações, o desprendimento dos bens da terra, a moderação e liberdade no uso das coisas, o estudo e, sobretudo, a caridade. A caridade é a rainha dos mosteiros. Ela regula os alimentos, as palavras, os vestidos, o semblante. Quando se ofende a caridade, se é imediatamente  expulso do mosteiro, pois sabem que “Cristo e os Apóstolos a recomendam tanto que, onde falta, tudo é vão; e onde está presente, tudo é pleno” (costumes da Igreja Católica, I, 33, 73)

Este será o estilo do monacato agostiniano: uma cópia o mais fiel possível do estilo de vida dos primeiros cristãos (At. 4, 32 - 35).

 

FUNDAÇÕES MONÁSTICAS NO TEMPO DE SANTO AGOSTINHO

 

            a) Tagaste: No final de 388, Agostinho funda seu primeiro mosteiro em Tagaste e começa a viver em comunidade com seus amigos. Infelizmente, pouco sabemos deste grupo, da sua vida quotidiana. Não temos os horários e regulamentos que nos informem sobre a distribuição dos dias e horas, sobre os requisitos para entrar e fazer parte da comunidade, sobre as obrigações de seus membros e suas relações com os superiores. Nem sequer quantos eram e se estavam batizados. Apenas consta com certeza a presença de Adeodato, o filho de Agostinho, Alípio, Evódio e Severo. São Possídio faz um resumo de como viviam.

Em Tagaste, o que fez Agostinho foi um ensaio de vida comum, muito mais estruturada que em Cassiciaco, mas ainda sujeita a mudanças e transformações.

 

            b) Hipona, mosteiro do horto. Em Tagaste, Agostinho era um simples monge, contente em ser “o último da casa do Senhor”. Mas, no ano 391 sua vida deu uma volta de 90 graus. Com a ordenação sacerdotal ele se dá conta de que não pode dedicar-se inteiramente ao que ele chama de “ócio santo”, isto é, vida de oração e contemplação da Verdade Suprema.

A ordenação sacerdotal foi  a causa que arrastou por água abaixo o ideal monástico do santo,  já que em seu tempo a vida sacerdotal era incompatível com a vida monástica. Era um ou outro, nunca os dois ao mesmo tempo. Felizmente, o velho bispo Valério compreendeu a necessidade que sentia Agostinho  de viver em companhia de seus irmãos e lhe deu licença para fundar outros mosteiros junto da igreja de Hipona, no horto, onde continuou a viver como em Tagaste.

No princípio este mosteiro se nutriu de monges vindos de Tagaste, embora com certeza só podemos identificar Evódio. Cedo, porém, a pregação de Agostinho encontrou novas vocações, pertencentes a todas as idades e classes sociais. A todos exigia a renúncia dos bens e a perfeita vida comum.

“Comecei a reunir irmãos de boa vontade - diz Santo Agostinho - que, igual a mim, nada tiveram dispostos a imitar meu modo de viver, isto é, assim como eu havia vendido meu pobre patrimônio e havia repartido o fruto entre os pobres, fizeram o mesmo os que quiseram viver comigo para que todos vivêssemos do comum. Desta forma, todos possuiríamos em comum um grande e fertilíssimo campo, o mesmo Deus” (Sermão 355, 2)

Em Hipona, ao seu ideal monástico, se junta o ideal apostólico. Quando a mãe Igreja pede a nossa colaboração não podemos negar: esse era o lema do santo. Ao apostolado ele chama “negócio justo”, assim como à contemplação chama “ócio santo”.

 

            c) Hipona, mosteiro de clérigos. A ordenação episcopal foi outro momento delicado no itinerário monástico de Agostinho. Tinha que conciliar solidão e retiro, próprios dos mosteiros, com a atividade pastoral e exigências sociais do episcopado. Parece que teria que renunciar à vida comum. No entanto, esta renúncia era muito dolorosa. Agostinho não havia nascido para viver só. Necessitava da companhia dos amigos e irmãos e essa necessidade aguçou sua imaginação e lhe permitiu superar o obstáculo, transformando-o em estímulo: abriria as portas da casa episcopal aos clérigos e, com eles, partilharia teto, mesa e roupas.

Nela acolheu a quantos clérigos quisessem viver em comum e partilhar o ideal de pobreza evangélica. Este mosteiro lhe serviria também para formar o clero da diocese, segundo o alto conceito que tinha do sacerdócio.

A vida neste mosteiro repousa sobre as mesmas bases do horto: vida comum perfeita, absoluta pobreza individual, equilíbrio entre ação e contemplação. Só o trabalho manual desapareceu ou, ao menos diminuiu notavelmente para dar lugar ao trabalho apostólico. Todos os clérigos participam ativamente da vida da diocese. Diariamente vão à igreja para a Eucaristia e oração das horas litúrgicas. Algumas vezes, os sacerdotes substituem o bispo na celebração da Eucaristia, na pregação e administração dos sacramentos.

 

            d) Mosteiro de virgens. A vida virginal apareceu cedo na Igreja Africana. Seus dois grandes doutores, Tertuliano e São Cipriano, a promoveram com entusiasmo, fomentando a união e colaboração entre si.

Santo Agostinho fundou pelo menos um mosteiro de virgens em Hipona, do qual foi “priora”, por muitos anos, sua irmã; e do qual fizeram parte também algumas de suas sobrinhas. Não consta a data exata de sua fundação. Santo Agostinho amou este mosteiro com especial afeto. Amor que brotava espontâneo de sua estima pela virgindade e vida religiosa.

Muito pouco sabemos de seu estilo de vida e de sua orientação espiritual. Tudo, porém, nos leva a pensar que não se diferenciava muito da vida dos monges. Praticavam a vida comum perfeita e dividiam a jornada entre oração e trabalho, sem excluir talvez, a cópia de códigos e manuscritos antigos.

O número de monjas deve ter sido bastante elevado. Agostinho fala de uma “copiosa congregação”. A maioria era de virgens, mas também se admitia algumas viúvas. A irmã de Agostinho entrou depois da morte do marido. Consta também a presença de algumas meninas órfãs.

 

O MOSTEIRO AGOSTINIANO

O mosteiro de Santo Agostinho se converteu num autêntico mosaico de caracteres humanos. Os moradores eram muito diferentes uns dos outros pela idade, ilustração e origem social. A maioria provinha das camadas inferiores da sociedade. Agostinho fala de escravos, libertos, agricultores, operários e artesãos. Mas, não faltavam membros de famílias abastadas e até mesmo senatoriais. Havia monges ilustrados e monges ignorantes, ainda que os analfabetos eram uma exígua minoria. Aquele que, ao ingressar no mosteiro, não sabia ler, era instruído imediatamente. Também a idade variava. Consta a presença dalguns meninos e jovens. Ao que parece, entravam no mosteiro na qualidade de “pulio” e só aos 16 ou 18 anos de idade decidiam seu retorno ao mundo secular ou sua definitiva incorporação ao mosteiro. A quase totalidade dos monges eram leigos, ou seja, irmãos não clérigos. e vez em quando, contudo, é bem provável o ingresso de algum clérigo; e, com certeza, alguns monges foram agregados ao clero. Foram monges no mosteiro do horto: Evódio, Possidio, Severo e Antônio, bispos, respetivamente de Uzala, Calama, Milevi e Fussala, assim com vários outros (Martínez Cuesta, A., San Agustín, monge e padre de monjes. Mayeutica, 1980, Num. 16)