LEIGO

[Do grego "laos", povo.] Membro do povo de Deus, batizado, fiel, cristão. Mais precisamente, aquele que não pertence ao clero. Esta distinção tem a ver com a separação bíblica entre pastor e ovelhas (At 20,28.31; 1 Pd. 5,3) mas não significa que os leigos seriam apenas objeto da ação doutrinal, organizatória e santificante dos padres. (v. Sacramento) Todo cristão é testemunho da graça de Deus e tem função ativa na obra da salvação. A partir da reforma da Igreja pelo papa Gregório VII, no séc. XI, foi proibida aos leigos a pregação da palavra de Deus. Depois do surgimento do protestantismo no séc. XVI, aumentou na Igreja católica o desnível entre o clero e os leigos. O papa  Gregório XVI, em sua Bula de 1834, declara: "Ninguém pode duvidar que a Igreja está fundada sobre a desigualdade de seus membros, na qual uns foram chamados por Deus para dominar e outros para obedecer; estes últimos são os leigos, aqueles são os eclesiásticos” [1]

O Brasil-colônia, a Igreja começou como um catolicismo leigo. Havia poucos padres. Muitos leigos se organizaram em irmandades e ordens terceiras, construíam suas igrejas, santas casas. Eremitas faziam penitência e andavam a pedir esmolas. Pelo regime do padroado, o rei, grão-mestre da Ordem de Cristo, era o chefe da Igreja. A ele competia as tarefas da catequese, da promoção do culto e da sustentação dos ministros eclesiásticos.  w  O cenário mudou pela romanização (séc. XIX e XX). No tempo da República, vieram da Europa novas organizações religiosas como o Apostolado da Oração, marianos, vicentinos, Filhas de Maria, sempre sob forte orientação clerical. No começo do séc. XX, já existiram entre nós a Confederação católica que incentivava os intelectuais, a Liga eleitoral católica (LEC) que formava o leigo político e a Ação católica brasileira.

Se antes do Concílio Vaticano II (1962 - 1965) o leigo na Igreja era problema para os teólogos e objeto de pastoral específica, depois do Concílio Vaticano II tornou-se problema o próprio clero. A Constituição dogmática "Luz dos Povos" do Concílio Vaticano II, dedica aos leigos o cap. 4 que termina dizendo: “O que a alma é no corpo, isto sejam no mundo os cristãos”

O Brasil tornou-se um pais católico pela fé dos leigos portugueses, dos quais muitos eram pobres. Eles viviam suas tradições em casa e na sociedade. A maioria dos santuários de romaria no Brasil foi fundada por leigos, principalmente por eremitas.
A religiosidade popular continua tendo um forte caráter leigo, nos moldes familiares. A parte coletiva é vivida em irmandades e toda sorte de grupos de base.

No tempo da romanização, centralizou-se o poder nas mãos do clero, nas paróquias.

Eixos do apostolado dos leigos hoje: vida familiar, comunidades carismáticas, Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), movimentos leigos dedicados aos mais variados setores da vida social e cultural. Sua ação no meio das realidades econômicas e sociais, junto com a transmissão da cultura à luz dos Evangelhos é um ponto chave do seu apostolado. A participação dos leigos nas decisões da Igreja é fundamental nas CEBs. 

Alguns problemas teóricos: a diferença “essencial” entre o sacerdócio ministerial e e o sacerdócio comum dos fiéis (Lumen Gentium, 10) parece enfraquecer a igualdade fundamental entre todos os fiéis (LG, 32 c); a definição da missão da Igreja como a evangelização, por sua vez inseparável da libertação integral do homem (Evangelii Nuntiandi), poderá aproximar o sacerdócio e o laicato. A nível prático, é preciso favorecer a participação dos leigos nas decisões; por isso, a informação e formação dos leigos é fundamental; a pluralidade dos ministérios leigos há de ser incentivada. [2]

O Projeto Rumo ao Novo Milênio, no capítulo sobre os sujeitos da nova missão, afirma: "A mudança 'Rumo ao Novo Milênio' exige, como vimos, o que Santo Domingo (1992) chamou 'protagonismo dos leigos', evitando toda forma de clericalismo e de redução ao intraeclesial (Cf. Doc. Santo Domingo, 97). Trata-se de abrir efetivamente as portas à participação de todos os fiéis, cada um de acordo com a graça recebida entre os multiformes dons de Deus à Igreja. A mobilização dos leigos, a criação de condições que lhes permitam ser adultos na fé e comunicadores do Evangelho, a diversificação dos ministérios, abrindo novos espaços de atuação organizada no serviço da Igreja, são todas exigências da Nova Evangelização (...)” [3]

Leigos santos, encontramos alguns, entre os personagens bíblicos e alguns mártires dos primeiros séculos. Mas, entre os oficialmente canonizados há muitos membros do clero, como bispos, fundadores de Ordens religiosas, irmãs e padres milagreiros e há alguns reis e rainhas, mas poucos pais e mães de família ou trabalhadores. Santos índios, santos negros, o povo os cultua sem a canonização oficial.

frei Francisco van der Poel ofm

Mais sobre o assunto:
BOSCHI, Caio Cesar. Os Leigos e o Poder. São Paulo, Ed. Ática, 1986

[1] Apud: ZICO, José Tobias. Pe.  Ozanam e o Leigo na Igreja. Belo Horizonte, 1971. p.13.
[2] CNBB. Leigos e Participação na Igreja: reflexão sobre a caminhada da Igreja no Brasil. (Estudos da CNBB, 45) São Paulo, Ed.Paulinas, 1986. pp.133-136.
[3] CNBB. Rumo ao Novo Milênio. São Paulo, Ed.Salesiana, 1996. p.33