EUCARISTIA, VIDA DA IGREJA

No dia 17 de abril de 2003, quinta-feira santa, João Paulo II promulgou sua décima quarta encíclica, intitulada Ecclesia de eucharistia. O título é tirado das primeiras palavras do documento em latim, traduzidas literalmente: a Igreja da Eucaristia vive.

 Objetivo e contexto do documento

Pelo documento, o Papa quer despertar um novo enlevo eucarístico, um novo encantamento pela Eucaristia, um novo apreço, uma renovada estima pelo sacramento do altar.

Para isto, retoma alguns aspectos teológicos fundamentais deste precioso dom de Cristo à Igreja – a Eucaristia é mistério da fé, constrói a Igreja, é sinal e fator da comunhão eclesial, tem, como a própria Igreja, fundamento apostólico, o indispensável zelo na sua celebração e sua dimensão Mariana. A partir deles, aponta algumas iniciativas pastorais a serem desenvolvidas e chama atenção para aspectos disciplinares não bem observados e para falhas a serem corrigidas.

Anuncia também um documento posterior, a ser elaborado pelos setores competentes da Cúria Romana, sobre as normas litúrgicas a respeito da celebração eucarística, incluindo referências de caráter jurídico. É de se esperar que o mesmo dê continuidade à renovação litúrgica, catequética, enfim, pastoral desencadeada pelo Concílio Vaticano II, confirmando os passos dados em tantos lugares na adaptação, inculturação e criatividade na liturgia.

Pela nova encíclica, o papa quer também dar continuidade ao grande jubileu do ano 2000. O primeiro documento dele apontando caminhos a serem percorridos pela Igreja após o Jubileu foi Novo millennio ineunte (no Início do Novo Milênio), no qual convidou a todos a navegar nas águas profundas da Nova Evangelização do mundo atual. Exortou a identificar e apreciar as abundantes e inúmeras graças do ano santo e fazê-las frutificar em ardentes propósitos e diretrizes de ação de acordo com a realidade concreta de cada Igreja local. O segundo documento foi o rosário da Virgem Maria, chamado pelo próprio Papa de coroamento mariano do evento jubilar. Nele fez o relançamento do rosário. Em síntese, pelos três documentos, João Paulo II propõe avançar em águas mais profundas, contemplando o rosto de Cristo, com Maria, de modo especial onde Ele mais e melhor se encontra, a Eucaristia.

No início de seu pontificado, em outubro de 1978, João Paulo II exortou a ninguém ter medo de abrir as portas para Cristo. Revelou grande expectativa e até mesmo ansiedade por celebrar o Jubileu dos dois mil anos do nascimento de Cristo. Agora, a partir da celebração jubilar, convoca a seguir em frente com determinação e esperança, contemplando o Cristo, “o autor e consumador de nossa fé” (Hb. 12,1).

 Eucaristia, mistério da fé

Em cada celebração eucarística, o ministro ordenado que a preside anuncia: eis o mistério da fé e a assembléia confirma: anunciamos, Senhor, a vossa Morte e proclamamos a vossa Ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!

A Eucaristia brotou do coração de Cristo ao viver o drama de sua Paixão e Morte. Antecipou para os apóstolos a participação no sacrifício de sua vida e deixou para a Igreja a possibilidade de participar posteriormente no mesmo sacrifício. Ele não só realizou o sacrifício redentor, mas também nos deixou o meio de participarmos dele como se nele estivéssemos presentes.

Na eucaristia, Cristo entregou à Igreja o sacrifício de sua vida oferecida ao Pai, chamando-a a oferecer-se a si própria a Deus com Ele. Por ter ressuscitado, Cristo dá à sua Igreja o Pão da vida e o cálice da bênção, por transformar, de forma real, o pão e o vinho em seu Corpo e em seu Sangue. É verdadeiro mistério da fé, que vai além da compreensão humana e só pode ser aceito na fé. É também mistério de luz. Nela, podemos reviver a experiência dos discípulos de Emaús: termos os olhos abertos e reconhecermos Jesus Ressuscitado (Lc. 24,31).

Sacrifício real de Cristo, a eucaristia é também verdadeiro banquete, no qual Ele se dá em alimento, para possuirmos desde já a vida eterna.

Pelas circunstâncias dramáticas em que foi instituída e que faz reviver, não se pode celebrá-la sem ter presente o drama vivido pelos irmãos e pelas irmãs. Como ela anuncia não só a morte de Cristo mas também sua ressurreição e por isso alimenta a esperança na vida eterna, ela exige empenho total de cada participante no cumprimento de suas obrigações familiares, comunitárias e sociais, visando a justiça e a solidariedade nas relações humanas. Esta exigência se torna mais aguda no atual mundo globalizado, no qual os mais pobres pouco ou nada podem esperar. Mas é justamente nele que deve brilhar a esperança cristã.

Por anunciar a morte de Cristo até que ele venha, a eucaristia inclui o compromisso de cada participante tornar eucarística a própria vida.

