SEXUALIDADE NA CULTURA

E NA RELIGIOSIDADE POPULAR BRASILEIRA

Iniciei a minha lida com a cultura popular no vale do Jequitinhonha MG. Junto com a artesã negra Lira Marques anotei a vida do povo de lá em 15 mil folhas de papel ofício. Anotamos a rica cultura dos pobres desde o trabalho da parteira até o cemitério. Tudo foi anotado com data, lugar e nome dos informantes.  Quanto mais pesquisamos, mais confirmamos nosso pouco saber.

Aprendemos que cultura é vida. Isto é: o povo guarda versos, rezas, técnicas de trabalho, provérbios enquanto tiverem sentido na vida dele. Para nós é difícil dizer qual é o sentido dessas coisas na vida do pobre, porque não somos pobres.

Outra coisa que aprendemos é que, na cultura popular,  vida e religião não se separam, em nenhum momento.

O popular é dialeticamente o oposto do oficial (medicina, religião). A cultura oficial é poderosa. A cultura popular definimos como a cultura dos pobres e fracos fundamentada em comunidades. Paulo Freire mostra a importância desta cultura.

No Brasil distinguimos culturas diferentes de origem indígena, africana e européia. Percebemos também uma crescente valorização do caráter mestiço da identidade nacional.

Optamos por não elaborar aqui um capítulo sobre o assunto da sexualidade nos cultos afro-brasileiros. Há vários psicólogos junguianos estudando os arquétipos nos orixás. A mãe-de-santo nos candomblés exerce um sacerdócio feminino, que talvez indique uma sociedade matriarcal. Ao mesmo tempo constatamos que nos congados, a liderança está na mão de um capitão. E, para não dizer que não falei dos índios, nas aldeias indígenas encontramos a chefia indiscutível do cacique e do pajé, ambos homens. Não se conhece uma pajoa!

O estudioso da cultura popular encontra dificuldades diversas:

Nos últimos 40 anos, a população brasileira (então com 30% nas cidades, 70% no interior) urbanizou-se (80% nas cidade, 20% na área rural). Isto é seriíssimo!

Há ainda o desencontro das gerações. Os jovens costumam não admitir no seu mundo a presença dos velhos. 

A sexualidade na cultura e religiosidade popular

Segundo a OMS, a sexualidade é uma das dimensões básicas  da existência e do projeto humano. Realmente, na cultura popular, a dimensão sexual é comparável à dimensão religiosa que tudo atinge. A sexualidade influencia nossa relação com as pessoas e com o mundo. Diz o verso: Eu cheguei nesta casa e olhei a cumeeira meu coração me contou aqui tem moça solteira.

Nos últimos 50 anos, houve uma acelerada mudança no comportamento sexual. Por ex., chegaram modos novos e variados de se praticar o ato sexual; aumentou o conhecimento da intimidade sexual; apareceram peritos para orientar os amantes. O processo da chamada modernização nem sempre foi um processo neutro que favorecia mudanças a partir da base comunitária. Houve agressividade, falta de respeito e imposição. Não temos condição de apresentar a opinião do povo sobre a busca do prazer, sobre homosexualismo, e sobre sexshops. Isto é, não dispomos de provérbios, versos, novos mitos sobre estes assuntos. As opiniões individuais que ouvimos talvez não sejam realmente representativas. Nas reflexões que seguem, privilegiamos os textos populares.

Alguns aspectos

Sobre o amor.

O hanseniano Francisco Augusto Vieira diz (Rio Branco, AC. 30/04/1993): O amor é o melhor remédio para todos os males do mundo desde que seja traduzido em trabalho, em humildade, em ética, em compromisso, em justiça. A hanseníase também se cura com amor. [1] O mesmo vale para a aids.

Versos populares dizem: Do céu quero uma estrela do campo uma flor da terra eu quero você para ser o meu amor. Você diz que amor não dói  Amor dói no coração. Toma amor e viva ausente para ver se dói ou não. (MG)

No meio das brincadeiras, percebemos uma certa rejeição do marido pobre, do viúvo, do velho, do preguiçoso, do infiel. Seguem dois versos de roda registrados em Araçuaí (MG): Em cima daquela serra tem um pé de maxixeiro quem quiser brincar com as meninas põe as velhas no chiqueiro. Eu não gosto do caju, do marmelo eu gosto muito, eu não caso com viúvo, que é sobejo de defunto. As meninas de hoje em dia, só se falam em casar. Põe a panela no fogo minha mãe vem temperar.

