Carta aos presbíteros

O que vimos e ouvimos vo-lo anunciamos (1Jo 1,3a)

Queridos irmãos presbíteros,

1. Nós, bispos do Brasil, reunidos na 42ª Assembléia Geral, dedicamos tempo especial ao tema central: Vida e Ministério dos Presbíteros.

2. Vocês estiveram presentes em nossas orações e reflexões desses dias. Deus os consagrou, pela imposição de nossas mãos, como necessários colaboradores da ordem episcopal. Pedimos ao Pai, que, na comunhão que marca o ministério ordenado, possamos – bispos e presbíteros – assumir co-responsavelmente a missão evangelizadora em cada Igreja Particular. Agradecemos a Deus pela vida e vocação de cada um de vocês (cf. Fl 1,3).

3. Em consonância com as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil e com o Projeto Nacional de Evangelização Queremos Ver Jesus - Caminho, Verdade e Vida, apresentamos a riqueza desses dias, destacando o presbítero como pessoa, como membro do presbitério com seu bispo; no relacionamento de pessoas e comunidades e, também, sua presença e missão na sociedade. O encontro entre o Mestre e o discípulo, ao qual entregou as chaves do Reino dos Céus (cf. Mt 16,19), serve como itinerário desta carta.

I. O presbítero, sua pessoa

Pedro, tu me amas mais do que estes? Apascenta meus cordeiros (cf. Jo 21,15).

4. O presbítero, antes de tudo pessoa humana, pelo Batismo, filho de Deus, é chamado a viver em santidade, no amor incondicional a Jesus Cristo. A pergunta direta e, ao mesmo tempo, carinhosa de Nosso Senhor a seu discípulo indica que amar a Ele é condição primeira para ser pastor de seu rebanho, a começar por Pedro. Por isso, como pastores, amem o Cristo e o povo que lhes foi confiado, e vocês nos darão profunda alegria por aquilo que são e significam em nossas Igrejas Particulares.

5. Por causa da profunda fé, amor e esperança que têm por Jesus Cristo, referência absoluta para a compreensão do mistério e ministério sacerdotais, vocês são capazes de cuidar com carinho da parcela do povo de Deus que lhes foi confiada. É pela entrega sem reservas ao seguimento de Jesus que se entende a dedicação de vocês no exercício do ministério. Isso é possível não por mera decisão própria. O chamamento decorre do laço indissociável entre a graça divina do chamado e a responsabilidade humana na resposta. O primado absoluto da graça da própria vocação do presbiterado emerge, na sua totalidade, quando vivido na intimidade maior com Deus Uno e Trino. Aí o presbítero vivencia, mais profundamente, a palavra de Jesus: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos estabeleci para que vades e deis frutos e o vosso fruto permaneça” (Jo 15,16).

"Eu vos disse isso, para que minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa” (Jo 15,11).

6. Alegra-nos perceber que a caridade pastoral é o eixo integrador de suas vidas como presbíteros. Temos, frente a nossos olhos, inúmeros testemunhos de presbíteros incansáveis e até mesmo sobrecarregados no exercício do ministério. Preocupa-nos, no entanto, quando vocês, no afã de se dedicarem com mais afinco ao seu ministério, não percebem que, muitas vezes, o excesso de trabalho pode transformá-los em pessoas estressadas, de difícil relacionamento com o povo e fechadas às oportunidades de convívio com seus irmãos presbíteros. Não raras vezes, o ativismo tem-se revelado como fuga, por um lado, e por outro, obstáculo para um mergulho no mistério do Cristo, na assimilação das virtudes cristãs, numa maior atenção aos “sinais dos tempos” e aos apelos de Deus que nascem das mudanças na história; obstáculo também para o cultivo de profunda espiritualidade, que exige uma vida mais dedicada à oração contemplativa, característica do pastor.

7. É para nós um fato edificante e até questionador, a condição de pobreza real que muitos de vocês abraçam por causa de Cristo e do Evangelho. Vivendo em comunidades das periferias urbanas e em regiões isoladas do interior, partilham as dolorosas carências da população empobrecida e marginalizada. Esse estilo de vida despojado, simples e austero torna-se testemunho e autêntica expressão da evangélica opção pelos pobres, dimensão essencial da identidade dos seguidores de Jesus.

