CRONOLOGIA DA DEVOÇÃO DE

 NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO  ENTRE OS BANTOS NA ÁFRICA, EM PORTUGAL E NO

BRASIL,  NOS SÉCULOS XV - XVII

Introdução

Esta cronologia e suas fontes bibliográficas trazem alguns dados novos sobre o cristianismo no congado. Tanto os escritores do passado e quanto os de hoje adotam interpretações diversas dos fatos. Nossa intenção é contribuir para que, na devoção de N.Sra.do Rosário, seja respeitada a experiência religiosa dos bantos nesta história.

 

Datas precedentes

Séc. IV – A reza com pedrinhas. No deserto do norte da África, o eremita cristão Paulo (séc. IV) rezava 300 vezes o pai-nosso contando 300 pedrinhas.

496 – Cristianismo chega aos francos. Em 496, Clóvis, rei dos francos, é batizado e, com ele, seus nobres e o povo. O batismo de Sigismundo, rei dos Borgonheses (515 - 523), deu origem à conversão do seu povo. O que aconteceu com estes europeus, pode ter acontecido com os bantos do Congo, da Guiné e da Angola.

Séc. XII - Usar pedrinhas para contar as orações vira um costume. No século XII, os irmãos cistercienses rezavam 1500 Pai nossos para um confrade falecido. Segundo a Regra da Ordem dos Templários, revista por São Bernardo em 1128, rezavam durante uma semana 100 PN para o irmão falecido. Nos arredores da Colônia(Alemanha), em 1200, existia o costume de rezar 50 Ave Marias. Já em 1260 existia em Paris(França) uma corporação de fazedores de Padre-nosso, nome antigo do rosário. (KNIPPENBERG, W.H.Th. "Devotionalia". Vol. I Eindhoven, Bura Boeken, 1985 - p.12 - 13) A Regra de Santa Brigida(1303 - 1373) manda rezar 63 ave-marias. Disso tudo surgiu mais tarde o rosário de Maria, com 150 Ave Marias. Segundo uma lenda, Nossa Senhora teria ensinado a oração do rosário a São Domingos de Gusmão(1170 - 1221). Não vamos entrar nos detalhes do história complexa do rosário. Certo é que, no séc. XV, os frades dominicanos introduziram e divulgaram a devoção do rosário de Maria e as irmandades de Nossa Senhora do Rosário.

1223 (c.) - Fundação dos Mercedários. Na Europa, muitos portugueses foram escravos no norte da África. Formaram-se irmandades para a libertação destes cativos cristãos. Por ex. a Irmandade de Nossa Senhora das Mercês da Redenção dos Cativos, fundada por são Pedro Nolasco e são Raimundo Pennafort (1175 - 1275).

1409 – Na Alemanha, a fundação da primeira irmandade de Nossa Senhora do Rosário. A mais antiga Irmandade do Rosário foi fundada em 1409, na cidade de Düsseldorf (Alemanha) com o nome de "Irmandade das Alegrias de Nossa Senhora, para irmãos e Irmãs do Rosário". Em 1474, temos notícia de uma outra em Colônia(Alemanha); esta irmandade, que serviu de modelo para inúmeras outras, em 1481 já contava com 100.000 membros.

1415 - Os portugueses conquistam Ceuta, no Norte da África. Para eles, o feito faz parte da fase final da reconquista. Em 4 de abril de 1418, o Pp. Martinho V concede favores espirituais a quem ajudar o rei Dom João I na guerra contra os mouros e outros infiéis. Em 1434, os navios de Dom Henrique abriram caminhos para o sul. Queriam descobrir até onde se estendiam as terras dos infiéis (mouros) negociar com outros povos e convertê-los ao cristianismo. Para este descobrimento, Dom Henrique contou com as finanças da Ordem de Cristo. O historiador padre Miguel de Oliveira diz: "A obra portuguesa das conquistas e descobrimentos foi, em princípio, uma nova Cruzada religiosa. Assim a entenderam, desde logo, os pontífices. Martinho V concedeu largas indulgências aos que auxiliassem o rei Dom João I a prosseguir a campanha de África e recomendou às autoridades eclesiásticas que pregassem a cruzada, pois se tratava de dilatar a fé cristã (Bula "Sane Charissimus", 04/04/1418). Eugênio IV fez idênticas concessões nos reinados de Dom Duarte e Dom Afonso V (Bulas "Rex Regum", 08/09/1436 e 05/01/1443). Outros papas foram renovando essas graças e indulgências, até que, desde 1591, se estabeleceu a concessão regular e periódica da Bula da Cruzada." (OLIVEIRA, Miguel de Padre "História eclesiástica de Portugal" 4a - Ed. Lisboa - União Gráfica,1968. pp.196 - 198)

1444 – Primeira venda pública de escravos em Portugal. A ilha de Arguim foi alcançada em 1443 e a 8 de agosto de 1444, escreve Gomes Eanes de Azurara na sua "Crônica dos feitos de Guiné" (1453), realizou-se a primeira venda pública de escravos, em Lagos (Algarve), na presença do Infante Dom Henrique, o impulsionador das expedições africanas.