Sobre o namoro.

Todos os velhos dizem: “Antigamente, o namoro era a distância.” Mesmo assim, os versos tradicionais sugerem outra coisa: Eu subi no céu em vida e perguntei Nossa Senhora Se é pecado namorar  tô pecando toda hora. Vou dar por despedida na peninha do anu. Namorar se for pecado não tem pecado nenhum. (Jequitibá. MG, 1997)  A finada dona Lerinda cantava um carneiro assim: Ribeirão que corre água no fundo tem areia. Se namoro fosse crime eu morava na cadeia. (Pirapora. MG) [2] Nunca foi bom mexer com amor dos outros: La detrás daquela serra tem uma lata de biscoito Quem mexer com meu amor cai na bala trinta e oito. (Araçuaí. MG, 1974)

Professor José Sant’Anna colecionou em Olímpia (SP) muitos versos sobre o namoro, dos quais, vários religiosos: Santo Antônio milagroso atende este meu pedido prepare meu namorado para ser o meu marido. Joguei meu limão pra cima pra ver se meu bem cataria Catou foi um velho feio, Cruis credo, ave-maria! Meu amor jura por Deus pelos santos do altar/ se tu tens outros amores não precisas me enganar. Não ames pra não trazeres teu coração enganado Jesus amou tanta gente e morreu crucificado. Se São João fosse doutor eu mandava lhe chamar/ pra curar meu coração que está fora do lugar. O anel que tu me deste sexta-feira da Paixão ficou largo no meu dedo roxeou meu coração. [3]

O namoro de padre aparece em diversas músicas. Mário de Andrade registrou em Cananéia (SP): Senhor padre Francisco! O que é, meu amor? É uma velha muito velha que aqui vem se confessá, e depois de confessada/ dois beijinhos vou lhe dá. Mande entrá! Mande entrá! que eu já vou lhe confessá e depois de confessada duas praga eu vou rogá. [4]  Outro verso diz: Menina não veste curto, se tens a perna roliça. O padre da freguesia/ tudo que vê, cobiça. (MG)

Sobre casamento: 

Aqui encontramos textos que evidenciam grande realismo e sabedoria. Algumas expressões:

Quem casa, quer casa

Casamento é que nem mortalha: no céu se talha.

Se casamento fosse bom, não precisava testemunhas.

Quem pensa, não casa; Quem casa, não pensa.

Brincando comparam o casamento a amarração e ir à forca.

Em versos de roda (Araçuaí. MG): Menina você não casa. Casamento é barafunda. Sobe morro e desce morro com a trouxa na cacunda.  Minha mãe me casa cedo eu não quero envelhecer. Eu não sou soca de cana que corta  e torna nascer.  Minha mãe, você me casa para mim dormir junto Eu sou muito mofina/ tenho medo de defunto.

Algumas quadrinhas populares registradas em São Paulo: Plantei um pé de cravo na porta do cemitério, Se não for pra me casar, namorar também não quero. Escrevi seu lindo nome na tampinha da cerveja, eu quero nós dois juntinhos no altar de uma igreja. [5] Santo Antônio que eu tenho/ é traçado de cipó; muita vez a gente gosta, mas amar é uma vez só.[6]

Inúmeros são os costumes, os tabus, os prognósticos, as brincadeiras que cercam o casamento.

A felicidade e as lidas do casamento estão amplamente presentes na literatura de cordel: o poeta cearense José Bernardo da Silva deixou-nos o folheto “História do Casamento de Lusbel e os Sofrimentos de Maria Alice e o seu Triunfo ajudado pelo seu Anjo da Guarda”. O poeta Manoel C. Moura, vulgo, Guanambi Sonial, escreveu o folhetoO Casamento de Lampião no Inferno”. Também José Costa Leite toca neste assunto no seu “A Briga de Antônio Silvino com Lampião no Inferno”. Lampião foi eleito prefeito do inferno: Dizem que ele é estimado e tem cartaz no inferno já tem luz calçamento e tudo mais breve ele vai se casar/ com a filha de Satanaz. Há dias que já é noivo e vai casar brevemente numa sessão de xangô o Satanaz fez ciente/ e para assistir o casório já convidou muita gente.

