A importância da inclusão do pai, durante o período gestacional

Este artigo tem como objetivo, apontar para a importância do estabelecimento precoce do vínculo pai-feto,podendo proporcionar um desenvolvimento emocional mais saudável, minimizando as possíveis rivalidades, somatizações e regressões.Tem como embasamento teórico, os estudos e pesquisas na área de psiquismo pré e peri-natal, depoimentos de pais e a evolução da paternidade no final do século XX.

Segundo Wilheim (1992), a psicologia pré e peri-natal, surgiu de forma mais efetiva, a aproximadamente vinte e cinco anos com o advento das tecnologias referentes ao período pré-natal, como ultra-som, desenvolvimento da fotografia intra-uterina, contribuições do campo da psiconeuro-endócrino-imunologia sobre o entendimento da formação e do funcionamento do psiquismo humano. Apesar de ser um estudo recente; a preocupação com o período gestacional existe há muito tempo; como nos mostra Souza-Dias, em seu capítulo sobre as considerações ao psiquismo fetal citando Platão (429 - 347 a.C.) que afirma que "o feto é uma criatura viva, que se nutre e move nas cavidades do corpo materno".

Sabe-se na atualidade, com a intensificação das pesquisas em psiquismo fetal, que habilidades apresentadas pelos recém-nascidos começam a se desenvolver muito antes deles nascerem. Dentro disso, Wilheim (1992) concorda em afirmar que o feto já nos primórdios da vida intra-uterina, pode perceber som, engolir, sonhar, reconhecer a voz do pai e da mãe, apresentando sinais de comportamento inteligente, expressam estados emocionais de agrado e desagrado através de movimentos como pontapés ou hiperatividade, começam a sonhar a partir da vigésima semana de gestação, como um modo de elaborar experiências vivenciais.

O que também é visto por Piontelli (1992) em seu estudo observacional com bebês; que diz que no segundo trimestre de gestação o feto já responde a estímulos tácteis, de pressão, cinestésicos, gustativos e dolorosos; a experiência auditiva mostra que o feto prefere a voz familiar e que cada história de gestação e parto se relaciona a comportamentos que continuam a serem observados no período pós-natal, mostrando a existência das diferenças individuais de cada feto, na qual, cada um adota posturas próprias e distintas dos demais, relacionando-se de modo peculiar com o mundo intra-uterino. Piontelli (1992) observou 11fetos, sendo 3 singulares e 4 gêmeos dentro do útero através de ultra-som e continuou esta observação no desenvolvimento pós-natal até os quatro anos de idade, utilizando o método observacional de bebês descrito por Bick (1964) com observação direta e participante. Tendo por objetivo descrever um estudo sobre a vida pré-natal e seu impacto no desenvolvimento futuro de tal bebê; sugere que a interação entre o inato e o adquirido começa muito cedo, na qual, a continuidade das funções neurais da vida pré-natal à pós-natal é possível, devido a gama de funções adaptadas durante a primeira metade da gestação.

Dentro do que foi exposto, pode-se afirmar que já existem desde os primórdios da vida intra-uterina, a presença de padrões de comportamento e características de personalidade bem definidos, como aponta Souza-Dias, sobre a existência de vida emocional no feto, vinda de um psiquismo arcaico em processo de desenvolvimento; o que é também visto por Wilheim (1992), que afirma que qualquer experiência biológica e psicológica ocorrida no feto, desde a formação de cada uma de suas células, ficam retidas em uma matriz básica inconsciente; a memória celular, que processa vivências, transformando-as em experiências com representação mental, os chamados imprint, os quais podem armazenar afeto, angústia, vida ou morte, dependendo do modo como as experiências são vivenciadas e pela qualidade o vínculo com os pais.

Isto também é exposto por Szejer (1997), quando afirma que a criança só se encontra por intermédio da percepção que tem das pessoas conhecidas, no caso, seus pais. Em outras palavras, quando nos perguntamos se a criança "antes" de nascer e "depois" era o mesmo ser e se sabia que o era; é preciso responder que "sim", desde que o continuum sensorial com os pais se mantenha. Muitas vezes quando o bebê ao nascer é retirado de sua mãe e começa a chorar, pede-se que o pai acompanhe seu bebê e converse com ele; o que se nota é que ao reconhecer a voz do pai, o bebê se acalma, ao mesmo tempo que se mostrava totalmente indiferente as vozes dos demais presentes. Esta proximidade sensorial é estruturante, pois reatualiza o vínculo pré-natal.