8. Muito nos alegramos ao constatar o empenho de vocês para testemunhar, com convicção, a fidelidade ao espírito dos conselhos evangélicos, no seguimento de Jesus pobre, obediente e célibe, sabedores que carregam, como nós, tesouros em vasos de barro (cf. 2Cor 4,7). Isso porque cresce a consciência, como nos alerta o Papa João Paulo II, de que “o carisma do celibato, mesmo quando é autêntico e provado, deixa intactas as tendências da afetividade e as excitações do instinto” (...) Daí que, “em vista do compromisso celibatário, a maturidade afetiva deve saber incluir, no âmbito das relações humanas de serena amizade e de profunda fraternidade, um grande amor vivo e pessoal a Jesus Cristo” (PDV 44). Há, porém, uma unidade indissolúvel entre os três conselhos evangélicos, de forma que a vivência autêntica de um enriquece o outro, propiciando um seguimento mais pleno.

9. Louvamos a Deus também pela crescente dedicação ao acolhimento e atenção aos seus irmãos e irmãs leigos. Do bom e sadio convívio de vocês com eles, nossas Igrejas Particulares têm colhido sempre mais frutos saborosos no campo da evangelização. Percebemos que cresce entre vocês a consciência da necessária ação conjunta com as leigas e os leigos, bem como com seus irmãos e irmãs de vida consagrada, inseridos na pastoral de conjunto, no incremento de novas iniciativas evangelizadoras. Isto, porém, não vemos somente como meios mais eficazes para um melhor anúncio da Boa Nova aos outros, mas também como instrumento eficaz de amadurecimento pessoal. Nessa perspectiva, a convivência com os seus irmãos de presbitério, com os diáconos permanentes, e conosco, seus bispos, e em comunhão com o Papa João Paulo II, têm-se revelado fonte de graça e crescimento.

10. Muito machuca nosso coração de pastores quando percebemos alguns dentre vocês solitários, isolados, com sinais de intransigência e de autoritaritarismo, relutando em abraçar o Plano Diocesano de Pastoral e participar das reuniões ou de outras atividades no âmbito da Igreja Particular. Contamos com seu entusiasmo e ação, para que, na linha das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, participem intensamente da realização do Projeto Nacional de Evangelização Queremos Ver Jesus – Caminho, Verdade e Vida.

11. Gostaríamos de vê-los misericordiosos, bondosos, atenciosos, compassivos, generosos, acolhedores e homens de oração. Sabemos, no entanto, que é fundamental nosso testemunho de bispos, que trazem em sua vida e ministério essas mesmas atitudes. Pedimos perdão pelas vezes que tudo isso não aconteceu em nosso relacionamento com vocês. Acreditamos que essas virtudes são mais facilmente desenvolvidas se houver amizade entre os presbíteros, destes com os bispos e vice-versa, favorecendo a superação das dificuldades que surgem na ordem humano-afetiva, na vida dos presbíteros. Nada de julgamentos, mas sim de compreensão e de apoio, pois não desconhecemos as inúmeras dificuldades que muitos de vocês enfrentam para levar uma vida humanamente equilibrada, pois podemos trazer marcas profundas de experiências passadas em nossas famílias de origem ou mesmo em casas de formação, ou ainda, provenientes do exercício consciencioso do ministério, no denunciar situações inaceitáveis e anunciar a Boa Nova do Reino de Deus.

12. Comprometemo-nos, caros presbíteros, lembrados de que Deus corrige a quem ama (cf. Ap 3,19), a não contemporizar quando, dentre vocês, um irmão apresentar comportamentos que requeiram acompanhamento especial, como aqueles de ordem afetivo-sexual, apegos excessivos ao poder e ao dinheiro, alcoolismo e algumas patologias psicológicas profundas. Esperamos que o presbítero em causa aceite o tratamento adequado. Lamentamos e desaprovamos a interpretação inexata dada a uma das perguntas da Pesquisa encomendada pela Comissão Nacional de Presbíteros – CNP, ao Centro de Estatísticas Religiosa e Investigações Sociais – CERIS.

