O PERFIL DO PRESBÍTERO BRASILEIRO

INTRODUÇÃO

Para compreender uma realidade é preciso enquadrá-la em símbolos e esquemas. Tais cortes e prismas favorecem uma visão, uma leitura que deixam sempre escapar aspectos importantes da vida, pois ela é dinâmica e extrapola qualquer esquema.

Na tentativa de compreender melhor o presbítero na Igreja do Brasil, nestes últimos anos a Comissão nacional de presbíteros tem se valido de várias pesquisas e muitas análises por parte de estudiosos da questão. Não é fácil traçar um perfil que seja condizente com um número aproximado de dezoito mil presbíteros espalhados em todo o território nacional, formados em diversas mentalidades eclesiológicas, com critérios vários e para objetivos múltiplos. Que presbítero para que Igreja? Que eclesiologia está alicerçando os objetivos da formação presbiteral? Que critérios são usados na seleção dos candidatos? E muitas outras questões existenciais que precisam ser averiguadas para se ter com maior abrangência um perfil condizente com a realidade dos presbíteros do Brasil. Diante destes desafios e com toda a diversidade no jeito de a Igreja ser no Brasil, em meio a estas rápidas mudanças sócio-culturais, proponho um quadro de como se apresenta o presbítero hoje na Igreja do Brasil.

 ESPAÇO  HISTÓRICO

Para uma melhor compreensão do momento atual da vida e ministério do presbítero brasileiro, olhamos um pouco para trás, não muito atrás, somente o suficiente para que o foco não se disperse. Partimos do ano de 1985 e toda a movimentação em torno da realização do primeiro encontro nacional de presbíteros. A relação presbítero – bispo e vice-versa, estava marcada por intruncamentos. Havia a necessidade de um espaço para desabafos e construção do diálogo. Os primeiros encontros nacionais foram palco para esses acontecimentos. A Comissão nacional de presbíteros sustentou seus objetivos e com sabedoria garantiu a continuidade do processo. A experiência foi mestra na dinamização dos encontros e a co-responsabilidade dos presbíteros favoreceu essa integração.

Assim, as Igrejas particulares foram cada vez mais envolvidas, toda a revolta dos primeiros tempos foi se dissolvendo pela maturação adquirida no decorrer do processo. Hoje, quase todas as dioceses preparam em presbitério a participação de seu delegado ao encontro nacional.

A necessidade fez ver que outros passos precisariam ser dados para uma melhor efetivação dos objetivos. Na compreensão do presbitério, formado a partir do sacramento da Ordem, parecia faltar o diálogo interacional para se chegar à comunhão. A Comissão Nacional de Presbíteros propõe então a formalização da “Pastoral Presbiteral”. Com a elaboração de uma cartilha simples e objetiva, apresentou uma estruturação para essa pastoral. (1)

Daí nasceu um audacioso projeto que, em sua primeira fase, culminaria numa assembléia geral do episcopado, tratando da Vida e Ministério dos Presbíteros como tema central da assembléia. Para isso várias pesquisas foram elaboradas e executadas. A primeira tratou de um levantamento feito junto aos presidentes das comissões regionais de presbíteros para saber quais eram as reais necessidades do presbiterado nacional. A segunda, já com capacitação técnica e profissional, foi dirigida pelo Pe. Edênio Valle, com os delegados participantes do 9º encontro nacional: “Padre, Você é Feliz?” (2) Quis esta pesquisa medir o grau de realização do Presbítero no exercício de seu ministério. A terceira pesquisa, com um horizonte mais amplo foi encomendada ao CERIS (Centro de Estatística Religiosa e Investigação Social) com o objetivo de traçar um perfil do presbítero brasileiro. Esta pesquisa compreendeu todo o território nacional e, por amostragem, envolveu todos os presbíteros do Brasil. (3) Uma quarta pesquisa foi realizada junto aos bispos com o objetivo de saber como eles vêem os seus presbitérios, o que é dificuldade e o que lhes dá prazer! (4) Estas pesquisas mostraram dados objetivos e falaram também pelo que não ficou explícito, deixando claro a necessidade de manter constante atenção sobre a temática: a eclesiologia da Igreja particular; a compreensão do Sacramento da Ordem dentro do presbitério; o relacionamento bispo - presbítero, estes com o bispo e entre si, o presbítero com os leigos, sobretudo com aqueles que assumem ministérios; a vida humana e afetiva dos consagrados; o trato com os bens materiais na partilha e comunhão solidária; Espiritualidade e capacitação para ser resposta no diálogo com a cultura atual. Isto para dar continuidade ao processo e fazê-lo evoluir na direção de uma crescente comunhão.

