DESENVOLVIMENTO  AFETIVO, HOMOSSEXUALIDADE

E  FORMAÇÃO  INICIAL 

Normalmente quando tratamos do tema da afetividade no seminário, o sub-tema recorrente é quase sempre a homossexualidade. Talvez seja porque paire sobre a Vida Religiosa e Sacerdotal certo preconceito decorrente da instituição do celibato e do voto de castidade. Ou ainda, porque a Vida Religiosa e Sacerdotal ao constituir, em princípio, um ambiente mono-sexual, seja também buscada por pessoas com tendências homossexuais. (1)Por isso, a presente abordagem corresponde a um ensaio ousado, na tentativa de trazer ao centro das discussões o tema da homossexualidade no processo de formação inicial. Não se tem a pretensão de ser uma reflexão exaustiva, mas apenas reunir alguns elementos de uma percepção empírica de fatos presentes no universo da formação inicial, que são muitas vezes negligenciados, porque há sempre um receio de tratar a questão.

1. Fatores biológicos implicados na sexualidade

Na perspectiva biológica, o ser humano, embora se distinga dos demais animais por sua capacidade racional, está necessariamente marcado pelo biológico. Não obstante algumas tendências das ciências buscarem as razões da homossexualidade no aspecto biológico, em termos das características sexuais dos indivíduos (2), o biológico determina um bi-morfismo sexual, separando os seres em feminino e masculino. Em outras palavras, o feminino requer o masculino e vice-versa. Nesse sentido, segundo a perspectiva das ciências biológicas, todas as formas variantes representam anomalias genéticas. (3)

A natureza tende à reprodução dos seres para sua continuidade. Da maneira como biologicamente os organismos estão subdivididos, a reprodução só é possível pelo encontro do masculino com o feminino. Se o encontro dos iguais não gera vida, o anômalo da situação está aí, porque se a natureza não se reproduzir, tende à sua autodestruição. Aqui, não se quer afirmar que a homossexualidade conduz a natureza à autodestruição. Isso só ocorreria se a maioria dos seres se comportasse dessa forma. Todavia, no aspecto reprodutivo, o ritmo da natureza tende para a heterossexualidade, portanto, a homossexualidade será sempre uma condição de minoria.

Alguns podem argumentar que experiências com animais denunciaram o homossexualismo entre eles. De fato, quem já não viu um macho tentando cobrir outro macho e o mesmo acontecer com duas fêmeas. No entanto, ainda é muito dispersivo o material sobre esse comportamento dos animais. Parece que a prática homossexual entre os animais, se assim podemos dizer, esteja mais ligada à sobrevivência dos mais fracos que se submetem aos mais fortes na disputa de territórios, ou ainda, a algum desvio congênito que altera a produção dos hormônios sexuais, do que propriamente constituir um homossexualismo animal. (4) De qualquer forma, como está afirmado acima, o encontro de indivíduos do mesmo sexo é sempre minoria, por isso constitui o diferente.

A priori pode-se afirmar que a natureza (biológico) tende então a uma atividade conjugal. Separados em masculino e feminino, os seres individualmente não compreendem o todo da natureza. Por isso, é do encontro desses dois pólos biológico-reprodutivos que se tem à garantia da existência de todos os seres. Nesse caso, tratando-se mais especificamente das relações de gênero entre os seres humanos, o machismo e o feminismo constituem tendências extremas, porque prescindindo do oposto, concebem e desenvolvem a interação dos sujeitos de forma unilateral, tornando-se estéreis. Enquanto a natureza tende a inclusão de todos os seres, estas tendências são excludentes ou autoritárias, violando a integridade e a harmonia da natureza, estabelecendo relações de dominação e submissão.

Tomando isso em consideração, observa-se que a vivência da sexualidade, na perspectiva comportamental, é mais fortemente definida por fatores a-biológicos do que biológicos, uma vez que em termos de estrutura orgânica não existe uma chamada “terceira via” sexual. Estes fatores parecem ser decisivos nas interações físico-químicas do organismo humano que orientam o desejo sexual.