Renovai em vós o dom recebido (cf. 2Tm 1,6)

13. Ao relacionarmos sua vida e ministério com a Palavra, sentimo-nos tocando fundo o mistério desta relação, constitutiva e fundante do seu ministério. Vocês são, sem dúvida, homens da Palavra, não de qualquer palavra, mas daquela a vocês confiada pelo Cristo, que, ao encarnar-se, também se fez Palavra humana, Verbo Eterno de Deus presente na nossa história (cf. Jo 1,14). Esta palavra dada acompanha diariamente a vida e o ministério de vocês na sua totalidade. Sabemos, por outro lado, o quanto esta Palavra é desafiadora em nossas vidas, pois, como embaixadores do Cristo (cf. 2Cor 5,20), não somos donos da Palavra. Dele a recebemos como discípulos e a Ele devemos ser fiéis. Com esperança e alegria vemos o caminho que essa Palavra tem feito na vida de inúmeros presbíteros, que se deixam guiar por ela e, por ela, chegam ao grande testemunho, comprometendo a vida toda, até as últimas conseqüências.

14. Sua conformação com essa Palavra é que o autoriza introduzir a pessoa humana na grande família de Deus: “Eu te batizo”; e ser sinal e proferir a palavra de misericórdia e de reconciliação: “Eu te absolvo”. É, mais ainda, pela sua total identificação com esta Palavra que podemos ouvir o próprio Cristo, repetindo cotidianamente em nossos altares: “Isto é meu Corpo, este é o Cálice do meu Sangue”. Corpo e Sangue de Cristo, mas seus também, queridos irmãos presbíteros, pois somente podemos dizer isso pela graça sacramental, que nos incorpora ao Cristo Pastor e Redentor da humanidade.

15. É hora de especial empenho pela mística presbiteral que os levará, caríssimos irmãos, a ter no Cristo Bom Pastor o modelo que, a exemplo de sua caridade pastoral, lhes propicia encontrar o vínculo da perfeição sacerdotal, fonte da unidade de sua vida e missão. Elementos fundamentais e constitutivos do cultivo dessa mística são a celebração diária da Eucaristia quando, em nome de Cristo, oferecemos a humanidade ao Pai, e a recitação da Liturgia das Horas quando, unidos a toda a Igreja, rezamos ao Pai. Entre outros meios eficazes, destacamos a oração pessoal, sobretudo na presença do Cristo Eucarístico, Confissão sacramental freqüente, a leitura orante da Palavra de Deus, pessoal e comunitária, a correção fraterna, os retiros anuais do presbitério, a recitação do rosário e leituras sobre o testemunho de vidas inteiramente voltadas à vivência do Evangelho, característica dos santos e mártires.

16. Esmerem-se em levar avante a formação permanente, conscientes de que cada vida é um caminho incessante em direção à maturidade e, por ela, atende-se a exigência de acertar o passo com a história e discernir o contínuo chamado ou vontade de Deus. A alma e essência da formação permanente do presbítero é a caridade pastoral, pois todos os aspectos da formação devem ordenar-se ao fim pastoral (cf. PDV 70; OT 4). A formação contínua o ajudará, querido irmão presbítero, a “guardar o precioso bem a ti confiado, com a ajuda do Espírito Santo, que habita em nós” (2Tm 1,14).

17. A vocês, amados irmãos, se aplica o que escreveu o apóstolo Pedro: “Sem terdes visto o Senhor, vós o amais. Sem que agora o estejais vendo, credes nele. Isto será para vós fonte de alegria inefável e gloriosa, pois obtereis aquilo em que acreditais: a vossa salvação” (1Pd 1,8).

II. O presbítero e a comunidade

Pedro, tu me amas? Apascenta minhas ovelhas (cf. Jo 21,16).

18. Como resposta à pergunta insistente do Senhor, admiramos o trabalho de vocês, presbíteros, no sentido de edificarem a comunidade. Admiramos também a Carta do 10° Encontro Nacional de Presbíteros pelo incentivo à participação no presbitério e na comunhão fraterna. Na verdade, o presbitério é nossa primeira comunidade.

19. Quanto nos conforta perceber o amor incondicional que vocês têm pela Igreja, fruto maduro da Eucaristia, fonte, vida e centro de toda a comunidade cristã e, de modo particular, para vocês que a presidem (cf. PO 5). O serviço da presidência da Eucaristia decorre do Sacramento da Ordem, pelo qual os presbíteros se configuram com Cristo Sacerdote e Cabeça, para construir e edificar todo o seu corpo, que é a Igreja, como cooperadores da ordem episcopal (cf. PO 12).

