Da  emoção  à lesão

Do ponto de vista psicológico, existem emoções naturais e fisiológicas que aparecem em todas as pessoas com um importante substrato biológico. Elas podem ser a alegria, o medo, a ansiedade ou a raiva, entre outras. Essas emoções são agradáveis ou desagradáveis, nos mobilizam para a atividade e tomam parte na comunicação interpessoal. Portanto, essas emoções atuam como poderosos motivadores da conduta humana.

Não obstante, as emoções podem ter um importante papel no bem estar psicológico ou nos estados doentios. Portanto, as emoções influem sobre a saúde e sobre a doença através de suas propriedades motivacionais, pela capacidade de modificar as condutas saudáveis, tais como os exercícios físicos, a dieta equilibrada, o descanso, etc., conduzindo muitas vezes para condutas não saudáveis, como o abuso do álcool, tabaco, sedentarismo, etc.

Ansiedade, tristeza e raiva: complicações na saúde

O termo emoções negativas se refere às emoções que produzem uma experiência emocional desagradável, como a ansiedade, a raiva e a tristeza, estas, consideradas as três emoções negativas mais importantes. As emoções positivas são aquelas que geram uma experiência agradável, como a alegria, a felicidade ou o amor.

Hoje em dia há dados suficientes para podermos afirmar que as emoções positivas potencializam a saúde, enquanto as emoções negativas tendem a comprometê-la. Por exemplo, em períodos de estresse, quando as pessoas desenvolvem muitas reações emocionais negativas, é mais provável que surjam certas doenças relacionadas com o sistema imunológico, como por exemplo, a gripe, herpes, diarréias, ou outras infecções ocasionadas por vírus oportunistas. Em contra partida, o bom humor, o riso, a felicidade, ajudam a manter e/ou recuperar a saúde.

Dentro das emoções negativas, uma das reações emocionais que mais se tem estudado é, sem dúvida, a ansiedade. Este é um estado emocional reconhecidamente associado a múltiplos transtornos. Uma segunda emoção negativa que está sendo muito estudada é a raiva, por sua estreita relação com os transtornos cardiovasculares. Finalmente, a tristeza e sua representação psicopatológica, a Depressão, pelo fato desta se acompanhar, em geral, de altos níveis de ansiedade.

A ansiedade pode ser considerada como uma reação natural que se produz diante de certos tipos de situações nas quais a pessoa necessitaria de recursos adaptativos extras. As situações onde se desencadeiam a reação de ansiedade têm em comum, em geral, a previsão subjetiva de possíveis conseqüências negativas para o indivíduo. Esta reação supõe uma mobilização de diferentes recursos cognitivos, tais como a atenção, a percepção, a memória, o pensamento, a linguagem, etc., de diferentes recursos fisiológicos, como a ativação do sistema nervoso autônomo, da ativação motora, da atividade glandular, etc., e de diferentes recursos de conduta, como estar alerta, evitação do perigo, etc. Tais recursos teriam como objetivo o enfrentamento das possíveis conseqüências negativas.

Apesar da ansiedade ser uma emoção natural, de caráter essencialmente adaptativo, quando excessiva ela pode estar na base de muitos processos que podem levar à doença.

Dissimular  emoções  negativas

Quando a pessoa experimenta altos níveis de ansiedade, durante tempo prolongado, seu bem estar psicológico se encontra seriamente prejudicado, seus sistemas fisiológicos podem se alterar por excesso de solicitação, seu sistema imunológico pode ser incapaz de defender seu organismo, seus processos cognitivos podem se prejudicar, provocando uma diminuição do rendimento e, finalmente, a evitação das situações que provocam essas reações ansiosas pode comprometer sua vida sócio-ocupacional. A atividade cognitiva, por exemplo, pode ser muito prejudicada por processos emocionais, notadamente pela ansiedade. Assim sendo, por exemplo, o rendimento intelectual nos exames ou em outras situações de avaliação pode deteriorar-se.