2. Uma leitura da homossexualidade

Tempos atrás, um famoso cantor brasileiro em uma entrevista à Revista Marie Claire, dizia que, quando ia para cama com outro homem, o fazia como homem e não como mulher. Nesse sentido, há um distanciamento entre o biológico e o comportamental. O organismo masculino e o feminino estão aparelhados para exercer sua função sexual segundo sua especificidade. No entanto, na hora do exercício da sexualidade (intercurso genital), a libido volta-se para uma pessoa do mesmo sexo. Talvez seja por isso, que a moderna psicologia fale em opção sexual.

Com efeito, se o organismo em seu aspecto biológico tende para o diferente e não para o igual, o exercício da sexualidade não é pura e simplesmente um aspecto cultural. Há um peso determinante do biológico e, porque não do físico, já que uma das leis da física afirma a atração entre os opostos, o que justificaria a afirmação que a natureza tende à heterossexualidade. Com efeito, se a atração sexual no indivíduo diverge de sua especificidade masculina ou feminina, poder-se-ia falar então de uma origem genética da homossexualidade. No entanto, todos os testes realizados, nesse campo, não mostraram, até aqui, nenhum indício de alteração genética. Indivíduos com tendências homossexuais apresentam os mesmos genótipo e fenótipo (5) dos indivíduos heterossexuais. Então, pode-se intuir, que existem elementos no campo afetivo que, interagindo no conjunto bioquímico do indivíduo, determinam seu comportamento sexual.

A interação entre os fatores bioquímicos e afetivos não é consciente. Nesse sentido, falar de uma opção homossexual é desconsiderar essa interação bioquímico-psíquica e exacerbar a perspectiva racional do ser humano, uma vez que quando se fala em opção, nela está implicada a consciência. Por outro lado, existem outros fatores psicológicos e culturais implicados na vivência da sexualidade que nem sempre são conscientes, como então falar de opção?

O que se tem observado é que a pessoa com tendências homossexuais, ao aperceber-se nessa condição, sente-se diferente, o que não deveria acontecer se apenas estivesse sendo influenciada por preconceitos culturais internalizados. As frustrações e os sofrimentos iniciais não nascem da rejeição cultural, mas da incompreensão daquilo que está acontecendo com a própria pessoa. Ela compreende-se como homem ou mulher, no nível do consciente, mas sente-se sexualmente atraída para um parceiro do mesmo sexo.

Sob essa perspectiva, então, não se guina da homossexualidade para a heterossexualidade ou vice-versa quando se quer. Se assim ocorresse, a homossexualidade constituir-se-ia num elemento extrínseco ao ser da pessoa, e também estariam corretas as práticas ortodoxas fundamentalistas que visam tratar o homossexual para que ele se torne heterossexual. No entanto, a experiência conota o contrário. Ou seja, a pessoa se percebe homossexual. Trata-se, por isso, de uma descoberta, o que implica algo mais profundo. (6) Nesse sentido, não existe um “estado” homossexual (7), mas tratando-se de uma condição intrínseca da pessoa, existe um “ser” homossexual (8). Agora, o que faz uma pessoa desenvolver a homossexualidade ainda não é claro. Todavia, considerando que o comportamento sexual é um aprendizado inserido no processo de humanização de cada ser humano, provavelmente existem aí condicionantes afetivas, psíquicas e pedagógicas envolvidas.

Poder-se-ia contestar a postura acima. Já que o comportamento sexual é um aprendizado, então seria possível uma reversão da condição homossexual. Porém, a psicologia demonstra que a personalidade da pessoa é formada na primeira infância, isto é, até os 7 anos. Conseqüentemente, os hábitos e comportamentos aí adquiridos, amoldam-se ao ser da pessoa, definindo sua personalidade. (9) Os traumas e as carências não se apagam do universo afetivo da pessoa, mas podem ser integrados em sua experiência de vida, levando-a ao equilíbrio possível. Assim, a condição homossexual, quando enraizada na estrutura psicológica da pessoa, raramente poderá ser revertida. Cabe, portanto, à psicologia ajudar a pessoa a integrar e aceitar sua condição.