1446 – Chegada dos portugueses a Guiné. Nuno Tristão e companheiros morrem no combate dos Bijagós. No mesmo ano, chegaram Diogo Gomes e Luís Cadamosto. No início da colonização portuguesa, a Guiné indicava a terra dos negros em oposição à terra dos mouros do norte da África. Será de fundamental importância o estudo da história do cristianismo na Guiné para entender a origem das irmandades de N. Sra. do Rosário dos Homens Pretos.

1450 (c.) – Escravos do Golfo de Guiné, em Portugal. Os primeiros documentos sobre o tráfico de escravos da Guiné e do Cabo Verde: Actas Capitulares 1452 (Arq. Mun. de Sevilla) e Chanc. Dom Afonso V L.9, fl. 95 v. Ano: 1462 (Torre do Tombo). Apud: "Portugaliae Monumenta Africana" Vol.I Lisboa - Com. nac. para as Comemorações dos descobrimentos portugueses Imprensa Nacional - Casa da moeda - 1995 - Doc. 08 e 40 - pp. 36 e 118.

1452 – Escravidão com a aprovação eclesiástica. No breve "Dum Diversitas" de 16/06/1452, nas décadas finais da Reconquista da Península, o Pp.Nicolau V escrevia ao Rei de Portugal: "... nós lhe outorgamos, pelos presentes documentos, com nossa autoridade apostólica, plena e livre permissão de invadir, capturar e subjugar os sarracenos e pagãos e qualquer outro incrédulo ou inimigo de Cristo, onde quer que seja, como também seus reinos, ducados, condados, principados e outras propriedades <...> e reduzir essas pessoas à escravidão perpétua". Dois anos mais tarde, confirma, por outro breve "Romanus Pontifex" (21/06/1454), estes supostos direitos. Calixto III ("Inter Coetera" 15/03/1456), Sixto IV ("Aeterni Regis", 21/06/1481), Leão X ("Praecelso Devotionis", 03/11/1514) também confirmam essas concessões de poder, que, depois, serão extendidas, por bulas e breves papais, aos reis da Espanha.

1453 – Crônicas importantes. Gomes Eanes de Azurara nos deixou a importante "Crônica dos Feitos de Guiné" (1453). No cap. VII Azurara dá as 5 razões que teve o Infante Dom Henrique ao iniciar a cruzada de descobrimentos para "além das ilhas de Canária e de um cabo que se chama de bojador": - "por haver de tudo manifesta certidão, movendo-se a isso por serviço de Deus e del-Rei Dom Eduarte seu senhor e irmão". - "porque se poderiam para estes reinos trazer muitas mercadorias, cujo tráfego trazeria grande proveito aos naturais." - "para determinadamente conhecer até onde chegava o poder daqueles infiéis (mouros)" - "se se achariam em aquelas partes alguns príncipes cristãos em que a caridade e amor de Cristo fosse tão esforçada que o quisessem ajudar contra aqueles inimigos da fé" - "o grande desejo que havia de acrescentar em a santa Fé de nosso senhor Jesus Cristo e trazer a ela todas as almas que se quisessem salvar." (Apud. REMA, Henrique Pinto. OFM. "História das Missões Católicas da Guiné" - Braga - Ed. Franciscana,1982 - p.14) - Na mesma era, o navegador Diogo Gomes (U 1502) escreveu "De prima inventione Guinee" (c. 1453).

1478 - Fundação da primeira Irmandade do Rosário dos brancos de Portugal, em Lisboa. (PIMENTEL, Alberto "História do culto de Nossa Senhora em Portugal" Lisboa, 1899 p. 46 ss.)