20. Quando vocês demonstram, muitas vezes, que aspiram por mudanças na forma de a Igreja dar continuidade à obra de Jesus Cristo na realidade de hoje, é surpreendente com que dedicação e espírito de entrega o fazem!

21. A vivência em presbitério tem sido, sem dúvida, para todos nós, uma fonte inesgotável de aprendizado da vivência ministerial. Aí encontramos ajuda mútua para, como ministros ordenados, garantirmos a fidelidade ao seguimento de Jesus Cristo. É também fonte pedagógica para correção de possíveis distorções que podem surgir no exercício do ministério, pois da convivência entre nós, brotam perguntas sobre o relacionamento nem sempre fraterno, que, por vezes, tem-se revelado subserviente com os superiores e autoritário com os subalternos. A fraternidade presbiteral nasce do Sacramento da Ordem e nos ajuda a acolher no coração a afirmação profética do Papa João Paulo II: “O ministério ordenado tem uma radical forma comunitária e apenas pode ser assumido como obra coletiva” (PDV 17). A vida em presbitério é, sem dúvida, um dom de Deus, que merece sério cultivo da parte de todos. Sinais concretos desse cultivo têm sido também a busca de uma convivência fraterna com os diáconos permanentes, religiosos e religiosas e com as leigas e os leigos, co-responsáveis na obra da evangelização.

22. Impulsionados pelo Espírito Santo, protagonista da missão, estamos conscientes de que o presbítero diocesano é chamado a viver o fecundo dinamismo missionário na Igreja Particular. Isso implica maior disponibilidade para ser enviado a outras paróquias, especialmente às mais pobres e distantes, e a outros serviços propostos pela diocese, tais como: a coordenação diocesana, assessorias de acompanhamento de várias pastorais específicas e movimentos eclesiais. Esse testemunho de disponibilidade constitui-se em desafio para que todos se disponham a ir ao encontro do outro e as pastorais venham a assumir também esse espírito missionário.

23. A busca de integração entre idosos e jovens, missionários provenientes de outros países e brasileiros, religiosos e seculares, e também brasileiros oriundos dos mais diversos estados da federação, é marca significativa de nossos presbitérios. Nosso País, pela sua própria constituição étnica, sempre favoreceu uma Igreja que sabe articular essas realidades de modo tão rico e fecundo, que torna nosso processo evangelizador único e belo.

24. Esse espírito missionário deve ser sempre mais concreto no sinal de cooperação e vida em comum, que cresce entre nós. Alguns presbíteros têm-se colocado à disposição de outras Igrejas Particulares, intercambiando experiências e favorecendo uma maior integração de nossa Igreja, em âmbito nacional. Reconhecemos que houve, nos últimos anos, um crescente compromisso de nossa Igreja com a missão ad gentes, mas ainda sonhamos que essa perspectiva se amplie, constituindo verdadeiramente uma experiência de autênticos presbíteros brasileiros fidei donum.

25. É importante fortalecer a consciência ecumênica e o diálogo inter-religioso, marcas significativas da caminhada de nossa Igreja que, cada vez mais, vêm contribuindo para tornar real a busca da unidade desejada por Jesus Cristo: “Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim, e eu em Ti. Que eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17, 21).

26. Louvamos a Deus também pelo surgimento da experiência de equipes de vida e trabalho sacerdotais, onde a interajuda e, em alguns casos, até o caixa comum, favorecem uma maior fraternidade entre vocês, corrigindo possíveis distorções e aliviando o peso do trabalho evangelizador.

27. Suas organizações próprias, tais como a Pastoral Presbiteral, os Encontros Nacionais, fraternidades presbiterais, associações e comissões, demonstram o desejo de uma vida profundamente marcada pela solidariedade entre vocês, que são mais autênticas quanto mais abertas e sensíveis à realidade de todos os irmãos presbíteros.

28. Nosso pensamento e nosso afeto incluem também aqueles que não exercem mais o ministério, mas que, em comunhão com a Igreja, continuam participando em nossa comunidade eclesial. Agradecemos sua presença amiga e os exortamos a permanecerem no seguimento de Jesus Cristo, unidos a nós e atuantes em nossas comunidades.

