Presbyterorum ordinis

DECRETO “PRESBYTERORUM ORDINIS” SOBRE O MINISTÉRIO E A VIDA DOS PRESBÍTEROS

 

Paulo Bispo, Servo dos Servos de Deus, juntamente com os Padres Conciliares, para perpétua memória do acontecimento:  Decreto sobre a Atividade missionária da Igreja

PROÊMIO

1. A Ordem dos Presbíteros na Igreja por diversas vezes já viu evocada por este Sacrossanto Sínodo sua importância a lembrança de todos.¹ Como no entanto cabem a esta Ordem, na renovação da Igreja de Cristo, tarefas da maior responsabilidade e assim de crescentes dificuldades, pareceu-nos utilíssimo tratar mais ampla e profundamente dos Presbíteros. O que aqui se diz aplica-se a todos os Presbíteros, especialmente aos que prestam serviços na cura d’almas, ajustando aos Presbíteros religiosos o que a eles adequadamente convém. É sabido que os Presbíteros, pela sagrada Ordenação e missão que recebem dos Bispos, são promovidos para o serviço de Cristo Mestre, Sacerdote e Rei, cujo ministério participam. E é por este ministério que a Igreja aqui na terra não cessa de edificar-se num Povo de Deus, Corpo de Cristo e Templo do Espírito Santo. Por isso, com o intuito de sustentar-lhes com mais eficácia o ministério e de prover-lhes melhor a vida nos ambientes pastorais e humanos tantas vezes inteiramente mudados, este Sacrossanto Sínodo proclama e estabelece as seguintes normas.

¹ Conc. Vat. II, Const. sobre a Sagrada Liturgia. Sacrosanctum Concilium: AAS 56 (1964), p. 97 ss: Const. Dogm. Sobre a Igreja, Lumen Gentium: AAS 57 (1965), p. 5 ss; Decreto sobre o Múnus Pastoral dos Bispos na Igreja. Christus Dominus, 28-10-1965; Decreto sobre a Formação Sacerdotal, Optatam Totius, 28-10-1965.

CAPÍTULO I: O PRESBITERATO NA MISSÃO DA IGREJA

O presbiterato

2. O Senhor Jesus, “a Quem o Pai santificou e enviou ao mundo” (Jo 10,36), faz todo o Seu Corpo místico participar da unção do Espírito pela qual Ele foi ungido. ² Pois n’Ele os fiéis todos tornam-se um sacerdócio santo e régio, oferecem a Deus hóstias espirituais por Jesus Cristo, e anunciam as virtudes d’Aquele que das trevas os chamou para Sua luz admirável. ³ Não existe assim membro que não tenha parte na missão de todo o Corpo. Cada qual deve pelo contrário tratar santamente a Jesus em seu coração4, e num espírito de profecia dar testemunho sobre Jesus.5

² Cf. Mt 3,16; Lc 4,18; At 4,27; 10,38.

³ Cf. 1 Ped 2,5 e 9.

4 Cf. 1 ped 3,15.

5 Cf. Apoc. 19,10; Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja, Lumen Gentium, n. 35: AAS 57 (1965), pp. 40-41.

 

O mesmo Senhor porém instituiu alguns como ministros entre os fiéis, para que estes se unissem num só corpo, em que “todos os membros não desempenham a mesma atividade” (Rom 12,4). Tais ministros deviam assumir o poder sagrado da Ordem, na comunidade dos fiéis, para oferecerem o Sacrifício e perdoarem os pecados6, exercendo ainda publicamente o ofício sacerdotal em favor dos homens e em nome de Cristo. Por isso, tendo enviado os Apóstolos assim como Ele próprio fora enviado pelo Pai7, Cristo, através dos mesmos Apóstolos, tornou os sucessores deles, os Bispos, participantes de sua consagração e missão.8 O múnus do ministério deles foi por sua vez confiado em grau subordinado aos Presbíteros9, para que – constituídos na Ordem do presbiterato, com o fito de cumprirem a missão apostólica transmitida por Cristo – fossem os cooperadores da Ordem episcopal.10

6 Conc. Trid., Sess. XXIII, Cap. 1 e cân. 1: Denz. 957 e 961 (1764 e 1771).

7 Cf. Jo 20,21; Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja, Lumen Gentium, n. 18: AAS 57 (1965), pp. 21-22.

8 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja. Lumen Gentium, 21-11-1964, n. 28: AAS 57 (1965), pp. 33-36.

9 Cf. Ibid.

10 Cf. Pontifical Romano, De Ordinatione Presbyterorum, Prefação. Estas palavras já se encontram no Sacromentário Veronense: ed L. C. Mohlberg, Roma 1956, p. 122; também no Missal dos Francos: ed. L. C. Mohlberg, Roma 1957, p. 9; ainda no Livro dos Sacramentos da Igreja Romana: ed. L. C. Mohlberg, Roma 1960, p. 25; também no Pontifical Romano-Germânico: ed. Vogel-Elze, Cidade do Vaticano, 1963, vol. 1, p. 34.

 

O Ofício dos Presbíteros, por estar ligado a Ordem episcopal, participa da autoridade com que o próprio Cristo constrói, santifica e rege o Seu Corpo. Por isso o sacerdócio dos Presbíteros, supondo embora os sacramentos da iniciação cristã, é conferido por aquele Sacramento peculiar mediante o qual os Presbíteros, pela unção do Espírito Santo, são assinalados com um caráter especial e assim configurados com Cristo Sacerdote, de forma a poderem agir na pessoa de Cristo cabeça.¹¹

¹¹ Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja, Lumen Gentium, 21-11-1964, n. 10: AAS 57 (1965), pp. 14-15.

 

Uma vez que participam, no que lhes toca, do múnus dos Apóstolos, recebem os Presbíteros de Deus a graça de serem ministros de Cristo Jesus entre os povos, desempenhando o múnus sagrado de evangelizar, para que os povos se tornem oblação agradáveis, santificada no Espírito Santo.¹² Pois é pela mensagem apostólica do Evangelho que se conclama e congrega o Povo de Deus, de forma que todos os que fazem parte deste Povo, depois de santificados pelo Espírito Santo, se ofereçam a si mesmos como “hóstia viva, santa, agradável a Deus” (Rom 12,1). Pelo ministério dos Presbíteros o sacrifício espiritual dos fiéis por sua vez se consuma na união com o sacrifício de Cristo, único Mediador, sacrifício que, pelas mãos deles, em nome de toda a Igreja, é oferecido na Eucaristia de modo incruento e sacramental, enquanto se espera a vinda do próprio Senhor.¹³ É a isso que tende, é nisso que se consuma o ministério dos Presbíteros. Pois o serviço deles, que começa com a mensagem evangélica, tira do Sacrifício de Cristo sua força e virtude e converge em seu esforço a que “toda a cidade redimida, isto é, a sociedade e a assembléia dos santos, seja oferecida como sacrifício universal a Deus pelo Sumo Sacerdote, que também se ofereceu a Si Mesmo na Paixão por nós, para que fossemos o corpo de uma tão importante Cabeça”.14

¹² Cf. Rom 15,16 gr.

¹³ Cf. 1 Cpr 11,26.

14 S. Agostinho. De civitate Dei, 10, 6: PL 41, 284.

 

O fim que visam os Presbíteros, por seu ministério e vida, é ocupar-se da glória de Deus Pai em Cristo. Consiste esta glória em aceitarem os homens a obra de Deus, levada a perfeição por Cristo, de maneira consciente, livre e grata, levando-a a irradiar-se em toda a sua vida. Assim os Presbíteros, ao se dedicarem a oração e a adoração, ao pregarem a palavra, ao oferecerem o Sacrifício Eucarístico e administrarem os demais Sacramentos, ao exercerem os diversos ministérios em favor dos homens, contribuem de um lado para aumentar a glória de Deus e por outro para levar os homens a se adiantarem na vida divina. Todas essas realidades promanam da Páscoa de Cristo e hão de consumar-se no glorioso advento do mesmo Senhor, quando Ele entregar o Reino a Seu Deus e Pai.15

15 Cf. 1 Cor 15,24.

Os presbíteros no mundo

3. Os Presbíteros, assumidos dentre os homens e estabelecidos em favor dos homens em suas relações com Deus, para oferecerem dons e sacrifícios pelos pecados16, vivem com os demais homens como com irmãos. Foi desta forma também que o Senhor Jesus, Filho de Deus, enviado pelo Pai na qualidade de homem para os homens, habitou entre nós e quis por todas as coisas assemelhar-se aos irmãos, exceto no entanto o pecado.17 A Ele já imitaram os santos Apóstolos. Atesta por sua vez São Paulo, Doutor das gentes, “separado para o Evangelho de Deus” (Rom 1,1), que se fez tudo para todos a fim de a todos salvar.18 Os Presbíteros do Novo Testamento, por vocação e pela sua ordenação, de certo modo são segregados no seio do Povo de Deus, não porém para se separarem, seja do Povo seja de qualquer homem, mas para se consagrarem totalmente a obra para a qual o Senhor os assume.19 Não poderiam ser ministros de Cristo, se não fossem testemunhas e dispenseiros de outra vida que não a terrena, mas nem sequer poderiam servir aos homens, caso se mantivessem alheios a sua existência e condições de vida.20 Seu próprio ministério exige a um título especial que não se conformem com este século.²¹ Ao mesmo tempo, no entanto, requer que neste século vivam entre os homens e como bons pastores conheçam suas ovelhas e procurem trazer também aquelas que não são deste aprisco, para que escutem a voz de Cristo e haja um só rebanho e um só Pastor. ²² Para alcançar tal meta, muito contribuem as qualidades que gozam de merecida estima na convivência humana, como sejam, a bondade de coração, a sinceridade, a coragem e constância, o cultivo vigilante da justiça, a delicadeza e outras que o Apóstolo Paulo recomenda quando diz: “Tudo que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso , tudo que pode haver de bom na virtude e no louvor humanos, eis o que haveis de pensar” (Filip 4,8).²³

16 Cf. Heb 5,1.

17 Cf. Heb 2,17; 4,15.

18 Cf. 1 Cor 9,19-23 Vg.

19 Cf. At 13,2.

 

20 “Este afã de aperfeiçoamento espiritual e moral é também estimulado exteriormente pelas condições em que a Igreja vai vivendo. Não pode ficar imóvel e indiferente entre as mudanças do mundo que a cerca. Este, por mil caminhos, influencia e condiciona a atitude prática da Igreja. Como todos sabem, ela não esta separada do mundo; vive nele. Por isso, os membros da Igreja estão sujeitos a influência do mundo, de que respiram a cultura, aceitam as leis e absorvem os costumes. Este contacto permanente, que a Igreja tem com a sociedade temporal, impõe-lhe uma problemática continua, hoje dificílima. (...) Eis como S. Paulo educava os fiéis da primeira geração: “Não vos sujeiteis ao mesmo jugo com os infiéis: que união pode haver entre a justiça e a iniqüidade? Ou que sociedade entre a luz e as trevas? ... ou que parte comum entre o fiel e o infiel?” (2 Cor 6,14-15). A que pedagogia cristã deverá recordar sempre, ao discípulo dos nossos tempos, esta sua condição privilegiada e o conseqüente dever de estar no mundo sem ser do mundo, segundo a oração de Jesus pelos seus discípulos, acima recordada: “Não peço que os tires do mundo, mas que os preserves do mal; não são do mundo, como também Eu não sou do mundo” (Jo 17,15-16). É o voto que a Igreja faz seu. Mas distinção não é separação. Nem é indiferença, temor ou desprezo. Quando a Igreja afirma a sua distinção da humanidade, não se opõe, aproxima-se dela” (Paulo VI, Enc. Ecclesiam suam, de 6-8-1964: AAS 56 (1964), pp. 627 e 638.

²¹ Cf. Rom. 12,2.

²² Cf. Jo 10,14-16.

 

 

²³ Cf. S, Policarpo, Epist. Aos Filipenses, VI 1: “Os presbíteros, por sua vez, sejam propensos a compaixão, misericordiosos, para com todos, reconduzindo os que erram, visitando os enfermos todos, não deixando de lado a viúva, o órfão e o pobre. Sempre solícitos pelo bem diante de Deus e dos homens, guardando-se de toda ira, acepção de pessoas, juízo injusto, afastando-se para longe de toda avareza, não acreditando facilmente ao que dizem contras alguém, não se mostrando severos demais no julgamento, sabendo que somos todos devedores do pecado”; ed. F. X. Funk, Patres Apostolici, I, p. 303.