A eucaristia constrói a Igreja

O Concílio Vaticano II acentuou que a eucaristia é o ponto alto da vida da Igreja. A Igreja vive da Eucaristia, por ela é alimentada, por ela é iluminada. Ela manifesta e faz crescer a comunhão dos que crêem em Cristo. Nela recebemos Cristo e somos por Ele recebidos. Nela é consolidada a unidade dos que a celebram. Porque Cristo nos dá seu Corpo a comer e seu Sangue a beber, entramos em comunhão sacramental com Ele. São João Crisóstomo lembra que o pão é transformado em Corpo de Cristo e quem o recebe é transformado também no corpo de Cristo, seu corpo vivo que é a Igreja.

Neste item, o papa aponta como iniciativa pastoral o estímulo ao culto eucarístico fora da Missa. Tal iniciativa compete acima de tudo aos pastores, inclusive com o testemunho pessoal nas exposições do Santíssimo Sacramento e também com visitas de adoração a Cristo presente nas espécies eucarísticas.

A propósito deste aspecto, na introdução, João Paulo II chama atenção de que em alguns lugares se verifica um abandono quase completo do culto de adoração eucarística.

A apostolicidade da eucaristia e da Igreja

Numa das fórmulas do creio, dizemos que a Igreja é una, santa, católica e apostólica. Pode-se também conferir à eucaristia estes atributos. A expressão a Igreja é apostólica, como também a eucaristia, tem três significados: ela é constituída sobre o alicerce dos apóstolos, testemunhas escolhidas e enviadas em missão por Cristo; ela guarda e transmite, com a ajuda do Espírito Santo, a doutrina recebida dos apóstolos; ela continua a ser ensinada, santificada e dirigida pelos apóstolos, por meio dos seus sucessores, os bispos.

Observações pastorais e disciplinares do papa a partir deste aspecto:

- Nesta sucessão apostólica se situa o ministro ordenado, indispensável e insubstituível para uma comunidade celebrar a eucaristia.

- Cabe unicamente ao sacerdote recitar a oração eucarística.

- Deve-se dar graças a Deus pelos avanços no campo do ecumenismo. Porém, mesmo respeitando as convicções religiosas dos irmãos separados, os católicos não podem participar da comunhão nas suas celebrações, nem podem substituir a missa do domingo por celebrações ecumênicas da Palavra ou encontros de oração comum.

- “Se a eucaristia é o centro da vida da Igreja, o é igualmente para o ministério sacerdotal. A eucaristia é a principal e central razão de ser do sacramento do sacerdócio” (n° 31). Que o sacerdote viva a recomendação conciliar de celebrar diariamente a Eucaristia. Com ela, vencerá a dispersão das múltiplas tarefas pastorais, encontrará a força de realizá-las e um centro unificar de sua vida e de seu ministério.

- Da centralidade da eucaristia na vida e ministério dos sacerdotes, deriva o empenho deles na pastoral em favor das vocações sacerdotais. É indispensável e urgente prover as comunidades da celebração eucarística, que requer a presença do sacerdote.

A eucaristia e a comunhão eclesial

A Igreja é mistério de comunhão. É sua missão promover a comunhão com a Trindade e a comunhão dos fiéis entre si. A eucaristia é o sacramento por excelência da comunhão. Ela celebra a comunhão e é realizada na comunhão. A eucaristia celebra a comunhão e faz crescer nela.

Observações pastorais e disciplinares:

- Quando há quebra de comunhão, não se pode receber o sacramento da comunhão, sem antes celebrar o sacramento da reconciliação. Não pode comungar quem obstinadamente persevera em pecado grave manifesto.

- Não é possível dar a comunhão a quem não é batizado ou rejeita a verdade integral de fé sobre o mistério eucarístico.

- A comunhão da assembléia eucarística deve ser precedida da comunhão com o próprio bispo e com o papa e nela prolongada.

- A força da Eucaristia de promover a comunhão revela a importância da missa dominical, à qual todos são obrigados, salvo impedimento grave.

- No contexto da eucaristia como sacramento da comunhão eclesial se insere o empenho pelo ecumenismo, no qual, a partir do concílio Ecumênico Vaticano II, foram dados passos muito significativos. Mas porque a celebração da eucaristia, expressão da unidade da Igreja, “comporta a exigência imprescindível duma completa comunhão nos laços da profissão de fé, dos sacramentos e do governo eclesiástico, não é possível concelebrar a liturgia eucarística enquanto não for restabelecida a integridade de tais laços” (n° 44 da encíclica). Neste ponto, o Papa expressa ardente desejo de se vir a celebrar juntos a única eucaristia do Senhor e lembra a possibilidade de pessoas de outras Igrejas ou comunidades eclesiais, em circunstâncias, receberem a comunhão eucarística em celebrações da comunidade católica.