1482 – Chegada dos portugueses ao Reino do Congo. Ao colocar a marca do Reino luso à margem do rio Congo, o navegador Diogo Cão diz: "Na era da criação do mundo de 6881, do nascimento de Nosso Senhor de 1482, o mui alto, mui excelente e principe el-rei D.João II mandou descobrir estas terras e pôr este padrão por Diogo Cão, escudeiro da sua casa." - O cristianismo chegou ao Congo de maneira mais ou menos espetacular. Diogo Cão mandou uma delegação com presentes ao Manicongo(rei do Congo), na cidade de Mbanza. Os portugueses não voltando, o navegador prendeu 4 indígenas e levou-os consigo para Portugal prometendo o regresso. Os quatro foram catequizados e batizados em 1483. Voltando em 1484, mandou um dos 4 para Mbanza e pediu a troca de prisioneiros que aconteceu sem problemas. Depois o rei do Congo Nzinga-a-Nkuvu, mandou uma embaixada com presentes a Dom João II e pediu missionários e artífices. O chefe da embaixada, Caçuta, e seus companheiros, foram batizados em Portugal. No dia 19 de dezembro de 1490 partiu de Lisboa a primeira expedição missionária com finalidade religiosa, política e econômica. À sua chegada, em 1491, segue-se o batismo do conde de Soyo, na festa da Páscoa. A expedição segue caminho para Mbanza, onde se dará o batismo do rei do Congo. Mais logo surgiriam os conflitos por causa da ganância dos portugueses. O segundo rei do Congo, o filho mais velho do Manicongo, Mbemba-a-Nzinga(Dom Afonso I) manifestou a D. Manuel, rei de Portugal, o seu desgosto pelo comportamento dos missionários na educação de 400 jovens africanos que arregimentou. Além disso, só aceitava como escravos os capturados na guerra e opôs-se ao comércio de homens livres. As ordens religiosas também tinham escravos ao seu serviço. (MUACA, Eduardo A. "Breve história da evangelização de Angola 1491 - 1991" Lisboa - Secr. nac. das comemorações dos 5 séculos, 1991 - pp. 13 - 18)

1491 – Na África, o batismo do rei do Congo. O poderoso Reino do Congo foi o primeiro a fazer uma aliança com os portugueses. Depois que o manicongo(rei) por meio de um embaixador e presentes pediu a Dom João II missionários e artífices, chegaram no Congo em 1491 o embaixador português acompanhado pelos primeiros missionários chamados "nganga à Nzambi". Foram para Mbanza, a cidade do rei Nzinga-a-Nkuvu, que mandou pessoal e mantimentos ao seu encontro. O históriador Eduardo A. Muaca, na "Breve História da Evangelização de Angola 1491 - 1991" (Lisboa, Secr. nacional das comemorações dos 5 séculos, 1991 pp.14 - 15.) conta: "Todos os grandes do Reino estavam em Mbanza. Os portugueses entraram na cidade. O rei estava sentado num trono de marfim colocado sobre um estrado. Coube aos frades entregar ao rei os presentes do monarca português: louças e talheres em ouro e prata; alfaias do culto; pratos de ouro e prata; brocados em peças, panos de seda; veludos de carmezim; painéis de boa pintura; rabos de cavalo guarnecidos de prata, etc.. Finalmente surgiu uma cruz de prata, benzida pelo Papa Inocêncio VIII. Os portugueses ajoelharam-se. O rei, que tinha o tronco nu, um rabo de cavalo a pender-lhe do ombro esquerdo e manto de damasco a tapar-lhe os pés, inclinou-se. Seguiu-se depois uma ruidosa festa, à maneira africana. Na expedição, além de frades, vinham pedreiros, carpinteiros, sacristães e mulheres para ensinar a cozer o pão. Todos foram apresentados ao rei. - A catequese começou logo pelo rei e pelos nobres, enquanto os operários portugueses construíam a primeira igreja. Esperavam inaugurá-la no dia do batismo do rei. Entretanto, chega a notícia da revolta dos Anzicas. O rei não quer ir pagão para a guerra, pediu que se antecipassasse a cerimônia. Os frades fizeram-lhe a vontade. Foi batizado com o nome de Dom João I. E a rainha tomou o nome de Leonor. No dia seguinte ao batismo, Dom João I, de acordo com seu filho mais velho, Dom Afonso (Mbemba-a-Nzinga) e outros nobres, mandou queimar todos os feitiços venerados pelo povo o que provocou a indignação do filho mais novo, Panzo-a-Kitina ou Panzo Aquitino." - Após a sua conversão precipitada, o rei acabou voltando para a religião dos seus antepassados. Mas antes de morrer em 1506 indicou como sucessor o seu filho Mbumba à Njinga que se havia convertido e foi batizado com o nome de Dom Afonso I. Este estudou em Coimbra e, depois, empenhou-se em criar um reinado cristão no Congo. Várias fontes falam sobre a influência portuguesa na corte do rei Congo. Por ex.: FELGAS, Hélio A. Esteves. Maj. "História do Congo Português". Carmona, 1958. pp.21 - 64 - NUNES, Jerônimo. Padre "400 anos da diocese de Congo." In: "Cruzada missionária" - Ano LXV - abril 1997 - pp.4 - 5