 

“Eu vos dei o exemplo” (Jo 13,15)

29. Cada vez mais, somos conscientes de que não há um modelo único de presbítero, assim como não há uma única maneira de evangelizar. Em algumas Igrejas Particulares, o convívio de diversos modelos tem-se desenvolvido bem numa perspectiva da eclesiologia de comunhão, que busca integrar atitudes e opções diferentes no exercício do ministério presbiteral, resultando em fecundidade pastoral. Entender a variedade da atuação dos presbíteros em termos de complementaridade, valoriza os dons e sensibilidades diferentes que se respeitam mutuamente e se reconhecem integrados num único corpo: o da Igreja de Cristo naquela diocese ou naquele território, com sua pastoral de conjunto.

30. Olhando nossos presbitérios, percebemos que há frutos significativos da teologia do Concílio Vaticano II entre nós, mas que ainda permanece como meta e desafio para muitos. “Exercendo o múnus de Cristo cabeça e Pastor, os presbíteros reúnem, em nome do Bispo, a família de Deus, como fraternidade bem unida, e levam-na a Deus Pai por Cristo no Espírito. Para exercer este ministério [...] é conferido o poder espiritual, que é dado para edificação. Na edificação da Igreja, porém, os presbíteros devem conviver com todos, com grande humanidade, a exemplo do Senhor. [...] Por isso, cabe aos sacerdotes, como educadores na fé, cuidar por si ou por outros, que cada fiel seja levado no Espírito Santo a cultivar a própria vocação segundo o Evangelho, à caridade sincera e operosa, e à liberdade com que Cristo nos libertou. De pouco servirão as cerimônias, embora belas, bem como as associações, embora florescentes, se não se ordenam a educar os homens a conseguir a maturidade cristã. Os presbíteros ajudá-los-ão a promoverem esta maturidade, para que até nos acontecimentos grandes ou pequenos consigam ver o que as coisas significam, qual é a vontade de Deus. Sejam ainda os cristãos treinados a não viverem só para si, mas, segundo as exigências da nova lei da caridade, a porem uns a serviço dos outros a graça recebida, e, desta forma, realizarem todos, de maneira cristã, suas tarefas na comunidade humana. Embora sejam devedores de todos, os presbíteros consideram como recomendados a si de modo particular os pobres e os mais fracos, com os quais o próprio Senhor se mostrou associado, e cuja evangelização é apresentada como sinal da obra messiânica” (PO 6).

31. Onde isso ainda não acontece, a diversidade de modelos tem sido fonte de conflitos desgastantes, a competição tem dificultado a comunhão e a concorrência prejudicado amplos setores de nossas Igrejas Particulares, que se sentem escandalizados com nossa divisão.

32. Momentos privilegiados de superação das dificuldades no âmbito da vida fraterna têm se constituído, cada vez mais, os nossos retiros anuais. Indo ao encontro do Senhor, nos deparamos como peregrinos de um mesmo caminho. Meditando sobre o mistério do Cristo, temos a oportunidade de perceber também o mistério do nosso chamado.

 

“Ide, também, vós para a vinha” (Mt. 20,4)

33. Quantas vezes tem ressoado em nossos ouvidos o forte e suave convite do Senhor “Vem e segue-me!” (Mt 19,21b). É a experiência que renova em nós a certeza de que a vocação e a missão são um dom de Deus para o serviço ao seu povo e de que precisamos oferecer os meios necessários para que ela aconteça também entre os jovens de hoje. Assim, uns vão se integrando no serviço da comunidade, outros são acolhidos na vida consagrada e não faltam aqueles que, também pela graça de Deus, vão cultivando no Seminário o chamado ao ministério ordenado. Ressaltando a importância da Pastoral Vocacional, agradecemos ao Senhor da messe os presbíteros que, em nome da Igreja, se dedicam a esse trabalho.

