PARENTESCO  ESPIRITUAL

Segundo o antigo Direito Canônico (1917), a cognação espiritual entre padrinho de batismo e a afilhada e entre madrinha e afilhado impedia o casamento entre ambos. [1] A legislação anterior proibia também o casamento entre os próprios padrinhos de um batismo. Também o Concílio Plenário Brasileiro (1938), considera a “cognação” [parentesco] espiritual um impedimento para o casamento. Hoje não existe mais o impedimento do parentesco espiritual no Direito Canônico.

No meio do povo ainda aparece quem acha que compadre e comadre de São João não podem se casar.  No Paraná, existe o dizer: Compadre que casa com comadre, depois de morto vira boitatá.

Falando do desafio no cururu em Tietê (SP), Alceu Maynard Araújo dá um exemplo claro da importância deste parentesco: “Quando o pedestre fez o sorteio para a colocação dos cururueiros, a fim de saber com quem deviam porfiar, foi obrigado a fazê-lo de novo. Um dos canturiões não quis cantar contra seu compadre, no que foi prontamente atendido. Já observamos na dança do batuque, nessa mesma cidade, compadre não dança com comadre, filho com mãe, pai com filha, irmão com irmã, senhora de idade com moço... Interpelados disseram-nos que era pecado. Pensamos que fosse um incesto coregrafico. Para evitar tal pecado fazem o Canereno(?). No cururu, o compadrio também é uma proibição à polêmica. Dois compadres não porfiam. Compadria para cucurueiro ainda é um parentesco pelo coração, uma amizade que deve ser respeitada. Muitas vezes, o calor das trovas satíricas, das tiradas repentistas poderá magoar ou perturbar as boas relações de compadresco” [2]

Nos cultos afro-brasileiros, os "irmãos de obrigação", aqueles que receberam a feitura do mesmo pai ou da mesma mãe-de-santo, não podem casar-se entre si.  A filiação religiosa é muito importante no candomblé. Quando morre um pai-de-santo, seus filhos por feitura passam a ser filhos de obrigação de um outro pai.

frei Francisco van der Poel ofm

[1] Concilium Plenárium Brasiliense. Petrópolis, 1940. p.252.

[2] ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore Nacional, Vol.2: danças, recreação, música. (2a.Ed.) São Paulo, Ed.Melhoramentos, 1967. p.87