Resta ainda um esclarecimento nesse sentido mais geral. Não se pode cair no determinismo comportamental. Ou seja, toda pessoa que se desenvolve em determinadas condições vai ser necessariamente homossexual. Parece que aí não existe uma necessária relação de causa e efeito. Sob as mesmas condições humanas, as pessoas poderão desenvolver personalidades distintas. Isso torna complexo o estudo e a abordagem da homossexualidade, não nos permitindo uma postura simplista ou preconceituosa.

3. Homossexualidade e comportamento sexual, questão de opção?

Para além do biológico, encontramos a capacidade racional do ser humano. Por ela, cada pessoa torna-se capacitada para imprimir um ritmo desejado para sua vida. Nesse sentido, o desejo implica um querer. É no querer que se concentra a possibilidade das escolhas mais profundas do ser humano. Por isso, encontrar-se na condição homossexual não é escolha. No entanto, uma vez que se tomou consciência da própria condição homossexual, o exercício da sexualidade, enquanto interação sexual entre pessoas, é opção. Em outras palavras, ser homossexual não é opcional, todavia, manter relacionamentos homossexuais ou não implica escolha, ainda que pesem sobre tal escolha sérios condicionamentos.

Conseqüentemente, por se tratar de um comportamento humano, sobre o exercício da sexualidade pesa um juízo ético, porque ele implica interação de sujeitos. Nesse caso, a Igreja ao indicar a continência como proposta de vida aos homossexuais, o faz na perspectiva ética. (10)

Da mesma forma, considerando que à vontade do ser humano, coordenada pela razão, imprime o ritmo da vida da pessoa; a instituição do voto de castidade e do celibato insere-se no horizonte da liberdade das escolhas humanas. Eles estão subordinados a um processo de educação da vontade do sujeito humano. Por isso, não são elementos que negam a humanidade dos indivíduos, mas exigem destes uma educação para liberdade, para que escolham a vivência da sexualidade sem o exercício do intercurso genital.

4. Dois pesos e duas medidas

Postas tais premissas, o que se observa atualmente é a articulação de uma cultura homossexual. Superaram-se posturas condenatórias ou preconceituosas em relação aos homossexuais. Todavia, parece haver um incentivo da mídia ao comportamento homossexual. Exagera-se a exposição da temática homossexual, tratando a questão de forma superficial (às vezes panfletária), enviando aos destinatários uma mensagem subliminar de que todos os seres humanos tendem à homossexualidade. Por isso, segundo essa tendência, o “normal” é ser homossexual. Para se garantir a perpetuação da espécie humana, concomitante à homossexualidade, fala-se em bi-sexualidade.

Não se trata de emitir um juízo ético. Com efeito, o hedonismo que caracteriza a sociedade hodierna, prega o prazer a qualquer preço. Por isso, tende-se a considerar normais mesmo práticas de perversões comportamentais, desde que sejam prazerosas para o indivíduo. Na contramão dessa atitude social, está a maneira hipócrita e preconceituosa como os meios de comunicação têm tratado a pedofilia e os desvios sexuais de membros do clero católico. Ora, num ambiente de vale tudo do prazer pelo prazer, as conseqüências são no mínimo previstas. Prostituição infantil, pedofilia, sadismo, pederastia, estupros, necrofilia, aberrações comportamentais, atentados violento ao pudor, promiscuidade etc. são alguns dos frutos espúrios de um relativismo moral. Colhe-se o que se planta. Nenhuma perversão, praticada por quem quer que seja, é lícita. Por isso, imprimir valores objetivos que equilibram o comportamento das pessoas em sociedade e educam sua vontade para o exercício de uma sexualidade saudável, é um princípio que permanece válido, já que o anomismo moral volta-se contra a própria sociedade.