De João Ferreira de Lima, “O casamento de Chico Tingole e Maria Fumaça“ (Recife, 1940); de José Bernardo da Silva, “O Casamento de Zé Miolo com Chica Pelada” (Juazeiro do Norte. CE, 1953); “A Mulher que fez a Barba do Marido” (Salvador. BA, 1947); de João da Birra, “A Sogra mixiriqueira” Bahia, (s.d.); de Severino Milanez da Silva, “Romance de Noemia e Luiz” (s.d.); de Alceu Cabral de Vasconcelos, “Porque faz medo casar” (Juazeiro. CE, 1976); de Minelvino Francisco Silva, “História da mulher ciumenta que matou o marido e comeu assado” (s.d.).

Quanto à abstinência do sexo.

Em sinal de respeito, muitos casais não mantinham relações sexuais nas sextas-feiras da quaresma.

Os penitentes de Juazeiro (BA) observam a abstenção do ato sexual durante três dias após a autoflagelação. É crença, entre os disciplinadores, que as feridas que não cicatrizam espontaneamente resultam do não cumprimento desta abstenção. [7]

A professora Eugênia Dias Gonçalves ouviu dos congadeiros: Os capitães-mestres não podem fazer sexo sete dias antes da festa. Se ele desobedecer, vai chegar a lamba (desgraça, palavra que se evita falar em qualquer língua). Fazer sexo deixa a pessoa com o corpo aberto e nestes dias de rituais internos e externos, o ar está impregnado de forças, os capitães de outros reinos chegam carregados de força e quem infringiu as regras fica sem condições de resisti-las. [8]

Também os brincantes do maracatu rural de Nazaré da Mata (PE) praticam a abstinência sexual. 

Assuntos especiais: 

Sexo e religião

A Bíblia, em particular o Antigo Testamento, surpreende-nos: a prostituição nem sempre era pecado (Gn 38,15ss); a poligamia era permitida; a mulher era considerada propriedade do homem, inicialmente do pai, depois do marido; algumas ações religiosas exigiam a abstinência sexual (Ex 19,15; 1Sm 21,5); o noivo podia repudiar a mulher que não chegasse virgem ao matrimônio; o adultério era castigado com a morte dos culpados.

Atenção especial merece o Cântico dos Cânticos que descreve a aliança entre Deus e seu povo como a relação sexual entre dois jovens amantes.

Num bendito (canto religioso) popular ouvimos o verso: Fui no céu jogar com Deus na mesa da comunhão Deus ganhou a minha alma Deus ganhou a salvação. Num canto de roda achamos: Vamos, morena, vamos no jogo da douradinha (baralho) Se eu perder você me ganha Se eu ganhar, você é minha. Ambos os cantos são do vale do Jequitinhonha (MG).

Na religiosidade popular, o sexo é sagrado. A expressão “negar o sacramento” significa negar a relação sexual entre casados.

Principais santos casamenteiros: santo Antônio de Lisboa, são Gonçalo do Amarante, são João Batista.

Existem orações de santo Antônio e de santa Marta, para as mulheres não ficarem sem casamento. Mário Souto Maior ainda registra rezas de Santa Barbosa e de Santo Amâncio para o mesmo fim. [9]

A oração de Santa Imoura e o Sonho de Santa Helena servem para saber se a moça terá marido ou não.

Segundo uma tradição curiosa, somente o casal que permaneceu fiel, até nos pensamentos, poderá partir um queijo que há no céu: são Lúcio e santa Bona, o teriam partido. Suas imagens e o queijo encontram-se em diversas igrejas barrocas da venerável ordem terceira de são Francisco de Assis.

Em certos casos, o parentesco espiritual pode constituir um impedimento para o casamento; por ex.: entre padrinho e madrinha do mesmo afilhado. Também entre o compadre e comadre de são João.

As festas juninas festejam com alegria santo Antônio (13/6), são João Batista (24/6) e são Pedro (29/6). Muitos incluem nas festas também o dia da Senhora Santana (26/7). Embora sem exclusividade, as festas de São João acontecem principalmente na área rural, as de santo Antônio têm caráter mais urbano e as de são Pedro são praieiras. Santo Antônio é dos namorados. São João também, mas sobretudo para arranjar compadre e comadre. São Pedro é dos viúvos, e Santana, das viúvas.

