A ALEGRIA DA FÉ E DA VIDA NA

FESTA DE SÃO BENEDITO

Sim, aos poucos descobre-se, que na festa de são Benedito - reside o mistério da alma, o mistério da alegria e o mistério da humildade.

De Plotino, famoso filósofo neoplatônico do século lI, vem-nos uma desafiadora questão: será que a alma reside no universo ou o universo reside na alma? Quando as bandas congas e moçambiques começam a tocar, dançar e a cantar na festa de são Benedito, nota-se que "há algo de diferente no ar" que permeia tudo e todos.

Quando a equipe de rádio e televisão de uma conhecida cadeia nacional foi chegando com toda a pompa e circunstância, com vários microfones e luzes para entrevistar um capitão de congada, a repórter citadina me fez testemunhar a simplicidade de uma resposta reveladora. E foi preciso escutar a gravação da mesma passagem, várias vezes, até entender sua extensão e seu significado.

Repórter: Então, quantos meses vocês passam ensaiando para tocar, cantar e dançar na festa de são Benedito?

Capitão: Não, não, não. Às vezes, a gente fica até quatro, cinco e seis meses sem nenhum ensaio. Mas, quando é preciso, é só a gente começar e são Benedito vem e prepara tudo e a gente toca, canta e dança para ele da forma e jeito, como se tudo já estivesse sido preparado.

A resposta, desnecessário dizer, provocou surpresas, risos, leves sussurros. A resposta do capitão, longe de querer ofender a ingênua repórter, revelou uma total confiança e fé em Deus e em si próprio, na sua alegria e na sua humildade. Seu próprio dilema seria resolvido na fé, na alegria e na humildade através da comunhão dos santos. Com a resposta do capitão, a citadina pareceu disfarçar e a festa continuou.

O que Plotino especulava com sobriedade evidenciou-se: o universo reside na alma, só que, agora, o que eu testemunhava era através da comunhão dos santos. Homens e mulheres vestidos de reis e rainhas. Negros, de uma maneira digna, lembram seus ancestrais que adotaram o catolicismo no século XVIII, em substituição aos ritos africanos, e que, através da mensagem do Cristo, declamam a existência de suas próprias almas e trazem consigo todos os traços régios de seus antepassados, desde Chico Rei de Minas Gerais até hoje. A beleza da festa vem imediatamente após a Páscoa. A Páscoa é no domingo e a festa começa na segunda, em Aparecida. É como se fosse um grito de Ressurreição!

Célio Batista Leite, um dos responsáveis da recepção das Congadas e Moçambiques em Aparecida, nesses últimos 36 anos consecutivos, oferece algumas informações: "A maior documentação que eles têm para nos mostrar em suas mãos são os calos que advêm do trabalho da lavoura. São gente simples de trabalho diário, sol a sol, produzindo o nosso alimento, o pão nosso de cada dia. Assim as "congadas" e "moçambiques", cada um no seu ritmo diferente, fazem a beleza da festa de são Benedito.

O que acontece é que as "congadas" e os "moçambiques", através de seus capitães, inventam versos, na hora, dirigindo-se a cada pessoa que está ali e o restante do grupo responde aquilo que o "capitão" está contando. É contagiante porque o "capitão" te põe como filho de Deus e ele dedica a você versos que vêm da inspiração de Deus, do divino Espírito Santo, e que te fazem alegre.

É dom do divino Espírito Santo. Sem desfazer da folia do carnaval, etc, a alegria que vem de Deus, do divino Espírito Santo te eleva, te faz sentir mais gente e você guarda sempre a recordação de uma coisa boa. É o dom que vem de Deus, então, é tão bom a gente ter as coisas de Deus, a gente viver os momentos de Deus".

Resumidamente, o que podemos dizer sobre "congadas" e "moçambiques" da festa de são Benedito em Aparecida e Guaratinguetá é que homens e mulheres, jovens e velhos, com uma mensagem própria, vestidos de reis, rainhas, marujos e soldados, com uma gestualidade peculiar às pessoas humildes que ganham o pão na lavoura e valendo-se de instrumentos rudimentares, às vezes, sem brilho, tocam, cantam e dançam para são Benedito, Nossa Senhora do Rosário e santa Efigênia.

Não seria correto dizer "transvestidos" de reis, rainhas, o correto seria dizer transvestidos de mal disfarçados espantalhos. Por que "disfarce", por que espantalhos? Por que como campesinos eles não tem os meios de se bem vestir, como no carnaval do Rio e de São Paulo. Para os citadinos que observam, fica a mensagem de pobreza daqueles campesinos "ridículos" e de sua fantasia "espalhafatosa", ainda mais ridícula como se fosse um "exército" Brancaleone.

No entanto a verdade é outra: o que transparece é que aqueles pobres com inteligência campesina, vivaz, parecem dizer aos citadinos de "bom gosto" e "cultos" que "se nossos disfarces, fardas, túnicas, coroas fossem reais e chiques nossa mensagem, sim, seria ridícula", como acontece, nas festas de carnaval.

O que transparece nisso tudo é que, através da dança, do canto e da música, na festa de São Benedito, existe um outro traço cultural tênue, onde a realidade transcendente, girando à volta de sua própria inocência, entrega-se a todos, indistintamente, pela alegria e humildade. A alegria virá através daqueles humildes homens e mulheres, jovens e velhos.

Os menores dentre os menores farão ver como o exterior é transitório e enganoso. A celebração da festa de são Benedito é como se fosse um batido à porta, à porta de nossa alma que irá encontrar a presença dele. Nascido em 1526, descendente de escravos trazidos da Etiópia para a Sicília, são Benedito foi canonizado em 24 de maio de 1807, sendo patrono de Pai ermo, desde 1652. Quando criança, foi pastor de ovelhas e, mais tarde, lavrador.

No rigoroso processo de canonização, a única conclusão a que todos puderam chegar foi que ele era iluminado pelo Espírito Santo com todos os seus dons e, assim iluminado, esclarecia os mais doutos, ilustrados e letrados de seu tempo a respeito da teologia, das sagradas escrituras e de outras questões de moral, dogmas, etc.

São Benedito descobria os segredos dos corações, penetrando no íntimo das pessoas, dispensando-as de entrarem em explicações a respeito de seus problemas, os quais ele sabia sem que ninguém lhe tivesse contado. Assim o mistério da humildade, da alegria e da alma, longe de ser desvendado, continuará a ser celebrado na próxima festa de são Benedito. Todos estão, desde já, divinamente convidados.

Wagner Roberto Della Gatta