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NASCIMENTO, INFÂNCIA E PRIMEIROS ESTUDOS

(até os 15 anos de idade)

Tudo que você vai ler sobre Santo Agostinho tem duas bases muito seguras: as “Confissões”e a “Vida de Santo Agostinho”,  escrita por são Possídio, companheiro do santo e a quem santo Agostinho chama de “santo irmão e meu amigo”. É a biografia mais antiga que se conhece do bispo de Hipona.

NASCIMENTO

Agostinho nasceu o 13 de novembro do ano 354. Embora nascido de uma mãe cristã, não foi batizado imediatamente. Era comum, sobretudo na Igreja de África, o costume de se batizar em uma idade mais avançada, porque se acreditava que os pecados cometidos depois do sacramento do batismo não podiam ser perdoados tão facilmente como os cometidos antes. Costume perigoso que a Igreja local se apressou em abolir. Muitos jovens, de fato, animados às vezes por seus pais se abandonavam aos vícios, com a certeza de que, um dia, a água do batismo lavaria todas as manchas do pecado (cf. Confissões I, 11, 18)

Mônica, mãe de Agostinho, se conformou com o costume de seu país e com a tradição da Igreja. De qualquer maneira, o menino foi inscrito imediatamente no número dos “catecúmenos”. Segundo o rito, foi feito o sinal da cruz sobre sua testa e se colocou sal em sua boca. Mônica o alimentou na fé e, desde cedo, o fez gostar do nome de Cristo.

OS PAIS DE AGOSTINHO

Entre os pais de Agostinho havia uma certa divisão: seu pai Patrício era pagão, enquanto Mônica era cristã. Existia, sobretudo, uma grande diferença de caráter: e Mônica teve necessidade de muita paciência e habilidade para conviver com seu esposo.

“Meu pai era, por um lado, muito benigno e amoroso; por outro, muito iracundo e colérico. Quando ela o via irado, tinha o cuidado de não lhe contradizer nem por atos, nem por palavras. Depois, quando a ocasião lhe parecia oportuna e, passado aquele aborrecimento, o via sossegado, então lhe mostrava como tinha se irritado sem refletir” (Conf. IX 9, 19)

Finalmente, a virtude de Mônica restabeleceu a felicidade no lar e, além disso, teve o consolo de ver seu marido abraçando a verdadeira fé e progredindo no conhecimento de Deus.

Patrício pertencia ao grupo de dirigentes do município e tinha o título de “decúrio”. Não sabemos exatamente qual era sua posição econômica e social. Podemos supor, contudo, que suas propriedades eram bem modestas, já que nos constam suas grandes dificuldades em reunir o necessário para enviar Agostinho ao que podemos chamar de “universidade” de Cartago.

Patrício e Mônica tiveram mais dois filhos e uma filha: Navigio, que se converteu junto com Agostinho e uma irmã, Perpétua, que se casou, ficou viúva e tornou-se superiora do mosteiro de Hipona. A figura de Aurélio Agostinho, como o chamaram desde o princípio, se destaca, rodeado de uma intensa luz. Seus irmãos ficaram na penumbra.

A  INFLUÊNCIA  DE  MÔNICA

Em seus primeiros anos, Agostinho demonstrava ser um menino vivo e muito inteligente. Como todas as crianças, gostava de brincar. entre seus companheiros, se destacava pela facilidade de palavra  e pelo encanto de sua conversa. Era, sem dúvida, o “cabeça”, da turma: característica de futuro dominador de almas...

Entretanto, sua mãe o instruía na fé. Falava-lhe de Deus e da humildade de Jesus ao se fazer homem e morrer na cruz por nós.

Estas lições ficaram vivamente impressas em seu coração e em sua fantasia de criança, sobretudo ao ver a incredulidade de seu pai Patrício ser vencida pela piedade de sua mãe. Mônica possuía o dom da persuasão: suas palavras, suas imagens, tinham uma força sedutora tão grande que, dificilmente se podia esquecer.

Em certa ocasião, caindo Agostinho gravemente enfermo, com uma violenta febre e fortes dores no estômago, a ponto de temerem por sua vida pediu, com insistência, o batismo. Este gesto parece estranho a uma criança; mas, certamente, trata-se do efeito dos ensinamentos da mãe. Mônica quis satisfazer o desejo do filho, mas logo o doente começou a melhorar e o batismo foi adiado para outra ocasião.

A influência de Mônica na formação de Agostinho foi extraordinária. Isso se deve a educação que ela mesma recebeu em sua casa paterna.

NA  ESCOLA  DE  TAGASTE

Já curado, Agostinho voltou a suas brincadeiras e seus amigos. E, quando chegou a idade de ir à escola de Tagaste, começou a aprender os primeiros rudimentos do alfabeto e da leitura. Mais tarde recordará, com tristeza, esses primeiros anos: os bancos da escola, onde devia permanecer sentado horas e horas, sempre sob a ameaça da varinha de um severo professor; o repetir monótono da cantilena: “um e um, dois; dois e dois, quatro...”.

