Um mito para a fobia

A fobia é uma neurose e, na psicologia junguiana, a neurose tem uma função de reorganização psíquica. A neurose "é uma tentativa de auto-cura, bem como qualquer doença física também o é (...); é uma tentativa do sistema psíquico auto-regulador de restaurar o equilíbrio, que em nada difere da função dos sonhos, sendo apenas mais drástica e pressionadora" (Jung, CW 18/1, § 157).

Se os arquétipos são os componentes universais da psique, podemos dizer que neles está (ou que eles geram) esse potencial auto-regulador. Neste sentido, James Hillman utiliza-se de uma citação de Jung a fim de considerar a psicopatologia na sua dimensão arquetípica para "reconhecer os próprios Deuses como patologizados, a infirmitas do arquétipo" (Hillman, 1997, p.11): "Os deuses tornam-se doenças; Zeus não mais governa o Olimpo, mas, antes, o plexo solar, e produz curiosos espécimes para o consultório médico" (Jung apud Hillman, 1997, p. 69).

Daí Hillman conclui que a doença, enquanto arquetípica, é universal e necessária: "Ao pressupor que o necessário é o que ocorre entre os Deuses, isto é, que os mitos descrevem padrões necessários, concluímos que as suas patologizações são necessárias, assim como as nossas são necessárias à mimese das deles. Uma vez que a infirmitas deles é essencial para a sua configuração plena, segue-se que nossas patologias são necessárias à nossa completude" (Hillman, 1997, pp. 12-13).

Conseqüentemente, podemos considerar que o sintoma fóbico tem um motivo para se fazer presente, e este motivo será, em última análise, a completude da pessoa que dele padece, ou seja, a individuação. Em outras palavras, esse potencial auto-regulador do arquétipo (acima indicado) opera através da própria fobia (similia similibus curantur).

Decorre do anterior que "os mitos e suas figuras podem ser examinados como padrões de patologia" (Hillman, 1995, p. 69).

Tratar-se-ia então de encontrar um mito que expresse o padrão universal da fobia. Não achei nenhum material entre os autores junguianos consultados que relacionasse diretamente a fobia com um mito. Estive, então, pesquisando diversos livros de mitologia à procura de um tal mito. Nesta pesquisa, deparei-me com o deus grego Fobos e, tendo a palavra portuguesa "fobia" sua origem etimológica no nome desse deus, achei interessante aprofundar-me no estudo desse personagem. Fobos é filho de Ares e Afrodite. Junto com o seu irmão Deimos, ele acompanhava seu pai, deus da guerra, no campo de batalha. Na breve pesquisa bibliográfica realizada, Fobos é traduzido por Medo (De Souza Brandão, 1989; Kerenyi, 1994; Lefevre, 1976) e também por Receio (Commelin, 1941). Ambas palavras, quase sinônimas, expressam o aspecto de temor indissociável da fobia, e ambas podem ser entendidas como a causa da conduta de esquiva, que é própria da fobia. Este último ficando registrado na seguinte citação: "Filho de Marte e Vênus. Personificação do Medo: acompanhava seu pai nos campos de batalha, incitando os combatentes a fugir". (Lefevre, 1976).

Acontece que, segundo os autores consultados, não existe um mito próprio para Fobos; talvez existiu e, no transcorrer dos séculos, foi esquecido. Será que o fato deste mito existir e ser conhecido nos ajudaria a compreender melhor os transtornos fóbicos? Ou talvez o nome de fobia foi dado simplesmente pelo fato da pessoa fóbica sentir medo e fugir perante o estímulo fóbico, como se este estivesse acompanhado por Fobos? Será que isto é suficiente para expressar o padrão da fobia? Nos resta ainda uma terceira opção, que seria a de entender Fobos em função do encontro amoroso entre Ares e Afrodite, do qual dão conta diferentes autores clássicos. Esta figura poderia estar então expressando um possível resultado do encontro entre Ares e Afrodite, amor e guerra, masculino e feminino... Certamente, isso poderia fazer algum sentido em alguns casos atendidos na clínica. Ainda assim, eu não ousaria afirmar que este mito esteja expressando o padrão universal da fobia. Ficaria para futuras pesquisas ver a possibilidade de generalizá-lo para todos os casos de fobia. Por não ser assim, espero que o leitor possa ao menos se distrair com a história que vai lhe ser contada. Homero (1), Ovídio (2) e Hesíodo (3) denunciaram os amores de Ares  e  Afrodite (ou Marte e Vênus, nas versões latinas). Estes deuses se apaixonaram um pelo  outro e tinham seus encontros secretos no palácio de Hefesto, marido de Afrodite. Ninguém sabia disso, e Ares colocou Alectrion, seu favorito, como sentinela; mas, tendo este adormecido, Febo, o Sol, rival de Ares frente à bela deusa, reconheceu os culpados e foi prevenir Hefesto. O feio esposo de Afrodite, o ferreiro, "o mais engenhoso de todos os filhos do céu" (Homero apud De Souza Brandão, p.45), construiu uma rede invisível onde aprisionou sua esposa em adultério flagrante com Ares, deixando-os expostos por vários dias ao riso e, por assim dizer, ao desejo dos demais deuses. Assim, quando Hermes é questionado por Apolo, em gargalhadas, se gostaria de estar preso à rede ao lado de Afrodite, respondeu-lhe: "Se eu pudesse, deixar-me-ia de bom grado acorrentar com correntes três vezes mais fortes! E todos vós, deuses e deusas, poderíeis vir e olhar para mim - tão alegremente me deitaria eu ao lado da áurea Afrodite" (Kerenyi, p. 68 - 69).

