A  IDENTIFICAÇÃO  DE  SANTO ANTÔNIO  NOS  CULTOS

AFRO-BRASILEIROS

Palestra de Frei Francisco van der Poel ofm, no Oitavo Centenário do Nascimento de Santo Antônio

21 de outubro de 1995 - Pádua, Itália.

SANTO ANTÔNIO NO BRASIL

        O cristianismo que nos chegou de Portugal era guerreiro. Justamente em 1500, quando Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, deu-se na península ibérica a última batalha contra os mouros na reconquista de Granada pela qual os cristãos puseram fim a sete séculos de dominação árabe. Até hoje, as lutas entre cristãos e mouros estão presentes na cultura popular brasileira de muitos modos. Além disso, o cristianismo de toda a Europa era guerreiro por causa das cruzadas. Havia santos guerreiros: são Sebastião, são Jorge, Nossa Senhora da Conceição. Santo Antônio ainda é conhecido no Brasil como santo Antônio militar. A ele são atribuídas vitórias milagrosas contra os invasores calvinistas holandeses e contra os huguenotes franceses em Salvador (1595), contra os franceses no Rio de Janeiro (1567 e 1710) ou contra os espanhóis na Colônia de Sacramento (1703). Sua imagem no andor era levada pelo exército aos campos de batalha, bem assim como os judeus carregavam a arca da aliança na conquista de Jericó e de toda a Terra Santa. Em lugares diferentes recebeu títulos militares, de soldado raso a coronel do exército brasileiro e nos respectivos santuários recebia também seu soldo, por exemplo santo Antônio do Relento. Trata-se da imagem (1621) de santo Antônio de Lisboa, do convento franciscano no Largo do Carioca, no Rio de Janeiro. Quando, em 1710, os franceses invadiram a cidade, a imagem do taumaturgo foi colocada à frente da igreja no relento com o bastão de general na mão e com o rosto virado para o combate. A vitória sobre os franceses foi atribuída ao santo protetor das armas portuguesas. No dia 18 de setembro de 1710, santo Antônio do Relento ganhou a patente de capitão de infantaria em um dos Terços da guarnição do Rio de Janeiro, com o soldo de 40 cruzados mensais. Mais tarde foi promovido por Dom João VI a sargento-mor da Infantaria (1810) e a tenente-coronel (1814).

Além da memória de santo Antônio militar, santo da corte e do exército de Portugal, existem no Brasil: o pão de santo Antônio, a devoção mensal nos dias treze, as preces para encontrar objetos perdidos, as cartinhas para santo Antônio e os recados do santo para nós, as promessas a santo Antônio casamenteiro, a alegria das festas juninas e vários santuários.

        Fato é que os colonizadores com seu cristianismo guerreiro não admitiam nenhuma religião, nenhuma devoção que não fosse a dos portugueses. Antes de serem embarcados para o Brasil, os escravos negros eram marcados com ferro em brasa, prova do pagamento do imposto real, e batizados com o sinal da cruz . As relações entre a Igreja e o Estado era regidas pelo sistema do Padroado como veremos mais logo. Havia poucos padres no Brasil e seu trabalho era principalmente na corte, nas universidades e na organização das infra-estruturas da própria igreja. A maioria dos portugueses viviam um cristianismo de tradição oral. Além das festas natalinas, a semana santa e as festas dos padroeiros, havia os autos, folias, procissões, benditos, benzeções, provérbios. Era uma religião integrada à vida cotidiana, sem o moralismo da Igreja da Contra-reforma que estava nascendo e se fortalecendo na Europa onde estas tradições populares já estavam sendo marginalizadas. Importante é observar que existia uma certa semelhança entre negros, caboclos e brancos pobres nas suas religiões quando não separavam vida e religião. Exatamente isso causaria aproximação e integração.