Há pessoas que se regozijam de saberem "controlar" as emoções. Mas, o fato de não se comportarem de acordo com esses sentimentos negativos não significa, automaticamente, que não estão experimentando as tais emoções negativas. Pode não bastar a essas pessoas o controle das manifestações das emoções negativas, pois, mesmo controlando as reações de ansiedade, pode haver níveis elevados da ativação fisiológica global, de alterações do sistema nervoso autônomo, de mudanças no sistema imune, etc.

Ao invés de se imunizarem contra as emoções negativas, que seria o ideal, as pessoas que se dizem "controladas", podem não estar reconhecendo os estados emocionais negativos que estão experimentando. Podem estar dissimulando a raiva, a ansiedade, o medo ou a tristeza.

As tentativas de livrar-se (dissimular) dessas emoções negativas nem sempre têm êxito, pois algumas pessoas que aparentam uma certa tranqüilidade podem estar desenvolvendo uma alta reatividade fisiológica. São pessoas obrigadas, pelo papel social que desempenham, a dissimular sentimentos diuturnamente, mas nem por isso significa que não estão, intimamente, experimentando tais emoções.

Acredita-se, atualmente, que os transtornos psicossomáticos ou psicofisiológicos, como algumas dores de cabeça, das costas, algumas arritmias cardíacas, certos tipos de hipertensão arterial, algumas moléstias digestivas, entre tantas outras doenças, podem ser produzidas por uma excessiva ativação das respostas fisiológicas do órgão ou sistema que sofre a lesão ou disfunção (cardiovascular, respiratório, etc.). Seria uma espécie de disfunção do órgão ou do sistema orgânico por trabalhar em excesso por muito tempo.

A ansiedade apesar de ser considerada uma reação emocional normal e que surge como resposta do organismo diante de determinadas situações, quando sua freqüência, intensidade ou duração forem excessivas, falamos de ansiedade patológica. Psiquiatricamente a presença de forte estado ansioso, não somente pode ser a base dos denominados Transtornos de Ansiedade, mas também estar associada freqüentemente à depressão.

Da emoção à lesão diz respeito às doenças com verdadeiro componente orgânico, detectável por exames clínicos e não à somatização ou conversão, que são quadros onde existe a queixa mas não se encontra alterações orgânicas.

Clinicamente, uma ampla variedade de transtornos psicofisiológicos pode estar associada à ansiedade, entre eles os transtornos cardiovasculares, digestivos, as cefaléias, a síndrome pré-menstrual, a asma, transtornos dermatológicos, transtornos sexuais, a dependência química, os transtornos da alimentação, debilidade do sistema imune etc.

As classificações tradicionais dos transtornos psicofisiológicos descrevem as seguintes doenças relacionadas com variáveis psicológicas.

ALGUMAS (POUCAS)  DOENÇAS PSICOFISIOLÓGICAS

Transtornos cardiovasculares

- enfermidade coronariana, hipertensão arterial, arritmias

 

Transtornos respiratórios

- asma brônquica, síndrome de hiperventilação, rinite alérgica

 

Transtornos endócrinos

- hiper ou hipotiroidismo, doença de Addison, Síndrome de Cushing, alterações das glândulas paratireóides, hipoglicemia, diabetes

 

Transtornos gastrintestinais

- transtornos esofágicos, dispepsia, úlcera péptica, síndrome do cólon irritável, colite ulcerosa, Doença de Crohn

 

Transtornos dermatológicos

- prurido, hiperhidrose, urticária, dermatite atópica, alopecia areata, psoríase, herpes, vitiligo

 

Dor crônica

- lombalgias, cefaléias, dor pré-menstrual, fibromialgia

 

Reumatologia

- artrite reumatóide

 

Transtornos imunológicos

- lúpus, depressão imunológica inespecífica

 

Mas, com o crescente reconhecimento da implicação de fatores psicológicos ou emocionais no desencadeamento e/ou agravamento da maioria das enfermidades orgânicas, as tabelas como acima acabam perdendo totalmente o valor. Quanto mais avançam os meios de investigação da patologia, mais se evidencia relevância dos fatores psicológicos na etiologia e desenvolvimento de um grande número de doenças até então não consideradas como psicofisiológicas.