As festas juninas são um tema constante na música popular brasileira. Os três santos são lembrados na música “Três Pedidos”, de Jackson do Pandeiro e Maruim: Santo Antônio casa, São João batiza, Pra entrar no céu São Pedro é quem autoriza. Eu vou me pegar com meu Santo Antônio pra realizar o meu matrimônio e quero o batismo do meu são João embora não seja no rio Jordão. Vou pedir pra são Pedro, chaveiro do céu, fazer-me feliz/ lua-de-mel.  Citamos aqui na integra a marchinha “Isto é lá com santo Antônio” de Lamartine Babo (1934): Eu pedi numa oração ao querido são João que me desse um matrimônio. São João disse que não: Isto é lá com Santo Antônio. Implorei a são João desse ao menos um cartão que eu levava a santo Antônio. São João ficou zangado são João só dá cartão com direito a batizado. São João não me atendendo a são Pedro fui correndo nos portões do paraíso disse o velho num sorriso: minha gente, sou chaveiro nunca fui casamenteiro. Matrimônio, matrimônio, isto é lá com santo Antônio.

Anotados por vários folcloristas brasileiros, há costumes populares exóticos: pó da imagem de Sto. Antônio no chá oferecido a quem se deseja para namorado. Castigos aplicados ao Santo quando demora a atender os pedidos: colocá-lo de cabeça para baixo, cozinhá-lo junto com o feijão, colocá-lo num coador de café, amarrá-lo nos pés da cama, colocá-lo de baixo de um pilão virado, amarrá-lo pelo pescoço e afogá-lo num poço ou cisterna do quintal, roubar-lhe o menino Jesus dos braços. Quando a pessoa não quer que chova, põe a imagem do santo fora da casa, no tempo. - Bobo é quem acredita que o povo todo faz isso!

A história do Santo Antônio casamenteiro é mostrada no filme "A Marvada Carne" de André Klodzel (1985), com Fernanda Montenegro.

Outro santo casamenteiro é são Gonçalo do Amarante (1200? - 1259*). No Brasil, o santo violeiro é popularmente festejado com grande seriedade em Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Bahia, Ceará, Maranhão e Piauí. Em Pernambuco e no Rio Grande do Norte, sua dança foi registrada nos séculos XIX e XX. Em São Paulo, há notícia da sua prática em 218 municípios. Dizem que são Gonçalo dançava com as mulheres pecadoras para convertê-las. Ele mesmo usava pregos nos sapatos para não cair em tentação. No Brasil, hoje, não há dia especial para a sua festa. Costumam fazer a promessa de lhe oferecer uma dança, que pode se dar em qualquer dia. O santo é festejado em Amarante (PI), no dia primeiro de janeiro. É padroeiro também de Regeneração (PI) e de Batalha (PI).

O costume português de fazer doces e bolos em forma de fálus e testículos, foi registrado por Gilberto Freire, nas festas de São Gonçalo no Nordeste canavieiro. [10] Em São Paulo, o prof. José Sant’Anna encontrou o verso extravagante: Casai-me, meu são Gonçalo, casai-me porque podeis Já tenho teia de aranha naquilo que bem sabeis. [11]

Moralismo

Na igreja após o concílio Tridentino (1545-1563), a moral dedicou-se à confissão dos pecados e isolou-se do amor de Deus por nós. A pregação espalhava o medo do inferno, como se a vontade de Deus se limitasse aos mandamentos e não visasse à felicidade do homem nesta e na outra vida. Reduzia-se a salvação da alma ao perdão dos pecados. Na segunda metade do século XIX, a burguesia – em especial, os pais de família, os professores na escola - era moralista. A santa missão paroquial, no séc.XIX e início do séc.XX, espalhava o moralismo.

Apesar da influência da inquisição, do jansenismo da “Missão abreviada”, das Máximas do Marquês de Maricá, da linguagem triste do ofício das almas, dos rigorosos exames de consciência nas cartilhas, a religião do povo não se tornou moralista e insiste em levar o sério com humor.

Bom, esta questão não é tão simples assim. Encontramos benditos populares que são extremamente moralistas. Pesquisando a cultura popular aprendi que, quem pensa que sabe alguma coisa, deve levar em conta que em outro lugar o contrário também pode ser verdade.

Saímos de uma era em que o mal por excelência era o pecado sexual e o protótipo de pecadora era a prostituta. A burguesia e o clero eram moralistas. A dança, a nudez e o prazer sexual tornaram-se tabus.

A acusação “plantaram no pó” é dito de noivos que tiveram um filho antes de nove meses de casados (MG).