        O santo Antônio da tradição dos pobres até hoje ajuda os vaqueiros para conduzir o gado. Contam que o próprio santo era amansador de burro bravo. Manoel Ferreira dos Santos explica: santo Antônio, no tempo que ele era homem, ele andava no mundo como nós mesmo. O emprego dele foi amansar burro. Ele era amansador de burro bravo, ele era peão. E por isso, ficou a oração dele.

Ele amansa também os homens. Tem a oração para apartar uma briga: santo Antônio

de Guiné, amansador de todo brabo. Amansais fulano, que tá brabo, como o diabo.

        Ele é protetor contra o inimigo da alma pela tradicional bênção de Santo Antônio "Fugi partes contrárias. Venceu o Leão de Judá!" O santo guerreiro do exército português, protege o pobre contra a polícia, contra ladrão e assaltante. Há pessoas que cortam a pele no braço ou nas costas para costurar dentro da carne um minúsculo Santo Antoninho de metal para obter sua proteção contra os inimigos e fechar o corpo para nenhum mal entrar. Dizem: Fulano tem Santo Antônio enterrado no corpo. Em algumas ocasiões, a faca de ponta é chamada "espinho de Santo Antônio". Uma oração contra arma de fogo diz:

Hoje faz noventa dias, que eu rezei a Salve Rainha. Entre o cão e a espoleta (peças da arma). Está sentado santo Antônio e a Virgem Maria.

        As orações contra os inimigos e para fechar o corpo não são exclusividade de santo Antônio. Há outras dirigidas a Maria, aos doze apóstolos, a são João Batista, são Jorge, santa Catarina, são Manso e são Marco, são Sebastião e à Virgem santa Clotilde. São rezados o salmo 90 e o Credo em cruz. Nestas orações encontramos expressões como: Jesus adiante e paz na guia; o sangue de Jesus (ou: o leite de Nossa Senhora) derramado sobre mim; a cruz de Jesus sobre mim; coberto com as 5 chagas; trancado com a chave do sacrário; coberto com o manto de Nossa Senhora; fechado no ventre de N. Sra. ou na barquinha de Noé.

        Santo Antônio resolve muitos problemas. Tem histórias que contam que o Santo livrou da forca o seu pai inocente. O mesmo consta em um dos benditos de S.Antônio:

Socorro Antônio socorro. Socorro no continente, vem tirar seu pai da forca, que ele vai morrer inocente. - Levanta corpo morto, pelo um Deus que nos criou, diga por sua boca: se este homem me matou. Este homem não me matou, nem por mim ele pecou, antes na hora da minha morte, ele me ajudou. Me diga padre mestre, onde é sua morada, mesmo que não posso ir lá, mas mando lhe visitar. Sinto muito de meu pai, de não ser meu conhecido, me chamo Antônio Fernandes, que de vós eu fui nascido. De meu pai não quero nada, só quero a vossa bênção, vou me embora pra Itália, terminar com meu sermão.

        Às vezes, ele entra na vida das pessoas disfarçado como um menino ou um velho. Ajuda os pobres e prejudica o rico. Mas é preciso ter cuidado com ele. Ninguém engana santo Antônio! Ele é malino. Pode dar um namorado, mas depois faz o casal brigar. Ele faz cobrança das promessas feitas pelos seus devotos. Disso fala a história do Castigo de Cisalpino:

Cisalpino morava em Araçuaí. Certa ocasião ele começou a trabalhar na lavra(mineiração de pedras preciosas) e estava tendo sucesso. Então para o negócio melhorar mais, ele fez uma promessa com Santo Antônio que, se daquela vez ele tirasse bastante pedras, partiria a metade com ele. Deu tudo certo. Ele tirou um balaio de pedras e tratou logo de ir embora.

Chegando aqui ele foi parar na igreja. Chegou, ajoelhou-se diante da imagem do santo. Dizem que ele foi falando em voz alta, e pessoas que estavam por lá estranharam o caso: "Ó santo Antônio! Essa vez eu num dou vós não. Numa outra eu dou. Ah! o senhor não come e nem nada... "Voltou pra casa todo feliz.