Esses transtornos englobam desde doenças neurológicas, como a Esclerose Múltipla, até enfermidades infecciosas, como a tuberculose, enfermidades imunológicas, como a leucemia (Wittkower y Dudek, 1973).

Desta forma, em muito pouco tempo, ao se descreverem os transtornos psicofisiológicos, não mais se fará referência a um determinado grupo distinto de enfermidades (como na tabela acima), mas sim às alterações físicas que são precipitadas, agravadas o prolongadas por fatores psicológicos. A psicossomática preocupar-se-á com as diversas categorias de reações orgânicas, utilizando-as para compreender qualquer transtorno físico nos quais os fatores psicológicos sejam importantes. Por exemplo, no caso do Lúpus Eritematoso Sistêmico, a psicossomática estará preocupada em estudar as alterações das emoções sobre a imunidade, sobre os linfócitos T, ou sobre as imunoglobulinas. Se, daí em diante, aparecerá lúpus ou artrite reumatóide não será mais tão importante.

Da  emoção  à  emoção  mesmo

As emoções negativas podem, por sua vez, determinar não apenas uma repercussão orgânica, como de vê em psicossomática, mas, sobretudo, uma repercussão psico-emocional. Neste caso, o excesso de ansiedade poderia se traduzir por Transtornos de Ansiedade. Atualmente as classificações internacionais (CID.10 e DSM.IV) reconhecem as seguintes manifestações clínicas da ansiedade patológica:

- Ataque de Pânico: caracteriza-se por crise súbita de sintomas de apreensão, medo intenso ou terror, acompanhados habitualmente de sensação de morte iminente. Aparecem também durante estes ataques, sintomas como palpitações, opressão ou mal estar torácico, sensação de sufocamento, medo de perder o controle, de ficar louco.

- Agorafobia: caracteriza-se pelo aparecimento de ansiedade ou comportamento de evitação de lugares ou situações de onde escapar pode ser difícil ou complicado, ou ainda de onde seja impossível conseguir ajuda no caso de se passar mal.

- Fobia específica: caracteriza-se pela presença de ansiedade clinicamente significativa, como resposta à exposição a determinadas situações e/ou objetos específicos temidos irracionalmente, dando lugar a comportamentos de evitação.

- Fobia social: caracteriza-se pela presença de ansiedade clinicamente significativa como resposta a situações sociais ou atuações em público, e também podem dar lugar a comportamentos de evitação.

- Transtorno obsessivo-compulsivo: caracteriza-se por obsessões que causam ansiedade e mal estar significativos, e/ou compulsões, cujo propósito é neutralizar a ansiedade. As obsessões são idéias involuntárias, recorrentes, persistentes, absurdas e geralmente desagradáveis que aparecem com grande freqüência sem que a pessoa possa evitá-las. As compulsões são comportamentos repetitivos e litúrgicos que se realizam em forma de rituais.

- Transtorno por estresse pós-traumático: caracteriza-se pela recorrência de experiências ou de acontecimentos altamente traumáticos, e comportamento de evitação dos estímulos relacionados com a situação vivida como traumática.

- Transtorno por estresse agudo: caracteriza-se por sintomas parecidos com o transtorno por estresse pós-traumático que aparecem imediatamente depois de um acontecimento altamente traumático.

- Transtorno de ansiedade generalizada: caracteriza-se pela presença de ansiedade e preocupações excessivas e persistentes durante pelo menos seis meses.

- Transtorno de ansiedade devido a enfermidade médica geral: caracteriza-se por sintomas proeminentes de ansiedade que se consideram secundários a efeitos fisiológicos diretos de uma enfermidade subjacente.

- Transtorno de ansiedade induzido por sustâncias: caracteriza-se por sintomas proeminentes de ansiedade secundários aos efeitos fisiológicos diretos de uma droga, fármaco ou tóxico.

