Mau  humor

São comuns as queixas de pessoas pouco, relativamente ou muito insuportáveis. Filhos que se queixam de pais muito mau-humorados, ou de namorados, esposas, amigos, enfim, conviver com uma pessoa mau-humorada é difícil e desagradável.

Trazer o mau humor para a psiquiatria não é nenhum absurdo, pois, como se vê em critérios de diagnóstico, o mau-humorado destaca-se da maioria (critério estatístico) e produz sofrimento, nele e/ou nos demais (critério valorativo), portanto, perfeitamente possível de uma classificação psiquiátrica.

O caminho é considerar mau humor como um dos sintomas do mal humor, sendo mal com U uma qualidade contrária ao bem humorado e mal com L uma característica de doença, contrária ao humor sadio.

Em grego, mal humor (mau assim, com L e não com U) significa distimia. O filósofo Sêneca tentou desprezar o termo distimia por crer que o latim não necessitava importar palavras de outra língua e escreveu um belíssimo trabalho intitulado “A tranqüilidade da alma”. Mas, a despeito da belíssima descrição do tipo psicológico depressivo e melancólico, Sêneca não conseguiu expressão latina que completasse a idéia de distimia.

Na psiquiatria o quadro mais relacionado ao mau humor é, de fato, a distimia. Trata-se de um estado depressivo crônico, normalmente atípico e dissimulado através do mau humor, chatice, birra, implicância, desânimo, irritabilidade, de mal com a vida, etc. Esses estados depressivos crônicos, apesar de universalmente reconhecidos, têm seus sintomas e sua classificação ainda muito confusos e algo discordantes entre as várias tendências.

Há autores que classificam a pessoa mau humorada dentro dos distúrbios de personalidade, outros como se tratassem de neuroses, muitos como distimia (Transtorno persistente do humor) e alguns, ainda, como distúrbios psíquicos meramente funcionais. Tudo isso é uma questão de conceitos.

De modo geral, preferimos classificar a maioria das pessoas consideradas mau-humoradas como sendo portadoras de distimia.

A distimia é um quadro depressivo crônico, incluído na CID.10 (Classificação Internacional das Doenças) nos Transtornos persistentes do humor. Ela se apresenta com sintomas de intensidade leve, se inicia em idade jovem e precoce e traz sofrimento e/ou prejuízos significativos para o paciente e para pessoas de seu convívio normalmente familiar e ocupacional.

Mau  humor  e  personalidade

Sendo o mau humor um estado crônico e persistente, estando ele relacionado à afetividade, poderíamos atribuí-lo à algum traço de personalidade. Um traço de personalidade é um atributo estável e persistente da personalidade que acaba se refletindo em seu comportamento e atitude diante da vida, do mundo e da realidade. Os traços da personalidade caracterizam a maneira da pessoa SER e não da pessoa ESTAR.

Na personalidade, o que se considera “temperamento” seria o atributo mais relacionado ao mau humor, logo, à distimia. O termo "temperamento" diz respeito ao componente genético ou constitucional que define as características dos impulsos e do afeto.

Um outro atributo da personalidade seria o "caráter", considerado por muitos autores a parte responsável pela capacidade da pessoa formar juízos e críticas sobre as questões éticas ou morais, também igualmente responsável pela vontade (controle da volição).

Se o mau humor pode ser considerado um traço da personalidade e, mais que isso, um traço capaz de fazer sofrer, então ele preenche os critérios de Transtorno da Personalidade. Esses Transtornos de Personalidade são definidos como padrões persistentes de comportamento que se apresentam de maneira inflexível diante de várias situações pessoais ou sociais e devem satisfazer, principalmente, 4 características básicas:

1. início precoce, seja na infância ou na adolescência;

2. persistem ao longo do tempo;

3. se manifestam através de um padrão de comportamento não-normal em variadas situações pessoais e sociais;

4. produzem prejuízo ou sofrimento pessoal e/ou social e/ou ocupacional.