Na reação contra os exageros apontam o sexo sem constituir família, o sexo seguro e os direitos reprodutivos. 

Voltando à irreverência popular, o tradicional “casamento da roça” faz parte das festas juninas e da quadrilha. Trata-se de uma sátira do casamento do meio rural, mostrando seu desencontro com a cultura urbana. Os atores imitam e criticam os noivos, seus pais, os testemunhas, o padre quer dinheiro e a autoridade civil quer ser mais importante que o padre. Em Sergipe, é chamado casamento de tabaréus. Dependendo do ambiente, a encenação transforma-se numa caricatura da visão moralista e decadente do matrimônio burguês.

Outro exemplo da resposta popular ao moralismo são os quadrinhos rimados: Dizem que o beijo é um pecado horroroso Oh meu Deus porque fizeste um pecado tão gostoso. Quem diz que o amor ofende erra muito em seu ditado: amor é o que salva a gente, querer bem não é pecado. Amar como manda a doutrina foi por Deus ditriminado. Logo se Deus ditrimina, querer bem não é pecado. Quem tora pau é machado, Quem fura veia é lanceta. Quando dois cristãos se amam, tem um diabo que se meta. [12] Por fim: Meu santo Antônio adorado acabou de me contá que em amô não há pecado O pecado é não amá. [13]

Mesmo assim permanece a incompreensivel diferença entre o que é bom e o que é gostoso.

Sexo e comunidade: Já falamos nas festas juninas. A comunidade reza a novena, levanta o mastro, dança quadrilha, encena o casamento da roça. Além disso, grupos de jovens fazem diversas simpatias e experiências para saber com quem irão casar.  Outro exemplo de celebração comunitária da sexualidade são as rodas ou danças de São Gonçalo do Amarante nas quais dançam as mulheres em busca de um marido.

Na área rural, após um nascimento, é costume, se for menino, o pai dar três tiros na porta da frente. Se for menina, ele dá um tiro atrás da casa. Assim avisam a comunidade.

O palestrante Maurício de Araújo Lima, mostrou-nos algumas brincadeiras sensuais dos índios camaiurá, do Xingu. Os homens se juntam para provocar as mulheres através da brincadeira com uma cabaça na forma de uma vulva. As índias tentam pegar a cabaça. Depois, as mulheres fazem um penis de madeira. En seguida, os homens lutam para pegar a peça. A aldeia inteira festejam o sexo com grande animação.

Uma roda de batuques pode tornar-se parecida com a brincadeira sensual dos camaiurá. Em alguns batuques, há umbigadas e alusões ao sexo. O batuque brasileiro é de origem banto, isto é, de Angola, Congo e Moçambique. Os batuqueiros são parentes, amigos, vizinhos de uma mesma comunidade que celebra a vida e também a sexualidade. As mesmas pessoas que cantam os benditos na procissão de Nossa Senhora do Rosário, numa outra hora, podem participar de um batuque, sem constrangimento. Em diversos estudos de folclore e antropologia tradicionais, a umbigada é considerada lasciva, escandalosa e sensual.

Os 534 batuques por nós recolhidos em Araçuaí (MG) falam de tudo que a vida oferece. Escolhemos alguns que dizem respeito ao tema da sexualidade:

Eu sambo, eu sambo, eu sambo, eu sambo a semana inteira eu sambo segunda, terça, quarta quinta e sexta-feira.

A onça morreu, o mato é nosso, com a filha, da onça eu sei que eu posso.

A mulher caiu nágua, o que que eu faço. Você pega por cima que eu pego por baixo.

Coitadinho de Manezinho, coitadinho dele, que tomou a mulher dele, inda deu nele.

Comi carneiro, rotei bode. Com a lingua do povo, ninguém pode.

Ei mulher desse jeito nós não combina Cê dá pra baixo eu dou pra cima. É do jeito - que eu não acho cê dá pra cima e eu pra baixo.

Eu tava no mato calado escutando e vi uma mulher ciumenta apanhando. Mas apanhou diá pra nunca mais ciumar (2x)

Nega doida é Joana Maria. Trabalha de noite e dorme de dia com dor de cabeça e maniconia Se não fosse os homens as mulher não paria. ‘ocê mesma Joana é a fulô do dia.

Ô seu padre Viana vem cá venha ver butuquinho venha. Não sou padre não sou nada venha cá mulata.

Seu marido é bom mulher mas não é como eu Larga seu marido mulher vem morar mais eu.

