O SACRAMENTO DA CRISMA OU CONFIRMAÇÃO

A presença e a ação do Espírito Santo se faz em todos os sacramentos, mas por excelência encontra-se no sacramento da crisma ou confirmação.

No Oriente, este sacramento é chamado de crismação ou crisma. O crisma, no masculino, é o óleo santo. Quando usamos a crisma queremos realçar o símbolo da unção com o óleo, portanto ao sermos crismados, somos ungidos pelo Espírito de Deus, para uma missão. (At. 10, 38).

No ocidente, como também no Catecismo da Igreja católica e documentos da Igreja, é usada a palavra confirmação, significa que todo cristão, fortalecido pelo Espírito, é capacitado a assumir sua vocação e missão de batizado, para que persevere até o fim no testemunho de Jesus Cristo.

“A confirmação aperfeiçoa a graça batismal; é o sacramento que dá o Espírito Santo para enraizar-nos mais profundamente na filiação divina, incorporar-nos mais firmemente a Cristo, tornar mais sólida a nossa vinculação com a Igreja...”.(CIC 1316).

Apesar de duas definições, vemos que ambos tem razão de existir. Nos reforçam que somos convidados, pela ação do Espírito Santo, a confirmar nossos compromissos cristãos.

Durante os séculos, este sacramento sofreu mudanças. Vemos no livro dos Atos dos Apóstolos o testemunho da efusão do Espírito Santo, realizada sobre aqueles que “somente haviam sido batizados”. Na Igreja primitiva existe uma estreita relação entre batismo e crisma. A partir do século III a preparação para receber os sacramentos é bastante organizada através do catecumenato. Os que desejavam fazer um caminho de conversão e adesão à fé cristã eram adultos, portanto, com opção mais convicta.

Fausto de Riez, no século V, assim se expressa sobre este sacramento: “Pelo batismo, nos regeneramos para a vida; após o batismo, somos confirmados para a luta. No batismo somos purificados; após o batismo, somos fortificados”.

A separação do batismo e da crisma se dá a partir do século V se deu por vários motivos: a difusão do cristianismo, a generalização do batismo de crianças, o bispo não podia estar nas diversas comunidades afastadas de sua cidade-sede. Aos presbíteros dá-se a função
de batizar enquanto ao bispo, em outro momento, reserva-se a imposição das mãos e a unção do óleo.

Do século XII em diante é que se generalizou a idéia de que a imposição e a unção se caracterizavam como o sacramento da confirmação. Assim sendo, do que era uma
só coisa, fizeram-se duas. Aqui a idade para receber este sacramento passou a ser entre 7 e 12 anos.

O concílio de Florença (1439 - 1445) foi o primeiro dos concílios ecumênicos a afirmar que a confirmação é um dos sete sacramentos da Igreja.

O concílio Vaticano II (1962 - 1965) assim fala: “Pelo sacramento da confirmação vinculam-se mais perfeitamente à Igreja e recebem especial vigor do Espírito Santo, e assim ficam mais seriamente comprometidos como testemunhas verdadeiras de Cristo, a difundir e defender a fé por palavras e por obras” (Lumen Gentium 11).

Mais do que no passado, entendemos a importância deste sacramento ser assumido de forma opcional, livre de pressão ou sugestão. Portanto, quem tem a capacidade de optar são os adultos. Estes deveriam ser motivados para fazerem um caminho catecumenal, porque teriam capacidade para responderem diante da responsabilidade deste sacramento.

O catecumenato

Nos primeiros séculos da Igreja, a quem desejava receber algum sacramento era submetido a uma preparação catecumenal. Sem pressa e nem com o intuito de formar muitas pessoas ao mesmo tempo. Era um longo período de preparação, sendo “o catecumenato dos adultos, distribuído em várias etapas” (Sacrosanctum Concilium 64).

Nos tempos atuais, o concílio Vaticano II através do RICA (Rito de Iniciação Cristã de Adultos), nos deram condições de entender os caminhos de iniciação ou reiniciação na fé:

- para jovens e adultos não batizados, crismados...

- para crianças e adolescentes que chegaram à idade da catequese organizada sem ter recebido o batismo.

- Para jovens e adultos que receberam os sacramentos e como adultos descobrem a fé que nunca assumiram.

- Para afastados que querem voltar à Igreja.