34. Olhamos com profunda gratidão os que se têm dedicado ao urgente trabalho da formação dos futuros presbíteros nos Seminários. Somos testemunhas da abnegação e seriedade com que assumem essa missão na Igreja. Reconhecemos, porém, que ainda há muito que fazer nessa dimensão. Compartilhando as inquietações que muitos de vocês têm manifestado, pedimos: ajudem-nos a trabalhar para que o processo formativo fortaleça as dimensões humano-afetiva, espiritual, pastoral, comunitária e intelectual e não contribua para a formação de padres acomodados, “burgueses”, “meros funcionários da instituição”. Ajudem-nos a trabalhar para que o candidato ao presbiterado vivencie, durante o processo de discernimento vocacional, a experiência de ter o Cristo Servo-Pastor como referência absoluta para o que ele foi chamado: a vida no ministério.

35. Preocupa-nos a situação de muitos presbíteros na maioria de nossas Igrejas Particulares, em razão de reconhecidas desigualdades no que diz respeito à sua sustentação e assistência médica. Reconhecemos que muitas dioceses ainda não conseguiram elaborar um plano concreto nesse sentido, fato que representa um desafio à nossa criatividade pastoral. Em decorrência desse estado de coisas, encontramos, em diversas dioceses, presbíteros que têm gastado precioso tempo na busca da própria manutenção, comprometendo a qualidade do exercício de seu ministério. Muitos assim procedem porque se deixaram levar pelos anseios da sociedade consumista.

36. Há milhares de comunidades católicas espalhadas por nosso imenso País, e isso é fruto do amor generoso do Pai, mas que conta com o ardor evangelizador de vocês que, dóceis ao sopro do Espírito, vêm aprendendo a descobrir que cada comunidade é uma carta de Cristo escrita no coração de nossa história. Nesse trabalho, é decisiva a participação dos leigos e leigas, religiosos e religiosas, que se dedicam, junto com os presbíteros, para que a missão do Cristo continue viva e dinâmica no seio da humanidade.

37. O processo contínuo de formação e de fortalecimento das pequenas comunidades tem sido uma luz para vários movimentos e associações religiosas que começam a descobrir a importância da participação efetiva de seus membros na comunidade eclesial. Assim, a comunidade fica enriquecida com a variedade de dons de movimentos e associações melhor integrados na pastoral de conjunto.

38. Constatamos, caros irmãos presbíteros, que a grande maioria de vocês exerce seu ministério na paróquia. Em comunhão com as Conclusões da Conferência de Santo Domingo, sonhamos com o dia em que as paróquias possam ser verdadeiramente comunidade de comunidades e movimentos, onde todos e, particularmente, as famílias e os jovens encontrem cuidado especial e os pobres se sintam como em sua casa (cf. Novo millenio inneunte, 50). Paróquias ministeriais, celebrativas, missionárias, ecumênicas, libertadoras e, como pede o Papa João Paulo II, verdadeiras casas e escolas de comunhão.

III. O presbítero e a sociedade

Pedro, tu me amas? Apascenta minhas ovelhas (cf. Jo 21,17).

39. Vocês também respondem à pergunta de Jesus Cristo no testemunho que dão de dedicação e entrega na construção de uma sociedade justa e fraterna, sinal daquele que foi o grande sentido que Nosso Senhor deu à sua vida: o Reino de Deus.

40. Quanto nos alegra o compromisso de vocês com os pobres e excluídos. Ainda que preocupados, não podemos esconder a grande satisfação que sentimos quando, por causa deles, vocês nos lembram as promessas de Jesus Cristo no grande sermão das Bem-Aventuranças.

41. Lamentamos quando alguns de vocês se deixam levar pela ilusão de que, ocupando cargos políticos, servirão melhor ao povo do que por meio do ministério presbiteral. A missão do presbítero tem algo de específico, na configuração do Cristo Pastor, que não se coaduna com a partidarização política. Ter postura clara no campo do profetismo implica a dedicação profunda e séria da entrega da vida ao povo de Deus, sobretudo aos menores de seus irmãos, o que muitos de vocês têm feito com imenso zelo pastoral.

42. O fato, porém, de a Igreja não possuir nem oferecer um particular modelo de vida social, nem estar ligada a um determinado sistema político, não quer dizer que ela não deva formar e encorajar os cristãos leigos a participarem na elaboração de projetos sócio-políticos, que contribuam para a construção da sociedade justa e fraterna. Vemos, com muita alegria, que isso vem sendo feito por meio de escolas de formação política em diversas de nossas Igrejas Particulares (cf. A Doutrina Social da Igreja na Formação Sacerdotal, 63).