Sou costureira, eu tou costurando se a agulha quebrar, eu vendo o pano. ‘cê tá doida mulher; eu tou sambando. A Nêga tá danada eu tou sambando.

Alho e cebola tempero de buceta e rola tou retado, tou danado Entrou enchuto, saiu molhado.

Eu vou contar meu casamento como foi/ Eu fui marrado, fui peado como um boi Eu vou contar meu casamento como é/ eu sou casado com um dúzia de mulher Tece, tece, tece Sinhá tece na lançadeira oi sinhá. (2x) Lá vai uma, lá vai duas, la vai três, sinhá lá vai quatro lá vai cinco lá vai seis, sinhá Leva a faca na barriga do freguês, sinhá, que a banana não se come de uma vez, Sinhá.

Vamos dar a despedida como deu a saracura bateu asa e foi dizendo: Paixão d’amor não tem cura.

Finalmente:

Para encerrar apresentamos a belíssima “Tirana da Rosa”. Dona Filomena Maria de Jesus cantava isso quando lavava a louça na casa paroquial de Araçuaí. Oferecemos esta tirana a todas as mulheres e moças presentes no XII Simpósio.

Tirana da Rosa

Subi no pé da roseira, ó rosa, tirana, para ver se te avistava, ahá, ó rosa.

cada rosa que se abria, ó rosa, tirana, cada suspiro que eu dava, ahá, ó rosa.

 Você diz que a rosa cheira. Mas o cravo cheira mais...

Assim cheira meu amor... Quando chega de viagem...

Abalei um pé de rosa... Que nunca foi abalado... Namorei uma morena...

Que nunca foi namorada... É bonita como a rosa...

Ela cheira como um cravo... De que serve ser bonita...

E falsa como o diabo...  A rosa pra ser cheirosa...

É de ser de Alexandria... Tirada do seio de ana... Dada por mão de Maria...

 Adeus carinha de rosa... Claros dentes de marfim...

Você anda o mundo inteiro... E não se esquece de mim.

frei Francisco van der Poel ofm

no XII Simpósio da Associação Junguiana do Brasil - Belo Horizonte (MG) - 11/10/2004

[1] Jornal do Morhan. 2ºtrim.1993. p.7.

[2] DINIZ, Domingos. “Última entrevista de dona Lerinda, a ‘prima dona’ do lundu”. In: Corrente. Pirapora. MG, 24 de dez’98.

[3] Anuário do 33o.Festival do Folclore. Olímpia (SP). Ano XXIV – No.27. 22/08/1997. pp.5.7.11.20. 21.17.43.46.

[4] ANDRADE, Mário de. Ensaio sobre a música Brasileira. São Paulo, Livr.Martins Ed., 1962. p.84.

[5] Anuário do 27o.Festival do Folclore. Olímpia (SP). Ano XVIII, 22/08/1991. No.21. pp. 40-41.

[6] SANT’ANNA, José. Folclore Poético: Quadras anônimas. Olímpia, Pref.Mun.de Olímpia/Museu de Hist.e Folcl. Maria Olímpia, 1997. p.139.

[7] ARAÚJO, Nélson de. Pequenos Mundos – um panorama da cultura popular da Bahia. Tomo 2: Litoral Norte/Nordeste, o São Francisco, Chapada Diamantino e Serra Geral da Bahia. Salvador, UFBA/EMAC, 1986. p.114.

[8] GONÇALVES, Eugênia Dias. "Identidade Negra e Religião". Fundac INFORMA. Belo Horizonte, ano 2. Fev/1995. p.2.

[9] MAIOR, Mário Souto. Orações que o Povo reza. São Paulo, IBRASA, 1998. pp.19-24.

[10] FREIRE, Gilberto. Açúcar. Rio de Janeiro, Min.Indústria e Comércio/Inst. do  Açúcar e do Álcool, 1969. p.32.

[11] Anuário do 27o.Festival do Folclore. Olímpia (SP). Ano XVIII, 22/08/1991. No.21. p.39.

[12] Do cantador cearense Serrador. Apud: MOTA, Leonardo. Cantadores. 2ªEd. Rio de Janeiro, Ed.A Noite, 1953. p.160-161.

[13] Apud: NOGUEIRA, J.C.de Ataliba. Santo Antônio na Tradição Brasileira. São Paulo, Empr.Gráf.da Revista dos Tribunais, 1933. p.44