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EM BUSCA DA VERDADE - PROFESSOR EM TAGASTE

O AMIGO FIEL

de 18 à 21 anos

Agostinho não foi a Cartago só para se divertir. A lembrança da morte do seu pai, que aconteceu pouco tempo depois de sua chegada na cidade, os sacrifícios que implicavam seus estudos para a economia da casa, os desvelos e cuidados da mãe e o agradecimento que devia a Romaniano, amigo e colaborador de sua família, o fizeram refletir. Assim, ele sempre quis lhes mostrar seu reconhecimento por médio do êxito nos estudos.

Estudou muito e leu muito também, compreendendo sem esforço as matérias mais difíceis. Ele atribui a Deus sua grande inteligência e nos diz que aprendia sozinho (autodidata), sem sentir dificuldade alguma em assimilar as ciências que seus colegas não compreendiam senão a custa de um grande esforço.

“Seguindo o programa normal do curso, chegou-me às mãos o livro de um tal Cícero, cuja linguagem, mais do que o coração, é quase unanimemente admirado. O livro é uma exortação à filosofia e chama-se Hortêncio. Devo dizer que ele mudou os meus sentimentos e o modo de dirigir-me a ti. Ele transformou as minhas aspirações e desejos. Repentinamente, pareceram-me desprezíveis todas as vãs esperanças. Eu passei a aspirar com todas as forças à imortalidade que vem da sabedoria. Começava a levantar-me para voltar a ti” (Conf. III, 4, 7).

No entanto, o Hortêncio não lhe deu a paz buscava: o nome de Cristo não aparecia em suas páginas. Embora afastado de toda prática religiosa, Agostinho havia ouvido demais o nome de Cristo para deixar-se seduzir pela literatura pagã. Inclusive em Cartago, ia à Igreja, atraído por uma espécie de instinto.

Sentiu então o desejo de ler a Bíblia, mas foi um grande fracasso: o admirador da eloqüência clássica não podia suportar a leitura daquelas páginas escritas em estilo tão humilde.

“Resolvi por isso dedicar-me aos estudos das Sagradas Escrituras, para conhecê-las. E encontrei um livro que não se abre aos soberbos e que também não se revela às crianças. Humilde no começo, mas que nos leva aos píncaros e está envolta em mistério, à medida que se vai à frente. Eu era incapaz de nele penetrar ou de baixar a cabeça à sua entrada” (Conf. III, 5 9).

Agostinho não encontrava paz para sua alma atormentada. Sentia a necessidade de crer; buscava a fé. O ensino de Mônica já não era senão um fraco eco. Indeciso entre a filosofia e a religião, terminou caindo na heresia.

Havia, em Cartago, certos pregadores de mentiras que iam gritando por toda parte: “a verdade!, a verdade!”. Era precisamente o que Agostinho buscava.

A pregação maniquéia apresentava-se, muitas vezes, com aspecto bom e persuasivo aos olhos de Agostinho, desejoso de achar uma explicação ao mistério do universo, sem recorrer a revelações sobrenaturais, a não ser de acordo com as exigências do entendimento e da razão.

Os maniqueus faziam as promessas mais atraentes. Pretendiam saber tudo e explicar tudo: desde a criação do mundo até os mínimos detalhes de seu fim.

É obvio que uma doutrina como essa, com essas garantias, estimulou o espírito de Agostinho. Quando se propôs a ler a Bíblia não encontrou senão doutrinas misteriosas; e quando pedia explicações, diziam-lhe que tinha somente que crer.

Com bonitos discursos os maniqueus lhe prometiam explicações a todos os problemas. Falavam com ênfase de dois princípios: o do  bem e o do mal, que se enfrentam numa luta sem quartel e cuja evidência descobriam em toda parte.

Agostinho entrega-se com todo entusiasmo ao maniqueismo e termina os estudos em Cartago. Em vez de ficar na grande metrópole, onde poderia brilhar entre os mais famosos, preferiu voltar a Tagaste e abrir, entre seus conterrâneos, uma escola de gramática.