43. Nossa Igreja continua sendo apontada pelos institutos de pesquisa como uma das instituições mais confiáveis. Temos consciência de que isso se deve também ao testemunho sério de inúmeros presbíteros que, mesmo sendo perseguidos ou difamados, defendem intrepidamente os direitos humanos e doam suas vidas para que tantos excluídos da sociedade possam ter sua dignidade reconhecida.

44. “A ação social em que vocês estão mergulhados, quando iluminada pelo Evangelho, é sinal da presença do Reino de Deus no mundo, enquanto proclama as exigências deste Reino na história e na vida dos povos como fundamento de uma sociedade nova, enquanto denuncia tudo o que atenta contra a vida e a dignidade da pessoa nas atitudes, nas estruturas e nos sistemas sociais, enquanto promove uma plena integração de todos na sociedade, como exigência ética da mensagem evangélica da justiça, da solidariedade e do amor” (A Doutrina Social da Igreja na Formação Sacerdotal, 64).

45. Sempre em consonância com a missão que vocês já vêm exercendo, percebemos que, a convicção da evangélica opção preferencial pelos pobres, elemento constitutivo da espiritualidade do presbítero, está-se arrefecendo. Essa espiritualidade é vivida quando o presbítero, com profundo conhecimento da Doutrina Social da Igreja, se faz pessoalmente presente no mundo dos pobres, solidário nas situações de sofrimento e de conflito social, apoiando as pastorais sociais, iniciativas da nossa Igreja no empenho na promoção de políticas públicas em vista do bem comum, tais como o Mutirão de Superação da Miséria e da Fome e a defesa dos legítimos interesses dos povos indígenas e afro-descendentes, dentre outras.

46. Vemos crescer e devemos investir mais na presença de presbíteros nos mais variados meios de comunicação, com destaque ao televisivo. Campo novo e desafiador que está a exigir de nós maior conhecimento de seus segredos, de suas técnicas, de suas ambigüidades também, para que a mensagem do Evangelho em sua integridade possa atingir espaços sociais onde ainda ela não chega.

47. A profecia é uma forma especial de exercício dos ministérios da Palavra e da caridade, de validade permanente na missão da Igreja. Portanto, o profetismo continua a ser dimensão fundamental do ministério do presbítero, diante dos novos desafios da realidade. O presbítero, chamado a desenvolver esse dom, deve favorecê-lo também entre os fiéis, devido a maior fidelidade do povo à aliança com Deus.

48. Percebemos que a eficácia da atuação dos presbíteros no campo sócio-transformador é maior quando, ainda que seja fruto de um carisma pessoal, atuam em profunda comunhão com suas Igrejas Particulares. No espírito evangélico e do Vaticano II, não há mais espaço para os profetas que atuam isolados de seus presbitérios e agem à revelia deles. A realidade é muito complexa, por isso, em cada Igreja Particular, o Bispo com seu presbitério é convocado a conhecê-la de maneira mais profunda, nos seus diversos âmbitos: sócio- econômico, político, cultural, religioso e outros.

49. Olhando a vida de vocês, presbíteros, percebemos que permanece profundamente atual o alerta que o Concílio Vaticano II fez a toda a Igreja, quando afirmou ser um dos erros mais graves o divórcio entre a fé professada e a vida quotidiana (GS 43). Ficamos felizes quando entre vocês os presbíteros-profetas encontram acolhida e se sentem como membros de uma família, que comporta uma gama surpreendente de carismas.

50. Sabemos o quanto também os inquieta, caros presbíteros, a multiplicidade de “novas igrejas”, com expressões muito diversas, mas que têm em comum o proselitismo, fanatismo, fundamentalismo bíblico, falsas promessas de salvação e de curas miraculosas, imediatismo na solução dos problemas, ilusão de prosperidade econômica. Quanto nos entristece, questiona e desafia vermos pessoas, sobretudo pobres e simples, que, enganadas, deixam a nossa Igreja em busca dessas soluções ilusórias. Somos interpelados a um maior aprofundamento desse fenômeno e a uma revisão profunda de nosso trabalho pastoral, de nossas formas de acolhida, a fim de melhorar a qualidade de nossos meios e de nosso testemunho (cf. Santo Domingo, 147-151).

