Uma experiência de negociação afetiva

O tema espaços individuais versus espaço relacional, sempre chamou minha atenção e, ao iniciar meu pensar quanto à possibilidade compor uma unidade funcional para trabalhar no contexto terapêutico, comecei a me dar conta da quantidade de negociações que deveria fazer com meu parceiro na condução do trabalho com famílias. Durante nosso primeiro contato já pude perceber o desejo de apropriar-me do que é meu para colocar à sua disposição, revia comigo mesmo assuntos convergentes ou não para parceria, dentro do que ela já definia como prioritário. Esta vivência levou-me a exercitar o que é o concretizar de uma união...

      Aos poucos percebi que este era um bom tema para pensar com vocês: a construção do espaço relacional.

      Trabalho clinicamente, principalmente com casais e famílias, e, faz parte da minha prática a observação da dificuldade que os casais têm de desenvolverem seus espaços individuais na proporção satisfatória ao desenvolvimento do espaço da relação conjugal. Tem sido uma constante a queixa tanto da mulher como do homem, do quanto se sentem insatisfeitos no espaço relacional.

II - Construto Teórico

      Creio ser interessante deixar claro o que entendo por espaço individual e por espaço relacional. Bem como, apresentar um referencial teórico que nos ajudará a pensar sobre este tema.

a) Espaço Individual

      É onde o indivíduo se desenvolve a partir do que conhece de si e onde investe para alicerçar coisas que lhe dão prazer e que lhe enriquece o cotidiano. Cabe aqui a busca do lazer, a formação de grupos sociais, a busca de uma profissão, o desenvolvimento de sua intelectualidade, a descoberta da  gratificação de estar só, o prazer em estar em casa, etc. A questão é estar consciente do que gosta e de quanto quer investir no desenvolvimento de cada um de seus papéis: homem/mulher, profissional, pai/mãe, etc.

b) Espaço Relacional

      Este espaço é desenvolvido a partir do que conheço de mim e do meu cônjuge e do quanto quero e posso negociar comigo mesmo e com outro em prol de um espaço comum, o espaço relacional.

      Para esclarecimento, durante este trabalho usarei para definir este espaço os termos: espaço conjugal,conjugalidade, espaço da relação.

c) Amor romântico

      Amor romântico é considerado para Rougemount (1971) como base do casamento moderno no ocidente e, embora ele considere paradoxal esta ligação entre o matrimônio e o amor paixão que é intrínseco ao amor romântico, posto que este último se alimenta dos obstáculos e dos sonhos e tende a ser efêmero e o matrimônio se constituí pelo que é rotineiro e monótono e se pretende duradouro, não se concebe para o matrimônio outra razão que não seja o amor romântico. A livre escolha de parceiros estaria em grande medida associada no enamoramento ao parceiro e tem como alvo a busca de uma pessoa especial.

d) Amor confluente

Para Giddens amor confluente é a busca de um relacionamento especial, o amor confluente é uma forma de amor que estaria mais próxima ao contexto contemporâneo. Nele a comunicação entre um e outro é aberta e direta, o amor é ativo e contingente e não se propõe ao “para sempre”, característico do amor romântico”. Nele se busca um relacionamento especial diferentemente do amor romântico que busca uma pessoa especial (1993).

III - Personagens que enriquecem o meu pensar

      Para desenvolver minha escrita usarei como exemplo quatro casais de minha clínica.

A. - 30 anos, homem, arquiteto, docente, mestrando. x - B. - 28 anos, mulher, assistente social, mestranda.

C. - 46 anos, homem, médico, jornalista. x D. - 39 anos, mulher, advogada.

E. - 40 anos, homem administrador, técnico em eletrônica. x - F. - 45 anos, mulher, promotora de vendas.

G. - 40 anos, homem, banqueiro. x - H . - 38 anos, mulher, advogada (sem exercer)

 

IV - Fatores que influenciam na construção do espaço relacional

a) histórias individuais

      Ao iniciar uma relação afetiva cada parte deste todo relacional traz consigo um número imenso de expectativas decorrentes da história vivida em sua família de origem (pais e avós), caracterizando uma série de legados geracionais apreendidos na vivência do cotidiano e passados, com a força de heranças, de geração. Nesta bagagem que cada um leva de sua vida para a relação conjugal, cabe também o apreendido culturalmente como resultado de um momento social. Para melhor compreensão podemos pensar na expectativa que socialmente um homem e uma mulher têm do seu cotidiano. - O papel idealizado.