Num foi nada não. As pedras importavam em 60 contos naquele tempo e ele mandou o sócio dele vender as pedras fora. Até hoje ele não voltou. Foi homem e balaio com pedras para sempre, sem glória, amém.

Cisalpino adoeceu e ficou impressionado com essas pedras até que Deus o chamou.

 HISTÓRIA DOS 500 ANOS DA EVANGELIZAÇÃO NO BRASIL

        O cristianismo que veio da Europa foi imposto aos brasileiros, tanto no tempo da Colônia, pela cristandade portuguesa, como no tempo da Independência e da República, pelo sistema tridentino da romanização. Vejamos.

        A partir do séc.XIII, existia na península ibérica o Padroado que é um sistema de alianças entre o Estado e a Igreja. Incorporado às três ordens militares de Cristo, Santiago e são Bento de Aviz, o rei era o chefe dos assuntos religiosos no seu reino pela bula "Praeclara Charissimi"(papa Júlio III - 1551). Especificamente pelo título de Grão-mestre da Ordem de Cristo, os reis de Portugal passaram a exercer nas colônias o pleno domínio político e religioso, mesmo no período da Independência. Por causa disso, a Igreja não tinha autonomia. Por exemplo: o rei tinha o direito de nomear e transferir bispos e padres. Aprovava ou não os documentos vindos de Roma. Portugal era um país sem protestantes e as reformas tridentinas não interessavam aos portugueses. Havia pouquíssimas paróquias e o clero local não tinha poder. No Brasil surgiu uma igreja organizada por irmandades de leigos brancos e negros em que o padre era capelão. As tradições orais eram importantes. As irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos compravam a liberdade de seus associados e garantiam uma relativa independência também cultural. Com o fim da monarquia, no século passado, acabou o padroado no País. Fato é que, para os índios e para os negros, a religião e a colonização chegaram juntas.

        A Constituição Republicana separou igreja e estado e obrigou a Igreja a ser uma igreja de "poder espiritual". Foi então que trouxeram e copiaram a igreja católica da Contra-reforma num Brasil onde não houve a Reforma (protestante). A nova Igreja era baseada no sistema de paróquias com o poder centralizado na mão dos padres e impôs ao povo brasileiro a cultura católica da Europa. O sistema eclesial baseado na atuação dos leigos nas irmandades foi eliminado. Este episódio é chamado de "romanização". O negro para ser cristão havia de deixar de ser negro simplesmente. Não havia lugar para a memória da África nem da escravidão. Os tambores passaram a ser proibidos no recinto da igreja e os reinados de Nossa Senhora do Rosário eram considerados uma brincadeira de mau gosto. Sobretudo a experiência religiosa dos ex-escravos não tinha vez. Estas coisas se tornam mais absurdas quando lembramos que quase a metade da população brasileira é negra.

        Depois do Concílio Vaticano II, surgiu um clima diferente que através das reuniões dos bispos latino-americanos em Medellim, Puebla e Santo Domingos veio chamar a nossa atenção pela pobreza do povo, pela religiosidade popular e pela inculturação.

A DEVOÇÃO DE SANTO ANTÔNIO NAS TRADIÇÕES BANTOS DO BRASIL

        As manifestações culturais dos negros bantos(originárias das colônias portuguesas de Congo, Guiné, Angola e Moçambique) são bem parecidas com o cristianismo e facilitaram a aproximação:

        No caxambu, jongo, susa, sairé, santo Antônio é festejado nas fogueiras das festas juninas. Naquele momento, juntam-se danças, cantos, tambores de origem africana a elementos religiosos da tradição oral portuguesa.