Portanto, para se realizar um trabalho de inclusão do pai no período gestacional, é imprescindível a aquisição do saber sobre psiquismo pré e perinatal e a integração do conhecimento de diversas pesquisas, pois devemos lembrar que a vida psíquica se organiza no sentido de continuar a existir, por isso o comunicar-se seja por atos, pensamentos ou palavras, intensificam o vínculo pai-feto e o aprimoramento de seu desenvolvimento.

Outro ponto muito importante para um trabalho que envolva a maior participação dos pais no período gestacional, seria a evolução da paternidade no século XX. Ao longo dos anos o papel do pai foi modificado, ele passou a sentir-se mais presente e motivado em participar do período gestacional.

Segundo Ramires (1999), somente nos últimos anos destacou-se a importância da figura paterna desde o momento da concepção. O fato de ter sido desejada, planejada, de ter tido a percepção das realidades internas do pai, repercutem na vida emocional do feto e no seu desenvolvimento. Os autores em geral, começam a valorizar a importância da participação do pai na manutenção sadia do lado emocional de seu filho, e muitos enfatizam a necessidade de sua presença física. A importância do pai não só como apoio emocional da mãe (através de uma boa relação entre ambos e da sua união sexual satisfatória), como um ser humano que sustenta a lei e a ordem na vida da criança (através da relação direta que estabelece com seus filhos/filhas das experiências que compartilha e proporciona a eles/elas) mas também na medida que se oferece e pode ser vivenciado como objeto de identificação.

O aumento do interesse em trabalhos voltados a inclusão do pai desde os primórdios da vida intra-uterina; e a maior necessidade e desejo dos próprios pais na criação de seus filhos e filhas; com uma participação mais ativa e concreta, poderia minimizar as somatizações e regressões apontadas por Szejer (1997) quando afirma que o pai que não vivenciou um vínculo saudável com o feto, enfrentaria com mais dificuldade seu nascimento, pensando não ter muita importância para o desenvolvimento uterino do bebê, e agora, eis este ser que exige todas as atenções.

Sendo posto muitas vezes de lado, no momento do nascimento, não por vontade própria, mas por ser um "assunto só de mulheres". Ele começa a ter dúvidas, manifesta certa contrariedade por não se reconhecer ainda na posição plena de pai, somatiza (gripes, pernas quebradas...), sente-se ameaçado por "perder" sua companheira, teme não ser um bom pai deste ser, para ele, até então desconhecido.

A literatura não é ainda muito farta e tão pouco os trabalhos efetivos com os pais desenvolvidos durante o pré-natal, por isso acredito que um trabalho de inclusão do pai no período gestacional, estabelecendo o vínculo pai-feto, poderia ser de grande utilidade para um melhor desenvolvimento emocional dos participantes deste grande momento, que vem com o nascimento de um filho/filha, de um pai e de uma mãe.

Paula Corina Fernandes - psicóloga clinica

 

Referências bibliográficas

PIONTELLI, A . De feto a criança: um estudo observacional e psicanalítico. Trad. Joana Wilheim, Nicia Lyra Gomes e Sônia Maria de Godoy. Rio de Janeiro, Imago,1992.

RAMIRES,V. R. O exercício da paternidade hoje. Rio de Janeiro, Rosa dos Tempos, 1997.

SOUZA-DIAS,T. G. Considerações sobre o psiquismo fetal. São Paulo, Escuta, 1996.

SZEJER, M. Palavras para nascer: a escuta psicanalítica na maternidade. Trad. Claudia Berliner. São Paulo, Casa do Psicólogo, 1999.

SZEJER, M.; STEWART,R. Nove meses na vida de uma mulher. Trad. Maria

Nurymar Brandão Benetti. São Paulo, Casa do Psicólogo, 1997.

WILHEIM J. O que é psicologia fetal. 2 ed, São Paulo, Casa do Psicólogo, 1997.