b) Expectativa do Amor Romântico

      Para ambos um fator que também influencia na insatisfação da vivência da conjugalidade é a expectativa da demonstração no cotidiano da manutenção do romance. Esta expectativa é responsável pela afirmação de que o outro “não me ama mais”, o outro não têm mais interesse por mim”. Exemplos desta inferência: “Há muito tempo ele não me convida sequer para tomar um chopinho” F. - mulher. “Eu quero estar com ele, identificar que espaço ele define para mim. Isto porque o trabalho lhe ocupa um espaço considerável.”H. -mulher. “Ele nem sequer notou que lhe mandei um arranjo de flores em forma de coração, ele só viu uma cesta!” D.-mulher. “Ela não me ouve com atenção chega a me interromper para que eu seja mais objetivo. O que eu sinto se perde” A. - homem. “Ela não ouve o que eu digo, usa o que eu digo para falar sobre ela. O que eu faço se perde” E. - homem

c) Atrofiamento do Espaço Individual da Mulher

      Outro fator interessante para a observação do equilíbrio entre o desenvolvimento do espaço relacional e o espaço individual, é o quanto a mulher investe na relação com o filho e acaba deixando de desenvolver seu papel de mulher. Para vivermos esta afirmação os seguintes exemplos nos ajudarão: “Enquanto eu cuidava de nossos filhos, levando para a escola, para o futebol, para o terapeuta, para a casa de amigos, para a festa de final de semana, ele trabalhava, jogava futebol e conversava tomando chope com os amigos” F. - mulher. “Eu cuidava do filho dele e ele ficava no trabalho ou na frente da televisão” D. - mulher. “Eu fui ficando em casa e ele crescendo profissionalmente. Deixei meu diploma de advogada e passei a ser chofisa e acompanhante de filho... Aos poucos fui percebendo que ele era um grande pai também para mim. Um pai cerceador e rígido.” H- mulher.

      Através da vivência de cobrança da mulher, o homem também se fecha e vai aumentando a distância entre ambos e conseqüentemente o investimento na relação conjugal fica menor.

d) O Pequeno Conhecimento de si e do outro

      A possibilidade de desenvolver o espaço individual passa pelo conhecimento que cada um tem de si, das coisas que gosta, daquelas que negociou de si para consigo para construção da conjugalidade e também da relação parental. Pedindo ajuda aos casais que embasam meu pensar posso exemplificar: “Eu espero que ele mude o seu jeito de ser pois eu não sei o que posso mudar. Sinto um imenso vazio mas não sei o que fazer.” F. - mulher “Eu tive um sonho terça feira e de repente me apercebi que o que eu espero de C. eu já queria de meus pais. Mas, já estamos casados há 12 anos... “D. - mulher. “Eu fui fazer terapia e de repente eu acordei! Quero fazer dança de salão, sair para passear com amigos, ter minha vida própria. Não sei o que quero do casamento. Acho melhor a gente ficar em casas separadas.” H. - mulher. “Enquanto eu ficava em casa ele estava por cima, agora eu trabalho e ele me cobra coisas o tempo todo por continuar por cima. Eu até entendo mas sinto uma angústia... “F. - mulher” Tudo que representa meu crescimento individual a F. Eu não sei o que fazer para satisfaze-la” E. - homem. “Eu dou tudo o que ela precisa. Mas exijo que seja esposa e mãe. Não dá para chegar em casa e esquentar meu jantar. Ela está perdida!” G. - homem.

V - Minha parceria com o psicodrama

      Em meu cotidiano de consultório, para representação dos espaços individuais e para a representação do espaço relacional, valho-me da “espontaneidade como natureza primordial” (Moreno, J.L.) e utilizando como objeto intermediário almofadas de diferentes tamanhos e cores, busco concretizar o desenho dos espaços mencionados.

      O uso de almofadas é um aquecimento específico para que cada um possa no seu tempo e limite, tomar o lugar das mesmas, para dramatizar as sensações dificuldades que se fossem ser apenas faladas não seriam escutadas na mesma  intensidade.

      A cada vez que um membro do casal apropria-se de seu espaço representado pela almofada, o outro pode observar e solicitar a possibilidade de intervir ou alterar o explicitado. Neste momento são os autores e escritores do texto que representam. Este recurso permite que ambos e cada um possam ver no concreto o quanto é sofrido, restrito ou desequilibrado, a construção do espaço relacional ou/e do desenvolvimento dos espaços individuais. Este é um processo interessante de resignificação onde o psicodrama entra como um instrumento que me permite concretizar o “sentido” e “vivido” e, auxilia aos casais a perceberem as distorções entre o real e o idealizado de cada um. Por diversas vezes os casais ou um membro do casal se surpreende com a própria realidade.

Rosana Galina é terapeuta de casal e família, psicodramatista e membro do NUPEF - Núcleo de Pesquisa e Estudos da Família - PUC - SP

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