- Transtorno de ansiedade no especificado: existe para encaixar aqueles transtornos que se caracterizam por ansiedade ou evitação fóbica proeminentes, que não reúnem os critérios diagnósticos dos transtornos de ansiedade já mencionados.

Fatores  predisponentes

A relação entre as respostas fisiológicas e os transtornos psicofisiológicos tem sido o ponto de partida de muitas teorias explicativas. Entre as diversas emoções com respostas fisiológicas importantes devemos destacar a ansiedade e a raiva.

Supõe-se, em geral, que para se desenvolver e manter um transtorno psicofisiológico, são necessários dois fatores:

O primeiro fator será de predisposição individual, pelo qual a pessoa tende a experimentar maior reação fisiológica diante da emoção. Significa que essa pessoa tem uma certa excitabilidade exagerada do sistema nervoso autônomo, bem como endócrino e imunológico. O segundo fator, será que essa reação fisiológica seja intensa e crônica, como por exemplo, manter níveis altos de ansiedade ou raiva. Portanto, um fator é predominantemente fisiológico e o outro de personalidade.

Há anos se estudam as características do perfil de resposta de pessoas com diferentes transtornos psicofisiológicos, tais como a hipertensão arterial, asma, a úlcera digestiva, as dores de cabeça, vários tipos de dermatites, etc. Os resultados indicam que as pessoas que apresentam tais transtornos costumam ter níveis mais altos de ansiedade do que outras pessoas da mesma idade e sexo.

A mesma emoção negativa pode, ainda, se apresentar com características internas ou externas, variando de acordo com a capacidade de controle e dissimulação da pessoa. Assim, segundo Cano (Cano-Vindel & Fernández Rodríguez, 1999), as pessoas com hipertensão essencial têm níveis maiores de raiva interna que os grupos controle, sem hipertensão. Os pacientes com asma, por exemplo, apresentam níveis maiores de raiva externa do que as pessoas sem asma. A raiva, neste caso, ajudaria a manter níveis altos de ativação fisiológica.

A maioria das pessoas com estilo repressivo de enfrentamento de suas emoções negativas não costuma ter consciência de sua alta ativação fisiológica e, inclusive, podem referir-se a si mesmos como pessoas relaxadas, calmas e tranqüilas. Na realidade não são bem assim.

Embora essas pessoas apresentem baixas pontuações nos testes para ansiedade, apresentam uma alta ativação fisiológica. Esta alta ativação fisiológica continuada será um fator de vulnerabilidade para o desenvolvimento de transtornos psicofisiológicos. Segundo Cano, em testes de laboratório, submetidos à tarefas estressantes, os indivíduos com maiores tendências para ocultação e dissimulação das emoções apresentaram maior reatividade cardiovascular com uma resposta de aumento da pressão arterial diastólica.

O estilo repressivo de enfrentamento das emoções negativas também é um fator que pode introduzir um certo grau de imunodepressão (Cano-Vindel, del Rosal, Sirgo, Pérez Manga e Miguel-Tobal, 1999). Uma alta ativação fisiológica mantida ao longo do tempo pode provocar alterações no Sistema Imunológico que tornam a pessoa mais vulnerável à enfermidades infecciosas ou à doenças auto-imunes. Assim, por exemplo, pacientes com câncer que apresentam estilo repressivo de enfrentamento das emoções têm uma menor expectativa de vida (Cano-Vindel, Sirgo y Díaz-Ovejero, 1999).

Deve ser destacado que as emoções são reações naturais, universais, que têm uma finalidade adaptativa mas, não obstante, quando demasiadamente intensas e/ou freqüentes, essas mesmas reações podem provocar alterações patológicas na saúde.

Se essas emoções não podem ser relacionadas diretamente ao desenvolvimento de doenças, no mínimo elas provocam uma alteração no nível e qualidade de vida que favorecem o desenvolvimento patológico. A ansiedade, a tristeza e a raiva, quando em níveis demasiadamente intensos, ou freqüentes, quando se mantêm por um tempo longo, tendem a determinar mudanças na conduta, ao ponto de determinar atitudes não sadias, como por exemplo, o consumo de fumo, álcool, sedentarismo, apatia, falta de exercícios, transtornos alimentares (hipo ou hiperfagia), etc.