A 42ª Assembléia Geral do episcopado nacional, realizada de 21 a 30 de abril 2004, tratou do assunto e dos trabalhos realizados elaborou uma síntese para estudos posteriores nos presbitérios particulares. (5) Esta síntese procura mostrar as dificuldades encontradas, apresenta uma iluminação teológica e propõe pistas de solução. É importante que cada presbitério retome este estudo e apresente seu parecer com emendas e sugestões visando, no futuro, um instrumento de orientação para a Vida e o Ministério dos Presbíteros em toda a Igreja no Brasil. Nesta Assembléia os bispos escreveram uma carta fraterna aos presbíteros, onde mostram suas preocupações como ministros da unidade no presbitério e estimulando os presbíteros para continuarem a Missão com entusiasmo e vigor profético. (6)

A expectativa pós-assembléia é de continuidade da reflexão para tratar com objetividade e clareza todos os aspectos que estejam dificultando a convivência no presbitério, visando assim constituir uma Igreja cada vez mais de comunhão e participação.

 OS FATOS

Partimos dos dados estatísticos que nos dizem que a Igreja do Brasil conta hoje com um presbiterado mais jovem, mais brasileiro e mais diocesano.

Segundo a pesquisa CERIS 2003, O Perfil do presbítero brasileiro, (7) entre 1960 e 2000, houve um crescimento de 21,5% de brasileiros no contingente de presbíteros na Igreja, sendo que dos presbíteros diocesanos, 92% são brasileiros; e entre os religiosos, 73%. Segundo Ruiz, (8) isto se deve ao trabalho das Igrejas locais no aumento de agentes institucionais próprios. Conforme este pesquisador, “há uma forte evolução no presbiterado brasileiro de se tornar crescentemente secular, predominantemente autóctone e tendencialmente mais jovem”.

Na análise do padre Alberto Antoniazzi, (9) este fato é notícia boa, preocupa, porém, a “qualidade” destes homens de Deus, cuja formação não corresponde às exigências da sociedade atual. Em comparação com um passado recente, se constata um empobrecimento da dimensão intelectual e no equilíbrio humano-afetivo. As motivações para assumir o ministério presbiteral carecem da mística do desapego e renúncia. Falta disponibilidade interna e liberdade para perseguir os objetivos propostos para o exercício deste ministério.

A complexidade da sociedade moderna na sua evolução cultural e os comportamentos humanos admitidos como naturais, são fatores que condicionam também a vida dos homens que se consagram no ministério presbiteral. O mundo globalizado, o neoliberalismo com as exigências do mercado, a inversão de valores que o poder econômico impõe como regra de vida, a comunicação nesta era da cibernética, a logística comercial, o desafio da sustentação do poder político gerando um comportamento social com menosprezo da ética e da justiça, favorece a corrupção e os mais variados desvios de conduta humana, desmerecendo o bem comum.

Desta sociedade sai o candidato ao presbiterado e será formado para transformar esta mesma sociedade. Como resultado constatamos um enfraquecimento da dimensão profética no ministério presbiteral e um fechamento à missionariedade.

Não contamos ainda no Brasil, com um estudo específico para caracterização dos modelos de presbíteros que servem à Igreja. Muitos estudiosos, pela observação, em análises generalizadas, arriscam uma caracterização tipológica do presbítero brasileiro. Isto, se não mostra o real com dados objetivos, está próximo. Pois há coincidências nestas análises.