CAPÍTULO II: O MINISTÉRIO DOS PRESBÍTEROS

I. AS TAREFAS DOS PRESBÍTEROS

A Palavra

4. O povo de Deus congrega-se antes de mais nada pela palavra de Deus vivo,¹ palavra que se há de procurar com pleno direito nos lábios dos sacerdotes. ² Pois, como ninguém pode salvar-se caso não creia primeiro, ³ os Presbíteros, na qualidade de cooperadores dos Bispos, tem como primeira tarefa anunciar o Evangelho de Deus a todos,4 para constituírem e aumentarem o Povo de Deus, executando o mandato do Senhor: “Ide ao mundo todo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15).5 Pois é pela palavra da salvação que no coração dos infiéis se desperta e, no coração dos fiéis, se alimenta a fé; com ela se inicia e cresce a comunidade dos fiéis, segundo o dizer do Apóstolo: “A Fé nasce da pregação; e da pregação a Palavra de Cristo é instrumento” (Rom 10,17). Desta sorte os Presbíteros são devedores de todos, no sentido de terem que partilhar com todos a verdade do Evangelho, da qual desfrutam no Senhor.6 Quer levem os povos a glorificarem a Deus7 por uma conduta boa entre eles, quer anunciem o mistério de Cristo aos que não tem fé por uma pregação pública, quer transmitam a catequese cristã ou explanem a doutrina da Igreja, quer procurem tratar as questões de seu tempo sob a luz de Cristo, há de ser sempre dever deles não ensinar a sua sabedoria, mas o Verbo de Deus, e convidar a todos com insistência para a conversão e a santidade.8 A pregação sacerdotal – por vezes extremamente dificultada nas circunstâncias do mundo de hoje – para mover mais prontamente as mentes dos ouvintes, não há de expor apenas de modo geral e abstrato a palavra de Deus, mas deverá aplicar a verdade perene do Evangelho as circunstâncias concretas da vida.

¹ Cf. 1 Ped 1,23; At 6,7; 12-24. “Pregaram (os Apóstolos) a Palavra da verdade e geraram igrejas”: Santo Agostinho, In Ps., 44, 23; PL 36, 508.

² Cf. Mal 2,7; 1 Tim 4,11-13; 2 Tim 4,5; Tit 1,9.

³ Cf. Mc 16,16.

4 Cf. 2 Cor 11,7. A respeito dos Presbíteros, na qualidade de cooperadores dos Bispos, vale também o que se diz a respeito dos Bispos. Cf. Statuta Ecclesiae Antiqua, c. 3 (ed. Ch. Munier, Paris 1960, p. 79); Decretum Gratiani, C. 6, D. 88 (ed. Friedberg, I, 307); Conc. Trid. Decre. De reform., Sess. V c. 2 n. 9 (Conc. Oec. Decreta, ed Herder, Roma 1963, p. 645); Sess. XXIV, Decr. De reform., c. 4 (p. 739). Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja, Lumen Gentium, n. 25: AAS 57 (1965), pp. 29-31.

5 Cf. Constitutiones Apostolorum, II, 26, 7: “(Os Presbíteros) sejam doutores da ciência divina, pois o próprio Senhor no-lo deu como missão ao dizer: Euntes docete...”: ed. F. X. Fund, Dicascalia et Constitutiones Apostolorum, I, Paderborn 1905, p. 105. – Sacramentarium leonianum e os demais sacramentos até ao Pontificale Romanum apresentam a Prefação na Ordenação do Presbítero: “Por tal providência, Senhor. foi que ajuntaste aos apóstolos de teu filho os doutores da fé como companheiros, por quem eles encheram o orbe todo de pregadores (ou: pregações) bem sucedidos”. – Liber Ordinum Liturgiae Mozarabicae, Prefação para a ordenação de Presbíteros: “Como doutor dos povos e reitor dos que lhe são sujeitos, mantenha ordenadamente a fé católica, e a todos anuncie a verdadeira salvação”: ed. M. Férotin, Le Liber ordinum en usage dans l’Eglise Wisigothique et Mozarabe d’Espagne: Monumenta Ecclesiae Liturgica, vol. V, Paris 1904, col. 55, lin. 4-6.

6 Cf. Gál 2,5.

7 Cf. 1 Ped 1,12.

8 Cf. O Rito da Ordenação de Presbítero na Igreja Alexandrina dos Jacobitas; “... Reune o teu povo para a palavra da doutrina, como a mãe que acalenta os filhos”: H. Denzinger, Ritus Orientalium, Tom. 11, Qürzburg 1863, p. 14.

 

Assim é que existem muitas formas de exercer o ministério da palavra, segundo as necessidades diversas dos ouvintes e os carismas dos pregadores. Nas terras ou nos meios não-cristãos, os homens são levados a fé e aos Sacramentos da salvação pela mensagem Evangélica;9 na própria comunidade cristã, no entanto, sobretudo entre os que parecem entender ou crer pouco o que praticam, a pregação da palavra se faz necessária para o próprio ministério dos Sacramentos, uma vez que são Sacramentos da fé, e esta nasce e se alimenta da palavra.10 Isso vale antes de tudo para a Liturgia da palavra na celebração da Missa, na qual se unem inseparavelmente o anúncio da morte e da ressurreição do Senhor, a resposta do povo que escuta e a própria oblação, pela qual Cristo confirmou em Seu Sangue a Nova Aliança, oblação de que participam os fiéis tanto pelo desejo como pela recepção do Sacramento.¹¹

9 Cf. Mt 28,19; Mc 16,16; Tertuliano, De baptismo, 14, 2: Corpus Christianorum, Series latina, I. p. 289, 11-13: S. Atanásio, Adv Arianos, 2, 42: PG 26, 237A-B; S. Jerônimo, In Mt., 28, 19; PL 26, 226D:

“Primeiro ensinam a todos os povos, depois imergem na água os que ensinaram. Não pode ser que o corpo receba o sacramento do batismo sem que antes a alma tenha recebido a verdade da fé”; S. Tomás, Exposito primae Decretalis, § 1: “Nosso Salvador, ao enviar os discípulos a pregar, lhes impôs três coisas. Primeiro, que ensinassem a fé; segundo, que impregnassem com os sacramentos aqueles que acreditavam”: ed. Marietti, Opuscula Theologica, Turim-Roma 1954, 1138.

10 Cf. Conc. Vat. II, Const. sobre a Sagrada Liturgia, Sacrosanctum Concilium, 4 de dez. 1963, n. 35, 2; AAS 56 (1964), p. 109.

¹¹ Cf. Ibid., nn. 33, 35, 48, 52, pp. 108-109, 113, 114.

Os sacramentos e a Eucaristia em particular

5. Deus, Santo e Santificador único, quis assumir homens como sócios e auxiliares Seus, para servirem humildemente a obra de santificação. Por isso é que os Presbíteros são consagrados por Deus, pelo ministério do Bispo, feitos de modo especial participantes do Sacerdócio de Cristo, para, nas celebrações sagradas, agirem como ministros d’Ele, que na Liturgia exerce o Seu múnus sacerdotal continuamente em nosso favor pelo Seu Espírito.¹² Pois é pelo Batismo que introduzem os homens no Povo de Deus; pelo Sacramento da Penitência reconciliam os pecadores com Deus e a Igreja; pela unção dos enfermos aliviam os doentes; pela celebração sobretudo da Missa oferecem sacramentalmente o Sacrifício de Cristo. Toda vez porém que celebram um desses Sacramentos, como já atestou nos primeiros tempos da Igreja S. Inácio Mártir,¹³ os Presbíteros se vinculam de diversos modos hierarquicamente ao Bispo, e assim, de certa forma, o tornam presente em cada reunião dos fiéis.14

12 Cf. Ibid., n. 7, pp. 100-101; Pio XII, Enc. Mystici Corporis, 29-6-1943: AAS 35 (1943), p. 230.
¹³ S. Inácio M., Smyrn., 8, 1-2: ed. F. X. Funk, p. 940; Constitutiones Apostolorum, VIII, 12, 3: ed. F. X. Funk, p. 496; VIII, 29, 2, ibid. p. 532.

14 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja, Lumen Gentium, n. 28; AAS 57 (1965), pp. 33-36.

 

Os demais Sacramentos, como aliás todos os ministérios eclesiásticos e tarefas apostólicas, se ligam a Sagrada Eucaristia e a ela se ordenam.15 Pois a Santíssima Eucaristia contem todo o bem espiritual da Igreja,16 a saber, o próprio Cristo, nossa Páscoa e pão vivo, dando vida aos homens, através de Sua Carne vivificada e vivificante pelo Espírito Santo. Desta forma são os homens convidados e levados a oferecerem a si próprios, seus trabalhos e todas as coisas criadas, junto com Ele. Assim a Eucaristia se apresenta como fonte e ápice de toda evangelização, pois já os catecúmenos são introduzidos pouco a pouco a participar da Eucaristia, e os fiéis, uma vez assinalados pelo santo batismo e confirmação, acabam por inserir-se plenamente pela recepção da Eucaristia no Corpo de Cristo.

15 “A Eucaristia é de fato como que a consumação espiritual da vida e o fim de todos os sacramentos”: S. Tomás , Summa Theol. III, q. 73, a. 3 cf; Summa Theol, III, q. 65, a. 3.

16 Cf. S. Tomás, Summa Theol., III, q. 65, a. 3, ad 1; q. 79 a. 1, c, e ad 1.

 

É pois a Assembléia Eucarística o centro desta comunidade de fiéis presidida pelo Presbítero. Por isso, ensinam os Presbíteros os fiéis a oferecer a divina vítima no Sacrifício da Missa a Deus Pai e a fazer com ela o oferecimento de sua vida. No espírito de Cristo Pastor, instruem-se a submeter seus pecados com coração contrito a Igreja no Sacramento da Penitência, de forma que sempre mais se convertam ao Senhor, lembrados da palavra d’Ele: “Fazei penitência, pois o Reino dos céus está bem próximo” (Mt 4,17). Ensinam-nos da mesma forma a participar das celebrações da Sagrada Liturgia, de tal sorte que também nelas cheguem a uma oração sincera. Levam-nos carinhosamente a praticar de forma sempre mais perfeita, ao longo da vida toda, o espírito de oração, segundo as graças e as necessidades de cada qual. Incentivam ainda a todos a cumprirem os deveres do próprio estado, enquanto atraem os mais adiantados a praticarem os conselhos evangélicos de modo adequado a cada qual. Ensinam, portanto, os fiéis a celebrar o Senhor de todo o coração, por hinos e cantos espirituais, em todo tempo e a propósito de tudo, rendendo graças a Deus Pai, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.17

17 Cf. Ef 5,19-20.

 

Os louvores e as ações de graças que elevam na celebração da Eucaristia, os mesmos Presbíteros os ampliam nas diversas horas do dia, ao persolverem o Divino Ofício, pelo qual suplicam a Deus em nome da Igreja, em favor de todo o povo a si confiado e até pelo mundo inteiro.

A casa da oração – na qual se celebra e guarda a SS. Eucaristia, onde ainda se congregam os cristãos e é venerada, para auxílio e consolação dos fiéis, a presença do Filho de Deus nosso Salvador, oferecido por nós na ara sacrificial – deve mostrar-se luzente e apta para a oração e as celebrações religiosas.18 Nela, Pastores e fiéis são convidados a corresponder com gratidão ao donativo d’Aquele que pela Sua Humanidade infunde continuamente vida divina nos membros de Seu Corpo.19 Esforcem-se os Presbíteros por cultivar retamente a ciência e arte litúrgica, para que, por seu ministério litúrgico, Deus, Pai e Filho e Espírito Santo seja louvado com sempre maior perfeição, pelas comunidades cristãs a eles confiadas.

18 Cf. S. Jerônimo, Epist. 114, 2: “... os santos cálices e as santas alfaias e o mais que pertence ao culto da paixão do Senhor... pela participação no corpo e sangue do Senhor são venerados com a mesma majestade que o Seu corpo e sangue”: PL 22, 934. Vid. Conc. Vat. II, Const. sobre a Sagrada Liturgia, Sacrosanctum Concilium, nn. 122-127: AAS 56 (1964), pp. 130-132.