1496 – Em Lisboa, a primeira Irmandade do Rosário dos escravos. A mais antiga menção a uma "Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos" encontramos em 14 de julho de 1496*, portanto quatro anos antes da descoberta do Brasil. Trata-se de um alvará dado à dita confraria, sita no mosteiro de são Domingos de Lisboa, para poderem dar círios e recolher as esmolas nas caravelas que vão à Mina e aos rios da Guiné. O importante documento (Confirmações Gerais L.2 fls.107v - 108) acha-se no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa.

1498 – Chegada dos portugueses a Moçambique. Em 11 de março de 1498, na ilha de São Jorge, missionários que acompanhavam Vasco de Gama em viagem a Gôa celebravam a primeira missa. Em 1591 já havia 20.000 batizados, na região do Zambeze. Entre as obras deixadas por missionários dominicanos nos primórdios do séc.XVII acha-se uma igreja de Nossa Senhora do Rosário em Massapa, a 50 léguas de Tete, no Mazoé, e outra na vila de Sofala. (GARCIA, Antônio SJ. "História de Moçambique Cristão" Vol.I - II Braga, Livraria Cruz, 1972 - p. 319) - As religiões tradicionais conhecem um Ser Supremo (Mulungu, Muári, e outros nomes) e o culto dos antepassados e dos espíritos.

1500 – Uma igreja do Rosário, em Cabo Verde. Na ilha de Santiago, na Cidade Velha (Ribeira Grande), existe uma igreja de N. Sra. do Rosário construída em 1500. (BALENO, Ilídio. "Subsídios para a História de Cabo Verde, a necessidade das fontes locais através dos vestígios materiais". (Série Separatas: 219) Lisboa, Centro de estudos de história e cartografia antiga - Instituto de investigação científica tropical, 1989 - p.7)

1521 – A embaixada de Dom Afonso a Roma. O rei do Congo, Dom Afonso, mandou ao papa uma embaixada para prestar-lhe obediência como o faziam os outros reis cristãos. Desta embaixada fazia parte D.Henrique, filho do rei do Congo que mais tarde veio a ser bispo titular de Útica (pelo papa Leão X, 1518) e auxiliar de Funchal. Em seguida, governou a Igreja do Congo de 1521 a 1531. Foi o primeiro bispo da África Austral. O reino do Congo viveu seu apogeu neste séc. XVI. - Muito mais informações sobre o reino do Congo, Dom Afonso I e seu filho bispo D. Henrique nos traz Manuel Nunes Gabriel nas 60 páginas de "D. Afonso I, rei do Congo."Lisboa - Secr. Nac. das Comemorações dos 5 séculos - 1991.60 pág. – Naquele tempo, o rei de Portugal tratou o rei do Congo(hoje: sul do Congo, oeste do Zaire e norte da Angola) como seu igual. Trocaram embaixadores. Tudo isso é um caso único na África. O soberano do grande reino do Congo aceitou a religião cristã livremente e após contatos diplomáticos. Enquanto a maioria dos chefes africanos relutaram para converter-se ao cristianismo, o batismo do rei do Congo forma uma notável exceção.

1526 – A primeira Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, na África. A pedido de dois homens pretos livres, o rei de Portugal autorizou a fundação da Irmandade na ilha de São Tomé. (BOXER, C.R. "Race Relations in the Portuguese Colonial Empire, 1415 - 1825". Oxford, Clarendon Press 1963 - p.14. Apud: KIDDY,Elizabeth W.. "Brotherhoods of Our Lady of the Rosary of the Blacks: Community and Devotion in Minas Gerais, Brazil". Albuquerque, New Mexico,1998 - p.79)

1533 – Criação da Diocese de Cabo Verde e Guiné. A diocese foi criada, na Ilha de Ribeira Grande, com sede na igreja de Santiago.

1533 – Numerosos escravos em Portugal. O humanista Cleonardo escreve em 1533: "Estou a crer que em Lisboa os escravos e as escravas são mais que os portugueses livres de condição." Dizem que ele exagerou. Segundo Cristovão de Oliveira haveria em Lisboa, nos meados do séc.XVI, 10.000 escravos, ou seja, 10% da população.