        No congado, nas festas e nos reinados de Nossa Senhora do Rosário em maio, agosto e outubro, notamos a presença da devoção antoniana em alguns cantos. O senhor Waldomiro Gomes de Almeida, vice-presidente da Federação dos Congados de Nossa Senhora do Rosário, do Estado de Minas Gerais (1995) declara que, dentro da devoção ao rosário de Nossa Senhora, todos os santos são homenageados. Lembra até a existência em Belo Horizonte (MG) de uma guarda de Santo Antônio de Lisboa, no bairro Floramar fundada pelo saudoso Rei-Congo do Estado de MG, Raimundo Nonato. Também em Cordisburgo (MG), há uma Guarda de Marujos de santo Antônio da Lagoa. Em diversas parte do interior de Minas Gerais as guardas levantam a bandeira de Santo Antônio. Além disso, há pessoas que fazem a promessa de ser rei de santo Antônio. Também pode tratar-se do Santo Preto, Antônio de Catigeró, às vezes confundido com santo Antônio de Lisboa. Também as taieiras no Estado de Sergipe, reverenciam santo Antônio.

        Constatamos que os grupos acima de negros de cultura banto não se autodenominam de "cultos". Nas suas festas, santo Antônio é celebrado, mas aparentemente não se verifica propriamente uma identificação do santo com alguma entidade religiosa banto.

A IDENTIFICAÇÃO DE SANTO ANTÔNIO

        Existem no Brasil manifestações diversas de cultura negra nagô/ioruba/jeje, originárias das regiões do Sudão, da Nigéria e de Daomé. Seus cultos conhecem mitologias elaboradas nas quais os orixás são uma espécie de divindades. Santo Antônio é identificado com vários orixás.

        A cidade de Salvador (BA) foi a primeira capital do Brasil colônia. Afrânio Peixoto escreve sobre os sant'antônios da Bahia: "É o maior de todos os santos, portanto o maior dos portugueses e brasileiros. Particularmente honrado na Bahia. Temos santo Antônio da Barra: fortaleza e energia. Temos santo Antônio da Mouraria. Temos Santo Antônio de Além do Carmo. Na capital; no interior, tantos! No espaço; no tempo, santo Antônio de Arguím, com a sua lenda." Santo Antônio "de Arguím", por ter destroçado uma armada francesa que veio para atacar a cidade no fim do século XVI, já foi padroeiro da Bahia. No candomblé nagô em Salvador (BA), Santo Antônio é identificado com o orixá Ogun que é filho de Oduduá, rei de Ifé. Ogun é um guerreiro poderoso e destemido. Seu símbolo é a espada. Ele vence as demandas. Seus rituais são realizados nas terças-feiras (!). A saudação típica, pronunciada pelos adeptos é "Ogunhê!" O filho de Ogun usa ao pescoço um colar de contas azúis. As roupas usadas pelo filho-de-santo em transe são a calça e saia azúis, a couraça, o capacete e a espada. Sua dança ritual parece um duelo de espada. Para vencer os obstáculos da vida, as pessoas buscam nele a força de quem molda o ferro. O "otá", a pedra onde foi assentado a força mística do orixá Ogun, é uma pedra de minério, ou pedaço de ferro. Abençoa principalmente os ferreiros e os que lidam com armas e ferramentas, os guerreiros e os agricultores. Seu fetiche é uma penca de instrumentos da lavoura em ferro. Ogun é o orixá que julga uma situação e fornece elementos para Xangô executar a justiça. É também chamado Ogun de Ronda. Como Senhor das Estradas, protege os viajantes. Tem grande afinidade com Exu com quem se encontra nas encruzilhadas. Algumas das comidas oferecidas a Ogun são a feijoada e inhame assado. (No candomblé Ketu: figado, coração e bofe de boi.) Animais sacrificados são o bode, o galo, o conquém. Muitos terreiros possuem uma bonita imagem de santo Antônio. - Um exemplo de como se dá esta identificação dentro da igreja acontece todas as terças-feiras em Salvador na Bahia, no convento de santo Antônio. A este assunto voltaremos mais tarde quando falamos da identificação.

        Nos terreiros iorubá do culto xangô no Estado de Pernambuco, santo Antônio (com o livro na mão igual são Jerônimo) é identificado com Xangô, orixá do raio e da justiça, e com Aniflaquete, uma espécie de orixá(exu?) que chama os orixás da África para o Brasil.