Sua mãe recebeu sua chegada com alegria e também com certa inquietude e tristeza. A conduta do filho, a quem tanto amava, não deixava de preocupar-lhe. Via-se obrigada a permitir ou tolerar que vivesse com uma concubina. Ela própria havia sofrido, durante longo tempo, as infidelidades do marido. Agora não podia reprovar, em seu filho, as debilidades da carne e dos atrativos da paixão.

Não podia, contudo, suportar sua adesão ao maniqueismo. Por isto, recusa recebê-lo em sua casa. Agostinho, então, se hospeda na casa de seu amigo Romaniano.

Desde seu regresso a Tagaste dedicou seus esforços a ensinar gramática e a pregar por toda parte a doutrina maniquéia, chegando a conquistar várias pessoas de relevo social: Romaniano, seu rico benfeitor, Alípio, um jovem que deve ter sido seu amigo íntimo, Honorato, distinto cidadão.

Durante este tempo, Mônica não cessava de rezar por aquele jovem prodígio. Sua vida sempre fora piedosa e caritativa, mas a morte de seu marido fez com que se consagrasse inteiramente à oração e prática de boas obras. Por isso, não podia admitir que Agostinho se constituisse em inimigo da Igreja e arrastasse atrás de si, pelo mesmo caminho, os amigos e conhecidos.

A narração seguinte, do próprio Agostinho, nos fala de tudo quanto sofreu Mônica.

“Nesse sonho, (Mônica) viu-se de pé sobre uma régua de madeira, e um jovem luminoso e alegre lhe foi sorridente ao encontro, enquanto ela estava triste e amargurada. Perguntou-lhe os motivos da tristeza e das lágrimas cotidianas, não por curiosidade, mas para instruí-la como acontece muitas vezes. E, respondendo, ela disse que chorava minha perdição. Ele a confortou, aconselhando-lhe que prestasse atenção e visse que onde ela se encontrava, ai estava também eu. Ela olhou e me viu diante de si, de pé, na mesma régua”. (Conf. III, 11, 19)

Este sonho, para Mônica, foi de grande consolo. Apressou-se a contara a Agostinho. Este, gozador como todos os jovens, respondeu a sua mãe que a visão significava que ela se converteria ao maniqueismo. Mas, a mãe respondeu-lhe, sem vacilar, que esse não podia ser o sentido do sonho. Não era ela que se aproximava dele, mas Agostinho dela. Este acontecimento deve ter impressionado vivamente o jovem.

Mônica, porém, não se contentava em só rezar pelo seu filho. Pedia conselhos por toda parte. E com esta finalidade foi visitar um bispo, especialista no estudo das Sagrada Escritura. Este bispo, muito hábil em controvérsias, sobre a Bíblia, havia conduzido muitos pecadores ao caminho da verdade. No entanto, não aceitou o convite de Mônica para falar com seu filho. Respondeu-lhe simplesmente: “Agostinho se converterá”.

“Minha mãe, porém, não se rendeu a essas palavras, mas insistiu suplicando-lhe com muitas lágrimas, que me fosse ver e tivesse uma conversa comigo, até que o bispo, já um tanto aborrecido, respondeu-lhe: “Vá e viva em paz, pois é impossível que possa perecer um filho de tantas lágrimas”. (Conf. III, 12, 21)

As preces, exortações e os exemplos de sua mãe não eram estéreis no coração e alma de Agostinho. Externamente parecia o mesmo: continuava com suas aulas de gramática e atendia os novos prosélitos que ia fazendo para o maniqueismo. Mas, no fundo, sentia-se conturbado. A segurança de Mônica e o fervor de suas orações acabou por inquietá-lo. Não sabia muito bem onde se encontrava. Um triste acontecimento produziu nele uma sacudida que seria decisiva.

Em Tagaste, tivera um amigo particularmente muito querido. Cresceram e brincaram juntos. Estudaram, desde a infância, na mesma escola e participaram dos mesmos entretenimentos.