1538 – Outras irmandades dos Pretos em Portugal. Segundo Joaquim Veríssimo Serrão, em 1538 havia em Lisboa uma Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, de que era mordomo um Francisco Lopes, escravo forro, e, em 1553, de outra de Lagos. O mesmo autor fala de "uma festa dos negros de Colares, em 1563, na fazenda de Francisco Melo e com a participação de um seu escravo. Muitos outros casos se poderiam referir." (História de Portugal - Vol. III (1495 - 1580). Lisboa, Verbo,1980.pp. 274 - 275)

1552(c.) – Uma Irmandade do Rosário de escravos de Guiné, em Pernambuco. Em Goiana (PE), há uma igreja de N. Sra.do Rosário dos Pretos (séc. XVI). - O historiador frei Odulfo van der Vat OFM registra sem pormenores a existência de uma confraria do Rosário para os "muitos escravos de Guiné" na Capitania de Pernambuco antes de 1552. ("Princípios da Igreja no Brasil". Petrópolis - Vozes Ltda,1952. p.104. Nota:1)

1559 – Permissão aos engenheiros brasileiros. Em 1559, a Coroa portuguesa autorizou cada senhor de engenho a importar anualmente até 120 escravos da África. Em publicações diversos, o total dos escravos trazidos para o Brasil varia entre 3 e 13,5 milhões. Vieram africanos do Sudão (iorubas, daomeanos, haussas, tapas e mandingas) e, principalmente, bantos (da Guiné, Angola, Congo e Moçambique).

1559 – Cristianismo na Angola. Em 1559 chegam os primeiros missionários para o reino de Angola. Os contatos entre Angola e Congo facilitaram as conversões. Em 1604 havia em Luanda, 20.000 cristãos. A rainha Ginga foi batizada por um frade capuchinho italiano, em 1622. Em 1663, o rei Luango pediu missionários em Luanda. Após um século, fracassaram as tentativas dos reis de Portugal e do Congo de constituir um reinado cristão, no vale do Congo. No entanto, o período está na origem dos reinados existentes no Brasil, nas irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. – Mais informações: R. Delgado "História de Angola" - 4 Vol. Lisboa, 1970.

1561 – Em Moçambique, o batismo do Monomotapa e assassinato do missionário. O chamado "império do Monomotapa", entre os rios Zambeze e Limpopo no centro de Moçambique, existiu entre 1425 e 1884. - Em 1561, os padres jesuítas Dom Gonçalo da Silveira (1526 - 1561), André Fernandes e o irmão André da Costa tentaram converter o imperador Monomotapa. Gonçalo era missionário em Goa e bom filho de Portugal. Havia ouro em Moçambique e chamar o dono destas riquezas significaria abrir as portas do seu império ao comércio português. Uma carta (Goa, 1559) do próprio punho de Gonçalo diz: "Mas especialmente entra nesta empresa a conquista do imperador do ouro de Manamotapa, em cujo poder se diz que são minas e serras de ouro". Na verdade, em janeiro de 1561, o rei e sua mulher foram batizados Dom Sebastião e Dona Maria (nomes do rei e rainha de Portugal), juntamente com centenas de súditos. No entanto, Gonçalo de Silveira foi martirizado na noite de 15 de março de 1561, na corte do Monomotapa, junto ao rio Mussengueze (cf. Camões: Liv. X, cant. 93). Causa do assassinato: muçulmanos estrangeiros, donos do comércio local, ajudados pelos feiticeiros da terra convenceram o rei que o padre seria um espião do governador da Índia e do capitão de Sofala que planejavam matar o Monomotapa. Resumimos assim as 15 págs de um capítulo muito bem documentado de "Quadros da História de Moçambique" do cônego Alcântara Guerreiro. (Vol. I Lourenço Marques,Imprensa Nacional de Moçambique,1954 pp. 141 - 156.)

DATAS PRINCIPAIS

1579 - Igrejas de N. Sra. do Rosário, em Moçambique. A igreja do Rosário em Moçambique fundada pelos dominicanos em 1579 foi destruída pelos holandeses em 1607 (ALMEIDA, Fortunato de. "História da Igreja em Portugal" - Vol. II - Porto - Lisboa - Livr. Civilização Editora, 1930 p.288) O padre Antônio Lourenço Farinha fala de outra igreja de N. Sra.do Rosário, no séc. XVIII, em Manica ("A expansão da fé na África e no Brasil". Lisboa - Divisão de publicações e biblioteca - Agência geral das Colônias,1942 - p. 344)

1586 – Irmandades do Rosário nos engenhos, no Brasil. – Segundo Serafim Leite SJ, no seu "História da Companhia de Jesus no Brasil" (Rio de Janeiro - Civilização Brasileira,1938 - Vol. II pp. 340 - 341), os jesuítas fundaram várias irmandades do Rosário entre os escravos dos engenhos, a partir de 1586.

