Obesidade e estilo de vida

Existe hoje 27 milhões de brasileiros com excesso de peso - o equivalente a 30 % da população adulta. Desses, 6,8 milhões são obesos.

A obesidade é uma doença heterogênea de origem multifatorial. Ela é resultante da combinação de fatores genéticos, metabólicos, neuroendocrinos, dietéticos, sociais, familiares e psicológicos.

Na tradição judaica, a obesidade tem pouco a ver com o conceito gordo / magro, e sim com o de leve / pesado. Obeso é aquele que é pesado em diversos níveis. Os rabinos diferenciam dieta de regime. Dieta não serve para emagrecer, mas para ficar mais leve. Daí nos apresentarem dietas, e não regimes, para tratar da alimentação como um sistema profundo e complexo, e não de um simples ato.

Inserida no capitulo dos transtornos alimentares, podemos falar em dois tipos principais de obesidade: a "reativa" e a "de desenvolvimento".

Obesidade reativa - Quando o ganho de peso não está relacionado a problemas triviais, mas a determinados eventos, como casamento, gravidez, envelhecimento, viuvez, mudança de trabalho etc. São casos de superalimentação compensatória, reativa.

Os obesos de desenvolvimento apresentam excesso de peso desde o começo da vida. Eles tendem a vivenciar e a confundir os mais variados desejos como necessidade de alimento. Costumam recuperar, em poucos meses, tudo que eventualmente tenham emagrecido.

Existem ainda, como transtornos alimentares, a obesidade mórbida, a bulimia, a "binge eating disorder" e a anorexia nervosa.

A obesidade mórbida é definida como peso pelo menos 100% acima do peso ideal (ou IMC>40). A maioria dos casos é constituída de mulheres de baixo status sócio-econômico, com história de vida revelando transtornos de humor, ansiedade, fobias, bulimia e tabagismo.

A bulimia é uma anarquia alimentar crônica associada a uma preocupação obsessiva com o peso. Caracteriza-se pelo surgimento repentino e incontrolável de episódios de superalimentação, "orgias alimentares", compostas geralmente por massas e doces, seguidas de vômitos provocados e do uso abusivo de diuréticos e laxativos, como forma de controle de peso. Uma paciente apresentava episódios em que ingeria comida congelada, banana com casca, martini, farinha com açúcar e água. Isto era alternado com semanas de jejum + ginástica excessiva + laxantes + vômitos (usando água com sabão e sal).

Na "binge eating disorder" ou transtorno do comer compulsivo, o quadro clinico é o mesmo, mas não existe o vômito provocado, nem o emprego de diuréticos e laxantes para emagrecer.

Anorexia nervosa: A anoréxica nervosa é geralmente uma mulher jovem que se " ve " gorda, apesar do aspecto esquelético, beirando o cadavérico. É uma paciente muito grave, pois pode chegar a morrer de fome devido ao medo patológico de engordar.

Estilo de vida, diferença de gêneros

A grande maioria dos casos não orgânicos revela origens dietéticas, sociais e psicológicas, podendo ser definidos como doenças do estilo de vida:

DIAGNÓSTICO DA OBESIDADE

IMC (ÍNDICE DE MASSA CORPÓREA) = P/A

P = PESO

A = ALTURA

P/A = 22-25 (PESO IDEAL)

22-30 (EXCESSO DE PESO / SOBREPESO)

30-40 (OBESO)

> 40 (OBESO MÓRBIDO)

EXEMPLO: PESSOA MEDINDO 1,60 M

P' = 22 x A

P' = 1,60 x 1,60 x20 = 56,32

P"= 25 x A

P"= 1,60 x 1,60 x 25 = 64,00

Portanto , uma pessoa com 1,60m deverá pesar entre 56 e 64 kg

Geralmente acometem pessoas com ansiedade patológica, inadaptação social e que fazem pouco caso das necessidades biológicas no que concerne a exercícios físicos e a alimentação.

Diferenças de gêneros (masculino e feminino) com relação a problemas alimentares aparecem inicialmente na adolescência. As mulheres experimentam mais conflitos relacionados a comida, peso e forma do corpo do que os homens. As pressões para se manterem magras estão presentes já no início da adolescência, como pode ser notado através das dietas iniciadas por garotas bem jovens.

