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DA LUTA INTERIOR À PAZ DA VIDA NOVA

de 31 à 32 anos de idade

O estado de ânimo em que se encontra Agostinho nesse momento é de indecisão. Quer e não quer ao mesmo tempo. Busca e tem medo de encontrar o que busca. Entre os problemas que se apresentam, ao menos um deve ser resolvido o quanto antes: o do matrimônio. Já faz dez anos que vive com a mesma mulher, a mãe de Adeodato, a quem guardou fidelidade. Com esta mulher, porém, segundo o costume de então, não podia constituir um verdadeiro matrimônio por causa de sua condição social.

Mônica, que não busca para seu filho senão a paz e tranquilidade, crê que o único obstáculo é a presença daquela concubina. Trata de afastá-la de seu filho, ajeitando um possível casamento.

“Entretanto, insistiam constantemente para que eu me casasse... Quem mais trabalhava neste sentido era minha mãe... insistia junto a mim nesse matrimônio, e foi feito o pedido formal a uma jovem. Faltavam-lhe ainda dois anos para a idade núbil, mas por ser do agrado de todos, ia-se esperando” (Conf. VI...)

Nós não podemos aprovar a atitude de Mônica nesta ocasião. Menos ainda a submissão de Agostinho. O certo é que aquela mulher, deixando seu filho aos cuidados de Agostinho, acabou se separando dele. A separação foi profundamente dolorosa. O coração de Agostinho experimenta uma ferida grave. Sente correr rios de sangue ante o abandono daquela que lhe deu um filho:

“No entanto, multiplicavam-se os meus pecados. Quando de mim foi arrebatada a mulher com quem vivia, considerada impedimento para meu casamento, meu coração, que lhe era afeiçoadíssimo, ficou profundamente ferido e sangrou por muito tempo. Ela voltou para África fazendo a Ti o voto de jamais pertencer a outro homem e deixando para mim o filho que me havia dado” (Conf. VI, 15, 25)

Agostinho no entanto, depois de haver deixado partir sua mulher sente-se incapaz de guardar castidade e arranja outra mulher. Nas conversas que tem com seus amigos, os problemas do casamento e da castidade ocupam um lugar predominante.

“Mas eu, infelizmente, fui incapaz de imitar a esta mulher! Eu não conseguia suportara a espera de dois anos para receber a esposa que tinha pedido. Na realidade eu não amava o matrimônio; eu era, sim, escravo do prazer. E tratei de arranjar outra mulher, não como esposa legítima, para manter e alimentar intacta ou agravar a doença de minha alma até o casamento, e ai chegar sem haver interrompido meus hábitos”  (Conf. VI, 15, 25)

Não era a primeira vez que Agostinho tentava ajeitar sua vida; num esforço por superar-se e de ver-se livre de ataduras humanas, decidiu fazer a experiência, com uns amigos, de viver somente para as coisas sublimes, dedicando-se inteiramente à vida intelectual. Mas, logo abandonam o projeto..

“Tínhamos organizado o nosso retiro, de modo a colocar em comum os bens que possuíamos, formando assim um patrimônio único...; parecia-nos ser possível reunir numa única sociedade uma dezena de pessoas, algumas muito ricas, sobretudo Romaniano, meu conterrâneo e grande amigo desde a infância... Mas, quando se procurou imaginar como seria tal idéia recebida pelas esposas, que já alguns tinham e outros, como eu, desejavam ter, o plano tão bem formulado, se desfez em nossas mãos, despedaçou-se e foi abandonado” (Conf. VI, 14, 24)

Um pouco adiante Agostinho voltará a expressar sua dificuldade em guardar a castidade e continência.

“Mas eu, adolescente desventurado em extremo, tinha chegado a pedir-te a castidade dizendo: - Dai-me a castidade e a continência, mas não agora” (Conf. VII, 7, 17)

Agostinho não conseguia encher o vazio que sentia em sua alma. Buscava Deus que, contudo, lhe parecia estar num cume elevadíssimo, distante. Não havia caminho senão Jesus Cristo, capaz de levá-lo ao cume. Mas Agostinho não sabia disto. Descobriu-o na leitura das cartas de São Paulo. Nelas foi aprendendo que, para unir-se a Deus, é absolutamente necessário que a alma se purifique, sane as debilidades da carne, faça penitência e se humilhe. “Somente um coração contrito e humilhado pode ver a Deus”.