1588 – Em Portugal, mais notícias sobre uma Confraria dos Homens Pretos. Havia uma "Confrarya de nosa Sõra do Rosairo dos homens pretos da villa dalcaçere do Sall", em 1588, em Portugal. ("Boletim da J. da Prov. da Estremadura" de 1954 (pág. 134). Apud: REIS, Jacinto dos. Pe. "Invocações de Nossa Senhora em Portugal de Aquém e Além-mar e seu Padroado" - Lisboa, 1967 - p. 484)

1596 – Criação da diocese do Congo. Em 25 de maio de 1596 foi criada a diocese do Congo.

1606 – Igrejas do Rosário, na Angola. Na Angola, em Cambande, foi construída a igreja de Nossa Senhora do Rosário. Também no séc.XVII, a igreja de N. Sra. do Rosário das Pedras Negras e, a igreja de são Benedito, "reservada aos nativos", em Massanango. (FARINHA, Antônio Lourenço. Pe. "A Expansão da fé na África e no Brasil" - Lisboa - Div. Publicações e Biblioteca - Ag. Geral das Colônias, 1942 - pp. 252 e 254)

1607 – Na África, o Rei do Congo entra na Irmandade do Rosário. O historiador Fortunato de Almeida na "História da Igreja em Portugal" (Vol. II - Porto Lisboa Livr. Civilização Editora, 1930 pp. 277 - 278) conta: - Cerca de 1607 chegaram a Lisboa embaixadores de D. Álvaro II, rei do Congo, os quais traziam, entre outros, o encargo de pedir a El-Rei que enviasse àquele reino alguns religiosos de S.Domingos, para pregarem e dilatarem a fé pelas terras vizinhas. A 25 de Março embarcaram para a missão três padres pregadores: frei Lourenço da Cunha, que levava o cargo de vigário, frei Fernando do Espírito Santo e frei Gonçalo de Carvalho; e o converso frei Domingos da Anunciação. Chegados a Luanda a 3 de julho, de lá escreveram cartas ao rei do Congo e aos seus ministros, para cumprirem as ordens que quisessem dar-lhes. As respostas que tiveram foram muito benévolas, o que decerto mais animou os missionários a empreenderem a viagem para o Congo. Puseram-se a caminho no dia 16 de Setembro. - Na corte do Congo iniciaram logo a construção de uma igreja, e nesta, ainda antes de concluída, instituiu o vigário Fr.Lourenço a confraria do Rosário. "Ordenou uma procissão; disse sua missa cantada com música e charamelas do uso de Portugal, pregou e declarou ao povo os privilégios e perdões. Assistiu El-Rei, e mandou-se assentar por confrade com vinte mil reis de esmola na moeda dos seus búzios. O duque de Bamba foi segundo em se assentar com esmola igual, e logo seguiram todos os nobres com suas esmolas; porque são grandemente pontuais em seguir o que vêem a seu rei fazer, havendo que o agradam. Mandou El-Rei a um primo seu que fosse juiz da confraria, e o duque de Bamba procurador" (Citação: SOUZA, Luís de. Fr. "História de são Domingos" - p.II - 1.VI Cap.XIII.) - O fim da história é triste. Intrigas de um mau padre malogram a missão. Os missionários dominicanos ficam doentes e morrem. Em 1612,o bispo escreve uma carta ao rei de Portugal e se mostra desanimado. O rei do Congo não deixa de pedir favores e missionários portugueses.