O padre Alberto Antoniazzi, teólogo que a muito tempo se ocupa dos assuntos relacionados ao presbiterado brasileiro, conhecendo pesquisas elaboradas, sobretudo na Europa, apresenta o perfil do Presbítero Brasileiro em quatro modelos: (10) O padre pastor, o padre light, o padre midiático-carismático e o padre tradicional, este se inspirando num jeito de ser do padre de antes do Concilio Vaticano II. Em todos estes modelos, segundo Antoniazzi, há hoje uma tendência em buscar profissionalização, quer no campo pastoral ou de outras ciências. Esta é uma característica própria deste tempo, como também um crescimento no número de presbíteros com interesse em assumir a política partidária se candidatando a cargos eletivos.

A pesquisa realizada pelo padre Edênio Valle, Padre, você é feliz? (11) apontou quatro áreas de preocupação: espiritualidade, humano-afetiva, relacionamento e futuro. Focando estas quatro áreas sobre o presbiterado brasileiro, podemos ver suas inseguranças e medos; suas fragilidades e limitações.  Por estes quatro pontos podemos medir uma pessoa com fraca liderança e maior vulnerabilidade. Isto revela as direções dos futuros investimentos na formação, quer inicial, quer permanente.

A pastoral presbiteral tem procurado ser resposta a essas carências trabalhando organicamente as áreas vitais para uma boa integração do Presbítero em sua família presbiteral e sua realização pessoal: pela dimensão intelectual, se preocupa com sua constante atualização; com a dimensão espiritual, quer aguçar o presbítero para o seu específico campo de atuação sendo mestre em espiritualidade; na dimensão comunitária, romper com o isolamento e a solidão, criar laços de comunhão; com a dimensão pastoral, ajudá-lo a administrar sua diversidade de funções e organizar a agenda para não cair no ativismo; pela dimensão missionária, romper com os apegos, encontrar a liberdade que o torna disponível ao serviço em qualquer instância; o investimento na dimensão humano-afetiva quer ajudar o Presbítero a se reconhecer como pessoa, com os limites e carências com que sua história de vida o dotou e, desta forma, ser mais honesto em seu comportamento.

O resultado deste investimento parece utópico, porém é para onde nos aponta o Concílio Vaticano II, o papa João Paulo II na “Pastores dabo vobis” e em outros pronunciamentos, o documento 55 da CNBB e toda a articulação da Pastoral Presbiteral.

     MODELOS DE PRESBÍTERO

            Que tipo de presbíteros tem no Brasil hoje? As pesquisas atuais de que dispomos não nos fornece uma tipologia referente aos presbíteros hoje. Estudando o contexto das pesquisas e as análises apresentadas podemos classificar algumas tendências tipológicas. Segundo minha observação, podemos ver com clareza três modelos de presbíteros e o que chamo de modelo emergente.

 1. O padre pastor

 O zelo pastoral é logo percebido em qualquer conversa com presbíteros. É também o que a maioria do Episcopado constata. Nossos padres são zelosos no cuidado pastoral, muitos até caindo no ativismo pastoral, entrando em estresse por não resguardar tempo suficiente para o necessário recompor as energias vitais. A estrutura paroquial consome sua vida e seu tempo; o número reduzido de presbíteros obriga-o a atender múltiplas funções na paróquia e na diocese; o grande número de comunidades e as distâncias geográficas entre elas se constituem em verdadeiro desafio para uma presença eficaz do presbítero.

Mediante tudo isso como continuar a sua formação? Como investir na espiritualidade? Como se dedicar à comunhão fraterna com a família presbiteral? Como se atualizar com o ritmo evolutivo da sociedade?

Percebemos no “padre pastor” um modelo de dedicação e preocupação em ser resposta às exigências do povo, embora não sendo possível resolver a todas as questões a que é envolvido. Daí nascem conflitos e decepções. É um modelo apreciado pelo povo. É isto que o povo espera do padre e diante do “padre pastor”, cada fiel deposita sua esperança; por isso, quanto mais pastor, mais é procurado.