As mulheres de sucesso são magras, e a imprensa dá tanto valor aos seus trabalhos e discursos quanto aos seus trajes. Entretanto, se forem gordas, logo surgirão as críticas e as piadas em que, amiúde, se colocam em duvida as tendências sexuais da "vítima".

Mas com relação a obesidade masculina, a sociedade é bem mais benevolente, principalmente se o homem e bem vestido e desfruta de bom nível sócio econômico. O magro e elegante é tido como mais "dinâmico", indicando "pessoa que triunfa, que se impõe"; Se for gordo e rico, pode ser visto corno um "empresário respeitável", um "político conservador"; caso seja pobre, será considerado "bonachão" e com possibilidades de não ser levado a serio; há ainda os gordos "mal educados": Os motoristas de caminhão, ônibus e táxi.

Algumas mudanças sociais são observáveis atualmente como mostram anúncios publicados no Classline da Folha de S.Paulo, sob títulos como "Fofucha", "Gordinha Sexy", e a reportagem "Secretária publica o anuncio 'Fofinha' e acha 'gordinho"', em que uma secretária conta que nunca se conformou de ouvir de amigas que precisava emagrecer se quisesse encontrar um namorado. Publicou o anúncio e arrumou um namorado "gordinho também".

Imagem Corporal

A imagem corporal e o "retrato mental" que a pessoa faz de sua própria aparência física e das atitudes e sentimentos em relação a esta, revelando-se como importante indicador para a compreensão e o tratamento da obesidade.

0 obeso tem frequentemente uma imagem corporal distorcida; quando a distorção começa na infância, a pessoa pode acreditar que seu corpo é grotesco, que os outros a olham com desprezo ou hostilidade, e que quem se aproxima o faz por pena ou por ser igualmente monstruoso. Na adolescência, pode aparecer um medo mórbido de engordar. A criança ou a adolescente vai "aprendendo" que seu corpo é feio e desagradável e vai se tornando cada vez mais "inimiga" dele, considerando-se "mal vista" e "não amada".

Psicodinâmica

A compulsão de comer está ligada ao desejo inconsciente de ser gorda. Comer por compulsão pode ser extremamente sofrido: por trás das piadas auto-depreciativas encontra-se uma pessoa que sofre intensamente, pois acaba centrando sua vida no aspecto "comida". Em geral, come furtivamente, ou com amigas que também comem, enquanto que em público é uma "profissional da dieta", bastante admirada por sua abstinência e força de vontade.

Quando uma pessoa come compulsivamente , está geralmente demonstrando um desespero interior. Sua fome é,freqüentemente, de amor, de prazer, de vida. E tal fome leva a pessoa a comer desesperadamente, mas aparece implacável, o sentimento de culpa. Sente desprezo por si mesma e passa a identificar-se com esta "comida ruim", de modo que deseja iniciar imediatamente um novo regime. Ao começar este regime, porem, ela não está demonstrando que o desespero desapareceu, pois agora ela é compulsiva no regime, da mesma forma que antes era compulsiva no comer.

Esta pessoa tem a ilusão de que a próxima dieta será definitiva, que voltará a ter o peso e a aparência jovem de antes do casamento, ou até mesmo da adolescência, e sem culotes nem estrias nem flacidez, embora na maioria das vezes não haja disposição para um trabalho de psicoterapia ("não acredito nisso"), nem de ginástica ("não tenho tempo para isso" ou já faço muita ginástica cuidando da casa") e sequer para obedecer as restrições alimentares mais simples ("uso açúcar porque adoçante me dá dor de cabeça", "não suporto o gosto do refrigerante dietético", "engordei no fim do ano porque comi tudo o que eu tinha direito").

Vem então o círculo vicioso: a pessoa quer mudar a vida e vai começar um regime (que "vai curar a vida"):

compra produtos dietéticos, entra na academia, toma chás emagrecedores etc.; mobiliza uma enorme energia psíquica, totalmente direcionada para isso . Mas junto com a felicidade do emagrecimento as vezes brota a depressão (que estava mascarada) e afloram ansiedade, dor, tristeza, choro, porque na verdade, nada essencial mudou: a vida não "curou, o amor não nasceu, o reconhecimento dos outros não surgiu, a fortuna continua distante, e a auto-desvalorização recrudesce. A depressão está presente nos dois extremos: na gordura e na magreza.

A preocupação com a magreza e uma manifestação de um desejo de manter a juventude e a elegância, uma expressão do medo de envelhecer. No obeso, a falta de energia e responsável pelas sensações de fadiga, depressão e passividade.