19 “Não omitam de fazer além disso de quando em quando a visita ao Santíssimo Sacramento, que deve ser guardado em lugar muito distinto e da maneira mais honrosa, nas Igrejas, segundo as leis litúrgicas. Esta visita é como que uma prova Gentium, 21-11-1964, n. 28: AAS 57 (1965), pp. 33-36, de gratidão, penhor de amor e dever da necessária adoração, Enc. Mysterium Fidei, 3-9-1965: AAS 57 (1965), p. 771.

Governo do Povo de Deus

6. Exercendo o múnus de Cristo Cabeça e Pastor na parte de autoridade que lhes toca, os Presbíteros reúnem, em nome do Bispo, a família de Deus, como fraternidade animada por um só objetivo, e levam-na por Cristo no Espírito a Deus Pai.20 Para exercer tal ministério, como também os demais ofícios de Presbítero, é conferido um poder espiritual, dado evidentemente para edificação.²¹ Ao edificarem a Igreja, os Presbíteros hão de conduzir-se com todos na mais nobre humanidade, a exemplo do Senhor. Hão de tratá-los não segundo o agrado dos homens, ²² mas segundo as exigências da doutrina e vida cristã, ensinando-os e admoestando-os como a filhos os mais caros, ²³ segundo as palavras do Apóstolo: “Insiste de forma oportuna e importuna, refuta, ameaça, exorta com paciência inesgotável e preocupação de instruir” (2 Tim 4,2).24

20 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja, Lumen para com Cristo Senhor presente no Sacramento”: Paulo VI.

²¹ Cf. 2 Cor 10,8; 13,10.

²² Cf. Gál 1,10.

²³ Cf. 1 Cor 4,14.

24 Cf. Didascalia, II, 34, 3: II, 46,6; II, 47, 1: Constitutiones Apostolorum, II, 47, 1 ed. F. X. Funk, Didascalia et Constitutiones, I, pp. 116, 142 e 143.

 

Por isso compete aos sacerdotes, enquanto educadores na fé, cuidar, por si ou por outrem, que todos os fiéis cheguem no Espírito Santo a cultivar a vocação pessoal segundo o Evangelho, uma caridade sincera e operosa e a liberdade, pela qual Cristo nos libertou.

25 Pouco aproveitarão as cerimônias ainda que belas, as associações mesmo florescentes, se não se orientarem a educar os homens a maturidade cristã.26 Para promoverem tal maturidade, hão de auxiliá-los os Presbíteros, capacitando-os a descobrir, nos acontecimentos de maior ou menor monta, o que exigem os fatos, qual a vontade de Deus. Sejam ainda os cristãos treinados a não viverem só para si, mas, segundo as exigências da nova lei da caridade, a porem uns a serviço dos outros a graça recebida,27 e, desta forma, realizarem todos, de maneira cristã, suas tarefas na comunidade humana.

25 Cf. Gál. 4,3: 5,1 e 13.

26 Cf. S. Jerônimo, Epist., 58, 7: “Que utilidade há em brilharem as paredes de pedras preciosas e morrer Cristo presente no pobre”: PL 22, 584.

27 Cf. 1 Ped. 4,10 ss.

 

Embora sejam devedores a todos, os Presbíteros todavia aceitam como confiados a si de modo particular os pobres e mais humildes, aos quais o próprio Senhor se associou28 e cuja evangelização é dada como sinal da obra messiânica.29 Com desvelo igualmente peculiar hão de ocupar-se dos mais jovens e além disso dos esposos e pais, que deveriam reunir-se em grupos de amizade, para se auxiliarem mutuamente e agirem com mais facilidade e profundeza como cristãos nesta vida tantas vezes penosa. Recordem-se os Presbíteros de que os religiosos e religiosas, parte distinta que são na casa do Senhor, merecem todo desvelo para seu progresso espiritual em benefício de toda a Igreja. Mostrem enfim a maior solicitude para com os doentes e agonizantes, visitando-os e confortando-os no Senhor.30

28 Cf. Mt 25,34-45.

29 Cf. Lc 4,18.

30 Outras categorias ainda podem ser arroladas, por ex., os imigrantes, os nômades, etc. Deles se fala no decreto Christus Dominus, de pastorali Episcoporum munere in Ecclesia, 28-10-1965.

 

O múnus de Pastor não se reduz porém ao cuidado individual dos fiéis, mas abarca, como tarefa própria, a formação de uma autêntica comunidade cristã. Para desenvolver porém devidamente o espírito de comunidade, há de ele atingir não só a Igreja local, mas também toda a Igreja universal. Assim, a comunidade local não primará apenas pela dedicação aos próprios fiéis, mas, imbuída de espírito missionário, há de preparar para todos os homens o caminho em direção a Cristo. De forma especial, recomendam-se-lhe todavia os catecúmenos e neófitos, que precisam ser educados, passo a passo, para a descoberta e a prática da vida cristã.

Não se edifica no entanto nenhuma comunidade cristã, se ela não tiver por raiz e centro a celebração da Santíssima Eucaristia: por ela, há de iniciar-se por isso toda educação do espírito comunitário.³¹ Para esta celebração no entanto realizar-se de maneira sincera e plena, deve constituir-se da mesma forma em canal para as múltiplas obras de caridade e auxílio mútuo, para a ação missionária, como ainda para as várias formas de testemunho cristão.

³¹ Cf. Didascalia, II, 59, 1-3: “Ensinando, impõe e exorta o povo a freqüentar a Igreja e aí não falar de modo nenhum, mas a reunir-se sempre e a não diminuir a Igreja, subtraindo-se e fazendo com que o corpo de Cristo tenha membro a menos... Já que sois membros de Cristo, não queirais dispersar-vos da Igreja por não vos reunirdes; tendo a Cristo como cabeça, segundo a promessa d’Ele sempre presente e em comunicação convosco, não vos descuideis de vos mesmos, nem afasteis o salvador de seus membros, dividindo e dispensando seu corpo...”: ed. F. X. Funk, I, p. 170; Paulo VI, Alocução aos que do clero italiano estiveram presentes ao Encontro XIII que se realizou por uma semana em Orvieto, tratando do “aggiornamento pastorale”, 6 de set. 1963: AAS 55 (1963), pp. 750 ss.

É aliás pela caridade, oração, exemplo e obras de penitência, que a comunidade eclesial desempenha verdadeira função de mãe para com as almas que devem ser levadas a Cristo. Pois a comunidade se transforma em instrumento eficaz, a indicar e a abrir o caminho para Cristo e Sua Igreja aos olhos dos que ainda não crêem. Por ela também se despertam, nutrem e robustecem os fiéis para a luta espiritual.

Na construção da comunidade cristã, os Presbíteros não estão jamais a serviço de alguma ideologia ou facção humana, mas, como Arautos do Evangelho e Pastores da Igreja, se desdobram por conseguir o crescimento espiritual do Corpo de Cristo.

II. RELAÇÕES DOS PRESBÍTEROS

Bispos e sacerdotes e suas relações com os demais homens

7. Os Presbíteros todos, junto com os Bispos, participam de tal sorte de um e mesmo sacerdócio e ministério de Cristo, que essa unidade de consagração e missão chega a postular a comunhão hierárquica deles com a Ordem dos Bispos ³², comunhão essa que se patenteia da melhor maneira nos casos de concelebração litúrgica. Unidos aos Bispos é que prometem celebrar a Assembléia Eucarística.

³³ Por causa do dom do Espírito Santo, que foi dado aos Presbíteros na sagrada Ordenação, são eles os auxiliares e conselheiros necessários dos Bispos no ministério e no múnus de ensinar, santificar e apascentar o povo de Deus.34 É o que proclamam com insistência, desde os tempos remotos da Igreja, os documentos litúrgicos, enquanto imploram solenemente de Deus, por sobre o Presbítero que se ordena, a infusão “do espírito da graça e do conselho, para que ajude e governe o povo num coração puro”,35 assim como no deserto o espírito de Moisés se comunicou aos setenta homens prudentes,36 “a fim de que, por eles auxiliado, pudesse governar com facilidade as inúmeras multidões do povo”.37 Por causa desta comunhão no mesmo sacerdócio e ministério, os Bispos tenham os Presbíteros em conta de irmãos e amigos38 e, na medida de suas forças, tomem a peito o bem deles, tanto o material, quanto sobretudo o espiritual. Pois é em primeiro lugar sobre eles que recai o grave dever de santidade de seus sacerdotes39: consagrem pois o maior cuidado ao aprimoramento contínuo de seu Presbítero.40 Saibam escutá-los, consultá-los mesmo, e com eles se entreter sobre as necessidades da ação pastoral e o bem da diocese. Para que isso de fato seja levado a prática, forme-se – num modo adaptado as circunstâncias e necessidades hodiernas,41 na forma e por normas a serem traçadas pelo direito – um grupo ou senado42 de sacerdotes, que representem o Presbitério e possam auxiliar eficazmente com seus conselhos o Bispo no governo da diocese.

³² Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja Lumen Gentium, n. 28: AAS 57 (1965), p. 35.

³³ Cf. a assim chamada Constitutio Ecclesiastica Apostolorum, XVIII: os Presbíteros são sýmmystai e synepímachoi dos Bispos: ed. Th Schermann, De aligemeine Kirchenordnung, I, Paderbo n. 1914, p. 26; A. Harnack, Die Quellen der sog. Apostolischen Kirchenordnung, T. u. U., II, 4, p. 13, n. 18 e 19; Pseudo-Jerônimo, De Septem Ordinibus Ecclesiae: “...na bênção são consortes com os bispos nos mistérios”: ed. A. W. Karlff, Würzburg 1937, p. 45; Santo Isidoro da Espanha, De Ecclesiasticis Officiis, II, c. VII: “Pois Eles presidem a Igreja de Cristo e na confecção do Corpo e Sangue são consortes com os bispos, de forma semelhante também na doutrinação dos povos e no ofício da pregação”: PL 83, 787.

34 Cf. Didascalia, II, 28, 4: ed. F. X. Funk, p. 108; Constitutiones Apostolorum, II, 28, 4; 11, 34, 3: ibid., pp. 109 e 117.

35 Const. Apost., VIII 16, 4: ed F. X. Funk, 1, p. 523, cf. Epitome Const. Apost., VI: ibid., II, p. 80, 3-4; Testamentum Domini: “dá-lhe o Espírito da graça do conselho, da grandeza de alma, o espírito do presbiterato... para ajudar e governar o teu povo na ação, no temor, no coração puro”: trad. I. E. Rahmani, Mogúncia 1899, p. 69. O mesmo na Trad. Apost.: ed. B. Botte, La Tradition Apostolique de Saint Hippolyte, Münster i. W. 1963, p. 20.

36 Cf. Nm 11,16-25.

37 Pontifical Romano, De ordinatione Presbyterorum, prefação; as palavras já se encontram no Sacramentarium Leonianun, Sacramentarium Gelasianum e Sacramentarium Gregorianum. Expressões semelhantes encontram-se nas Liturgias Orientais; cf. Trad. Apost.: “... olha para este Teu servo e concede-lhe o espírito da graça e do conselho, para que auxilie os presbíteros e governe o Teu povo de coração puro, assim como olhaste para o povo de Tua eleição e mandaste a Moisés que escolhesse presbíteros a quem encheste com Teu espírito que deste a teu servo”: de uma antiga trad. Veronense, ed. B. Botte, La Tradition Apostolique de S. Hippolyte. Essai de reconstruction, Münster i. W. 1963, p. 20; Const. Apost. VIII, 16, 4: ed. F. X. Funk, I, p. 522, 16-17; Epist. Const. Apost. 6: ed. F. X. Funk, II, p. 80, 5-7; Testamentum Domini: trad. I. E. Rahmani. Mogúncia 1899, p. 69; Euchologium Serapionis, XXVII: ed. F. X. Funk, Didascalia et Constitutiones, II, p. 190, linha 1-7; Ritus Ordinationis in ritu Maronitarum; trad H. Denzinger, Ritus Orientalium, II, Würzburg 1863, p. 161. Entre os Padres podem ser citados: Teodoro de Mopsuéstia, In 1 Tim. 3,8: ed. Swete, II, pp. 119-121; Teodoreto, Quaestiones in Numeros, XVIII: PG 80, 369C-372B.

