INTRODUÇÃO  AOS  SACRAMENTOS

No profeta Isaías se encontra esta passagem: "Tirareis com gosto a água das fontes do salvador" (1). Bem se pode aplicar este trecho aos sacramentos que são os canais das graças da redenção. A teologia dá esta definição: o sacramento é o sinal sensível instituído por Cristo para conferir a graça.

Cada vocábulo está prenhe de sentido.

Sinal sensível, ou seja, meio pelo qual Deus se comunica com o ser racional. São João Crisóstomo dizia: "Cristãos, se fosses incorpóreo os dons que Deus te faz também o seriam; mas como tua alma está unida a um corpo, Deus quis apresentar-te por meio dos dons sensíveis o que não pode ser captado senão pela inteligência" (2).  Efeitos sobrenaturais estão simbolizados pela matéria empregada, como é o caso da água no batismo. Diz o ritual: "Ó Deus, pelos sinais visíveis dos sacramentos realizais maravilhas invisíveis. Ao longo da história da salvação vós vos servistes da água para fazer-nos conhecer a graça do batismo. Já na origem do mundo vosso espírito pairava sobre as águas para que fossem capazes de gerar a vida. Nas águas do dilúvio pusestes fim aos vícios e, ao mesmo tempo, fizestes surgir um novo começo para a humanidade. Concedestes aos filhos de Abraão atravessar o mar Vermelho a pé enxuto, para que, livres da escravidão prefigurassem o povo, nascido na água do batismo. Vosso Filho, batizado nas águas do Jordão, foi ungido pelo Espírito Santo. Pendente da cruz, do seu coração aberto pela lança fez correr sangue e água" (3).  Belíssimo o significado da unção do crisma; do pão e do vinho; da imposição das mãos do bispo sobre o ordenado; da unção com óleo sobre os enfermos; do direito a coabitação e das palavras que exprimem este direito no momento da recepção do matrimônio. Estes elementos sensíveis são determinados pela forma que são as palavras que dão o sentido espiritual ao sinal empregado. A celebração litúrgica dos sacramentos pertence assim ao mundo dos signos, linguagem expressiva que representa a riqueza imensa que Cristo quer, mediante eles, comunicar aos homens. Através dos séculos a Igreja teceu em torno destes símbolos da graça a rede áurea de um cerimonial rico de doce poesia, com uma estrutura pedagógica, objetivando a comunicação dogmática e litúrgica, valorizando esta herança divina. São preces e ritos a acentuarem os gestos de misericórdia e do poder do Mestre, contemporâneo das gerações cristãs. Os efeitos sobrenaturais não dependem da competência pessoal do ministro, uma vez que é Cristo mesmo quem sempre opera através de seu representante para isto deputado. Toda virtude do sacramento vem do Redentor, seu autor e principal ministro. Apenas Cristo, enquanto Deus poderia instituir estes meios de santificação pelos quais ele prosseguiria pelos tempos afora seu ofício sacerdotal. A graça conferida é a participação da vida divina ou o crescimento nela, bem como auxílios eficazes para a prática das virtudes exigidas pela natureza mesma do sacramento então recebido. Os teólogos falam na graça santificante ou habitual e nas graças atuais, apoio especial do Onipotente que sustenta o fiel nas diversas circunstâncias da vida. Como mostra santo Tomás, "os sacramentos da Nova Lei não são causa principal da graça, não agem por si mesmos, são causas intrumentais. Como os outros instrumentos, têm dupla ação. Uma ultrapassa a natureza própria e tem sua fonte na força natural do agente principal, que é Deus: a ação de santificar. A outra ação, o sacramento a exerce em virtude de sua própria natureza, tal ação de lavar, ungir... e esta atinge corporalmente o homem santificado: per se em seu corpo, per accidens em sua alma (que percebe sensivelmente a ação corpórea); e atinge espiritualmente a alma mesma, enquanto ação percebia intelectualmente por ela como um sinal da purificação espiritual" (4)

Com relação ao número, o Concílio de Trento definiu: "Se alguém disser, que os sacramentos na Nova Lei não foram todos instituídos por Jesus Cristo Senhor Nosso, ou são mais ou menos do que sete, a saber, batismo, confirmação, Eucaristia, penitência, extrema unção, ordem e matrimônio, ou também que algum destes sete não são verdadeira e propriamente sacramento: seja excomungado" (5)

Os sacramentos pressupõem a fé. Sem esta nada significam. São manifestações vazias e inexpressivas.

Levar outros às fontes do Salvador é belo apostolado. Aproximar-se de Cristo através destes mananciais de seus favores é libertar-se do egoísmo, purificar-se das máculas terrenas, alimentar a crença, incrementar a esperança e fazer crescer a caridade.

Viver a realidade sacramental é intensificar o encontro pessoal e livre com o Filho de Deus.

Isto modifica o modo de ser e leva o homem à perfeição.

 

01. Isaias, 12,3.

02. Apud Justo Pérez de Úrbel, Itinerário Litúrgico, Madrid, Ediciones Fax, 1953, p. 138

03. Ritual do Batismo - Bênção da água batismal

04. De Veritate 6, q. 27, a. 4 ad 2m.

05. Denziger - Schönmetzer, Enchiridion Symbolorum definitionum et de declarationibus de rebus fidei, Barcione, Herder, MCMLXV, p. 382.