Posídon suplicou a Hefesto que libertasse Ares e ele o fez, de má vontade. Ares castigou Alectrion transformando-o em galo, que, desde então, procura reparar seu erro, anunciando com o canto o nascimento do astro do dia. O encontro entre Ares e Afrodite expressa uma polaridade simbólica entre Ares, deus da guerra, fator masculino, ativo, auto-afirmativo, dinâmico e tudo o que pudermos pensar em relação a isso, e Afrodite, deusa do amor, fator feminino, receptivo, passivo, acolhedor, não auto-afirmativo, mas reconhecedor do outro. Não é de se estranhar que não se trate de uma relação permanente, assentada, mas um encontro bem tumultuado, visto que se trata de uma expressão bem extremada desta polaridade. O contato entre dois pólos tão extremos produz uma grande tensão, mas, ao mesmo tempo e em proporção direta a essa tensão, há uma enorme possibilidade de fertilização. Desses encontros esporádicos nasceram três filhos. Podemos facilmente entender que tamanho conflito engendrasse os já mencionados Fobos (o medo) e Deimos (o terror). Mas houve também uma filha, Hermione ou Harmonia, "a que une" (Kerenyi, p. 67); igualmente, segundo algumas versões, o próprio Eros (o Amor) e Ânteros (a resposta ao amor) foram filhos de essa união (Cícero, De Natura Deorum, em Kerenyi, p. 67). Há, portanto, uma possibilidade de entendimento e integração entre os opostos representados por Ares e Afrodite. Em outras palavras, se a fobia é fruto de um encontro conflituoso entre determinados aspectos do masculino e do feminino, talvez exista também a possibilidade de harmonia entre eles; talvez, portanto, seja possível transformar a fobia em um encontro harmônico entre dois aspectos conflituosos da pessoa. Lembremo-nos da opinião de Jung (acima citada), segundo a qual "a neurose é uma tentativa de auto-cura e de restaurar o equilíbrio psíquico" (Idem). Se nesta citação trocássemos a palavra "equilíbrio" por "harmonia", em nada mudaria o seu sentido.

Deste modo, pode fazer sentido olhar para a fobia como uma doença que abre a possibilidade à pessoa que dela padece de contatar com diferentes manifestações do masculino e do feminino, assim como a de trocar em harmonia o conflito existente entre elas. Podemos voltar a Hillman para concluir este capítulo: "(...) é principalmente através dos ferimentos na vida humana que os deuses entram (e não através de eventos pronunciadamente sagrados ou místicos), porque a patologia é a maneira mais palpável de testemunhar os poderes que estão além do controle do ego e mesmo da insuficiência da perspectiva egóica". (Hillman, 1997, p. 71).

Carlos Bein - psicólogo

 

Notas

(1) - A Odisséia, segundo Kerenyi, 1994 e Commelin, 1941

(2) - Commelin, 1941. (3) - Kerenyi - 1994.

 

Bibliografia

Commelin, P. (1941) Nova mitologia grega e romana. Rio de Janeiro: F. Briguet & Cia. Editores. 

Hillman, James. (1995) Psicologia Arquetípica. 9ª ed. São Paulo: Cultrix. (1997) 

Encarando os Deuses. 12ª ed. São Paulo: Cultrix/Pensamento. Jung, C.G. (1999) 

Fundamentos de Psicologia Analítica - Obras Completas de Jung, Volume XVIII/1. Petrópolis: Vozes. Kerenyi, Karl. (1998) 

Os deuses gregos. 10ª ed. São Paulo: Cultrix. 

Lefevre, Silvia; Simões, Maria Isabel; Alvarenga, José Roberto. (1976) 

Dicionário de mitologia greco-romana. 2ª ed. São Paulo: Abril Cultural. Souza Brandço; Junito De. (1989) 

Mitologia grega - vol. II. 3ª ed.Petrópolis: Vozes. p. 40