5. Formação e homossexualidade: realidade emblemática

Retornando à questão da homossexualidade no Seminário, mais precisamente na Vida Religiosa; podemos considerá-la como uma questão tabu, já que dificilmente o tema é abordado em sua profundidade, buscando-se os encaminhamentos adequados. Parece que na cabeça dos jovens em estágio de formação existe uma confusão. Na situação de carência afetiva, convivendo com pessoas do mesmo sexo, sem generalizações, admite-se poder ocorrer práticas homossexuais. Mesmo as pessoas (formandos) que apresentam algum equilíbrio na esfera sexual, acobertam por vezes práticas não condizentes ao estado de vida religiosa. Pior acontece, quando formadores não trabalhados em seu campo afetivo, praticam ou acobertam práticas homossexuais com formandos.

Existem alguns que, imbuídos do espírito hedonista da sociedade, descrevem o voto de castidade como uma hipocrisia, como se a atividade sexual genital fosse a única possibilidade de prazer. Outros ainda, como acenara José Comblin, admitem que o pecado contra a castidade refere-se às relações heterossexuais, não incidindo nas práticas homossexuais. (11) Em ambos os casos, parece haver uma atitude de advogar em causa própria. Quem não é capaz de manter a continência, porque não tem a inclinação para a castidade ou porque em muitos casos não educou o seu querer, tanto homo como heterossexuais, justifica-se assumindo atitude negligente e até estimulante às práticas heterodoxas dos outros.

Sob esse ponto de vista, parece haver uma articulação entre os homossexuais. Em artigo recente da revista Época (12), alguém alertara para o que está ocorrendo na Igreja Católica. Segundo o autor, organizações gays infiltraram membros entre formandos e formadores para que minassem a estrutura da Igreja. Segundo essas organizações, a Igreja apresenta uma postura preconceituosa e conservadora em relação aos homossexuais. Não é possível afirmar tal fato de forma peremptória. Todavia, ouve-se falar de uma articulação subterrânea que, paulatinamente, está tornando visível a presença homossexual na Igreja. (13)

De domínio ainda restrito, sabe-se que em algumas congregações e dioceses, na atualidade, acolheu-se de forma consciente (da parte dos responsáveis) pessoas com essa tendência. (14) Há, no entanto, não uma flexibilização de critérios que a princípio continuam os mesmos, mas uma insegurança da parte de alguns e, em outros casos, atitudes casuísticas. As conseqüências advindas dessa atitude só poderão ser observadas num futuro próximo.

6. Algumas características não exclusivas

Sem qualquer áurea de preconceito, talvez seja possível fazer algumas constatações, não exclusivas, da presença de homossexuais nas hostes eclesiais. (15)

Um primeiro traço que surge é o personalismo. Parece que os trabalhos centram-se sobre a pessoa do eclesiástico. Conseqüentemente, há uma atitude negligente para com os compromissos pastorais. (16) Infla-se o aspecto visual, esvaziando seu sentido mais profundo. O auto-centramento da pessoa em si, a desvincula das raízes sócio-econômico-culturais, levando-a a um aburguesamento.

Paralelo a esse primeiro traço verifica-se também pouca afinidade para a austeridade de vida e os compromissos mais exigentes. Nesse particular, não só os homossexuais, também os heterossexuais; quando vivem uma experiência de vida dúbia, abrem espaço para desvios comportamentais no campo econômico. Muitas vezes, aquilo que se ganha nos trabalhos apostólicos, ao invés de ser colocado em comum, é destinado para a manutenção de certas “situações” e “confortos” pessoais. Por conseguinte, há um arrefecimento nas motivações vocacionais e espirituais que podem dar sustentação à castidade e ao celibato, provocando um relaxamento nesse campo, do qual podem surgir desde concubinatos mal-disfarçados, até os desvios que atualmente a imprensa noticia.

Há uma tendência para um agrupamento de pessoas afins. Isso traz conseqüências para a vida comunitária. Corre-se o risco de perder o referencial cristocêntrico e vocacional da vida comunitária. Centrando a coesão da comunidade na amizade e identificação pessoais, facilmente poderá acontecer o expurgo a grupos diferentes, ou ainda, caracterizar uma fratura da comunidade em grupos antagônicos.