38 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja, Lumen Gentium, n. 28: AAS 57 (1965), p. 35;

39 Cf. João XXIII, Enc Sacerdotti Nostri primordia, 1º de agosto de 1959: AAS 51 (1959), p. 576; S. Pio X, Exortação ao clero Haerent animo, 4-8-1908: S. Pii X Acta, vol. IV (1908), pp. 237 ss.

40 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Christus Dominus, sobre o múnus pastoral dos Bispos na Igreja, 28-10-1965, nn. 15 e 16.

41 No direito existente temos o Cabido da Catedral, como “senado e conselho” do Bispo (C.I.C., c. 391), ou, na falta dele, a assembléia dos consultores diocesanos (cf. C.I.C., cc. 423-428). Deseja-se porém que tais instituições sejam de tal forma atualizadas que correspondam melhor as condições e necessidades de hoje. Como é evidente, tal Conselho de Presbíteros é outro que o Conselho Pastoral de que fala o Decreto Christus Dominis, sobre o múnus pastoral dos Bispos na Igreja, 28-10-1965, n. 27, de que fazem parte também leigos e a quem incumbe apenas promover os levantamentos para as obras pastorais. Sobre Presbíteros, como conselheiros dos Bispos, pode consultar-se Didascalia, II, 28, 4: ed. F. X. Funk, 1, p. 108; ainda Const. Apost., II, 28, 4: ed. F. X. Funk, 1, p. 109; S. Inácio Mártir, Magn., 6, 1: ed. F. X. Funk, p. 234, 10-16; Trall., 3, 1: ed. F. X. Funk, p. 244, 10-12, Origenes, Contra Celsum, 3, 30: Os Presbíteros são conselheiros ou Boúteytai: PG 11, 957D-960A.

42 S. Inácio M., Magn., 6, 1: “Exorto-vos a que vos esforceis por realizar tudo na concordia de Deus, presidindo o Bispo em lugar de Deus e os presbíteros em lugar do senado apostólico e os diáconos para mim amabilíssimos, a quem vem confiado o ministério de Jesus Cristo, que antes dos séculos estava com o Pai e no final apareceu”: ed. F. X. Funk, p. 234, 10-13: S. Inácio M., Trail., 3, 1: “Todos da mesma forma venerem os diáconos como a Jesus Cristo. Venerem assim também ao Bispo, que é o tipo do Pai; aos Presbíteros porém como ao senado de Deus e concílio dos apóstolos: sem estes não há o que se chama Igreja”: ibid., p. 244, 10-12; S. Jerônimo. In Isaiam, II. 3: PL 24, 61D: “Também nós temos na Igreja o nosso Senado, a assembléia dos Presbíteros”.

 

Os Presbíteros por sua vez tendo diante dos olhos a plenitude do Sacramento do que desfrutam os Bispos, respeitem neles a autoridade de Cristo, supremo Pastor. Unam-se pois a seu Bispo por uma caridade sincera e pela obediência.43 Esta obediência sacerdotal, repassada de espírito de cooperação, se baseia na própria participação do ministério episcopal, que é conferido aos Presbíteros através do Sacramento da Ordem e da missão canônica.44

43 Cf. Paulo VI, Alocução aos membros da cúria e aos pregadores da quaresma na Cidade Eterna, proferida na Capela Sixtina, 1-3-1965: AAS 57 (1965), p. 326.

44 Cf. Const. Apost.. VII, 47, 39: “Os Presbíteros... sem o consentimento do Bispo nada façam; é a ele que foi confiado o povo do Senhor e dele há de pedir-se conta pelas almas deles”: ed. F. X. Funk, p. 577.

 

Requer-se tanto mais em nossos dias a união dos Presbíteros com os Bispos, porquanto nesse nosso tempo, por motivos diversos, as iniciativas apostólicas não só terão que revestir formas múltiplas, mas deverão ainda ultrapassar os limites de uma só paróquia e diocese. Nenhum Presbítero pode por isso, isolada e como que individualmente, cumprir de maneira satisfatória a sua missão, mas há de unir suas forças as de outros Presbíteros, sob a direção dos chefes da Igreja.

Fraternidade entre presbíteros

8. Os Presbíteros, estabelecidos na Ordem do presbiterato através da Ordenação, estão ligados entre si por uma íntima fraternidade sacramental; de modo especial, porém, formam um só Presbitério na diocese para cujo serviço estão escalados sob a direção do Bispo próprio. Pois, embora se destinem a tarefas diversas, desempenham no entanto um único ministério sacerdotal em favor dos homens. Todos os Presbíteros são enviados a cooperar na mesma obra, exerçam eles um ministério paroquial ou supraparoquial, contribuam eles para investigar ou para transmitir a ciência, dediquem-se eles até a trabalhos manuais, participando da sorte dos próprios operários – onde isso parecer vantajoso, com a aprovação da competente Autoridade, é claro – cumpram eles afinal outras atividades apostólicas ou preparatórias para o apostolado. Para uma coisa de fato conspiram todos, a saber, para a edificação do Corpo de Cristo, edificação que, sobretudo em nossos dias, exige múltiplas funções como também novas adaptações. Por este motivo é de grande importância que todos os Presbíteros, tanto diocesanos quanto religiosos, se ajudem uns aos outros, para serem cooperadores da verdade.45 Com os demais membros deste Presbitério, cada qual esta unido por laços especiais de caridade apostólica, de ministério e fraternidade: é o que já desde tempos antigos se exprime liturgicamente na hora em que os Presbíteros presentes são convidados a impor as mãos sobre o novo eleito, junto com o Bispo que ordena, e quando em coração unânime concelebram a Sagrada Eucaristia. Cada um dos Presbíteros se une pois a seus confrades pelo vínculo da caridade, oração e onímoda cooperação. Assim é que se manifesta aquela união, pela qual Cristo quis que os seus se consumassem na unidade, a fim de que o mundo conhecesse que o Filho fora enviado pelo Pai.46

45 Cf. 3 Jo 8.

46 Cf. Jo 17, 23.

 

Isso há de animar os de idade mais avançada a acolher os mais jovens como irmãos e a ajudá-los nas primeiras iniciativas e encargos do ministério, fazendo tudo por também compreender-lhes a mentalidade – embora diversa da sua – além de apoiar com benevolência suas iniciativas. Os jovens da mesma forma saberão respeitar a idade e experiência dos mais velhos e com eles dialogar sobre assuntos pastorais e compartilhar com gosto seu trabalho.

Levados pelo espírito fraterno, não esqueçam os Presbíteros a hospitalidade,47 pratiquem a beneficência e a comunhão de bens,48 solícitos sobretudo com os doentes, aflitos, sobrecarregados de trabalhos, solitários, exilados da pátria, como igualmente com os que sofrem perseguição.49 Também para uma folga reunam-se com gosto e prazer, lembrados da palavras com que o próprio Senhor convidava os Apóstolos cansados: Vinde a parte para um lugar deserto e descansai um pouco” (Mc 6,31). Além disso, para os Presbíteros encontrarem mútuo auxílio no cultivo da vida espiritual e intelectual, para melhorarem a cooperação no ministério, para se livrarem dos perigos de solidão que acaso surgirem, incentive-se entre eles alguma vida comunitária e alguma sociedade de vida, que no entanto pode revestir-se de muitas formas, segundo as necessidades diversas, pessoais e pastorais, como sejam a coabitação, onde possível, ou a mesa comum, ou ao menos reuniões freqüentes e periódicas. Merecem alta estima e diligente promoção as associações que, com estatutos reconhecidos pela autoridade competente, por um plano acertado e convenientemente experimentado de vida, numa assistência fraterna, estimulam a santidade dos sacerdotes dentro do exercício do ministério, num esforço de assim servir a toda a Ordem ds Presbíteros.

47 Cf. Heb 13,1-2.

48 Cf. Heb 13,16.

49 Cf. Mt 5,10.

 

Afinal, por motivo da mesma comunhão no sacerdócio, saibam-se os Presbíteros especialmente obrigados para com os que se encontram em alguma dificuldade. Em tempo lhes prestem apoio, mesmo se for o caso de admoestá-los discretamente. Aos que porém se transviaram em algum ponto, acompanhem-nos sempre com fraterna caridade e alma grande, multipliquem em favor deles ardentes súplicas a Deus e se lhes revelem continuamente como sendo de fato irmãos e amigos.

Presbíteros e leigos

9. Os sacerdotes do Novo Testamento – embora exerçam, em razão do sacramento da Ordem, a tarefa mais elevada e indispensável de pais e mestre no seio do Povo e em favor do Povo de Deus – juntamente com todos os fiéis cristãos, são discípulos do Senhor, feitos participantes do Reino d’Ele pela graça de Deus que os chamou.50 Na companhia de todos os que se regeneraram na fonte do batismo, os Presbíteros são irmãos entre irmãos,51 como membros de um só e mesmo Corpo de Cristo, cuja edificação a todos foi confiada.52

50 Cf. 1 Tess 2,12: Col 1,13.

51 Cf. Mt 23,8.

“É por isso necessário que pelo mesmo motivo por que desejamos ser pastores, pais e mestres, saibamos agir como irmãos deles”: Paulo VI, Enc. Ecclesiam suam, 6-8-1964: AAS 58 (1964), p. 647.

52 Cf. Ef 4,7 e 16; Const. Apost., VIII, 1, 20: “Que também o Bispo não se exalte contra os diáconos ou Presbíteros, nem os Presbíteros contra o povo; pois é de ambas as partes que se forma a reunião da assembléia”: ed. F. X. Funk, I. p. 467.

 

É pois mister que os Presbíteros presidam de tal forma – não procurando o que é seu, mas o que é de Jesus Cristo53 – que conjuguem seus esforços com os fiéis leigos, e no meio deles se comportem a exemplo do Mestre que entre os homens não veio para ser servido, mas para servir e dar a alma em redenção por muitos” (Mt 20,28). Reconheçam e promovam os Presbíteros sinceramente a dignidade dos leigos e suas incumbências na missão da Igreja. Acatem conscienciosamente a justa liberdade que é quinhão de todos na cidade terrestre. Ouçam com gosto os leigos, apreciando fraternalmente seus desejos, reconhecendo sua experiência e competência nos diversos campos da atividade humana, para poderem junto com eles verificar os sinais dos tempos. Pondo a prova os espíritos para ver se são de Deus,54 descubram com o senso da fé, reconheçam com alegria e incentivem com entusiasmo os multiformes carismas dos leigos, dos modestos aos mais elevados. Entre os demais dons de Deus, que se encontram abundantemente, no meio dos fiéis, são dignos de especial carinho aqueles que atraem não poucos para uma mais elevada vida espiritual. Da mesma forma entreguem com confiança tarefas aos leigos para o serviço da Igreja, deixando-lhes liberdade e possibilidade de agir, convidando-os mesmo oportunamente a enfrentar obras também por sua iniciativa.55

53 Cf. Filip 2,21.

54 Cf. 1 Jo 4,1.

55 Cf. Conc. Vat. II. Const. Dogm. Sobre a Igreja, Lumen Gentium, n. 37: AAS 57 (1965), pp. 42-43.

 

Os Presbíteros foram afinal colocados no meio dos leigos para levarem todos a unidade da caridade, “amando uns aos outros com amor fraterno, cada qual considerando os outros como mais beneméritos” (Rom 12,10). É tarefa deles harmonizar de tal forma as diversas mentalidades, que ninguém se sinta estranho na comunidade dos fiéis. Sejam defensores do Bem comum, pela qual se desvelam em nome do Bispo, mas ao mesmo tempo testemunhas corajosas da verdade, para os fiéis não se deixarem arrastar por qualquer vento de doutrina.56 A sua especial solicitude se encomenda os que abandonaram a praxe sacramental, quiçá mesmo a fé. Como bons pastores, não deixem de fato de abordá-los.

56 Cf. Ef 4,14.

 

Dando ouvido as prescrições sobre o ecumenismo,57 não se esqueçam dos irmãos que não desfrutam conosco de plena comunhão eclesiástica.