 2 – O padre tradicional

 Percebemos hoje, sobretudo a partir dos anos 90, uma tendência ao estruturalismo, conforme alguns autores, “uma volta à grande disciplina”. São padres piedosos e muito preocupados com orientação espiritual, a liturgia e comportamentos intra-eclesial. Ficam apegados a muitas normas e para tudo na comunidade tem uma norma. Ritualisticamente condicionam a comunidade a um modelo de vida normativa e sem muita criatividade. Tem a tendência em concentrar o poder e as decisões em suas mãos. Frequntemente fazem exigências quanto ao seu padrão de vida para garantir seu “status”. A moral ganha espaço para regular os comportamentos sociais. O pecado é trabalhado com a dinâmica do medo e as exigências do perfeccionismo. O inferno e o demônio estão presentes em todo discurso.

  Tal modelo de padre está mais presente nos centros das cidades e procuram centrar sua atenção na classe social com maior poder aquisitivo. Normalmente tiram tempo para o estudo, para o descanso e para o contato social que esta classe de pessoas requer. Passeios turísticos fazem parte de seu calendário anual. Ficam muito ausentes das áreas de conflito social como a periferia e fronteiras agrícolas, não se envolvem com política embora sejam “amigos” de políticos e participam de suas festas. Com freqüência buscam especialização em áreas da teologia.

   Este modelo parece ser uma reação ao modelo plasmado na América Latina pela teologia da libertação dos anos 60 e seguintes.

   Como promover a transformação social? Como implantar o Reino de Deus com justiça, direito e dignidade que toda pessoa requer? Como testemunhar a compaixão, se este jeito de viver exclui pela norma, sobretudo os mais necessitados de compreensão e acolhimento? Como resgatar os afastados?

   Na hora em que o povo mais precisa, esse modelo quase nunca está, sobrando para toda a Igreja às críticas e o descontentamento com o que se recebe de atenção.

 3 – O padre midiático-carismático

 Podemos chamá-lo de “modelo das massas”. Centra toda a sua atenção ministerial na mídia, parece ser o padre da mídia e não o padre na mídia. Não se importa muito com as normas eclesiais, pois precisa adaptar a sua mensagem à linguagem da mídia. Também não se preocupa com o que sua mensagem está provocando nas comunidades, pois sua consciência eclesial está sujeita à mídia.

   Pelo fato de estarem presentes em grandes movimentos de massa, corre o sério risco de se tornarem ídolos com todo o desgaste que esse comportamento social impõe. Isto tem influenciado a muitos jovens que buscam o seminário com motivações vocacionais incompatíveis com a fé e com as exigências do Ministério Presbiteral.

   Para esse modelo não há uma preocupação com a verdadeira comunicação ou comunicar as verdades fundamentais da fé, a libertação integral da pessoa segundo o jeito de Jesus, mas comunicar aquilo que vai agradar às massas para terem a audiência e se sustentarem na mídia. O que importa é a audiência, o “ibope”, o aplauso, etc. Estar na mídia é necessário, o problema é quando o presbítero se deixa instrumentalizar pela mídia e perde o eixo da evangelização.

   Como construir a comunidade? Como estar na mídia sem interferir nos outros jeitos de ser de cada região? Como respeitar a caminhada de cada Igreja particular e ao mesmo tempo usar da mídia para maior abrangência da mensagem? Como estar na comunhão?

   O ministério presbiteral carrega consigo as exigências da evangelização e conforme as Diretrizes da ação evangelizadora da Igreja no Brasil, aprovadas para o quadriênio 2003 a 2006, são: serviço, diálogo, anúncio e testemunho de comunhão. O presbítero midiático-carismático seria de valor extraordinário no conjunto da evangelização assumindo e praticando tais exigências.

 4. Modelo emergente

Chamo de modelo emergente, por não estar ainda bem definido em sua caracterização específica, pois, observando a evolução do presbiterado a partir de 1985 com a realização dos Encontros nacionais de presbíteros, podemos constatar o surgimento de um novo modelo de presbítero. Houve um crescendo na consciência de ser presbítero. Encontramos hoje muitos presbíteros que parecem fazer uma síntese entre estes modelos citados. Despontam com um jeito dialogal e em comunhão. Não são tanto reativos, mas críticos e proativos, ou seja, investindo sempre em alternativas, quer no campo pastoral, social, ou no relacionamento interpessoal, no presbitério, na comunidade e na sociedade. Este novo modelo, podemos dizer, nascido deste processo reflexivo instaurado com os encontros nacionais e hoje aprimorado com as conquistas da pastoral presbiteral, que em síntese, resume os objetivos maiores dos encontros nacionais. Este modelo apresenta como característica notável o interesse de participação e colaboração no diálogo tratando reflexivamente de todas as questões pertinentes ao momento presente. Percebe-se neste modelo, maior disponibilidade à missão e o enfrentamento de situações delicadas; presença certa nas áreas de conflitos sociais e nas fronteiras da evangelização. A identidade do ser presbítero não está tanto na estética, mas se pauta pela ética de um comportamento simples e sóbrio, mais desapegado e livre no trato com os bens materiais.