Um último aspecto que caberia uma referência aqui, é sobre  uma rede de informações que existe entre as pessoas de tendência homossexual. Há um linguajar e um grupo de códigos próprios com os quais se transmite, muitas vezes de forma inadequada, informações sobre outras pessoas. Quando não há um equilíbrio na perspectiva afetiva, abre-se assim campo para o tratamento de forma jocosa e por vezes destrutiva, de assuntos referentes às dificuldades pessoais de alguns que são vistos como antagônicos ao grupo. (17)

7. Tentativa de uma tipologia

A experiência na área da formação inicial mostra que a presença na vida religiosa e sacerdotal de pessoas tendentes à homossexualidade se dá em duas vertentes:

  1. Existem rapazes que em seu universo familiar não se dão conta de sua condição. Normalmente, são pessoas tímidas, caseiras, muito ligadas à figura da mãe em detrimento da quase-ausência da figura do pai. O Seminário funciona como um álibi de liberdade, porque sua prisão interior os sufoca. Quando se dão conta da situação, sentem grande prostração. Se bem encaminhados, poderão adquirir progressivamente um certo equilíbrio, desenvolvendo relações interpessoais saudáveis. No entanto, se são vítimas de homossexuais ativos e experientes, muitas vezes presentes na própria casa de formação, podem desenvolver o lado patológico da homossexualidade.

  2. Uma outra parcela antes de entrar para o Seminário, já tem consciência de sua condição. Por vezes, até desenvolveu práticas homossexuais. Quando estas pessoas, de forma camuflada, conseguem passar pela seleção vocacional, normalmente desenvolverão relacionamentos pervertidos (18), causando transtornos no ritmo de vida do seminário. A falta de transparência torna esse segmento mais complicado, porque a omissão de elementos da própria personalidade, revela uma personalidade doentia, concorrendo para sérios conflitos na comunidade formativa.

Poder-se-ia acrescentar aqui a realidade daqueles que se sabem homossexuais, não omitem a realidade e dizem querer viver o celibato e a vocação religiosa. Pelo menos, de forma explícita/oficial, não existem registros de tal fato. Com efeito, psicólogos que trabalham com religiosos/as não aconselham o ingresso de homossexuais nas comunidades formativas, principalmente quando se trata de homossexuais ativos. Por outro lado, essa questão foi ignorada por muito tempo nos meios eclesiásticos, por isso ainda é meio nebulosa. De modo geral, o processo de formação é ainda meio negligente em relação à homossexualidade. A conseqüência é a quase inexistência de estudos mais sistemáticos sobre a personalidade e o comportamento de homossexuais nos quadros da vida religiosa e sacerdotal. Isso cria insegurança, porque a acolhida a esses sujeitos poderia provocar situações traumáticas tanto para a pessoa como para a instituição. Na dúvida, melhor prevenir.

8. Caminho espinhoso

Uma abordagem da homossexualidade na Vida religiosa e sacerdotal é sempre um caminho espinhoso. Porque, embora se negue sua existência, sob o pano da falsa modéstia, ela está muito presente e, por não ser tratada com a devida urgência, paulatinamente vem solapando a imagem da Igreja. Por outro lado, verifica-se a existência velada de defensores dos homossexuais nos meios eclesiásticos. Toda e qualquer leitura que a põe no centro da discussão, provoca impacto, reações imediatas. Não se quer aqui entrar no torvelinho da polêmica. A omissão da Igreja no tratamento das questões sexuais (homo e heterossexuais) onera sua credibilidade ante a opinião pública.

Já se ouve nos meios de formação inicial, que o voto de castidade e o celibato são princípios intrínsecos à Vida Religiosa e Sacerdotal. Desta forma, desde que a pessoa manifeste o desejo de viver a castidade ou o celibato, independente de sua condição sexual, poderá ser acolhida. Como inferência decorrente do princípio (abstração) castidade-celibato, que encontramos na tradição da Igreja e na legislação canônica, nada a contestar. O nó da questão (realidade) está nas condições que se oferecem aos candidatos para viverem esse princípio. Não bastam argumentações teológicas e legais. Se a Igreja considera válida a vida continente para seus ministros e religiosos/as, deverá trabalhar com clareza e coragem as condições afetivas e oferecer os meios necessários.