57 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Unitatis Redintegratto, sobre o Ecumenismo: AAS 57 (1965), pp. 90 ss.
Afinal, considerem como confiados a si todos aqueles que não reconhecem a Cristo como Seu Salvador.

Os fiéis cristãos por sua vez tenham consciência de seus deveres para com os Presbíteros. Cerquem-nos por isso com amor filial, como a seus pastores e pais. Compartilhando de suas preocupações, auxiliem ainda a seus Presbíteros pela oração e ação quanto puderem, para que possam vencer com mais galhardia e cumprir suas tarefas com maior proveito.58

8 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja, Lumen Gentium, n. 37: AAS 57 (1965), pp. 42-43

I. A DISTRIBUIÇÃO DOS PRESBÍTEROS E AS VOCAÇÕES SACERDOTAIS

Distribuição dos presbíteros

10. O dom espiritual que os Presbíteros receberam na ordenação prepara-os não para uma missão por assim dizer limitada e restrita, mas para a missão amplíssima e universal da salvação “até os confins da terra” (At 1,8). Pois todo e qualquer ministério sacerdotal participa da mesma amplitude universal da missão confiada por Cristo aos Apóstolos. É que o sacerdócio de Cristo, do qual os Presbíteros se tornaram de fato participantes, destina-se necessariamente a todos os povos e a todos os tempos e não se vê restringindo por limite algum de raça, nação e idade, como já se encontra prefigurado de modo oculto na personalidade de Melquisedec.59 Lembrem-se por isso os Presbíteros que devem ter a peito a solicitude de todas as Igrejas. Por tal motivo, os Presbíteros daquelas dioceses que foram aquinhoadas com maior número de vocações disponham-se com gosto a exercer o seu ministério nas regiões, missões ou obras que lutam com falta de clero, desde que o permita ou encoraje o próprio Ordinário.

59 Cf. Heb 7,3.

Aliás as normas de encardinação e excardinação devem ser revistas de tal sorte, que, ao manter-se essa antiqüíssima instituição, chegue ela todavia a corresponder melhor as necessidades pastorais dos dias de hoje. Onde no entanto o exigirem razões de apostolado, aplainem-se os caminhos não apenas a adequada distribuição de Presbíteros, mas também as obras pastorais especializadas, em favor dos diversos grupos sociais, obras que em alguma região ou nação ou em qualquer parte do mundo dever ser levadas a termo. Para tal fim poderão ser criados utilmente certos seminários internacionais, dioceses especiais e prelaturas pessoais e outras tantas instituições deste tipo. Aí, por formas a serem estabelecidas para cada iniciativa, e lugares, os Presbíteros hão de ser destinados en encardinados em benefício de toda a Igreja.

Para uma nova região no entanto – sobretudo se ainda não lhe conhecem bem a língua e os costumes - não se enviem sacerdotes isolados, mas, a exemplo dos discípulos de Cristo,60 ao menos de dois em dois ou de três em três, para assim se ajudarem mutuamente. Importa da mesma forma cuidar solicitamente de sua vida espiritual, como também de sua saúde psíquica e física. Em enquanto for viável, preparem-se em favor deles lugares e condições de trabalho de acordo com as possibilidades pessoais de cada um. É ainda de grande conveniência que aqueles que demandam uma nova nação se esforcem por conhecer de maneira adequada não somente a língua do país, mas também as peculiaridades da índole psicológica e social do povo a quem querem servir em humildade, comungando com ele da maneira mais perfeita, a ponto de seguirem o exemplo de Paulo Apóstolo, que de si mesmo pode dizer: “Sim, livre em relação a todos, de todos me fiz escravo, a fim de ganhar o maior número. E me fiz judeu com os judeus, a fim de ganhar os judeus...” (1 Cor 9, 19-20).

60 Cf. Lc 10,1

Vocações sacerdotais

11. O Pastor e Bispo de nossas almas61 organizou de tal forma Sua Igreja, que o Povo, a quem escolheu e adquiriu com Seu sangue,62 sempre e até o fim do século devesse ter os seus sacerdotes, para jamais os cristãos estarem como ovelhas sem pastor.63 Reconhecendo esta vontade de Cristo, os Apóstolos, dando ouvido ao que lhes dizia o Espírito Santo, acharam que era de sua obrigação eleger ministros “que foram capazes de por sua vez instruir os outros” (2 Tim 2,2). Tal dever evidentemente faz parte da própria missão sacerdotal, pela qual o Presbítero se torna de fato participante da preocupação de toda a Igreja, de não chegarem nunca a faltar no Povo de Deus aqui na terra os operários. Como no entanto “existe um destino comum... ao comandante do navio e aos passageiros”64, há de o povo cristão todo ser instruído que é tarefa sua cooperar de diversos modos, pela oração insistente como ainda por outros meios a seu dispor,65 a fim de que a Igreja tenha sempre aqueles sacerdotes que são necessários.

61 Cf. 1 Ped. 2,25

62 Cf. At 20,28.

63 Cf. Mt 9,36.

64 Pontifical Romano, De Ordinatione Presbyterorum.

65 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Optatam totius, sobre a formação sacerdotal, n. 2.

 

Ao cumprimento de sua missão divina. Em primeiro lugar, pois, tenham os Presbíteros muito a peito, de pelo ministério da palavra e pelo próprio testemunho de vida – que manifeste de maneira patente o espírito de serviço e a verdadeira alegria pascal – colocar diante dos olhos dos fiéis a excelência do sacerdócio e a necessidade. Ajudem, sem poupar esforços ou incômodos, aos jovens ou mais adultos, que julgarem prudentemente idôneos para tão elevado ministério a se prepararem devidamente, e assim um dia – garantida a sua plena liberdade externa e interna – poderem ser chamados pelos Bispos. Para alcançar tal objetivo, a direção espiritual conscienciosa e prudente é da mais alta utilidade. Pais e mestres e todos a quem de qualquer forma incumbe o dever de educar os rapazes e jovens ensinem-nos de tal forma, que conheçam a solicitude do Senhor para com seu rebanho, pesem as necessidades da Igreja e se disponham a responder generosamente ao chamamento do Senhor, com o profeta: “Aqui estou, envia-me” (Is 6,8). No entanto, esta voz do chamamento do Senhor não deve de maneira alguma ser aguardada, como se chegasse por algum canal extraordinário aos ouvidos do futuro Presbítero. Antes, deve ela ser entendida e discernida pelos sinais, pelos quais todos os dias se manifesta a vontade de Deus aos cristãos que sabem escutar; esse sinais hão de ser avaliados com atenção pelos Presbíteros.66

66 “A voz de Deus que chama exprime-se de dois modos distintos, maravilhosos e convergentes: um interior, o da graça, o do Espírito Santo, o inefável do fascínio interior que a “voz silenciosa” e poderosa do Senhor exerce nas insondáveis profundezas da alma humana; e um exterior, humano, sensível, social, jurídico, concreto, o do ministro qualificado da Palavra de Deus, o do Apóstolo, o da Hierarquia, instrumento indispensável, instituído e ordenado por Cristo, como veículo encarregado de traduzir em linguagem perceptível a mensagem do verbo e do preceito divino. Assim ensina com São Paulo a doutrina católica: Quomodo audient sine praedicante... Fides ex auditu (Rom 10,14 e 17)”: Paulo VI, Discurso do dia 5-5-1965: L’Osservatore Romano de 6-5-1965, p. 1.

A eles pois muito recomendamos as Obras das vocações, tanto diocesanas quanto nacionais.67 Nas pregações, na catequese, nas revistas, terão que ser expostas com eloqüência as necessidades da Igreja, tanto local quanto universal, terão que ser colocadas em viva luz o sentido e a grandeza do ministério sacerdotal, pois harmoniza ele em si tão grandes encargos e tão profundas alegrias e presta-se sobretudo, como ensinam os Padres, a dar a Cristo o mais elevado testemunho de amor.68

67 Cf. Conc. Vat. II, Decr Optatum totius, sobre a formação sacerdotal, n. 2.

68 É o que ensinam os Padres, quando explicam as palavras de Cristo a Pedro: “Amas-me?... Apascenta as minas ovelhas” (Jo 21,17): assim S. João Crisóstomo, De sacerdotio, 11, 1-2: PG 48, 633; S. Gregório Magno, Reg. Past. Liber, P. 1, c. 5: PL 77, 19A

CAPÍTULO III: A VIDA DOS PRESBÍTEROS

1. VOCAÇÃO DOS PRESBÍTEROS A PERFEIÇÃO

Santidade sacerdotal

12. Pelo Sacramento da Ordem os Presbíteros se configuram com Cristo Sacerdote, na qualidade de ministros da Cabeça, para construir e edificar todo o Seu Corpo que é a Igreja, como cooperadores da Ordem episcopal. De fato, já na consagração do batismo receberam, como todos os cristãos, o sinal e o dom da tamanha vocação e graça que, mesmo na fraqueza humana,¹ pudessem e devessem lutar pela perfeição, segundo a divisa do Senhor: “Vós pois sereis perfeitos, como também vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). Os sacerdotes porém se vêem obrigados por um titulo especial a atingir tal perfeição, pelo fato de eles, consagrados a Deus de modo novo pela recepção da Ordem, se transformarem em instrumentos vivos de Cristo Eterno Sacerdote, a fim de poderem ao longo dos tempos completar a obra admirável d’Ele, que reintegrou com a eficiência do alto toda a sociedade dos homens. ² Como pois cada sacerdote, a seu modo, faz as vezes da pessoa do próprio Cristo, é também enriquecido por uma graça peculiar, para que, no serviço dos homens a ele confiados e do Povo de Deus todo, possa tender mais adequadamente a perfeição d’Aquele a quem representa, e para que a santidade d’Aquele que se fez por nós Pontífice “santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores” (Heb 7,26), possa remediar a fraqueza do homem carnal.

¹ Cf. 2 Cor 12,9.

² Cf. Pio XI, Enc. Ad catholici Sacerdotti, 20-12-1935: AAS 28 (1936), p. 10.

 

Cristo, a quem o Pai santificou, ou consagrou, e enviou ao mundo, ³ “entregou-Se por nós a fim de nos resgatar de toda iniqüidade e de purificar um povo que lhe pertencesse como próprio, zeloso pelo bem” (Tit 2,14), e assim pela Paixão entrou para a Sua glória.4 De modo semelhante, os Presbíteros, consagrados pela unção do Espírito Santo e enviados por Cristo, mortificam em si mesmos as obras da carne e se dedicam totalmente ao serviço dos homens, e assim podem avançar na santidade pela qual foram enriquecidos em Cristo, até chegarem ao homem perfeito.5

3 Cf. Jo 10,36.

4 Cf. Lc 24,26.

5 Cf. Ef 4,13.

 

Exercendo assim o ministério do Espírito e da justiça6 – contanto que se deixem instruir pelo Espírito de Cristo que os vivifica e guia – firmam-se na vida espiritual. Pois, pelos próprios atos litúrgicos de cada dia, como também por todo o seu ministério que exercem em comunhão com o Bispo e os Presbíteros, orientam-se eles para a perfeição da vida. A mesma santidade dos presbíteros por sua vez contribui muitíssimo para cumprirem com fruto o próprio ministério: pois, embora a graça possa levar a termo a obra da salvação também por ministros indignos, no entanto prefere Deus, ordinariamente, manifestar as Suas maravilhas através daqueles que se fizeram mais dóceis ao impulso e a direção do Espírito Santo, pela íntima união com Cristo e santidade de vida, e que podem dizer com o Apóstolo: “E, se vivo, já não sou eu, mas é Cristo que vive em mim” (Gál 2,20).

6 Cf. 2 Cor 3,8-9.

 

Por tal motivo, o Sacrossanto Sínodo, para atingir seus objetivos pastorais de renovação interna da Igreja, de difusão do Evangelho no mundo todo, e ainda de diálogo com o mundo hodierno, exorta com veemência todos os sacerdotes a que empreguem os meios aptos recomendados pela Igreja7 e aspirem aquela santidade sempre maior, que os fará instrumentos de dia em dia mais aptos para o serviço de todo o Povo de Deus.