Hoje, a medicina psicossomática tem se interessado em, mediante técnicas cognitivas, comportamentais e, se necessário, farmacológicas, ajudar pessoas a diminuir sua ativação fisiológica, a reduzir o mal estar psicológico e a facilitar uma expressão emocional mais sadia. Com isso pretende-se melhorar a qualidade de vida e a saúde das pessoas.

As pessoas reagem diferentemente ao estresse, inclusive em termos de eventuais doenças psicossomáticas. Ao estudarmos o Afeto, entendemos que parece haver uma espécie de filtro exemplificados como lentes de óculos hipotéticos) através do qual os fatos e eventos são percebidos pelo indivíduo. Isto faria distinguir situações percebidas como estressantes por alguns e não por outros.

Essa sensibilidade pessoal diante da vida exerce um efeito atenuante ou agravante aos eventos, efeito este que depende mais da própria personalidade que das circunstâncias. Isso definirá o modo de ser, de reagir, de enfrentar e de se adaptar ao estresse.

Assim sendo, podemos dizer que a elevação da pressão arterial diante do estresse, por exemplo, parece depender mais da avaliação pessoal (subjetiva) que o indivíduo faz da situação do que da própria situação, objetivamente considerada. Alguns observadores notaram que os hipertensos tendem ao pessimismo, antecipando conseqüências negativas dos fatos e a interação interpessoal e social é por eles vivida como fonte de ansiedade e estresse.

A  opção  somática  das  emoções

É no Sistema Límbico que tem início nossa função avaliadora da situação, dos fatos e eventos de vida. Esse modo de avaliação sempre leva em consideração vários elementos, tais como, a personalidade prévia, a experiência vivida, as circunstâncias atuais e as normas culturais.

É devido a esse aspecto multifatorial que uma dada situação vivida pelo indivíduo sofrerá um processamento interno envolvendo sua avaliação quanto à natureza do evento e sua possível ameaça, bem como um processamento interno acerca da escolha ou decisão da melhor maneira de enfrentamento, resultando, finalmente, numa dada resposta. Tanto os fatores constitucionais de personalidade, quanto as experiências anteriores de vida representariam o núcleo desse sistema de avaliação.

Desde a década de 60, Selye já dizia que a "preferência" de um agente estressor por um determinado órgão ou sistema, bem como a intensidade dessa resposta, parece ser determinada por fatores condicionantes internos e externos ao indivíduo, ou seja, depende de características herdadas e adquiridas.

De acordo com esse aspecto extremamente pessoal da resposta do sujeito ao estresse, podemos entender porque diante de situações semelhantes, os diversos indivíduos reagirão de forma diferente. Isso refletirá sempre o modo peculiar de cada um avaliar as situações, e o que é estressante para um, pode não ser para outro.

Da mesma forma, também o modo de enfrentar cada situação é peculiar e particular a esse determinado indivíduo, conforme sua história, circunstâncias, aptidões e personalidade. Essas aptidões personais (de personalidade) são quem nos oferece maiores ou menores "opções" de enfrentamento da situação.

E a palavra "opções" foi colocada entre aspas por tratar-se de uma atitude intencional e involuntária. Pode-se dizer, então, que a opção mais elaborada de enfrentamento seria aquela de encarar a situação conscientemente, objetivamente, podendo falar sobre ela, discutir, refletir, superando-a conforme as características e os recursos à nossa disposição.

Quando não é possível encarar a situação objetivamente, seja porque o problema não está sendo consciente, seja porque faltam recursos disponíveis à personalidade, a tendência será lançar mão de outras formas mais atípicas de enfrentamento.

A forma mental de enfrentar a situação seria, por exemplo, fantasiar, racionalizar, negar, rezar. A maneira emocional de enfrentamento seria deprimir-se, agredir, culpar os outros ou culpar-se, chorar, gritar. Ainda existem algumas atitudes de enfrentamento atípico, que seriam isolar-se, exibir-se, brincar, arriscar-se, comer, beber, transar, fumar, trabalhar excessivamente e, finalmente, de particular interesse à psicossomática, uma maneira somática de enfrentamento, representada pelo adoecer.