Foi bem demonstrada a influencia do fator ambiental na obesidade, em que existe uma constelação familiar típica constituída de um pai fraco e de uma mãe super-protetora e dominante que limita as possibilidades de expressão e evolução do filho, obrigando-o a manifestá-las quase exclusivamente na atitude oral.

Acontece, com freqüência, que uma mãe seja bastante ansiosa e considere ameaçador à sua auto-estima qualquer sinal de desconforto emitido pelo filho. Ela procura satisfazer as necessidades infantis sempre através do alimento: no dia-a-dia, quando o bebe chora porque a fralda esta molhada, a mãe lhe dá comida. Até que, é claro, afinal acerta: ele chora de fome e a mãe o alimenta. Quando merece um elogio por bom comportamento, ganha um sorvete; se fizer algo indesejável, o castigo é cortar a sobremesa! Este tipo de viés materno vai ensinando a criança a resolver suas dificuldades emocionais com a ajuda da comida: as frustrações, a auto-destrutividade e a dificuldade em lidar com a realidade revelam-se intensamente na ânsia pela comida.

O lema da mãe do obeso é "Coma e fique quieto!" Enquanto isso, o pai ou não está presente ou olha para o outro lado, deixando a mãe agir livremente. A falta, inexistência, ausência ou debilidade do pai não só dificulta o oportuno desligamento da mãe, como também dificulta as identificações masculinas indispensáveis para ambos os sexos. O filho obeso tem também sua responsabilidade submetendo-se, deixando-se induzir; pois não tem energia nem modelos para recorrer a outras alternativas vitais.

Obesidade feminina e sexualidade

A gordura pode ser o mecanismo utilizado pela obesa para não reconhecer sua sexualidade e evitar os "perigos" a esta associados. E como se seu objetivo fosse construir um muro de carne entre ela própria e os outros:

"O peso é uma proteção. Os homens não olham para mim. Eu me escondo por trás do peso", diz uma paciente. A gordura transforma-se no símbolo visual de todos os aspectos físicos e psicológicos que a pessoa odeia em si mesma: não existe identidade - a pessoa é "só gorda".

A obesidade também afasta os aspectos competitivos presentes nos relacionamentos: a mulher gorda nem mesmo tenta entrar no "mercado" e no 'jogo": renuncia a possibilidade de ser protagonista, contentando-se com o papel de coadjuvante, ou seja, a "melhor amiga", a "confidente". Nos romances, sabemos, a heroína é sempre magra e esbelta; gorda e a amiga solteira, a criada de confiança, a prima feia, a "tia fofoqueira" etc.

Engordar após o casamento é um fato extremamente comum. Sentindo-se mais segura por considerar-se "garantida", a mulher pode achar que é tempo de abandonar os sacrifícios do regime e "premiar-se" com as guloseimas que aprecia, mas era obrigada a privar-se.

Os maridos podem exercer um importante papel na manutenção da obesidade da mulher. Uma das maneiras é estar constantemente solicitando que ela emagreça, embora o que realmente consigam é fazer com que a mulher se sinta ofendida e rejeitada. Como um número enorme de mulheres se considera gorda independentemente do peso, a crítica do companheiro apenas confirma a sensação de que ela deve emagrecer, se deseja ser estimada. Outra forma é jogar diretas ou indiretas em que são feitas comparações com outras mulheres.

Há maridos especialistas em "dupla mensagem", isto é, enviam simultaneamente mensagens contraditórias entre si. Um exemplo freqüente é dar a entender à esposa que deseja vê-la magra e estar constantemente lhe comprando bombons, ou convidando-a a comer pizza.

A insatisfação sexual no casamento pode chegar a um ponto em que as carência emocionais e sexuais são confundidas com a fome física, e assim podem ser atendidas concretamente, ainda com a vantagem de não depender de ninguém (entenda-se o marido) para se satisfazer. Por isso, Stuart & Jacobson dizem que "um mau casamento é tão engordativo como um sundae com calda de chocolate".

Arthur Kaufman é professor de psicologia medica e psiquiatra da FMUSP, mestre e doutor em psiquiatria pela FMUSP, professor, supervisor e terapeuta de aluno pela FEBRAP e coordenador do projeto de atendimento ao obeso do IPHC da FMUSP.

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