1618 – A Rainha Ginga enfrenta Portugal. "Ginga" é o nome português da rainha Nzinga Mbandi (1581 - 1663), que durante 13 anos lutou contra os portugueses em Angola. Mostrou firmeza na defesa da dignidade. - Em meados do século XVI, o Congo e o Oeste africano se viram invadidos por povos guerreiros. Em Angola (de Ngola), se chamavam Gingas. Entre os reis guerreiros estava o fundador da dinastia Ginga: Ngola Ginga. Tomou ele dois reinos: o de Ndongo, que deu ao filho Ngola Bandi, e o de Mutamba, que governou. Dos descendentes, Ngola Ginga Bandi, irmão da Ginga de Mutamba, conseguiu ficar com os dois reinos, mandando matar vários parentes, inclusive o filho de Ginga. Em 1618, ele resolveu enfrentar os portugueses, e, depois de três anos de guerra, foi vencido por Luiz Mendes de Vasconcelos que ocupou a capital do Ngola e matou 94 dos seus chefes. Em 1621, a rainha Ginga de Mutamba com uma vistosa comitiva foi então propor a paz, em Luanda. Aceitou certas condições que lhe foram impostas e se batizou em 1622 com o nome de dona Ana de Souza, na igreja matriz de Luanda, mas não aceitava a submissão, não pagava tributos. No ano seguinte, moveu ela mesma guerra aos portugueses, depois de ter matado o irmão que assassinara seu filho. Ficou então como rainha dos dois reinos e seus povos. Foi então que ela permitiu que o capuchinho italiano Antônio Gaeta (+ 1662) morasse no seu reino. Gaeta levou-a a mudar de vida. Contra a vontade dos portugueses, Ginga mandou uma embaixada ao papa Alexandre VII pedindo o reconhecimento do seu reino. Esquecendo o padroado, o papa enviou-lhe uma carta pessoal e outra da Sagrada Congregação da Propaganda Fide com orientações para que seu reino fosse cristão, enviou mais missionários capuchinhos italianos e nomeou o padre Antônio Gaeta como prefeito apostólico da Mutamba. A carta da S.C. da Prop. Fide contém entre outras uma "proibição aos comerciantes e a qualquer outras pessoas de comprar como escravos os batizados. Este uso impede a conversão de muitos." Assim resumimos as anotações do historiador Eduardo A..Muaca em "Breve História da Evangelização de Angola.1491 - 1991" (Lisboa, Secr. Nac. das Comemorações dos 5 Séculos - 1991 - p.35). Mas a rainha foi derrotada à frente de suas tropas por Fernão de Souza, e suas duas irmãs, as princesas Cambe e Funge, foram levadas para Luanda e batizadas com os nomes de Bárbara e Engrácia. Em 1641, os holandeses saíram do norte do Brasil e ocuparam Luanda. Ginga aliou-se a eles contra os portugueses. Mas estes tornaram a derrotá-la em 1647, sempre com armas superiores, comandados por Gaspar Borges de Madureira. Em 1648, Salvador Correa de Sá retomou Luanda dos holandeses, com uma armada saída do Rio de Janeiro. A rainha Ginga viveu os seus últimos anos em Angola, morrendo em 17 de dezembro de 1663, quando teria cerca de 81 anos. Foi sepultada na capela de Santana por ela mesma (Dona Ana) construída, e com um hábito velho de capuchinho, relíquia de Gaeta. Os portugueses anexaram a partir daí os reinos de Ginga e Mutumba (ou Matamba) à Angola. A memória da rainha guerreira, no entanto, acompanhou os negros levados como escravos para o Brasil. (KI-ZERBO, Joseph. "História da África Negra". Lisboa, Publ. Europa-América pp. 426 - 427 - Trad. de "Histoire de l’Afrique Noire. "Paris,1972; NUNES, Jerônimo. Pe. "Santa Ana e Rainha Jinga". In:"Cruzada Missionária". Ano LXV. Abril 1997 p.4) Luanda tornou-se o maior porto negreiro da África, a partir do qual mais de 30 mil escravos saíam anualmente, principalmente para o Brasil. No séc.XVII, registramos a existência de uma igreja de "Nossa Senhora do Rosário dos Pretos", em Luanda e outras igrejas de Nossa Senhora do Rosário, em Cambambe e em Pungo Andongo. (Informações de: MUACA, Eduardo A. "Breve história da evangelização de Angola. 1491 - 1991", Lisboa, Secr. Nac. das Comemorações dos 5 Séculos, 1991. p.39.) – Em "O Livro das Velhas Figuras" (Natal, Instituto histórico e geográfico do Rio Grande do Norte, 1977. pp.9 - 11), Luis da Câmara Cascudo defende a inclusão da rainha Ginga na História, como a última rainha autêntica, combatendo portugueses e holandeses e ficando com seu povo contra os chefes pro-portugueses, proprietários de latifúndios e exploradores da fome negra. - O autor angolano Manuel P. Pacavira escreveu sobre a Rainha Ginga o romance "Nzinga Mbandi". (2 Ed. Lisboa, Edições 70, 1979)

1639 – No Rio de Janeiro, fundação da Irmandade de N. Sra.do Rosário dos Homens Pretos, na igreja de são Sebastião. Na mesma época, e na mesma igreja, havia uma confraria de são Benedito também fundada por homens pretos, livres e escravos. Em 1669, efetuou-se a união de ambas numa só irmandade. (COSTA, Joaquim José da. "Breve Notícia da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e são Benedicto dos Homens Pretos do Rio - Capital do Império do Brasil." Rio de Janeiro, Typogr. Polytechnica, 1886. - No Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro).