7 Cf. entre outros: S. Pio X, Exortação ao clero Haerent animo, 4-8-1908: S. Pio X, Acta, vol. IV (1908), pp. 237 ss; Pio XI, Enc. Ad catholici sacerdotii, 20-12-1935: AAS 28 (1936), pp. 5 ss; Pio XII, Adm. Apost. Menti Nostrae, 23-9-1950: AAS 42 (1950), pp. 657 ss; João XXIII, Enc Sacerdotii Nostri primordia, 1-8-1959: AAS 51 (1959), pp. 545 ss.

Ministério e santidade

13. Os Presbíteros alcançarão a santidade de maneira autêntica, se desempenharem suas tarefas de modo sincero e incansável no Espírito de Cristo.

Como são ministros da Palavra de Deus, lêem todos os dias e escutam a palavra de Deus que aos outros têm que ensinar. Se fizerem o possível por acolhê-la a um tempo em si mesmos, tornar-se-ão de dia para dia discípulos mais perfeitos do Senhor, conforme as palavras de Paulo Apóstolo a Timóteo: “Medita-o, empenha-te nisso, a fim de que teus progressos a todos sejam manifestos. Vela sobre a tua pessoa e doutrina; persevera nestas disposições. Agindo desta maneira salvarás a ti mesmo e aqueles que te ouvem” (1 Tim 4,15-16). Procurando o melhor modo de transmitir a outros o que contemplaram,8 chegarão a saborear mais a fundo “a insondável riqueza de Cristo” (Ef 3,8) e a sabedoria multiforme de Deus. 9 Tendo diante dos olhos que é o Senhor que abre os corações10 e que sua superioridade não provém deles próprios, mas de Deus,¹¹ no mesmo ato de transmitir o verbo se unirão mais intimamente com Cristo Mestre e serão guiados por Seu Espírito. Comunicando-se assim com Cristo, participam da caridade de Deus, cujo mistério, escondido desde séculos,¹² foi revelado em Cristo.

8 Cf. S. Tomás, Summa Theol., II-II, q. 188, a. 7.

9 Cf. Heb 3,9-10.

12 Cf. Ef 3,9.

 

Como ministros da liturgia, sobretudo no Sacrifício da Missa, os Presbíteros representam de maneira especial a pessoa de Cristo, que Se entregou a Si próprio como vítima para santificar os homens. Por isso são convidados a imitar o que fazem. Uma vez que celebram o mistério da morte do Senhor, procurem mortificar seus membros, abstendo-se dos vícios e das concupiscências.¹³ No mistério do Sacrifício Eucarístico, em que os sacerdotes cumprem sua função principal, realiza-se de modo contínuo a obra de nossa redenção.14 Por isso é que se recomenda com muita insistência sua celebração diária, pois, mesmo que não se possa contar com a presença de fiéis, é ela um ato de Cristo e da Igreja.15 Por conseguinte, enquanto os Presbíteros se unem com a ação de Cristo Sacerdote, ofereçam-se diariamente todos inteiros a Deus; enquanto se nutrem do Corpo de Cristo, participam no íntimo de Sua caridade que Se dá em alimento aos fiéis. Na administração dos Sacramentos unem-se da mesma forma com a intenção e a caridade de Cristo. Fazem-no de maneira especial ao exercerem o múnus do Sacramento da Penitência, quando se mostram sempre prontos e disponíveis, todas as vezes que os fiéis o pedirem razoavelmente. Na recitação do Ofício Divino, emprestam a voz a Igreja que persevera na oração em nome de todo o gênero humano, em união com Cristo que “vive sempre a interceder em nosso favor” (Heb 7,25).

¹³ Cf. Pontifical Romano. De Ordinatione Presbyterorum.

14 Cf. Missal Romano, Oração sobre as oblatas do domingo IX, depois de Pentecostes.

15 “Toda a Missa, ainda que celebrada privadamente por um sacerdote, não é ação privada, mas ação de Cristo e da Igreja. Esta, no sacrifício que oferece, aprende a oferecer-se a si mesma como sacrifício universal, e aplica, pela salvação do mundo inteiro, a única e infinita eficácia redentora do Sacrifício da Cruz. Na realidade, qualquer Missa celebrada oferece-se não apenas pela salvação de alguns, mas pela salvação do mundo inteiro (...). Recomendamos, portanto, com paternal insistência, a todos os sacerdotes, que são mais que ninguém a Nossa alegria e a Nossa coroa, ... que celebrem todos os dias com dignidade e devoção a Santa Missa”: Paulo VI, Enc. Mysterium Fidel, de 3-9-1965: AAS 57 (1965), pp. 761-762. Cf. Conc. Vat. II, Constituição Sacrosanctum Concilium, sobre a S. Liturgia, nn. 26 e 27: AAS 56 (1964), p. 107.

 

Dirigindo e apascentando o Povo de Deus, são animados pela caridade do Bom Pastor a dar a vida pelas ovelhas,16 preparados até para o supremo sacrifício, seguindo o exemplo de sacerdotes que também nos tempos de hoje não se recusaram a sacrificar a vida. Educadores que são na fé, e possuindo eles mesmos “a confiança para o acesso ao santuário pelo sangue de Cristo” (Heb 10,19), achegam-se a Deus “com coração sincero, na plenitude da fé” (Heb 10,22); mantém firme esperança em meio de seus fiéis,17 para poderem consolar aqueles que se encontram em plena aflição, exortando-os nos termos de exortação que recebem de Deus.18 Como chefes da comunidade cultivam a ascese própria do pastor de almas, renunciando a proveitos pessoais e não procurando o que lhes é útil e sim o que é útil a muitos para a salvação19; progredindo sempre mais além, para cumprirem com maior perfeição a obra pastoral; estando dispostos, onde for necessário, a enveredar por caminhos novos de pastoral, sob a direção do Espírito do amor que sopra onde quer.20

16 Cf. Jo 10,11

17 Cf. 2 Cor 1,7.

18 Cf 2 Cor 1,4.

19 Cf. 1 Cor 10,33.

20 Cf. Jo 3,8

Unidade de vida

14. No mundo de hoje são tão numerosos as tarefas que os homens tem que enfrentar e tamanha a diversidade de problemas com que se angustiam e que as mais das vezes exigem solução rápida, que não raro correm perigo de se dispersarem de todo. Os Presbíteros por sua vez, implicados e divididos em um sem número de obrigações de ofício, talvez perguntem ansiosos, como poderão harmonizar, numa unidade, a sua vida interior com o ritmo de ação externa. Unidade de vida, que a mera organização externa do ministério das obras não poderá efetivar, nem o poderá a só prática dos exercícios de piedade, por mais que contribua para fomentá-la. Podem construí-la no entanto os presbíteros ao seguirem, no exercício do ministério, o exemplo de Cristo Senhor, Cuja comida era cumprir a vontade d’Aquele que O enviara para levar a termo a Sua obra.²¹

²¹ Cf. Jo 4,34.

 

Com efeito, Cristo, para cumprir sem cessar essa vontade do Pai no mundo pela Igreja, opera através de Seus ministros e por isso permanece sempre o princípio e a fonte de sua unidade de vida. Alcançarão pois os Presbíteros esta unidade de vida, unindo-se a Cristo no conhecimento da vontade do Pai e na doação de si mesmos em favor do rebanho que lhes foi confiado. ²² Desempenhando assim o papel de Bom Pastor, encontrarão no próprio exercício da caridade pastoral o vínculo da perfeição sacerdotal, que levará sua vida e ação a uma unidade. Esta caridade pastoral por sua vez ²³ proflui antes de mais nada do Sacrifício Eucarístico, que por isso se apresenta como centro e raiz de toda a vida do Presbítero, de sorte que a alma sacerdotal se esforçará por interiorizar o que na ara sacrifical se passa. Não se pode alcançá-lo porém, a não ser que os mesmos sacerdotes pela oração penetrem sempre mais intimamente no mistério de Cristo.

²² Cf. 1 Jo 3,16.

²³ “Seja uma tarefa do amor apascentar a grei do Senhor”: S. Agostinho, Tract. In lo., 123, 5: PL 35, 1967.

 

Para poderem verificar também concretamente a unidade de sua vida, examinem todas as iniciativas sob o crisol da vontade de Deus,24 isto é, pesando qual a conformidade das iniciativas com as normas da missão evangélica da Igreja. Porquanto a fidelidade para com Cristo é inseparável da fidelidade para com a Sua Igreja. Postula pois a caridade pastoral que os Presbíteros – para não correrem em vão25 – trabalhem sempre no vínculo de comunhão com os Bispos e com os demais irmãos no sacerdócio. Agindo com tal critério, encontrarão os Presbíteros a unidade da própria vida na unidade mesma da missão da Igreja, e assim unir-se-ão a seu Senhor e por ele com o Pai no Espírito Santo, para estarem cheios de consolação e terem as maiores reservas de alegria.26

24 Cf. Rom 12,2

25 Cf. Gál 2,2.

26 Cf. 2 Cor 7,4

II. EXIGÊNCIAS PECULIARES DE ESPIRITUALIDADE NA VIDA DO PRESBÍTERO

Humildade e obediência

15. Entre as virtudes que mais se reclamam para o ministério dos Presbíteros, merece menção aquela disponibilidade interior, que os leva a não procurar a própria vontade, mas a d’Aquele que os enviou.27 Pois a obra divina para a qual foram assumidos pelo Espírito Santo,28 transcende todas as forças humanas e a sabedoria dos homens, pois “Deus escolheu o que há de fraco no mundo para confundir a força” (1 Cor 1,27). Consciente da própria fraqueza, trabalha o verdadeiro servo de Cristo na humildade, examinando para ver o que agrada a Deus29; e, como que preso pelo Espírito,30 se deixa conduzir em tudo pela vontade d’Aquele que quer sejam salvos todos os homens. Saberá descobrir e executar tal vontade ao longo da vida cotidiana, se nos quadros de sua função e nos múltiplos acontecimentos da existência, servir com humildade a todos que lhe foram confiados por Deus.

27 Cf. Jo 4,34; 5,30; 6,38.

28 Cf. At 13,2.

29 Cf. Ef 5,10.

30 Cf. At 20,22.

 

O ministério sacerdotal, por ser o ministério da própria Igreja, não pode cumprir-se a não ser na comunhão hierárquica de todo o Corpo. Pois é a caridade pastoral que impele os Presbíteros para, nesta ação comunitária, consagrar a própria vontade, pela obediência, ao serviço de Deus e dos irmãos, aceitando em espírito de fé e executando o que for preceituado ou recomendado pelo Sumo Pontífice, pelo próprio Bispo, bem como pelos demais superiores, desgastando-se e consumindo-se de muito boa vontade³¹ em qualquer ofício, mesmo o mais humilde e pobre que lhes é confiado. Nesta linha conservam e fortalecem a unidade necessária com seus irmãos no ministério, principalmente porem com aqueles que o Senhor constituiu como chefes visíveis de sua Igreja. Trabalham ainda para a edificação do Corpo de Cristo, que cresce “por toda sorte de junturas que o nutrem “.³² Esta obediência, que leva a uma liberdade mais madura dos filhos de Deus, exige por sua natureza que os Presbíteros proponham com confiança suas iniciativas, quando no desempenho de seu cargo são movidos pela caridade a procurarem com prudência novos caminhos para um bem maior da Igreja. Exponha igualmente com insistência as necessidades do rebanho a eles confiado, sempre prontos a submeter-se ao juízo daqueles que na direção da Igreja de Deus exercem o múnus em primeira linha.

³¹ Cf. 2 Cor 12, 15.

³² Cf. Ef 4,11-16.