É preciso descobrir formas para suprir os males provocados pela pouca consciência que nossos cristãos têm em assumir os sacramentos, pois são muitos que os recebem, e poucos procuram seguir e conhecer Jesus Cristo, revelando a falta da evangelização.

Temos hoje uma realidade diferente da ideal. A ausência de propostas para uma formação continuada, como uma pós-crisma, está gerando uma massa de pessoas que não se preocupam com compromissos.

A celebração

O sacramento da confirmação é administrado nos nossos dias um pouco diferente de como era no tempo dos apóstolos. O bispo - ou o seu representante autorizado - estende as mãos sobre o confirmando e invoca para ele o dom do Espírito Santo. Os sinais e gestos significativos do sacramento da Crisma são:

- O símbolo é o óleo é um elemento muito conhecido no dia-a-dia das pessoas. Ele aparece desde o nascer até o morrer, como remédio, alimento, cosmético... Na nossa liturgia é utilizado com freqüência: no batismo, na crisma, na unção dos enfermos, na ordenação episcopal e presbiterial. O óleo é um elemento essencial na celebração da crisma. A própria palavra crisma significa ungir;

- As palavras pronunciadas na unção do crisma (óleo): “Recebe, por este sinal, o Espírito Santo, o dom de Deus”, mostram-nos claramente o efeito da crisma. Pela imposição da mão e a unção, o batizado recebe, num sentido mais pleno, a força do Espírito Santo para assumir mais plenamente Cristo em sua vida e, portanto, ser para os outros e a comunidade o “bom odor”: do amor, da justiça, da fraternidade, do perdão, da paz e a força na luta por mais vida para todos;

- O ministrante é o bispo,

- O gesto: a imposição das mãos e a unção em forma de cruz na fronte e

- Os participantes que são todos os batizados não confirmados, chamados de crismandos e também a comunidade.

Imposição das mãos

Impor as mãos tem um profundo sentido bíblico: consagração a Deus, cura e envio.

No Antigo Testamento temos várias citações em que aparece este gesto. Jacó impõe as mãos sobre seus netos, os filhos de José, para abençoa-los (Gn. 48,14 - 15). Moisés, inspirado por Deus, impõe as mãos sobre Josué. (Nm. 27,18 - 23). Em Dt. 34, 9 Josué é confirmado como homem de sabedoria e de liderança, após a imposição das mãos: “E Josué, filho de Nun, estava cheio de sabedoria, porque Moisés havia colocado suas mãos sobre a cabeça dele”.

No Novo Testamento vemos Jesus usando estes gestos em diversas circunstâncias:

- Impõe as mãos para curar: “Minha filha acaba de morrer. Mas vem, impõe-lhe a mão e ela viverá” (Mt. 9,18).

- Impõe as mãos para abençoar: “Foram trazidas crianças para que lhes impusesse as mãos”( Mt. 19,13; Mc. 10,14).

NOS ATOS DOS APOSTÓLOS:

“Na Samaria, Pedro e João transmitem o Espírito Santo pela imposição das mãos” (At. 8, 17). Na escolha dos sete primeiros diáconos, estes “foram apresentados aos apóstolos, que oraram e impuseram as mãos sobre eles” (At. 6,6).

Na crisma, a imposição das mãos ainda que não seja o gesto essencial, conforme declaração de Paulo VI (Constituição apostólica sobre o sacramento da confirmação), pertence contudo à sua perfeição e leva a compreender que este gesto, feito pelo ministro da Igreja, dá o sentido de transmissão do Espírito de Deus como força, coragem, sabedoria, vivência e testemunho da fé.

A unção com o óleo

No Antigo Testamento, a unção significava força, poder, cura, saúde, alegria, bom odor, beleza e consagração. Reis, sacerdotes, profetas eram ungidos como instrumentos para bem conduzir o povo e para defender o direito e a justiça.

No Novo Testamento, Cristo é o ungido de Deus por excelência. Ele foi ungido, não com óleo, mas com o Espírito Santo e com poder. O crismado recebe a “marca”, o selo do Espírito Santo. Como sinal de que somos pertencentes a Deus. Jesus mesmo declarou-se marcado com o selo do Pai (Jo 6,27). “Aquele que nos fortalece convosco

em Cristo e nos dá a unção é Deus, o qual nos marcou com um selo e colocou em nossos corações o penhor do Espírito” (2Cor. 1,21 - 22).