        No batuque do Rio Grande do Sul, é identificado com Exu, o anjo/mensageiro entre os Deuses e os homens. Exu abre caminhos e é encontrado nas encruzilhadas. Diversas orações tradicionais de santo Antônio dizem: "Ele nos guia no bom caminho". Exu leva recados e dá recados, como santo Antônio. Traz as respostas da adivinhação no jogo de Ifá. Sem Exu nada se pode fazer. Tanto protege como castiga, quando as pessoas não cumprem as obrigações. Isto nos lembra o santo Antônio malino da fé dos pobres. Há outros cultos em que Exu, com sua roupa preta e vermelha e com seu tridente na mão, é identificado com o demônio, o anjo mau.

        A umbanda é um conjunto de cultos que misturam elementos africanos dos nagôs e dos bantos, porque os negros trazidos da África não conseguiram reencontrar os companheiros das nações de origem.

        Na umbanda, no Rio de Janeiro, santo Antônio é identificado com Bará, um dos títulos de Exu ligado ao destino individual, e com Verequete, orixá do raio e que abre caminhos para os deuses do seu grupo. Há um ponto (canto) de abertura (próprio de Exu):

Santo Antônio é de ouro fino, suspende a bandeira e vamos trabalhar.

        Na umbanda de orientação espírita (desde 1930), distinguem-se sete linhas, cada uma dividida em 6 ou 7 falanges de espíritos iluminados. Santo Antônio faz parte da primeira linha que é de Oxalá (Jesus Cristo). Os chefes-guia de suas falanges são: santo Antônio, são Cosme e Damião, santa Rita, santa Catarina, santo Expedito, são Benedito, o preto e são Francisco de Assis. Os santos da linha de Oxalá, penetram nas linhas de quimbanda(magia negra) para desmanchar "trabalhos" feitos para prejudicar as pessoas. Isto fica claro num ponto(canto) de umbanda:

Ó viva Deus (3x), meu maior amigo é Deus.

Pisei na pedra, a pedra balançou.

O mundo estava torto, santo Antônio endireitou.

Existem na umbanda vários pontos de amarração. Por exemplo:

Santo Antônio é o santo maior. Quem pode com ele é o filho de Zâmbi.

Amarra e amarra, ó santo Antônio, quem pode com ele é o filho de Zâmbi.

          Outro ponto de amarração:

Caboclo da encruzilhada, santo Antônio ele é.

Amarrador de feiticeiro, com o cordão de sua fé.

         Os cantos de amarração podem indicar alguma magia do amor, do outro lado sugerem o estilo das rezas obrigativas e bravas da Quimbanda(magia negra).

        Segundo alguns autores, santo Antônio é identificado com Erekê, em cultos bantos de Guiné e Loanda.

        E finalmente, na Casa das Minas em São Luiz no Estado do Maranhão, existia antigamente no dia 13 de junho uma festa para Toi-poliboji, vodu da falecida mãe Andresa. Toi-poliboji é identificado com santo Antônio. Em outras casas, provavelmente não por acaso, Toi-poliboji é identificado com o demônio.

        Observação:

        É interessante observar que Ogun, em candomblés não-baianos e na umbanda, é identificado com são Jorge.

        O orixá Xangô, na maior parte das vezes, é identificado com são Jerônimo.

        Há grupos que identificam Exu-bara com são Pedro que com suas chaves abre as portas do destino. A umbanda costuma identificar Exu com o demônio.

 IDENTIFICAÇÃO: O QUE É?

        A bênção de santo Antônio virou tradição especial em Salvador (BA) na igreja de são Francisco, no Terreiro (= Praça) de Jesus. Todas as terças-feiras, no final da missa, os frades dão a bênção com água benta e fazem uma distribuição de pão para os pobres nas escadarias da igreja. Entre os fiéis encontram-se muitos filhos-de-Ogun (do Candomblé) que com muita fé participam da solenidade. Depois, descem a Ladeira do Pelourinho, para começar a diversão noturna na praça. Há diversos frades que percebem a situação. Não gostam, mas não sabem que atitude tomar.