 

Por esta humildade e obediência responsável e voluntária, os Presbíteros se conformam com Cristo, sentido dentro de si o que também sentem no Cristo Jesus, que “Se aniquilou a Si mesmo, tomando a condição de escravo, feito obediente até a morte” (Filip 2,7-8) e por esta obediência venceu de todo e redimiu a desobediência de Adão, como atesta o Apóstolo: “Pela desobediência de um só homem a multidão foi constituída pecadora; assim também pela obediência de um só a multidão será constituída justa” (Rom 5,19)

Castidade e celibato

16. A perfeita e perpétua continência por amor ao Reino do céu, recomendada por Cristo Senhor ³³ - aceita com gosto e louvavelmente praticada por não poucos cristãos, no decurso dos tempos e também em nosso – foi sempre tida em alto apreço pela Igreja, de modo especial em favor da vida sacerdotal. Pois é ao mesmo tempo sinal e estímulo da caridade pastoral e fonte peculiar da fecundidade espiritual no mundo.34 Não que por sua natureza seja exigida do sacerdócio, como se evidencia pela praxe da Igreja primitiva35 e pela tradição das Igrejas Orientais, onde – além daqueles que com todos os Bispos, por dom de graça, escolhem observar o celibato – existem igualmente os Presbíteros casados, de altíssimo mérito. Enquanto pois recomenda o celibato eclesiástico, este Sacrossanto Sínodo de forma alguma intenciona mudar aquela disciplina diversa, que vigora legitimamente nas Igrejas Orientais, e exorta com muito amor aqueles que receberam o presbiterato no matrimônio, a que perseverem em sua santa vocação e continuem a empenhar a vida, plena e generosamente, em favor do rebanho a eles confiado.36

³³ Cf. Mt 19,12.

34 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja, Lumen Gentium, n. 42: AAS 57 (1965), pp. 47-49.

35 Cf. 1 Tm 3,2-5; Tit 1,6.

36 Cf. Pio XI. Enc. Ad catholici sacerdotii, 20-12-1935: AAS 28 (1936), p. 28.

 

A verdade é que o celibato se ajusta de mil modos ao sacerdócio. Pois a missão toda do sacerdote esta dedicada ao serviço da nova humanidade, que Cristo, o vencedor da morte, suscita no mundo pelo Seu Espírito, e tem sua origem “não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1,13). Pela virgindade, porém, ou seja, pelo celibato, guardado por amor ao Reino dos céus,37 os Presbíteros se consagram a Cristo de maneira nova e privilegiada, a ele mais facilmente aderem de coração indiviso,38 dedicam-se mais livremente n’Ele e por Ele ao serviço de Deus e dos homens, servem com mais disponibilidade a Seu Reino e a obra da regeneração vinda do alto e assim se tornam mais aptos a receber de maneira bem ampla a paternidade em Cristo. Por esse modo, pois, professam diante dos homens querer dedicar-se indivisamente a tarefa que lhes foi confiada, a saber, de desposar os fiéis a um esposo único e apresentá-los como virgem pura a Cristo,39 e assim evocam aquele conúbio misterioso – criado por Deus para ser futuramente manifestado em sua plenitude – pelo qual a Igreja possui um único Esposo, Cristo.40 Tornam-se afinal um sinal vivo daquele mundo que há de vir e que já esta presente pela fé e caridade, no qual os filhos da ressurreição não casam nem são casados.41

37 Cf. Mt 19,12.

38 Cf. 1 Cor 7,32-34.

39 Cf. 2 Cor 11,2.

40 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Igreja, Lumen Gentium, nn. 42 e 44: AAS 57 (1965), pp. 47-49 e 50-51: Decreto sobre a atualização dos Religiosos, Perfectae Caritatis, 28-20-1965, n. 12.

41 Cf. Lc 20,35-36; Pio XI, Enc. Ad catholicy sacerdotii, 20-12-1935: AAS 28 91936), pp. 24-28; Pio XII, Enc. Sacra Virgintas, 25-3-1954: AAS 46 (1954), pp. 169-172.

 

Por este motivo, fundamentado no ministério de Cristo e na Sua missão, o celibato, que de início era recomendado aos sacerdotes, foi depois imposto por lei na Igreja Latina a todos os que iriam ser promovidos a Ordem sacra. O Sacrossanto Sínodo torna a reconhecer e a confirmar esta legislação para os que se destinam ao Presbiterato, confiando no Espírito que o dom do celibato, tão coerente com o sacerdócio do Novo Testamento, seja outorgado com liberalidade pelo Pai, contanto que aqueles que participam do sacerdócio de Cristo pelo Sacramento da Ordem – e com eles ainda a Igreja toda - o peçam com humanidade e insistência. Este Sacro Sínodo exorta também a todos os Presbíteros, que aceitaram de livre vontade a exemplo de Cristo o sacro celibato, confiados na graça de Deus: aderindo a ele com grandeza de alma e coração devotado e perseverando fielmente neste estado, reconheçam o dom preclaro que lhes foi concedido pelo Pai e que pelo Senhor foi tão claramente distinguido.42 Tenham ainda diante dos olhos os grandes mistérios que por ele são significado e realizados. Quanto mais no mundo de hoje a perfeita continência é tida como impossível por não poucos homens, com tanto mais humildade e perseverança os Presbíteros hão de implorar, junto com a Igreja, a graça da fidelidade que jamais se nega aos que pedem, empregando ao mesmo tempo todos os meios sobrenaturais e naturais, que continuam a disposição de todos. Não deixem de seguir as normas, sobretudo ascéticas, que são reconhecidas pela experiência da Igreja e que no mundo de hoje não deixam de ser necessárias. Roga pois este Sacrossanto Sínodo não somente aos sacerdotes, mas também a todos os fiéis, que o precioso dom do celibato sacerdotal lhes mereça o apreço e que todos peçam a Deus conceda Ele sempre e com abundância tal dom a Sua Igreja.

42 Cf. Mt 19,11

Bens materiais e pobreza

17. Na convivência amiga e fraterna entre si e com os demais homens chegam os Presbíteros a cultivar os valores humanos e a estimar os bens criados como dons de Deus. Encontrando-se embora no mundo, tenham sempre consciência de que, segundo a palavra de nosso Senhor e Mestre, não são do mundodo.43 Utilizando-se do mundo como se de verdade não se utilizassem,44 chegarão aquela liberdade pela qual se sentirão livres de todo cuidado desordenado e se farão dóceis para ouvirem a voz de Deus na vida de cada dia. É desta liberdade e docilidade que se desenvolve a discrição espiritual e por ela se chega a atitude verdadeira para com o mundo e as realidades terrestres. Tal atitude é essencial para os Presbíteros, porque a missão da Igreja se cumpre em meio ao mundo e porque os bens criados são imprescindíveis ao progresso pessoal do homem. Mostrem-se pois agradecidos por tudo aquilo com que os obsequia o Pai celeste para viverem como devem. É no entanto necessário discernir a lua da fé todas as coisas que se apresentam, para serem levados a fazer bom uso dos bens conforme a vontade de Deus e para repelirem os que prejudicam a sua missão.

43 Cf. Jo 17,14-16.

44 Cf. 1 Cor 7,31.

 

Pois os sacerdotes – sendo eles os que tem o Senhor como “sua parte e herança” (Nm 18,20) – hão de fazer uso dos bens temporais tão somente para aqueles fins aos quais é lícito destiná-los, segundo a doutrina de Cristo Senhor e as disposições da Igreja.

Com a ajuda de leigos experimentados, enquanto possível, administrem os sacerdotes os bens eclesiásticos propriamente ditos, conforme a natureza da coisa e a norma das leis eclesiásticas. Destinem-nos sempre para aqueles fins para a consecução dos quais é lícito a Igreja possuir bens temporais, como seja, para organizar o culto divino, prover ao sustento honesto do clero ou ainda dar andamento as obras do apostolado sagrado ou da caridade, em benefício sobretudo dos necessitados.45 Os bens que porém lhes advierem no desempenho de algum ofício eclesiástico, salvo algum direito particular,46 empreguem-nos os Presbíteros, como aliás também os Bispos, sobretudo para seu sustento honesto e para o cumprimento dos deveres do próprio estado. O que porém sobrar queiram destiná-lo em benefício da Igreja ou as obras de caridade. Não lhes sirva o ofício eclesiástico para fins de lucro, nem empatem rendas que daí provenham para aumento de seu patrimônio.47 Não prendam pois os sacerdotes de forma alguma o coração as riquezas,48 mas evitem sempre toda cobiça, abstendo-se, com cuidado, de qualquer aparência de comércio.
45 Conc. Antioch., cân. 25: Mansi 2, 1327-1328: Decretum Gratiani, c. 23. C. 12, q. 1: ed Friedberg, 1, pp. 684-685.

46 Pensa-se sobretudo nos direitos e costumes vigentes nas Igrejas Orientais.

47 Conc. De Paris, ano 829, cap. 15; MGH. Sectio III, Concilia, t. 2. Parte 6, 622: Conc. Trid., Sess. XXV, Decr. De reform., cap. 1: Conc. Oec. Decreta, ed; Herder, Roma 1962, pp. 760-761.
48 Cf. Sl 62, 11 Vg. 61.

 

São até convidados a abraçar a pobreza voluntária, que tornará mais evidente sua semelhança com Cristo e os fará mais disponíveis para o sagrado ministério. Pois Cristo, por nossa causa, se fez pobre, sendo rico, a fim de nos enriquecer por Sua pobreza.49 Também os Apóstolos atestaram pelo seu exemplo que o dom gratuito de Deus deve ser dado de graça,50 sabendo viver na abundância e na penúria.51 Mesmo assim, algum uso comunitário das coisas, a imitação da comunhão de bens que mereceu destaque na história da Igreja primitiva,52 abriria do melhor modo o caminho para a caridade pastoral. Por tal forma de vida, os Presbíteros poderiam levar honrosamente a prática o espírito de pobreza recomendado por Cristo.

49 Cf. 2 Cor 8,9.

50 Cf. At 8,18-25.

51 Cf. Filip 4,12.

52 Cf. At 2,42-37.

 

Guiados pois pelo Espírito do Senhor, que ungiu o Salvador e O enviou a evangelizar os pobres,53 os Presbíteros – como também os Bispos – tudo evitem que de qualquer modo possa afastar os pobres, excluindo de seus pertences, mais do que os outros discípulos de Cristo, toda a aparência de vaidade. Instalem de tal forma sua moradia, que a ninguém ela aparecerá inacessível, e jamais alguém, mesmo que bem humilde, se envergonhe de freqüentá-la.

53 Cf; At 2,42-47

III. SUBSÍDIOS PARA A VIDA DOS PRESBÍTEROS

Vida espiritual

18. Para poderem entreter a união com Cristo em todas as conjunturas da vida, os Presbíteros, além do exercício cônscio de seu ministério, dispõem de meios comuns e especiais, novos e velhos, que o Espírito Santo nunca deixou de suscitar no Povo de Deus e que a Igreja recomenda, e por vezes chega até a impor, para a santificação de seus membros.54 Entre todos os subsídios espirituais, destacam-se aquelas ações com as quais se nutrem os fiéis do Verbo de Deus na dupla mesa da Sagrada Escritura e da Eucarístia.55 Não há novidade sem afirmar a grande importância de seu convívio assíduo para a santificação, em especial, dos Presbíteros.

54 Cf. CIC, cân. 125 ss.

55 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Perfectae caritatis, sobre a atualização dos Religiosos, n. 6; Const. Dogm. Sobre a Revelação Divina, Dei Verbum, n. 21.

 

Unem-se os ministros da graça sacramental intimamente a Cristo Salvador e Pastor pela recepção frutuosa dos Sacramentos, especialmente no ato freqüente e sacramental da Penitência, pois este preparado pela revisão cotidiana da consciência, dá aquele impulso a necessária conversão da vontade ao amor do pai das misericórdias. A luz da fé, nutrida pela leitura da Bíblia, poderão examinar com cuidado os sinais da vontade de Deus e as inspirações de Sua graça, nos acontecimentos variados da vida, e tornar-se assim mais e mais dóceis a sua missão aceita no Espírito Santo. Encontram sempre um admirável exemplo de tal docilidade na Bem-aventurada Virgem Maria, que levada pelo Espírito Santo, se consagrou toda ela ao mistério da Redenção dos homens.56 A ela, Mãe do Sumo e Eterno Sacerdote e Rainha dos Apóstolos, além de protetora de seu ministério, venerem e amem os Presbíteros com devoção filial e culto.

56 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Perfectae caritatis, sobre a atualização dos Religiosos, n. 6; Const. Dogm. Sobre a Revelação Divina, Dei Verbum, n. 21.