Assim como o artista, para poder expressar com nobreza as imagens de sua fantasía, deve antes libertar-se de qualquer pensamento baixo e vulgar, assim o cristão, para penetrar no mistério de Deus, deve purificar-se por meio da humildade e da penitência.

Quanto mais lia as cartas de São Paulo, mais se sentia comovido e mais se admirava de sua doutrina.

Agostinho, contudo, não encontrava a maneira de libertar seu espírito do turbilhão de seus sentidos. Até então, havia vivido entregue aos prazeres. No princípio, levado pelo impulso de sua natureza ardente e apaixonada; depois, em virtude da inércia, sentia-se ainda preso ao pecado.

Eis o que espantava Agostinho: como viver privado, não só dos prazeres da carne, senão também daqueles outros pequenos caprichos que ainda traz consigo? Agostinho se sentia enfermo interiormente. Notava dentro de si uma força que o impulsionara ao mal, a qual era impossível de dominar.

“Ficava preso às mais insignificantes bagatelas, às vaidades das vaidades, minhas velhas amigas que me solicitavam a natureza carnal, murmurando: ‘Tu nos vais abandonar?’ E também: ‘De agora em diante, nunca mais estaremos contigo’. E ainda: ‘De agora em diante, não poderás fazer isto ou aquilo’ E que pensamentos me sugeriam, meu Deus, ao dizerem: ‘Isto e aquilo...’

Do lado para onde voltava o rosto e por onde temia passar, apresentava-se a mim a casta dignidade da Continência, com serena alegria e sem desordem... Encontravam-se ai meninos e meninas, grande número de jovens e pessoas de todas as idades, dignas viúvas, virgens, idosas. Em todas elas não era estéril a continência, e sim a mãe fecunda das alegrias geradas de ti, Senhor seu esposo. E a Continência ria, de mim e ao mesmo tempo me exortava, como se dissesse: ‘Não poderás tu fazer o mesmo que fizeram estes e aquelas...” (Conf. VIII, 11, 26-27)

Um dia estava Agostinho em companhia de Alípio, quando recebeu a visita de um conterrâneo seu, um certo Ponticiano, que ocupava um cargo no Palácio Imperial. Ao ver sobre a mesa as cartas de São Paulo, alegrou-se e começou a falar do ascetismo e, de modo concreto, de Antão, eremita cujo nome andava de boca em boca. Como nem Alípio nem Agostinho conheciam nada do movimento ascético dos desertos de Egito, Ponticiano lhes deixou alguns frutos de santidade que se haviam produzido recentemente. Contou-lhes também a história de dois jovens de Trévis, convertidos pela leitura da vida de Santo Antão.

A narração de Ponticiano havia chegado até a última fibra do sentimento de Agostinho. Quando ele partiu, suas palavras continuaram ressoando como um eco e um convite incessante no fundo da sua consciência.

Em seguida, Agostinho se volta para Alípio e, perturbado em seu interior e também em seu aspecto externo, lhe diz:

“O que é que nos aflige tanto? Que significa isso que também tu acabas de ouvir? Erguem-se os incultos e tomam de assalto o reino do céu, enquanto nós, com o nosso saber insensato, nos debatemos na carne e no sangue! Será que nos envergonhamos de seguí-los porque chegaram primeiro, e não nos envergonhamos de deixar de os seguir?“ (Conf. VIII, 8, 19)

Alípio contemplava em silêncio seu amigo. Na realidade, sua voz tinha algo de estranho e insólito. Seu rosto, seu olhar, seus gestos, a cor do rosto expressavam, com mais eloqüência que as palavras, a luta atroz que se realizava em seu interior. Agostinho desceu ao jardim. Alípio, inquieto e temeroso, o seguiu. Sentaram-se em silêncio afastados da casa, entreas sombras das árvores. Agostinho sentia que tinha chegado o momento de firmar um pacto com Deus. A tempestade das dúvidas rugiam em seu interior. Seu espíritu retorcia-se delirante, entre o arrependimento e a penitência. Já havia começado a luta da carne contra o espírito.