Eis algumas "opções" de enfrentamento adotadas pela maioria das pessoas*:

1. Olhar o problema objetivamente.

2. Buscar alternativas para enfrentar a situação.

3. Falar sobre o problema.

4. Ter esperança de que as coisas melhorem.

5. Procurar apoio com familiares e amigos.

6. Agitar-se fisicamente.

7. Fumar, beber e usar drogas.

8. Comer e dormir em excesso.

9. Adoecer fisicamente.

10. Gritar e agredir.

11. Meditar e relaxar.

12. Isolar-se e ficar só.

13. Esquecer o problema.

14. Resignar-se.

15. Sonhar e fantasiar sobre o problema.

16. Rezar.

17. Ficar nervoso.

18. Preparar-se para o pior.

19. Deprimir-se.

20. Dedicar-se excessivamente ao trabalho.

*MELO FILHO J – Psicossomática Hoje – Artes Médicas, 1992

Para entendermos de forma mais clara os processos da somatização devem ser considerados, sobretudo, os tipos de resposta emocional resultante da avaliação que fazemos da realidade (e dos estressores) e nossos mecanismos pessoais e particulares de enfrentamento da situação. A escolha somática para eclosão das emoções parece depender de uma série de fatores ou mecanismos, desde os mais somáticos aos mais psíquicos.

Observando-se tanto os animais quanto as pessoas, notamos a presença de dois componentes no processo emocional de adaptação do sujeito às exigências da realidade. Existe o componente expressivo ou sinalizador e o componente comportamental ou de enfrentamento, propriamente dito.

As manifestações fisiológicas e/ou somáticas resultantes do estresse adaptativo, chamadas de somatizações, podem ser entendidas como uma forma de falar ou de se expressar. E quanto menos eficientes são os mecanismos mentais ou cognitivos de sentir, falar e agir, mais o sistema somático será utilizado para expressar emoções. Isso significa que quanto mais "puras" forem as emoções, menos somáticas se tornarão.

A Síndrome Geral de Adaptação, descrita por Hans Selye e posteriormente identificada como o próprio estresse, é um conjunto de reações fisiológicas e eminentemente somáticas, de cunho sobretudo emocional, que surge quando o organismo é compelido adaptar-se à alguma situação alarmante. O processo que vai do estresse até o resultado somático final será sempre um processo fisiológico e biológico, atrelado às características da espécie mas, identificar ou considerar um estímulo como sendo estressante ou não, será sempre uma atribuição emocional e particular do sujeito (não mais e exclusivamente da espécie).

Na realidade, não será errado chamar o estresse de "extrema ansiedade", uma vez que é produto de uma avaliação emocional acerca do potencial estressante dos estímulos. Será de natureza ansiosa, na medida em que aparece cada vez que o organismo se percebe ameaçado em sua integridade. Podemos, então, afirmar que a ansiedade é um estado de tensão interna do indivíduo no sentido da adaptação, diante de algo que o ameaça.

A resposta ao estresse envolve um nítido componente somático e a localização dessa resposta neste ou naquele órgão, neste ou naquele sistema dependerá, primeiramente, da natureza e intensidade do agente estressante, em segundo, da participação da estrutura orgânica do indivíduo e, finalmente, da possível hipersensibilidade ou fragilidade constitucional que tornaria tal estrutura menos resistente.

Somatização  desde  criança

Em se tratando de seres humanos, e considerando sua possibilidade de pensar, tal atividade racional exerce, desde cedo, papel fundamental na avaliação e enfrentamento das situações com que se depara o indivíduo. A influência da pessoa que cuida da criança (em geral a mãe) é decisiva nesse processo de identificação de estressores e escolha dos modos de enfrentamento.