 

Para cumprirem com fidelidade o ministério, tomem a peito o colóquio cotidiano com Cristo Senhor na visita e no culto pessoal da Santíssima Eucaristia. Libertem-se com gosto para o retiro espiritual e tenham grande apreço pela direção d’alma. De muitos modos, especialmente pelos métodos da oração mental e pelas diversas formas de preces que escolhem com liberdade, procuram os Presbíteros, e de Deus imploram com insistência, aquele espírito de verdadeira adoração, graças ao qual, junto com o povo a eles confiado, se unem intimamente com Cristo Mediador do Novo Testamento, e então, na qualidade de filhos adotivos, podem exclamar: “Aba, Pai” (Rom 8,15)

Vida Intelectual

19. No sagrado rito da Ordenação os Presbíteros são admoestados pelo Bispo a “serem maduros na ciência”, e que sua doutrina seja “remédio espiritual para o povo de Deus”.57 A ciência do ministro sacro há de ser sacra, porque extraída de sagrada fonte e orientada para um fim sagrado. Por este motivo, há de haurir-se antes de tudo da leitura e meditação da Sagrada Escritura,58 mas se nutrirá também, com bons resultados, do estudo dos Santos Padres, Doutores e demais testemunhas da Tradição. Além disso, para dar resposta acertada as questões agitadas pelos homens de nosso tempo, é mister que os Presbíteros conheçam bem os documentos do Magistério e sobretudo os dos Concílios e Romanos Pontífices, e consultem os melhores e mais acatados escritores da ciência teológica.

57 Pontifical Romano, De Ordinatione Presbyterorum.

58 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dogm. Sobre a Revelação Divina, Dei Verbum, n. 25.

 

Uma vez porém que em nossos tempos a cultura humana e também as ciências sagradas progridem num ritmo acelerado, os Presbíteros são chamados a aperfeiçoar, de maneira adequada e ininterrupta, seus conhecimentos divinos e humanos e a preparar-se assim para iniciarem com mais vantagem o diálogo com os homens de hoje.

Para facilitar aos Presbíteros os estudos e o conhecimento prático dos métodos de evangelização e apostolado, com todo empenho se lhes propiciem oportunidades, pela criação de cursos e congressos adaptados as condições de cada território, pela instituição de centros de estudos pastorais, pela fundação de bibliotecas e pela boa direção de estudos confiada a pessoas competentes. Descubram além disso os Bispos individualmente ou unidos entre si o modo mais oportuno de fazer com que todos os seus Presbíteros, em momentos determinados, sobretudo porém alguns anos depois da ordenação,59 possam freqüentar um curso em que se lhes ofereça ocasião, tanto para adquirir um conhecimento mais completo dos métodos pastorais e da ciência teológica, quanto para fortalecer a vida espiritual e para compartilhar, com seus irmãos, as experiências apostólicas.60 Com estes e outros meios aptos, auxiliem-se com especial cuidado também os novos párocos e os que se destinam a uma nova atividade pastoral ou os que são enviados a outra diocese ou nação.

59 Este curso não é o curso de pastoral que deve ser feito logo após a ordenação, de que fala o Decreto sobre a Formação Sacerdotal, Optatan Totius, n. 22.

60 Cf. Conc.. Vat. II, Decr. Sobre o Múnus Pastoral dos Bispos na Igreja, Christus Dominus, n. 17.

 

Afinal, hão de interessar-se os Bispos, por que alguns se dediquem a um estudo mais aprofundado das ciências divinas, para que jamais faltem mestres idôneos a formação dos clérigos, e os demais sacerdotes e fiéis tenham quem os ajude a adquirir a necessária doutrina, afinal para que se estimule o progresso sadio das sagradas disciplinas, progresso que é absolutamente indispensável a Igreja.

Vida material

20. Pela dedicação ao serviço de Deus no cumprimento de um cargo a eles confiado, merecem os Presbíteros a justa remuneração porque “o operário é digno de seu salário” (Lc 10,7),61 e o Senhor prescreveu aos que anunciam o Evangelho que vivam do Evangelho” (1 Cor 9,14). Caso a remuneração adequada dos Presbíteros não se ache provida por outra fonte, os próprios fiéis – pois é em seu benefício que os Presbíteros se empenham – se vêem na verdadeira obrigação de providenciar para eles os meios necessários a uma vida honesta e digna. Os Bispos por sua vez deverão advertir os fiéis desta obrigação, cuidando – cada qual por sua diocese ou melhor, unindo-se diversos em favor de um território comum – para que se estabeleçam normas em favor do honesto sustento daqueles que ocupam ou ocuparam algum cargo a serviço do Povo de Deus. A remuneração de cada qual – tendo em conta tanto a natureza do cargo quanto as condições de lugares e tempos – há de ser basicamente a mesma em favor de todos que se encontram em idênticas condições. Seja condizente com seu estado e ainda lhes possibilite não só remunerar devidamente os que estão a seu serviço, mas também socorrer de alguma forma por si mesmos aos indigentes, pois que o serviço aos pobres, a Igreja o teve sempre em grande estima, desde os seus primórdios. A remuneração chegue mesmo a ser tal, que permita aos Presbíteros terem todos os anos o devido e suficiente tempo de férias. Toca aos Bispos cuidar que de fato os Presbíteros possam tê-lo.

61 Cf. Mt 10,10; 1 Cor 9,7; 1 Tim 5,18.

 

É ao ofício que os ministros sacros desempenham que se deve dar a primeira atenção. Abandone-se por isso o sistema chamado beneficial, ou passe ele ao menos por uma reforma tal, que o aspecto beneficial – ou seja, o direito aos proventos ligados por dote, passe ao primeiro plano o mesmo ofício eclesiástico. Por ofício eclesiástico doravante se há de entender qualquer múnus conferido de maneira estável, para um fim espiritual.

21. Não se perca jamais de vista o exemplo dos fiéis na Igreja primitiva de Jerusalém, onde “tudo era comum entre eles” (At 4,32) e “distribuíam a cada qual segundo a necessidade” (At 4,35). É pois sumamente conveniente, ao menos nas regiões em que o sustento do clero depende de todo ou em grande parte das liberalidades dos fiéis, que algum instituto diocesano reuna os bens oferecidos para tal fim. Administrá-lo o Bispo, com o auxílio de sacerdotes delegados, e, onde parecer útil, também de leigos entendidos em economia. É também uma aspiração que além disso e quanto for possível, em cada diocese ou região se constitua um fundo comum de bens, com o qual os Bispos possam satisfazer as demais obrigações para com pessoas a serviço da Igreja e socorrer as diferentes necessidades do diocese. Por ele também as dioceses de maiores recursos poderão vir em socorro as mais necessitadas, para que a abundância daquelas possa suprir a pobreza destas.62 Este fundo comum deverá ser constituído em primeiro lugar pelos bens tirados das ofertas dos fiéis, mas também por bens provenientes de outras fontes a serem determinadas pelo direito.

62 Cf. 2 Cor 8,14.

 

Além disso, nas nações em que a providência social em favor do clero ainda não esta suficientemente organizada, cuidem as Conferências Episcopais que – sempre dentro das leis eclesiásticas e civis – existam ou institutos diocesanos, eventualmente federados entre si, ou organismos interdiocesanos, ou uma associação fundada para o território todo. Por eles, sob a vigilância da Hierarquia, se há de encaminhar bem, tanto a assim chamada previdência e assistência sanitária, como ainda o devido sustento dos Presbíteros atingidos por enfermidade, invalidez ou velhice. Os sacerdotes por sua vez auxiliem o instituto já criado, levados pelo espírito de solidariedade para com seus irmãos, tomando assim parte em sua tribulações. 63 Considerem ao mesmo tempo que, desta forma, eles próprios, sem ansiedade pelo futuro, poderão praticar a pobreza com um sentido evangélico mais ardoroso e entregar-se totalmente a salvação das almas. Façam o possível os responsáveis que os mesmos institutos de diversas nações se entrosem entre si, para conseguirem maior estabilidade e mais larga propagação.

63 Cf. Filip 4,14

CONCLUSÃO E EXORTAÇÃO

22. Este Sacrossanto Sínodo, tendo diante dos olhos as alegrias da vida sacerdotal, não pode tampouco ignorar as dificuldades que nas circunstâncias da vida atual padecem os Presbíteros. Sabe também quanto se transformam as condições econômicas e sociais e mesmo os costumes dos homens e quanto flutua a ordem dos valores na estima geral. Acontece assim que os ministros da Igreja, e até algumas vezes os cristãos, se sintam neste mundo como que estranhos a ele, interrogando-se ansiosamente com que meios e palavras acertadas conseguirão dialogar com ele. Pois as novas barreiras que se levantam contra a fé, a aparente esterilidade do trabalho realizado e a solidão amarga que experimentam, podem levá-los ao perigo do desânimo.
Mas foi ao mundo, assim, como ele hoje se confia ao amor e ao ministério dos Pastores da Igreja, que Deus amou, a ponto de entregar por ele Seu Filho Unigênito.64 Pois é este mundo, carregado, sim, de muitos pecados, mas também dotado de não poucos recursos, que oferece a Igreja as pedras vivas65, que se integram no edifício para se tornarem a mansão de Deus no Espírito.66 O mesmo Espírito Santo, enquanto impele a Igreja a abrir novos caminhos para abordar o mundo de nosso tempo, sugere e encoraja também as adaptações que se impõem ao ministério sacerdotal.

64 Cf. Jo 3,16.

65 Cf. 1 Ped 2,5.

66 Cf. Ef 2,22.

 

Lembrem-se os Presbíteros que jamais se encontram sós no desempenho de sua obra, mas que se apoiam sobre a força onipotente de Deus. Crendo em Cristo que os chamou a participar de Seu Sacerdócio, dediquem-se com toda confiança ao ministério, sabendo que Deus é poderoso para aumentar neles a caridade.67 Lembrem-se ainda que tem como companheiros os irmãos no sacerdócio e até os fiéis de todo o mundo. Pois todos os Presbíteros cooperam na realização do plano de salvação de Deus, isto é, do mistério de Cristo, ou seja, do sacramento mantido oculto desde os séculos em Deus68 e que só pouco a pouco se realiza, conspirando os diversos ministérios para a edificação do Corpo de Cristo, até que se complete a medida da idade d’Ele. Todos esses valores, embora estejam ocultos com Cristo em Deus69, podem ser percebidos da maneira mais viva pela fé. Pois é pela fé que devem andar os guias do Povo de Deus, seguindo o exemplo de Abraão fiel, que pela fé “obedeceu ao apelo de partir para um país que ele deveria receber em herança; e partiu não sabendo aonde ia” (Heb 11,8). De fato, o dispenseiro dos mistérios de Deus pode comparar-se ao homem que semeia no campo e de quem diz o Senhor: “durma ele ou se levante, de noite e de dia, a semente germina, desenvolve-se, e ele não sabe como” (Mc 4,27). Aliás o Senhor Jesus que disse: “Tende confiança, Eu venci o mundo” (Jo 16,33), não prometeu por essas palavras a Sua Igreja uma vitoria total no mundo. Alegra-se de fato o Sacrossanto Sínodo que a terra coberta com a semente do Evangelho agora frutifique em muitos lugares sob o bafejo do Espírito do Senhor, que enche o orbe terrestre e que acordou nos corações de muitos sacerdotes e leigos um espírito verdadeiramente missionário. Por tudo isso, o Sacrossanto Sínodo manifesta, com muito amor, sua gratidão aos Presbíteros do mundo inteiro: “A Ele, que, segundo o poder que opera em nós, é capaz de fazer um bem infinitamente maior do que tudo quanto podemos pedir ou conceber: a Ele a glória, na Igreja e em Cristo Jesus” (Ef 3,20-21).

67 Cf. Pontifical Romano, De Ordinatione Presbyterorum.

68 Cf. Ef 3,9.

69 Cf. Col. 3,3

Promulgação

Todo o conjunto e cada um dos pontos que foram enunciados neste Decreto agradaram aos Padres do Sacrossanto Concílio.

E Nós, pela Autoridade Apostólica por Cristo a Nós confiada, juntamente com os Veneráveis Padres, no Espírito Santo as aprovamos, decretamos e estatuímos. Ainda ordenamos que o que foi assim determinado em Concílio seja promulgado para a glória de Deus.

Roma, junto de São Pedro, no dia 7 de dezembro de 1965.

Eu Paulo, Bispo da Igreja Católica.

Seguem as assinaturas dos Padres Conciliares