Existem dois Transtornos do Humor que podem perfeitamente ser incluídos como Transtornos de Personalidade; são eles a Distimia e a Ciclotimia. Esses dois estados crônicos e persistentes de afeto (ou humor) alterado preenchem os quatro critérios acima para Transtornos de Personalidade. O mau humor pode ser um sintoma em qualquer um desses dois “tipos” de personalidade.

A distimia normalmente é acompanhada de sentimentos de inadequação, perda generalizada do interesse ou prazer, retraimento social, sentimentos de culpa ou preocupação acerca do passado, sensações subjetivas de irritabilidade ou raiva excessiva. Essas são características também das pessoas mau-humoradas.

Existe ainda o transtorno anancástico (ou obsessivo-compulsivo) da personalidade, onde o mau humor se destaca entre seus principais sintomas e sinais.

Há, neste transtorno obsessivo-compulsivo da personalidade, um padrão generalizado de perfeccionismo e inflexibilidade. As pessoas assim preocupam-se com a observância das normas, das regras, com a organização e com os detalhes. Estas pessoas são incapazes de suportar tudo aquilo que consideram como infração às suas próprias determinações de organização, por isso são inflexíveis consigo próprios e com os que lhes são mais próximo na observância de suas leis. O exagerado perfeccionismo, a precisão meticulosa na arrumação das coisas e a constante repetitividade para que tudo saia da forma obsessivamente idealizada tornam estes indivíduos muito enfadonhos, chatos e desagradáveis, portanto mau-humorados.

O problema prático mais contundente desses transtornos (do Humor ou da Personalidade) é em relação à possibilidade da pessoa ter ou não uma crítica sobre sua situação existencial de mau-humorado. Além da crítica, é fundamental que a pessoa portadora de qualquer um desses “traços” esteja ou não satisfeita com sua maneira de ser.

Quando a pessoa sofre com sua maneira “mala” de ser, lamenta pelo seu mau humor, e gostaria até de melhorar, dizemos que ela é ego-distônica com sua personalidade ou descontente consigo mesma. Ao contrário, quando mesmo diante do apelo de todos para que mude sua maneira de ser, quando opiniões sobre sua chatice são unânimes e ela própria não se considera mau humorada, chamamos de ego-sincrônica à sua maneira de ser.

Assim como tem sido extremamente raro a pessoa reconhecer ser pessimista (quase todos pessimistas se acham realistas), também os mau-humorados costumam negar sua chatice crônica, buscando justificar no cotidiano e nas circunstâncias as causas para seu azedume. Essas justificativas vão desde uma simples dor de dentes até um pneu furado, mas os clínicos que têm experiência em serviços de emergência sabem que o estado de humor varia de pessoa para pessoa, mesmo quando diante da mesma dor, mesmo quando ambas são acometidas de cólica renal. Existem pessoas que sofrem a dor em sua exata proporção (evidentemente não estão felizes), e aquelas que procuram distribuir seu infortúnio ao ambiente em sua volta.

Segundo Taki Cordás, em seu livro “do Mau Humor ao Mal do Humor”, na Grécia antiga, o filósofo Theofrasto descreve uma tipologia de 29 "caracteres" que incluía arrogância, distraibilidade, grosseria e teimosia, entre outras. Em sua descrição não caracterizava essas pessoas como doentes, mas apenas como diferentes do normal. Essa mesma distinção, enfatizando serem pessoas desagradavelmente diferentes das demais, está presente nas culturas asiática, árabe e celta. Assim sendo, pessoas mau-humoradas, desagradáveis e chatas estão arqueologicamente presentes na espécie humana.

Schneider, em 1958, apresentou uma descrição de personalidade depressiva, atualmente incluída no diagnóstico de Distimia. Para ele, tais pessoas que deploram o passado e temem o futuro (expressão usada muitos séculos antes por Sêneca em A Tranqüilidade da Alma), apresentam seis características fundamentais. Elas são:

1. relaxamento;

2. ansiosos;

3. sempre preocupados;

4. cumpridores do dever;

5. céticos;

6. autocríticos ferrenhos.