É um modelo que está no conflito geracional e mesmo pode ser chamado de “grupo da resistência” pois está sempre à disposição do serviço, mas tem um jeito próprio de ser, que muitas vezes não corresponde às exigências normativas. Por um lado é bem visto e querido, mas por outro, é muito questionado, sobretudo pela eclesialidade do momento que se volta com maior rigor à doutrina e costumes mais rígidos em aspectos morais.

  Encontramos este modelo quase sempre assumindo lideranças na Igreja, coordenando pastorais, articulando movimentos, estimulando a evangelização. São os incentivadores da pastoral presbiteral e grandes propagandistas dos valores da vida presbiteral. São os mais interessados em profissionalizações tanto no campo filosófico e teológico, como também em outras ciências, sobretudo ligadas a assistência humanitária, tais como psicologia, sociologia, direito, assistente social, comunicação, etc.

 PREOCUPAÇÕES COM O FUTURO – DESAFIOS?

Nestes últimos tempos, o processo formativo no seminário se deparou com situações novas. Devido aos custos da formação, algumas dioceses estão se valendo de seminários que apresentam custos mais baixo para a formação de seus seminaristas. Muitos observadores têm questionado a qualidade deste ensino. O vocacionado que já vem da sociedade com deficiência no conhecimento e sem uma capacitação crítica, não será capaz de fazer os discernimentos necessários a uma boa formação para o exercício do ministério presbiteral na conflitividade social em que será inserido. Percebemos que há uma tendência a supervalorizar a dimensão intelectual com uma espiritualidade desencarnada da realidade social. Há um favorecimento do aburguesamento, desenraizando o vocacionado de sua história existencial e abre espaço para o “carreirismo”.

Um outro fator semelhante são os seminários dirigidos por movimentos eclesiais que nem sempre respeitam as necessidades da Igreja particular em suas opções pastorais próprias. São formações que desconsideram os últimos documentos e orientações do conjunto do Episcopado e toda a preocupação da OSIB em garantir formação integral aos futuros presbíteros. Pecam por não compreender que o presbítero deve ser formado em presbitério e para o presbitério. Que perfil terá esse presbítero quando no exercício do ministério? Estará ele pronto para assumir situações de conflito? Estará ele preparado para dialogar com a cultura da modernidade neste mundo globalizado? Aceitará a vida em presbitério na convivência com o diferente? Será capaz de acolhimento, diálogo, respeito e compaixão sobretudo com os queridos de Deus, os pobres?

A unidade querida por Jesus para a vida dos seus seguidores será testemunhada com mentalidades tão unilaterais? Será ele capaz de respeitar os ministérios leigos e promovê-los em sua estância de responsabilidade? A experiência tem mostrado que não adianta ter presbíteros em quantidade se o presbitério não dá sinais de união e compromisso de comunhão.

Nos encontros nacionais tem ecoado um grande clamor pelo vigor profético. Os Presbíteros sentem que o profetismo parece estar em baixa. Seria por faltar provocação ou por faltar motivação? O profeta bíblico sempre tem motivos para anunciar e denunciar. A sociedade acena e os fatos comprovam: as dificuldades com as pastorais sociais, poucos bispos e presbíteros estão nelas empenhados; as periferias das cidades estão desprovidas da presença religiosa católica, até as congregações que fizeram opção um tempo pela vida inserida, estão hoje se retirando da periferia, buscando maior “segurança” contra a violência, voltando-se para o recolhimento na instituição.  Enquanto isso a sociedade grita: “um outro mundo é possível” nas edições do Fórum social mundial.