51. Importante ressaltar que o nosso engajamento na construção da sociedade justa e fraterna não tem outra motivação do que a de servir, na força do Espírito, como o Cristo-Servo, a todos, a começar dos menores dentre seus irmãos. Nessa perspectiva, entendemos o que Pe. Edson Damian nos dizia durante o nosso retiro espiritual: “no serviço aos pobres e nas atividades que abarcam a dimensão sócio-transformadora, o presbítero é um homem espiritual”. Nesse espírito, agradecemos ao Pai o testemunho dos presbíteros que derramaram seu sangue ou de outro modo entregaram suas vidas.

IV. O presbítero idoso e enfermo

Quando eras jovem, ias aonde querias (cf. Jo 21,18)

52. Enviamos também uma palavra com carinho especial aos nossos irmãos presbíteros idosos. Olhando para vocês, percebemos o quanto somos devedores do seu amor e dedicação à edificação do povo de Deus; vocês que, muitas vezes perplexos, participaram de inúmeras mudanças na sociedade e na Igreja.

53. Quando um seu irmão jovem assume seu lugar e reconhece que tudo o que foi aí feito tem o suor do seu rosto, tem a marca de sua dedicação, a Igreja vê com alegria a continuidade do processo evangelizador, ainda que com novos métodos, novas expressões, mas com o mesmo ardor de vocês.

54. Como os bispos, o presbítero, com a consciência da missão cumprida, alegremente, entregue sua paróquia ou qualquer outro serviço que exerça na diocese, ao atingir a idade dos setenta e cinco anos (cf. CDC 401, §1).

55. Vocês continuam na Igreja como os verdadeiros presbíteros – anciãos – que nos enriquecem com sua sabedoria, fruto de tantos anos de trabalho evangelizador.

56. Se, em algumas dioceses, a atenção que lhes é dispensada ainda não se transformou em medidas eficazes para lhes conceder um tratamento adequado, saibam, caros presbíteros, que temos consciência do seu valor e da urgência em reverter essa situação.

57. Durante toda essa Assembléia, estiveram também presentes em nosso coração de pastores, os queridos presbíteros enfermos, que, por meio de seu sofrimento, quando unidos ao sofrimento e à paixão de Cristo, têm-se tornado fonte de bênçãos para seus irmãos de presbitério, bem como para toda a Igreja Particular.

58. O testemunho de fidelidade ao ministério presbiteral, especialmente de tantos irmãos presbíteros idosos e enfermos é uma fonte extraordinária de maior dinamismo e ardor evangelizadores para a diocese e de estímulo para os mais novos, contribuindo também para eficaz promoção vocacional.

V. Conclusão

“Segue-me” (Jo 21,19)

59. Todo presbítero, por meio de sua ordenação, se identifica com o discípulo que recebeu de Jesus a incumbência de cuidar de sua Mãe – “Eis aí tua mãe” - e, ao mesmo tempo, sabe que ela o guarda e protege como filho – “Eis aí o teu filho”. É nesse duplo aspecto de carinho filial da parte do presbítero, por um lado, e da certeza de que é amado e amparado por Maria, a Mãe do Salvador, por outro, que todos os presbíteros exercem com confiança e humildade o seu ministério. Maria, a mãe de Jesus, o Bom Pastor, é, sem dúvida, presença indispensável na vida e no ministério dos presbíteros. Por isso, lhe pedimos:

60. Maria, Mãe de Deus e nossa, nos acompanhe com sua ternura e nos mostre sempre que o amor de Jesus Cristo e a Jesus Cristo é e precisa ser o fundamento de nossa vida e missão.

 

E, com ela, rezamos ao Pai: Senhor, nosso Pai, fazei crescer no coração de cada um de nós, o amor que faz o vosso Filho entregar sua vida pelos seus. Que o vosso Espírito fecunde a nossa vida e ministério, para que, bispos, presbíteros, diáconos, religiosas, religiosos, cristãos leigos e leigas, possamos responder como Pedro, do fundo do coração: “Tu sabes que te amamos”. Amém!

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

42ª Assembléia geral

Itaicí – Indaiatuba - SP - 21 a 30 de abril de 2004