O próprio DSM IV, embora não tenha um código exclusivo para a personalidade depressiva, reconhece que os critérios de diagnóstico para distimia se equivalem à eventual personalidade depressiva. O mesmo ocorre na CID.10, que inclui no diagnóstico de distimia também a sinonímia de Personalidade Depressiva.

Ao se tratar do chamado Transtorno de Personalidade Depressiva, segundo artigo de Bagby, Ryder Schuller (na coluna ao lado), quatro estudos, contudo, usaram o método do histórico familiar para estudar taxas por toda a vida de transtornos de personalidade em parentes de indivíduos estudados com ou sem Transtorno de Personalidade Depressiva.

Klein descobriu que parentes em primeiro grau de pacientes ambulatoriais com Transtorno de Personalidade Depressiva tinham taxas significativamente mais altas de Transtorno Bipolar e Depressão Maior, mas não de outros Transtornos Bipolar do Humor, de alcoolismo ou de Personalidade anti-social.

Enquanto isso, Klein e Miller descobriram que parentes em primeiro grau de estudantes de graduação com Transtorno de Personalidade Depressiva, mas não necessariamente com transtorno do humor, tinham taxas mais altas de depressão maior. Cassano e colaboradores relataram que os parentes dos pacientes com Transtorno de Personalidade Depressiva e Depressão Maior estudados tinham taxas mais elevadas de transtorno do humor, comparados àqueles com apenas depressão maior. Finalmente, Kwon e colaboradores demonstraram que alunos de graduação com apenas Transtorno de Personalidade Depressiva tinham probabilidade significativamente maior de ter um histórico familiar de Transtornos do Humor, quando comparados a indivíduos-controle saudáveis.

Dois outros estudos avaliaram a ocorrência de Transtorno de Personalidade Depressiva em parentes dos indivíduos estudados com e sem Transtornos de Humor. Klein encontrou maior prevalência de Transtorno de Personalidade Depressiva nos filhos adolescentes e adultos jovens de pacientes internados com Depressão Maior, comparados aos filhos de pacientes internados com enfermidades clínicas crônicas ou aos filhos de indivíduos controle saudáveis.

Finalmente, e mais importante, Klein encontrou uma taxa maior de Transtorno de personalidade depressiva nos parentes em primeiro grau de pacientes com distimia de surgimento precoce, comparados a parentes de pacientes com depressão maior episódica ou parentes de indivíduos-controle normais.

Curso e origem do mau humor

O mau humor é, decididamente, um estado crônico e persistente; seja decorrente de distimia, seja conseqüente ao Transtorno obsessivo-compulsivo da personalidade.

Tomando o Mau Humor como reflexo de uma Distimia, a forma mais característica deste transtorno do humor é aquela que se inicia insidiosamente na infância ou adolescência e se mantém sintomática a maior parte do tempo, podendo existir períodos não muito longos de estado de humor normal.

De acordo com Keller (citado por Saulo Castel e Mônica Scalco no livro Do Mau Humor ao Mal do Humor), 71% dos pacientes com Distimia virão a ter algum outro diagnóstico psiquiátrico, particularmente do tipo depressivo. Em nossa experiência, em alguns mau-humorados são comuns também o agravamento de traços obsessivo-compulsivos da personalidade.

Ainda de acordo com Saulo Castel e Mônica Scalco, os pacientes com Distimia são descritos como "aristocratas do sofrer", pelo fato de alguns se apresentarem de modo arrogante (e citam a referência de Bougerol, Lançon e Scotto).

O sintoma mais marcante do Mau Humor é, sem dúvida, a pouca tolerância com o ambiente; seja com as pessoas, com os acontecimentos, com os objetos, com o clima, com a política, com a sociedade, com a economia, com o trânsito, com as filas, enfim, com o mundo.