Cristo não é um nome próprio. É um título. Significa Messias, Ungido de Deus, Rei. Jesus ficou “cheio do Espírito Santo” (Lc. 3,22; 4,1) e foi enviado para uma missão (Lc. 4,14 - 21).

Aos discípulos Jesus promete enviar o Espírito Santo para lhes dar a força para serem suas testemunhas (At. 1,8).Todo crismado, ao ser ungido, assume a missão de defender o direito e a justiça, especialmente dos mais fracos e oprimidos. Portanto, será sempre um profeta que anunciará, ou denunciará, no ambiente onde estiver, a presença ou a ausência de Deus.

O Espírito de Deus

A Bíblia e a Liturgia nos falam muitas vezes do Espírito de Deus, ou do Espírito Santo, mas é difícil fazer uma idéia sobre esta pessoa divina.

As imagens que a Bíblia usa – fogo, vento, água, pombinha – são imagens que indicam movimento, fluidez, liberdade, ou seja, imagens que lembram a impossibilidade de determinar o Espírito Santo. Por isso, não conseguimos ter uma idéia fixa, pronta, perfeita, sobre Ele, como as temos mais claras sobre o Pai e o Filho.

A tradição da Igreja o chama de laço de amor entre Pai e Filho.

Sendo amor, já fica difícil de conceituar. O amor não se define, mas é vivido, testemunhado, isto é, expresso na prática em ações. Nele se realiza de maneira eterna, plena e acabada, o ensinamento de Jesus: “quem perder a sua vida, vai ganha-la” (Mc. 8,35; Lc. 9,24).

Por isso, só quem experimenta o amor-serviço, o amor-entrega e o amor doação poderá ter uma idéia – ainda que pálida – de quem é o Espírito Santo.

O Espírito Santo nos dá a força de vida e missão. Jesus declara: “O Espírito do Senhor está sobre mim”. Dizendo isto, assume a missão de ser o anunciador do Reino aos pobres. Por isso, valorizou as mulheres, perdoou os pecadores, curou os doentes, trouxe alegria e sentido de vida aos marginalizados. Mostrou-se sempre homem de ternura e compaixão, aproximando Deus ao povo e o povo a Deus.

O livro dos Atos nos apresenta a ação do Espírito Santo efetuada na ação dos Apóstolos e seguidores de Jesus. O Espírito de Deus os impulsionou para serem homens e mulheres de coragem, entusiasmo, garra, força no anúncio da Palavra. Não desanimaram nunca diante das dificuldades. Foram testemunhas fiéis de Jesus diante das multidões e nos tribunais.

Ainda hoje, como aconteceu aos Apóstolos (At. 2,3 - 4), o Espírito Santo desce “como que em línguas de fogo” sobre os discípulos do Senhor Jesus, enchendo-os de seu poder, para entusiasmá-los na pregação do Evangelho, para viverem no ardor de missionários de Cristo.

Como percebemos, nos Atos dos Apóstolos Lucas nos mostra o Espírito Santo como protagonista da missão da Igreja. Os discípulos, possuídos pelo Espírito, deixam de lado o medo e a insegurança, partem para todos os lugares da terra para o anúncio do Evangelho aos povos e edificam a Igreja, a comunidade, onde todos são acolhidos.

O Espírito do Senhor, em nosso meio, é sopro de vida, inspiração para o bem, coragem profética, força para os desanimados, construtor de comunhão, vivência do amor, ternura nas relações...

Quando nos referimos ao Espírito Santo sempre tomamos como referência os sete dons: sabedoria, inteligência, conselho, ciência, fortaleza, piedade e temor de Deus.

Eles são inspirados no texto do profeta Isaías (11,2 - 3). O Novo Testamento assume esta profecia na pessoa de Jesus Cristo, o Messias prometido. Ele seria possuído pelo Espírito de Deus e a partir de sua força, praticará um reinado alicerçado na justiça e na paz, conforme os dons recebidos.

O número sete no contexto bíblico é simbólico. Significa universalidade, totalidade, perfeição. Os dons do Espírito são inúmeros, portanto, ao falar em sete, podemos dizer que recebemos todos os seus dons.