No tocante à homossexualidade, há sempre uma crise quando a pessoa se percebe nessa condição. Por essa razão, grande parte dos homossexuais apresenta uma personalidade bastante fragilizada. Entre aqueles que fazem apologia da homossexualidade, o número de suicídios é expressivo. Nesse segmento, fala-se também de alianças homossexuais monogâmicas. No entanto, a busca de um parceiro sexual semelhante parece apontar para uma busca do próprio “eu”. Há, portanto, nas relações desse gênero algo de egocentrismo. Por isso, recaem sobre os impropriamente chamados casamentos homossexuais profundos questionamentos. Não há uma adequada satisfação a sua carência interior e isso abre campo para a promiscuidade, já que as relações permanecem na periferia da sexualidade, restringindo-se à sua dimensão genital. (19)

Por isso, a intuição racional do princípio castidade-celibato como premissa universal para a vida religiosa e sacerdotal para homo e heterossexuais esbarra no princípio da realidade. Temos os meios adequados para trabalhar com os homossexuais? O fato de se viver em ambiente mono-sexual é pedagógico para pessoas com tendências homossexuais? Temos condições e meios para detectar pessoas com desvios de personalidade? Quais os critérios e os princípios que devemos ter para a acolhida ou não de homossexuais nas casas de formação?

Afetividade, uma questão a ser enfrentada

Não se pode tapar o sol com a peneira. A grande defecção nos quadros da formação inicial e os atuais escândalos sexuais mostram que as questões afetivas não podem ser ignoradas nas casas de formação e no processo formativo. A crise de valores e a falta de referenciais éticos provocam um verdadeiro subdesenvolvimento afetivo na juventude. Por outro lado, a inflação da perspectiva sacral, verificada atualmente no interior da Igreja, gera distorções, que a conduzem a uma concepção muito etérea do ser humano. Tudo isso decreta a falência daquela imagem solene e hierática de religiosos/as e sacerdotes, exigindo do processo de formação e de seus agentes uma tomada de posição.

O fato de, na intuição teológica, se considerar o celibato e a castidade como dons divinos, não subtrai o ser humano de seu universo sensível e sensorial. Entre religioso/as e sacerdotes não existem anjos. As pulsões afetivas e sexuais continuam ativas. Por isso, o equilíbrio possível só será atingido quando houver uma harmonia entre o racional e o sensível-sensorial. Fugir de forma hipócrita às questões afetivas, saindo pela tangente como se tem verificado na atitude de alguns prelados em relação à pedofilia, concorre para a dilapidação da estrutura eclesial. Por conseguinte, tal omissão amplia o descrédito da sociedade em relação à Igreja, o que concorrerá para a implosão de sua missão de anunciadora do Evangelho. Nesse sentido, as questões do desenvolvimento afetivo e da homossexualidade são os desafios urgentes que o novo milênio está impondo à Igreja. Ao contrário de reduzir a problemática à instituição da castidade e do celibato, o que se questiona é o processo de formação e preparação dos futuros sujeitos da Vida Religiosa e Sacerdotal, para que possam assumir a vocação enquanto resposta humana a uma convocação divina (transcendente), brotada de uma experiência de fé e encarnada em relações humanas saudáveis.

padre Marcelo Conceição Araújo

(1) Nesse sentido, a procura por parte de pessoas com tendências homossexuais não se restringe à estrutura eclesiástica, mas atinge também as forças militares e todos os ambientes que se caracterizam pelo mono-sexualismo.

(2) O termo indivíduo, em suas aparições neste artigo, está sendo utilizado no sentido que lhe é atribuído pelas ciências biológicas: um exemplar de uma espécie biológica.

(3) É o que ocorre na maioria dos casos de trissomia dos cromossomos sexuais, caso haja a sobrevivência do indivíduo biológico, normalmente ele se caracteriza pelo bi-morfismo sexual (XXX = feminino e XYY e XXY = masculino). Quando apresenta apenas um cromossomo feminino, as aparências externas são femininas, mas o indivíduo é estéril na idade reprodutiva e apresenta fraca capacidade intelectual (Síndrome de Tunner = X). Caso o indivíduo apresente somente um ou o par de cromossomos masculinos (Y e YY), é inviável, pois não chega a ser gestado.