1650 - 1749 – Em Porto (Portugal), Irmandades do Rosário dos Homens Pretos, com reinado. No Concelho do Porto, existiram confrarias de Nossa do Rosário dos Pretos ou dos escravos, com reinado e danças. A igreja do convento de são Francisco (c.1698) possuía uma irmandade dos escravos chamada "de Nossa Senhora do Rosário e são Benedito". (RODRIGUES, Maria Manuela Martins. "Confrarias da Cidade do Porto." In: "Congresso internacional de história: missionação portuguesa e Encontro de culturas - Actas" (Vol. I Braga, UCP/Com. Nac. para as Comemorações dos Descobrimentos Port. Fund. Evangelização e Culturas, 1993 - p. 382 ss.)

1662 – Uma Irmandade do Rosário, em Moçambique. Registra-se um "Compromisso dos irmãos da confraria da Virgem do Rozario, sita no convento do Patriarcha são Domingos desta Cidade de Moçambique. Anno de 1662" (GARCIA, Antônio. SJ. "História de Moçambique Cristão" Vol. I - II - Braga - Livraria Cruz, 1972 - pp. 440 - 441) O autor não menciona se os irmãos são portugueses ou africanos.

1674 – Em Recife (PE) - reis de Congo. Câmara Cascudo registra uma coroação dos reis de Congo no ano de 1674, no Recife (PE). ("Arquivos". 1o. e 2o., 55 - 56, Diretoria de documentação e cultura. Prefeitura do Recife, 1949 - 1950. Apud: CASCUDO, Luís da Câmara. "Dicionário do folclore brasileiro" - Brasília, Inst. nac. do livro, 1972 p. 280)

1682 – Em Belém(PA) - fundação da Irmandade de N. Sra. do Rosário dos Homens Pretos.

1686 - Em Salvador (BA) - Fundou-se a Irmandade de N. Sra. do Rosário dos Homens Pretos, na igreja de N. Sra. da Conceição da Praia.

1697 – Em Lisboa é publicado um livro oferecido à Virgem do Rosário, Senhora dos Pretos. Trata-se da: "Arte da língua de Angola, oferecida à Virgem do Rosário, May, & Senhora dos mesmos pretos. Por padre Pedro Dias da Companhia de Jesus." (Lisboa - IBL. Res. 239 P/F No. 1354)

DATAS SUPLEMENTARES

1708 - Em São João Del Rei (MG) - Fundação da Irmandade de N. Sra. do Rosário dos Homens Pretos.

1711 – Em São Paulo (SP) - Fundação da Irmandade de N. Sra. do Rosário dos Homens Pretos.

1713 – Em Cachoeira do Campo (MG) - Fundação da Irmandade de N. Sra. do Rosário.

1713 – Em Sabará (MG) - Fundação da Irmandade de N. Sra. do Rosário dos Homens Pretos.

1715 – Em Ouro Preto (MG) - Fundação da Irmandade de N. Sra. do Rosário dos Homens Pretos.

1728 – Em Serro (MG) - Fundação da Irmandade do Rosário.

1754 - Em Viamão (RS) - Fundação da Irmandade de N. Sra. do Rosário dos Homens Pretos.

1771 - Em Caicó (RN) - Fundação da Irmandade de N. Sra. do Rosário dos Homens Pretos.

1773 - Em Mostardas (RS) - Fundação da Irmandade de N. Sra. do Rosário dos Homens Pretos.

1773 (ou 1747?) - Em Ouro Preto (MG), Chico Rei. Recebeu destaque a festa do reinado do Rosário que se deu com Chico Rei da Angola, no dia dos Santos Reis, seis de janeiro de 1773, em Vila Rica.

1774 - Em Rio Pardo (RS) - Fundou-se a Irmandade de N. Sra. do Rosário dos Homens Pretos.

1782 – Em Paracatu (MG) - Fundação da Irmandade de N. Sra. do Rosário dos Homens Pretos

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