São Paulo, em Gálatas 5,22 - 23, fala nos ‘frutos do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, bondade, benevolência, fé, mansidão e domínio de si’. Estes frutos provêm de um projeto de vida que todo cristão é chamado a perfazer. Isto não significa que os teremos de uma hora para outra.

Mas, a vida do cristão é um constante converter-se ao crescimento da fé, e um comprometimento para gerar estes frutos na convivência do dia-a-dia.

Podemos dizer que os "dons são qualidades dadas por Deus que capacitam o ser humano para seguir com gosto e facilidade os impulsos divinos, para tomar a decisão acertada em situações obscuras e para reprimir as forças do orgulho, do egoísmo e da preguiça, que se opõem à graça de Deus".

Um pouco sobre os dons do espírito:

a) Sabedoria. Ela nos leva ao verdadeiro conhecimento de Deus e a buscar os reais valores da vida. O homem sábio e a mulher sábia é aquele(a) que pratica a justiça, tem um coração misericordioso, ama intensamente a vida, porque a vida vem de Deus.

b) Inteligência. Este dom nos leva a entender e a compreender as verdades da salvação, reveladas na Sagrada Escritura e nos ensinamentos da Igreja.

Ex.: Deus é Pai de todos; em Jesus, Filho de Deus, somos irmãos...

c) Ciência. A capacidade de descobrir, inventar, recriar formas, maneiras para salvar o ser humano e a natureza. Suscita atitudes de participação, de luta e de ousadia, frente à cultura da morte.

d) Conselho. É o dom de orientar e ajudar a quem precisa. Ele permite dialogar fraternalmente, em família e comunidade, acolhendo o diferente que vive em nosso meio. Este dom capacita a animar os desanimados, a fazer sorrir os que sofrem, a unir os separados...

e) Fortaleza. É o dom de tornar as pessoas fortes, corajosas para enfrentar as dificuldades da fé e da vida. Ajuda aos jovens a ter esperança no futuro, aos pais a assumirem com alegria seus deveres, às lideranças a perseverarem na conquista de uma sociedade mais fraterna.

f) Piedade. É o dom da intimidade e da mística. Coloca-nos numa atitude de filhos buscando um diálogo profundo e íntimo com Deus. Acende o fogo do amor: amor a Deus e amor aos irmãos.

g) Temor de Deus. Este dom nos dá a consciência de quanto Deus nos ama. "Ele nos amou antes de tudo". Por isso, precisamos corresponder a este amor.

O sacramento da Crisma tem apresentado, nestes últimos anos, muitos desafios. Vejamos alguns:

- sacramento pouco valorizado como compromisso dentro da comunidade cristã;

- adequação de uma idade mais apropriada para entender e assumir este sacramento;

- tempo e formas de preparação, entendendo a catequese como processo;

- catequistas com uma preparação mais adequada;

- comunidades pouco entusiastas e motivadas para cativar e acolher os que querem continuar uma caminhada de fé;

- catequese crismal desligada dos problemas e aspirações dos crismandos;

- vivência e testemunho das famílias que pouco empolga ou motiva seus filhos;

- educação da fé vista como obrigatoriedade, tradição, ou ainda responsabilidade apenas do/a catequista;

- a realidade presente em nossa sociedade, que valoriza o momentâneo, o passageiro, o que traz algum benefício, e não o que leva a assumir algum compromisso permanente;

- desengavetar as pastorais para fazer um planejamento em conjunto e realizar um trabalho em parcerias (catequese, liturgia, juventude, missão, vocacional, familiar...)

Precisamos cada vez mais de cristãos convictos de sua fé, para vive-la intensamente dentro da vocação que Deus lhe indicar. O dom do Espírito Santo torna aqueles que o recebem capazes de torná-los “sal da terra e luz do mundo” (Mt. 5,13 - 14), fazendo-os firmes no comprometimento com a paz, a justiça, a solidariedade. Ele é força, alegria, esperança, amizade, comunhão, e ele atua através das pessoas (inclusive daquela que não tem fé), dos sinais dos tempos, das situações políticas e dos desafios históricos.

Quando as pessoas ficam muito doentes, Jesus dá outro sinal de seu amor, participando de sua tristeza. Elas recebem, então, o Sacramento da Unção dos enfermos, aproximando-os mais da graça de Deus.