Na verdade, geralmente é a mãe que nomeia e valoriza para a criança tudo o que ocorre à sua volta. Havendo discrepâncias nesse relacionamento, seja por abandono, maus tratos, omissão, etc., a criança ficará à mercê de si mesma, lançando mão então do seu próprio corpo ou de suas fantasias para resolver a maioria dos conflitos que experimenta.

Nos casos de abandono na infância, é como se a criança voltasse a reagir de maneira primitiva, somática, a qualquer situação ameaçante. Provavelmente o que ocorre, nesse momento, é que somente através de reações físicas a criança consegue despertar o interesse, a atenção e os cuidados que necessita. Assim sendo, a criança aprende a usar o corpo como um meio de comunicação ee de defesa. E sempre que o comportamento dos demais privilegia essa somatização, acaba reforçando -Além da opção somática, a criança tem ainda como recurso adaptativo suas próprias fantasias e aprenderá a usá-las eficientemente.

Autores mais psicodinâmicos incluem como recursos intermediários entre o corpo e a fantasia, certas atitudes tais como comer, beber, fumar, usar drogas, manter atividade sexual ou atividade física de uma forma aditiva, etc.

Somatização  como  complexo  de  culpa

A prática clínica tem mostrado que grande parte das manifestações somáticas pode ter como componentes básicos, uma forma primitiva de expressão e de defesa que é a culpa. O indivíduo, como vimos, aprende a falar e se defender com o corpo. Com o corpo ele obtém atenção e cuidados que necessita, com o corpo ele exprime desejos e fantasias, com o corpo ele enfrenta as situações estressantes e, muito provavelmente, com o corpo ele se recrimina e se culpa.

A utilização do corpo como meio de autopunição merece um destaque especial por sua característica psicodinâmica. Essa situação representa uma reação e defesa ao estresse interior proporcionado por algum conflito íntimo. É assim que o sujeito se impõe o sofrimento.

Muitas vezes ficam evidentes as condutas mórbidas e autodestruidoras de pacientes politraumatizados, portadores de diabetes melito, doença pulmonar obstrutiva crônica, hipertensão arterial, úlceras varicosas, como se eles agissem de forma a agravar suas doenças. Costumam ser descuidados, abusam da dieta, fumam, comem salgado e andam demais conseqüentemente.

Isso não quer dizer que todos os portadores dessas afecções exibem tal comportamento autodestrutivo, mas seus freqüentes "deslizes" em relação aos cuidados terapêuticos que deveriam tomar, apontam para uma forma inconsciente de perpetuar a doença, como forma de manter o autoflagelo.

A  desistência  depressiva

Outro tipo de situação capaz de gerar ou agravar doenças físicas é a desistência depressiva de viver. Trata-se de um estado de espírito típico dos deprimidos, onde o indivíduo "desiste" de viver, permitindo assim que a doença física o acometa. Situações de perda familiar, perda de situação econômica e social ou outras perdas que dêem ao indivíduo a sensação de não ter saída, parecem estar na base desse estado depressivo de auto-abandono.

Existem, principalmente, dois Mecanismos de Defesa capazes de gerar somatização. São eles a identificação e a conversão. Identificar-se é sentir-se como o outro. É tornar seu algo que é do outro. Assim, sentir-se doente pode ser uma forma de identificar-se com alguém que está ou esteve doente. Assim, por exemplo, o transtorno menstrual conhecido por dismenorréia pode ser conseqüência da identificação de uma adolescente com sua mãe, a qual apresentou ou apresenta esse quadro. As identificações também assumem importantíssimos papéis na dinâmica das patologias relacionadas aos estados histéricos e hipocondríacos.

Na conversão, por sua vez, o hipocondríaco é capaz de se sentir e acreditar-se doente e o histérico é capaz de expressar exuberantemente essa doença. Ele desmaia, paralisa, arma a cena e exibe seu sintoma. Parece ter uma ação mais expressiva que o hipocondríaco. Mas, mesmo assim, seus sintomas expressam seus conflitos reprimidos. É uma forma simbólica (e somática) de falar que utiliza o corpo como meio de comunicação.

Ballone GJ - Da emoção à lesão - in. PsiqWeb