“Quando essas severas reflexões me fizeram emergir do íntimo e expuseram toda a minha miséria à contemplação do coração, desencadeou-se uma grande tempestade portadora de copiosa torrente de lágrimas. Para dar-lhes vazão com naturalidade, levantei-me  e afastei-me de Alípio, o necessário para que sua presença não me perturbasse, pois a solidão me parecia mais apropriada ao pranro. Alípio percebeu o estado em que me encontrava: o tom da voz embargada pelas lágrimas, ao dizer-lhe alguma coisa, havia-me traido. Levantei-me, ele permaneceu atónito, onde estávamos sentados. Deizei-me, não sei como, cair debaixo de uma figueira e dei livre curso às lágrimas, que jorravam de meus olhos aos borbotões, como sacrifício agradável a Ti. E muitas coisas eu Te disse, não exatamenter nestes termos, mas com o seguinte sentido: E Tu. Senhor, até quando? Até quando continuarás irritado? Não te lembres de nossas culpas passadas! Sentia-me ainda preso ao passado, e por isso gritava deseperadamente: Por quanto tempo, por quanto tempo direi ainda amanhã, amanhã? Por que não agora? Por que não pôr fim à minha indignidade?   Assim falava e chorava, oprimido pela mais amarga dor do coração. Eis que, de repente, ouço uma voz vinda da casa vizinha. Parecia de um menino ou menina repetindo continuamente uma canção. Toma e lê, toma e lê. Mudei de semblante e comecei com a máxima atenção a observar se se tratava de alguma cantilena que as crianças gostam de repetir em seus jogos. Não me lembrava, porém de tê-la ouvido antes. Reprimi o pranto e levantei-me. A única interpretação possível, para mim, era a de uma ordem divina para abrir o livro e ler as primeiras palavras que encontrasse. Tinha ouvido que Antão, assistindo por acaso a uma leitura evangélica, sentiu um chamado, como se a passagem lida fosse pessoalmente dirigida a ele: ‘Vai, vende os teus bens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus. Depois, vem e segue-me’. E logo, voltei ao lugar onde Alípio ficara sentado, pois, ao levantar-me, havia deixado ai o livro do Apóstolo.. Peguei-o, abri e li em silêncio o primeiro capítulo sobre o qual caiu o meu olhar: ‘Não em orgias nem bebedeiras, nem a devastação e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis satisfazer os desejos da carne.  Não quis ler mais, nem era necessário. Mal terminara a leitura dessa frase dissiparam-se em mim todas as trevas da dúvida, como se penetrasse no meu coração uma luz de certeza” (Conf. VIII, 12, 28-29)

Tudo isto ocorreu no mês de setembro do ano 386. Só faltavam alguns dias para o fim do curso. Preferindo a chegada das férias, Agostinho continuou, por mais três semanas, as aula. Desta maneira evitou os comentários de sua repentina conversão e poupou aos alunos e seus pais os inconvenientes de buscar um novo professor. Por outro lado, o estado de saúde seria uma boa desculpa para abandonar o ensino oficial. A umidade do clima milanês produziu-lhe uma espécie de bronquite crônica.

Passados, pois, aqueles dias finais do curso, Agostinho, livre de todo compromisso, pode em silêncio e recolhimento, preparar-se para receber o sacramento do batismo.

LEITURA

“Marcando a passagem com o dedo ou com outro sinal qualquer, fechei o livro e, de semblante mais tranqüilo,  o mostrei a Alípio. Também ele, por sua vez demonstrou o que lhe acontecera e que eu ignorava. Pediu-me que lhe mostrasse a passagem lida por mim. Mostrei-a, e ele prosseguiu além do que eu havia lido, ignorando eu portanto o que estava  escrito. O texto era o seguinte: Acolhei ao fraco na fé. Alípio aplicou-o a si mesmo e o revelou a sim. Fomos imediatamente à minha mãe e lhe contamos o sucedido. Ela ficou radiante. E nós lhe relatamos como os fatos se tinham desenvolvido. E ela exulta e triunfa, bendizendo-Te, Senhor, que és poderoso além do que pedimos. Verificava que lhe havia concedido muito mais do que ela pedira com lágrimas e orações em meu favor.

De tal forma me converteste a Ti, que eu já não procurava esposa, nem esperança alguma terrena, mas permanecia firme naquela fé em que tantos anos antes me tinhas mostrado em sonho e minha mãe. Transformaste sua tristeza em alegria. Alegria muito maior do que ela poderia esperar dos netos nascidos de minha carne”  (Conf. VIII, 12, 30).