IGNORÂNCIA

Não ter ciência. Expressão: Não saber da missa a metade.

A ignorância está à raiz de muitos preconceitos. Percebe-se em boa parte do clero uma ignorância a respeito da religiosidade popular e do seu significado na vida dos pobres. Disse uma agente de pastoral (M.L.Barbosa) num desabafo: "Quantas vezes consideramos certo só o que nós sabemos e ignoramos as outras culturas, as pessoas simples que nunca estudaram mas são capazes de viverem seus valores e são bem aceitos por Deus que é o único Pai de todos." (Agudos SP, 2005)

Ignorância dos mistérios de Deus. Esperando a chuva o pobre penitente afirma: não entendo os segredos de Deus.

Certamente não é por querer que o povo não conhece o funcionamento das organizações que lhe garantem os direitos humanos.

Por causa da má política de educação continua grande o número de analfabetos. Mas, baixa escolaridade não é ignorância. Analfabetismo e ignorância não são sinônimos. A consciência do seu pouco saber é virtude de muitos populares. A própria vida ensina muita coisa ao homem pobre e lutador, sobretudo a sabedoria. A desinformação é prejuízo. Talvez o povo saiba pouco da geografia e da história do mundo ou da igreja. Mas não subestimemos a influência da televisão.

Enquanto políticos, professores e padres facilmente chamam o povo de ignorante, Paulo Freire alerta para a alienação da ignorância: "Na visão 'bancária' da educação, o ‘saber’ é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber. Doação que se funda numa das manifestações instrumentais da ideologia da opressão, a absolutização da ignorância, que constitui o que chamamos de alienação da ignorância, segundo a qual esta se encontra sempre no outro. O educador que aliena a ignorância, se mantém em posições fixas, invariáveis. Será sempre o que sabe, enquanto os educandos serão sempre os que nada sabem. (...) Reconhece, na absolutização da ignorância daqueles a razão de sua existência”.[1]

Partir para a ignorância, usar da violência. Na canção das CEBs (BA) "Ladrão de Gado": Os tais fazendeiros já desesperados,/ pois eles sabiam que iam perder,/ então apelaram para a ignorância/ para fazer vingança, matar ou morrer.

frei Francisco van der Poel. ofm

[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 8ªEd. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1980. p.67