Aconteceu que este amigo caiu gravemente enfermo. Um dia que estava inconsciente e banhado em suor, temendo um fatal desenlace, administraram-lhe o sacramento do batismo, sem que ele pedisse e nem sequer se desse conta. Agostinho começou a escarnecer daquele batismo e pensou que seu amigo faria o mesmo quando recobrasse a consciência.

De fato, quando o doente pode falar, Agostinho quis fazer uma gozação com ele, mas para sua surpresa, no mesmo instante faz uma cara terrível como se tratasse de um inimigo; e com estranha e súbita clareza fez-lhe ver que se queria ser e continuar sendo seu amigo devia deixar de falar-lhe daquele modo. Estupefacto e perturbado, Agostinho escutou a reprovação do amigo e pensou deixar aquelas gozações, ao menos durante a enfermidade. Mas aquele amigo não se curou. Teve uma recaída e, poucos dias depois, morreu. A morte deste amigo o desesperou. Eis aqui parte do relato: “O sofrimento encheu-me de trevas o coração, e eu não via senão a morte em toda parte. A pátria tornou-se para mim um tormento; a casa paterna, motivo de infelicidade, e tudo o que tivera em comum com ele, agora, em ele, transformava-se em sofrimento ilimitado. Meus olhos o procuravam por toda parte sem encontrá-lo; eu odiava o mundo inteiro me aborrecia, porque o amigo não mais existia, e ninguém podia dizer-me: ‘Ai vem ele’, como, quando em vida, se ausentava por algum tempo. Tornei-me um grande problema para mim mesmo e perguntava à minha alma por que estava tão triste e angustiado, mas não tinha resposta. Se eu lhe dizia: ‘Confia em Deus!’, ela não me obedecia, e com razão, pois a pessoa queridíssima que havia perdido era melhor e mais real que o fantasma no qual eu pedia que ela esperasse. Somente as lágrimas me eram doces e substituíam o amigo no conforto do meu espírito” (Conf. IV, 4, 9)

Dificilmente podemos imaginar o estado de ânimo que aquela morte lhe produziu. Não era a primeira vez que se encontrava com a morte. Já tinha visto seu pai expirar no nome do Senhor, pois Mônica conseguiu convertê-lo na última hora. Mas, não havia experimentado tão grande emoção como quando morreu seu amigo.

Aconteceu, no entanto, que sua estada em Tagaste ficou insuportável. Sentia a urgência de mudar de lugar. Tagaste, onde havia ensinado a gramática, trazia muitas e tristes recordações. Com a rapidez própria de seu temperamento impulsivo, concebeu uma idéia atrevida: regressar a Cartago e lá abrir uma escola de retórica. Ao final do ano 375 já estava de novo na cidade onde havia de permanecer oito anos.

O MANIQUEISMO

O maniqueismo recebeu este nome de Manês ou Mani, seu fundador, que viveu aproximadamente no ano 216. Ele pretendeu dar solução aos problemas de universo, sobretudo, conhecer e ensinar qual a origem do bem e do mal. Por isso, segundo os maniqueus, o mundo e tudo o que ele contêm, se acha integrado por dois princípios soberanos e co-eternos: um bom e outro mal. O corpo do homem não procede do Deus bom, mas do mal. Existe no homem uma partícula do Deus bom e uma substância má do Deus mal, a qual se identifica com a concupiscência. As virtudes são triunfos do princípio bom e os vícios, vitórias do princípio mal. Seus seguidores se dividiam em duas classes: os ‘eleitos’ ou ‘santos’, e os ‘auditores’ ou ‘ouvintes’. Não tinham comunicação alguma entre si. Os eleitos eram poucos, mas estavam encarregados de entreter os ouvintes. Agostinho não passou nunca da categoria de  ‘ouvinte’, mas chegou a conhecer a fundo toda a doutrina e sua conduta. Por isso, depois de convertido, pode refutar completamente os maniqueus, como o martelo que os desfez.