Agostinho detestava a escola e o que nela se ensinava. Os castigos se repetiam todos os dias, sem que se passasse um só dia em que não recebesse golpes da régua do professor. Em sua casa, queixava-se aos pais, mas eles, escarneciam dele. Inclusive sua boa mãe ria dele. E o pobre menino não sabia a quem recorrer. Lembrava-se, então, de ter ouvido falar de Deus, daquele Deus infinitamente bom e grande, que protege os pequenos e oprimidos. E com toda a simplicidade de seu coração rezava: “Ó, meu Deus! Não deixe que eu seja castigado hoje na escola”.

Por outro lado, tinha uma paixão tão grande pelo jogo, que isto lhe induzia a enganar seus professores e pais, cometendo inclusive outros atos pouco recomendáveis: “Cometia também furtos na despensa e na mesa de meus pais, ora dominado pela gula, ora para ter com que pagar aos companheiros que vendiam seus jogos, mas que se divertiam tanto quanto eu. E, até no jogo, cometia fraudes, dominado pelo meu afã de sobressair” (Conf. I, 19, 30).

NA  ESCOLA  DE  MADAURA

Assim, Agostinho foi enviado para estudar gramática na vizinha cidade de Madaura. Talvez fosse a primeira vez que o menino Agostinho saia de sua cidade Tagaste.

Madaura apresentava o aspecto aristocrático de uma grande cidade: rica em monumentos, sede importante de estudos e cultura... Por toda parte se via arcos de triunfo, templos, termas, pórticos, estatuas.

Agostinho vivia num mundo maravilhoso, onde tantas lendas e tantas obras de arte excitavam sua natural tendência à admiração da beleza. A vida em Madaura não era feita para um jovem católico que quisesse perseverar na sua fé. Lá, o cristianismo era considerado como uma religião de povos bárbaros. A maior parte da população era considerada pagã, como também seus costumes e festas.

Neste ambiente, fora de casa, o filho de Mônica ia esquecendo os ensinamentos de sua mãe e, ao mesmo tempo, se distanciava pouco a pouco do cristianismo.

O estudo dos diferentes autores se efetuava de acordo com certos métodos tradicionais: era lida uma passagem em voz alta que, depois, era recitada de memória. Dava-se a máxima importância à dicção e pontuação. A pontuação, às vezes, não era exata; então era preciso a ajuda do professor. Como os  livros eram copiados a mão, é fácil compreender porque havia muitas variações. O professor escolhia aquela que fosse do seu agrado. Desde cedo, brilhou Agostinho entre seus colegas. E seus mestres descobriram nele um menino de futuro, para não dizer um menino “prodígio”. Um dia, teve que declamar um discurso que ele mesmo havia composto.

Tratava, o discurso, da dor e da cólera de Juno que não podia impedir que os Troianos chegassem a Itália. Era um tema clássico. O jovem orador declamou de maneira tão real e emocionante, que seus companheiros não puderam deixar de aplaudir. Patrício e Mônica podiam se sentir orgulhosos de seu filho.

VALOR HISTÓRICO DAS CONFISSÕES

As Confissões de santo Agostinho não são uma obra autobiográfica, rigorosamente falando, mesmo quando fala a seu favor ou contra si mesmo. Santo Agostinho era de temperamento sincero e amigo da verdade. Quando escreve suas Confissões já se acha nos cumes da santidade. Se, as vezes, se encontram nelas frases de extremo rebaixamento, declarando-se “o mais pecador dos homens”, “um abismo de corrupção” ou “um monstro de iniqüidades”, estas frases não têm, nele, mais sentido que o que tem na boca dos santos; não implicam senão um aspeto parcial e relativo da realidade objetiva. Nas Confissões, temos que distinguir também o “fato” do “comentário”. Santo Agostinho expõe normalmente o fato de modo lacônico e rigoroso e, sobre ele, se estende, em seguida, em amplos e sutis comentários. Veja, por exemplo, o fato do roubo das pêras, narrado no capítulo 4 do livro II, ao qual segue um comentário de vários capítulos. Assim começa o livro II: “Quero, agora, recordar as minhas torpeças passadas, as corrupções de minha alma, não porque as ame, ao contrário, para te amar, ó meu Deus. É por amor do teu amor que retorno ao passado, percorrendo os antigos caminhos dos meus graves erros. A recordação é amarga, mas espero sentir a tua doçura, que não engana, doçura feliz e segura; e quero recompor a minha unidade, depois dos dilaceramentos que sofri, quando me perdi em bagatelas, ao afastar-me de tua unidade”.