OFÍCIO  DE

NOSSA  SENHORA

Este ofício popular foi escrito em meados do século XV e segue a divisão da oração do breviário antigo nas horas de matinas, prima, tércia, sexta, nôa, vésperas e completas. Mas enquanto a oração do breviário é rezada parceladamente de manhã, ao meio-dia, de tarde e de noite, o ofício popular de Nossa Senhora é rezado de uma só vez, por exemplo, nas igrejas paroquiais todo sábado à tarde.

O ofício tem o texto cheio de alusões bíblicas e sempre foi muito popular. Praticamente todos os tradicionais livros de oração, cartilhas, manuais de irmandades etc., incluem o Ofício de Nossa Senhora. Nos quartéis militares cantava-se o ofício da padroeira do Brasil todos os sábados até o fim do século passado, quando Igreja e Estado se separaram. A tradição popular conta que Nossa Senhora da Conceição era a madrinha de batismo do cangaceiro Lampião. Foi por isso que ele numa ocasião se retirou de uma casa familiar, quando descobriu que na cumeeira da casa estava escrita uma frase do ofício, e deixou todo mundo em paz.

Em muitas igrejas, até hoje, as irmandades de Filhas de Maria e Apostolado da oração e os demais fiéis se reúnem para rezar o ofício aos sábados. Assisti uma vez a oração do ofício num terreiro de umbanda, num sábado, em Belo Horizonte MG (1987). Mas existem outros costumes.

Beatos e missionários ensinavam ao povo a rezar o ofício todos os dias, como consta nos benditos da tradição oral do povo pobre na área rural.

Frei Ibiapino deixou dois pés de árvore plantado: o terço na boca da noite, o ofício de madrugada. (Petrolândia - PE 1972)

 

Santa Beata deixou / Um pé de árvore plantado.

Reze o terço na boca da noite, o ofício de madrugada. (Itinga - MG - 1975)

 

O frei Altino deixou, nos pés da Virgem Maria, o terço à boca da noite, Salve Rainha meio-dia.

 

O frei Altino deixou três pés de árvore plantada: o terço à boca da noite,  ofício de madrugada. (Araçuai - MG - 1979)

O povo cantando o ofício todo dia em casa(!), decorou o texto e não precisa mais de livro para rezar.

Existem muitas melodías para cantar o ofício (Veja: Deus vos salve, casa santa, de frei Francisco van der Poel, ofm. São Paulo, Ed. Paulinas, 1977, pág. 59). Há melodias próprias para o tempo comum, para a quaresma e para exéquias. Padre Jocy Rodrigues me disse que conhecia mais de trinta melodias diferentes para cantar o Ofício de Nossa Senhora (São Luis - MA - 1972).

Encontramos também outros ofícios tradicionais cantados pelo nosso povo. Temos o Ofício das AImas, o Ofício da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e o Ofício de são Francisco. Mas, sem dúvida nenhuma, o Ofício da Imaculada Conceição de Nossa Senhora é o mais popular e entrou mesmo dentro da vida do nosso povo. É rezado na hora do parto e há pessoas que pedem para cantar o ofício na hora da morte. Assim a vida fica nele incrustada. O povo não separa vida e religião. Tudo é feito com fé no Deus da Aliança, "Deus Conosco". O pouco com Deus é muito e o muito sem Deus é nada.

Logo na entrada das casas encontramos frequentemente frases do ofício escritas num papel colado atrás da porta. Em caso de incêndio, trabalham para apagar o fogo, rezando o ofício. Não havemos de estranhar quando, na sua luta pela terra, os posseiros espontaneamente se reunem na capela para rezar o ofício antes de enfrentar uma turma de capangas.

Para o pobre e humilde, a oração do ofício combina perfeitamente com a fé num Deus libertador. Bem disse Maria: "Minha alma engrandece o Senhor, porque olhou para a humildade de sua serva ... Depôs os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes".(Lc.1,46 - 55)

frei Francisco van der Poel. ofm