A missionariedade é outro aspecto preocupante. Até congregações com carisma missionário estão se concentrando nas regiões sul e sudeste do país onde a vida eclesial está mais desenvolvida. Os migrantes destas regiões que se deslocam para as fronteiras agrícolas não são acompanhados de presbíteros e religiosos para lhes assegurar, “em terras estrangeiras”, a continuidade da tradição religiosa professada em sua terra de origem. O que falta para se disporem à missão se o norte e o centro do Brasil clamam por missionários? O que falta para que o audacioso projeto “Igrejas Irmãs” se tornar efetivamente realidade? Como será a Igreja católica num próximo tempo vindouro, se esta opção formativa dos ministros ordenados perseverar e ganhar mais espaço? 

 CONSIDERAÇÕES  FINAIS

Este momento nos parece desafiante por conflitos internos: de um lado, sabemos o que deve ser feito, temos documentos e pronunciamentos que apontam numa direção saudável para o exercício do ministério presbiteral, o desejo sincero de muitos bispos e presbíteros alicerçam a reflexão na direção da comunhão e participação, Igreja Povo de Deus, ser resposta aos desafios da evolução cultural deste momento. No discurso, a linguagem é de libertação e comprometimento, trazem esperança de renovação. Em algumas Igrejas Particulares isto, de fato, acontece. Por outro lado, sentimos um marasmo crescente, uma conformação ao que está estabelecido e um enquadramento da vida pessoal e social dentro de normas e leis. Poderíamos chamar de “pastoral da continuidade”, fazer apenas o que está prescrito sem se dar conta das reais necessidades do povo e sem um projeto amplo para a Evangelização transformadora.

Concordamos que a estrutura paroquial é pesada e não corresponde aos tempos modernos. É preciso mudar e temos projetos concretos para a mudança: desconsiderar a paróquia territorial valorizando a dimensão afetiva do interesse particular (paróquia por afinidade: universitários, médicos, jovens, etc.); constituir a paróquia em rede de comunidades. Isto significa multiplicar as comunidades, multiplicar os ministérios leigos reconhecendo o protagonismo dos leigos e leigas, descentralizar a vida religiosa da matriz que passa a ser apenas uma comunidade como as outras.

A experiência tem mostrado que esta dinâmica favorece a evangelização nestes tempos modernos, tempo de globalização e da cibernética, o povo clama por acolhimento e tratamento personalizado, contato pessoal e respeito ao seu ser diferente.

Certamente as exigências sociais influirão no perfil do presbítero neste mundo globalizado. A expectativa é que esse quadro sombrio se reverta e o Presbítero seja de fato, o Homem do diálogo, o Homem da relação, o Homem da esperança, o Homem resposta segundo o jeito do Homem de Nazaré.

padre Pedro Felix Bassin

01. Cartilha da pastoral presbiteral, elaborada pela Comissão nacional de presbíteros e o então “Setor vocações e ministérios” da CNBB – CNP - 2001

02. Padre, você é Feliz? Uma sondagem psicossocial sobre a  realização pessoal do presbítero do Brasil – Pe. Edênio Valle (organizador) CNP – 2003 Ed. Loyola

03. Relatório final da pesquisa O Perfil do Presbítero Brasileiro CERIS -  CNP – 2003

04. Questionário apresentado durante a 41ª Assembléia Geral do Episcopado nacional. CNP - 2003

05. Vida e ministério dos presbíteros – Estudos da CNBB nº 88 Ed. Paulus

06. Carta aos presbíteros – Documentos da CNBB nº 75 Ed. Paulinas

07. Cf. nota 5

08. Ruiz, Evandro. Dinâmica populacional e Igreja Católica no Brasil: 1960 – 2000. Caderno CERIS, ano 2, nº 3. Rio de Janeiro: CERIS/Paulus - São Paulo - Loyola 2002

09. Texto apresentado no 7º ENP – CNP - 1998

10. Vida e ministério dos presbíteros nº 88 Ed. Paulus, SP  - 2004

11. Padre, você é feliz? Edênio Valle (org.) CNP Ed. Loyola, SP 2003