No caso do mau humor ser resultante da distimia, sendo esta um estado crônico e persistente de humor rebaixado, ou seja, uma depressão leve, dissimulada e quase contínua, a pessoa se torna muito mais sensível à tudo com o que interage. É como se tratasse de uma pessoa alérgica à tudo, só que, ao invés de reagir às coisas do ambiente com crises alérgicas, reagiria aos acontecimentos com mau humor.

Por conta da distimia a pessoa é naturalmente aborrecida, e qualquer evento que não a satisfaça plenamente terá um efeito avassalador sobre seu estado de humor. Como a vida em sociedade e em família implica em reciprocidade de comportamentos, não tardará que as outras pessoas, de fato, motivadas pela chatice e azedume do mau-humorado, adotem comportamentos preventivos e evitativos, agravando ainda mais a vida de relação dos mau-humorados.

De outra forma, se o mau humor é conseqüente à um transtorno obsessivo-compulsivo da personalidade, a incompatibilidade entre a pessoa e o mundo se deve às características de perfeccionismo e inflexibilidade desse tipo de transtorno. Essas pessoas obsessivas se preocupam exageradamente com a observância das normas e das regras (normalmente SUAS normas e regras) e acabam se escravizando com a organização e com os detalhes. Quando a ordem das coisas não ocorre de acordo com sua previsão e desejo, tais pessoas tornam-se muito desagradáveis.

A preocupação dos obsessivos com a ordem geral das coisas é tanta que, não raras vezes, é impossível conciliar o sono se vier-lhes à mente a impressão de que os chinelos estão desarrumados, ou que há uma gaveta semi-aberta, ou que talvez a porta não esteja trancada e assim por diante. A implicância se relaciona desde com a arrumação de seus pertences pessoais (guarda-roupas, gavetas, mesas), até a organização extremamente cuidadosa de coisas relacionadas à ocupação e profissão. Pode haver também um zelo exagerado para com a arrumação do banheiro, desencadeando mau humor se este se encontrar respingado, com uma torneira gotejante, o creme dental apertado pelo meio do tubo ou com qualquer coisa fora de lugar.

Estas pessoas são incapazes de suportar tudo aquilo que consideram infração às suas próprias determinações de organização, por isso são inflexíveis consigo próprios e com os que lhes são mais próximo.

O  que  fazer

A distimia, assim como outros tipos mais clássicos de depressão, tem tratamento eficaz às custas de antidepressivos e terapia. Quanto à isso, a medicina está bem preparada. Entretanto, a maior dificuldade está em fazer o paciente entender e aceitar que é mau-humorado e, mais que isso, que deve submeter-se a tratamento. E este tratamento não servirá apenas ao próprio paciente, com objetivo de melhorar sua qualidade de vida, mas, sobretudo, às demais pessoas que com ele convivem.

Culturalmente parece ser mais aceito que a pessoa tome insulina continuamente para controle da diabetes, por exemplo, ou que use remédios para hipertensão, óculos ou marcapasso cardíaco, do que tenha que usar antidepressivos para melhora de si e dos demais. Essa parece ser uma barreira cultural quase intransponível para o tratamento de muitos casos de mau humor.

Os mesmos antidepressivos são de valor inestimável para atenuação dos rompantes obsessivos-compulsivos. Nesses casos, onde o mau humor se deve à personalidade obsessiva, além dos antidepressivos, a psicoterapia tem um peso maior ainda.

Tratamento

Há falta de estudos que avaliem a eficácia da farmacoterapia ou da psicoterapia no tratamento do transtorno de personalidade depressiva como definido no DSM.IV. Embora não haja estudos mostrando que algum medicamento ou psicoterapia específicos sejam eficazes no tratamento do transtorno de personalidade depressiva, pode-se especular que a terapia cognitivo-comportamental seja adequada.

Além disso, estudos recentes indicaram que tais medicamentos antidepressivos podem realmente alterar a percepção da realidade pessimista e negativista do mau-humorado.

Ballone GJ - Mau humor