        Também em Salvador (BA), realiza-se em janeiro a festa do Senhor do Bonfim (Jesus crucificado) num grande santuário (séc. XVIII), administrado pelos padres diocesanos. A festa demora dez dias e reúne seguramente umas 100 mil pessoas. O povo, vestido de branco(cor do orixá Oxalá), anda 10 km em procissão. As atividades religiosas podem ser compreendidas em três fases: lavagem das escadarias e do adro da Igreja pelas "baianas" (muitas são sacerdotisas no candomblé); culto ao Senhor do Bonfim por muitos identificado com Oxalá; festanças populares no Porto da Ribeira. Dependendo do bispo, a igreja tem se pronunciado contra a festa. Os redentoristas criticam o uso da roupas brancas nas missas e pedem o povo para não misturar as coisas. Nos movimentos negros modernos também encontramos lideranças que desejam separar candomblé e igreja e voltar às coisas como eram na África.

        Para entender o cristianismo dos negros no Brasil e especialmente a identificação, temos de deter-nos um pouco no tema: imposição e integração.

        Há dois aspectos nesta questão:

        - quando os negros foram obrigados a confessar a religião dos portugueses, os santos da Igreja e do Governo foram colocados no lugar dos orixás para enganar as autoridades e celebrar os cultos proibidos.

        - do outro lado, deu-se uma espécie de integração entre orixás e santos populares no livre encontro entre os pobres negros e brancos nas casas de tambor-de-mina, candomblé, xangô, batuque e umbanda. Afinal, o culto é lugar da liberdade. É o último reduto onde os escravos diante de seus Deuses guardavam a memória da África e da escravidão e os símbolos de dignidade e resistência: coroas, cetros, espadas, machados, arcos e flechas.

        Esta liberdade é o elemento importante para entender a identificação como algo positivo. No Brasil, não somente os negros integraram elementos da cultura e da religião dos portugueses. Também a religião luso-brasileira integrou elementos africanos. Em outras palavras, há adeptos dos cultos que rezam nas igrejas e muitos católicos "praticantes" frequentam as casas dos cultos afro-brasileiros.

        Na identificação, não se trata simplesmente de trocar um santo por um orixá/vodu ou vice versa. O processo é bem mais complicado. É difícil distinguir qual é o santo popular e qual é o orixá. Nem sempre um orixá corresponde a um santo apenas. Por ex.: o orixá Xangô, rei de Oyó, senhor da justiça, e poderoso e violento dono dos raio e trovões, é identificado em março com São José, em junho com São João Batista e em setembro com São Jerônimo. Isto é, nos terreiros de umbanda. Além disso, nas casas do candomblé, um mesmo orixá pode apresentar-se com homem e como mulher, como acontece com Oxalá que é identificado com o Senhor Bom Jesus. Também pode chegar como um jovem ou como um velho. É o caso de Ogun Xoroquê, entidade que é Ogun durante seis meses do ano, e Exu(anjo mensageiro) nos outros seis meses.

        Outro fator que deve ser levado em conta, é a figura do santo na religião católica dos pobres, no Brasil. Diferente da hagiografia moralista dos santos oficiais, o povo admira o santo pela sua esperteza, sua beleza e outras qualidades. Bem assim como faz a Bíblia, quando fala do patriarca Abraão na negociata com Javé antes do extermínio de Sodoma e Gomorra. Sua esperteza era motivo de orgulho para o judeu. Também a história do rei Davi que na sua idade avançada dormia com uma moça jovem é bonita.