O decoro da celebração eucarística

Pela narração dos evangelhos, causa admiração a simplicidade e ao mesmo tempo a dignidade com que Jesus instituiu a Eucaristia. Mas antes de Jesus enviar os discípulos a fazerem uma cuidadosa preparação para celebrar a ceia pascal, numa “grande sala”, houve a “unção de Betânia”. Uma mulher usou com abundância, sem medida, perfume precioso para ungir Jesus, levando Judas a perguntar porque não vender aquilo para ajudar os pobres. A partir desta cena, o Papa diz que a Igreja nunca teve receio de “desperdiçar” (esbanjar) investindo o melhor dos seus recursos diante do dom incomensurável da eucaristia. Para garantir a dignidade da celebração e de tudo o que envolve este sacramento, banquete sagrado, pão dos anjos, a Igreja foi criando regulamentação especial para a liturgia eucarística e desenvolvendo rico patrimônio de arte na arquitetura, na pintura, na música, na escultura, inspirado na eucaristia.

Observações disciplinares:

- Toda atenção possível às normas que regulamentam a construção e o adorno dos edifícios sacros.

- Não empobrecer ou prejudicar o precioso “tesouro” com a introdução de experimentações ou práticas sem cuidadosa verificação das competentes autoridades eclesiásticas.

- Observância, com grande fidelidade, das normas litúrgicas, sem inovações não autorizadas e muitas vezes completamente impróprias. Esta observância é expressão concreta da autêntica eclesialidade da eucaristia e modo silencioso e expressivo de amor à Igreja.

É aqui que o Papa anuncia um documento específico para reforçar as normas litúrgicas, arrematando: “A ninguém é permitido aviltar este mistério que está confiado às nossas mãos: é demasiado grande para que alguém possa permitir-se de trata-lo a seu livre arbítrio, não respeitando o seu caráter sagrado nem a sua dimensão universal” (final do n° 52).

Na escola de Maria, mulher “eucarística”

Não se fala de Jesus, o Filho de Deus feito um de nós, sem falar de Maria, sua Mãe. E não se fala dela senão por causa de seu Filho. Para compreender melhor o mistério da Eucaristia é necessário refletir também sobre a relação dela com este sacramento.

Os relatos evangélicos da instituição da eucaristia não mencionam a presença de Maria no Cenáculo. Mas ela esteve com os apóstolos em oração aguardando o Espírito Santo. Ela acompanhou com carinho de mãe as primeiras comunidades reunidas na fé em seu Filho Ressuscitado pela força do Espírito. Nelas, seguramente, participou da celebração eucarística, comungando o Corpo de Cristo, acolhendo-o novamente em seu ventre.

Alguns aspectos desta relação entre Maria e a eucaristia segundo o documento:

· A palavra de Cristo: “fazei isto em minha memória” lembra a recomendação de Maria em Caná: “fazei tudo o que Ele vos disser”.

· O “fiat”, o sim de Maria ao anjo que lhe pedia para acreditar que aquele que ela concebia pelo Espírito Santo era o Filho de Deus lembra o “amém” que cada fiel diz ao receber a comunhão proclamando crer que o pão consagrado é o Corpo de Cristo.

· Sua contemplação de Cristo recém-nascido, estreitando-o em seus braços é o modelo do amor que se deve ter para Cristo eucarístico.

· Maria participou da dimensão sacrificial da Eucaristia de forma antecipada quando levou seu Filho ao templo e ouviu a profecia de Simeão, concretizando-a depois ao pé da Cruz e participando da celebração eucarística presidida pelos apóstolos.

· Receber a eucaristia é receber também Maria, acolhendo-a como Mãe, a exemplo de João.

· Celebrar a eucaristia é viver o perfeito louvor ao Pai em Cristo, por Ele e com Ele. Maria, ao cantar seu louvor ao Pai no magnificat, carregava Jesus em seu ventre. Louvou o Pai por Jesus, mas também nele e com ele. “Se o Magnificat exprime a espiritualidade de Maria, nada melhor do que esta espiritualidade nos pode ajudar a viver o mistério eucarístico. Recebemos o dom da eucaristia, para que a nossa vida, à semelhança da de Maria, seja toda ela um magnificat” (final do n° 58).

 Viver a eucaristia em sua integridade

A Eucaristia, insiste o papa, é o tesouro da Igreja, o coração do mundo, o penhor da meta para qual, mesmo inconscientemente, anseia toda pessoa humana. Nela temos Jesus, o seu sacrifício redentor, a sua ressurreição, o dom do Espírito Santo, a adoração, a obediência e o amor ao Pai. Importa vivê-la em sua integridade, sem reduções nem instrumentalizações. “Então a Igreja fica solidamente edificada, e exprime-se o que ela é verdadeiramente: una, santa, católica e apostólica; povo, templo e família de Deus; corpo e esposa de Cristo, animada pelo Espírito Santo; sacramento universal de salvação e comunhão hierarquicamente organizada” (n° 61).

padre Antonio Valentini Neto