(4) Pode acrescentar aqui também, que o fato de manter por um período prolongado animais do mesmo sexo juntos sem a presença do oposto, poderá ocasionar um comportamento homossexual circunstancial.

(5) Na linguagem da biologia: 1. Genótipo: constituição hereditária (conjunto de genes) de um indivíduo, animal ou vegetal e 2. Fenótipo: aspecto externo do ser vivo.

(6) O psicólogo francês Marc Oraison, ao tratar da estrutura homossexual, afirma que a pessoa nessa condição, não força a situação, ao contrário, tanto como a pessoa heterossexual, suas fantasias sexuais dirigem-se de forma espontânea para um outro indivíduo do mesmo sexo.

(7) Estado homossexual só existe quando indivíduos do mesmo sexo são mantidos juntos por um espaço de tempo prolongado. Nesse caso, fala-se de um homossexualismo circunstancial, porque não a estrutura da personalidade do indivíduo não está aí implicada.

(8) Aqui se refere àquelas características atitudinais e comportamentais que definem a personalidade da pessoa.

(9) A situação é mais complexa nesse aspecto. Mesmo a França, considerada um país liberal, interveio na questão da adoção de crianças por casais homossexuais. “A Corte Européia de Direitos Humanos concedeu à França, no dia 26 de fevereiro, o direito de proibir a adoção de crianças por homossexuais, numa sentença adotada por uma corte majoritária de quatro votos contra três” Em LEMONDE.FR, 26.02.02.

(10) Não discutimos aqui se há preconceito ou não por parte da hierarquia eclesial, a referência que fizemos está em função da questão moral implicada no comportamento homossexual. Vide Catecismo da Igreja Católica n. 2359.

(11) Vide o artigo Ser Igreja Hoje: reflexões também para religiosos/as. In Convergência, 339. Jan./fev. de 2001, pp. 50-64.

(12) Cf. Olavo de CARVALHO, Ainda a traição dos clérigos. In Revista Época, n. 206 de 29/04 de 2002, p. 30.

(13) Já se ouve dizer uma Associação São João Evangelista que congrega sacerdotes homossexuais. Em Campinas corre-se boatos sobre uma suposta articulação de homossexuais religiosos (formadores/as, formandos/as).

(14) Vejam para exemplo referências em Edênio do VALLE, Psicologia, ética cristã e homossexualidade.Visão desde a formação à Vida Religiosa. In Sexualidade: Cultura, Ética e Vida Religiosa. Publicações CRB e Loyola, 1999. Psicologia e Vivência, 2. Pp. 55-84.

(15) Os aspectos que levantaremos a frente não são características exclusivas de homossexuais, porém, como estamos tratando da temática, direcionaremos a reflexão perspectiva da homossexualidade. É bom frisar que por estarmos tratando dos desafios, as referências que fazemos abaixo denotam mais os aspectos negativos. Com efeito, não ignoramos que existem algumas contribuições positivas.

(16) Por exemplo, a fuga dos padres ao atendimento das confissões individuais.

(17) Recomendamos a leitura das Ressalvas Psicopastorais e pedagógicas no artigo de Edênio do VALLE, Psicologia, ética cristã e homossexualidade.Visão desde a formação à Vida Religiosa. In Sexualidade: Cultura, Ética e Vida Religiosa. Publicações CRB e Loyola, 1999. Psicologia e Vivência, 2. Pp. 77-80.

(18) As expressões perversão, perverso e pervertido são utilizadas em seu sentido patológico e não são exclusivas aos homossexuais, mas referem-se a todos os desvios de personalidade.

(19) Para a questão da personalidade homossexual e sua relação com a cultura vide Gerard J. M. Van Den AARDWEG, A Batalha Pela Normalidade Sexual. 2000, Editora Santuário, Aparecida/SP. Pp. 61-80.