         Ouçamos uma história do nosso Seráfico Pai são Francisco. Um dia estava são Francisco na sua casa comendo um pão. Aí ele sentiu a vontade de fazer as necessidades. Com pouco estava são Francisco no mato atrás de uma moita. Comia o pão, rezava, porque era santo, e ... cagava. O demônio viu tudo e resolveu fazer uma tentação ao santo. Chegou perto dele e disse: "Mas o senhor está fazendo muita coisa ao mesmo tempo. "tá comendo, tá rezando e ..." - "Já sei!", disse são Francisco. "Mas o que tem? Estou comendo - é para mim. Estou rezando - é para Deus. Estou cagando - é para você!" Dizem que o demônio nunca mais voltou para atentar são Francisco. Outras histórias assim existem de santo Antônio.

        Portanto, na identificação, não se trata simplesmente de um santo oficial trocado por engano ou para escapar da imposição da religião oficial.

        Talvez vale fazer uma comparação. No século IV, colocaram na festa romana do Sol Invicto no dia 25 de dezembro, o dia do Nascimento de Jesus Cristo, a Luz do Mundo. Será que houve uma identificação? Será que houve gente que integrou à revelação divina pelo Sol Invicto (romana) a revelação divina em Jesus (judáica). Afinal, para muitos o dia do sol (Sunday, Zondag, Sonntag) tornou-se o dia do Senhor.

PISTAS PARA REFLEXÃO

        Em meio à celebração histórica de santo Antônio, somos confrontados com o santo Antônio do mito. Tanto na religiosidade popular de origem portuguesa e vivida pelos pobres no Brasil, como nos cultos afro-brasileiros, encontramos um santo Antônio que corresponde às necessidades atuais do povo mas que nem sempre coincide com o santo da história.

        Em plena era de secularização, encontramos um santo presente na vida do pobre. Ele realiza milagres e castigos, abre caminhos, defende o povo contra os inimigos e tem a ver com justiça. Ele lida com o burro bravo e as vacas, e cuida da felicidade no casamento. Acha objetos perdidos e leva cartas a seu destino. Parece que a presença do santo na vida do branco português e a presença dos orixás e mesmo dos antepassados na vida do negro não são tão diferentes assim. Enquanto na igreja oficial a presença de Deus e do santo está em crise (nós mais falamos sobre Deus), o pobre fala com Deus e a linguagem dos cantos e das rezas é de encontrar, descer, baixar, vir com força.

        A identificação de santo Antônio com diversos orixás dos cultos afro-brasileiros nos desafia a refletir sobre assuntos como sincretismo e inculturação. O negro há de ser cristão sem deixar de ser negro. E nem Roma, nem tampouco o branco pode criar esta maneira própria de viver a religião. As comunidades negras são os protagonistas legítimos da busca desta nova fé cristã, a partir da experiência religiosa atual do negro e dos seus antepassados.

        As maneiras diferentes de celebrar e pensar entre pobres e ricos, entre brancos e negros nos obrigam a imaginar a vivência da união na diversidade do povo de Deus. Há teólogos que propõem o termo "macro-ecumenismo" (não entre igrejas, mas entre culturas).

        Motivos de crítica à igreja oficial são a hagiografia moralista, e a permanência de uma uniformidade cultural na liturgia, catequese e teologia. - Causas da distância entre o cristianismo oficial e outras religiões são o abandono dos nossos antepassados (as almas), a quase ausência do rosto feminino de Deus. Além disso, para nós, a revelação divina através da natureza (florestas, rios, pedras) ficou bastante esquecida, lembramo-nos principalmente da revelação através de Jesus Cristo. Todas estas coisas causam preconceitos e dificultam a compreensão.

CONCLUSÃO

        Santo Antônio, guerreiro do tempo colonial, e principalmente na sua forma popular de companheiro dos pobres na luta pela sobrevivência, é identificado com o orixá guerreiro Ogun no candomblé da Bahia.

        Santo Antônio que tirou seu pai da forca e defende os pobre contra os inimigos, é identificado com Xangô, orixá da justiça e do raio, nos terreiros do Estado de Pernambuco.

        Santo Antônio, o mensageiro que, segundo a tradição oral, nos guia no bom caminho, é identificado com Exu, Senhor do destino e das encruzilhadas.