A vocação dos presbíteros

A 42ª assembléia da CNBB, reunida em Itaici de 21 a 30 de abril, tem como central Vida e Ministério dos Presbíteros. Uma série de reflexões, de palestras de cunho teológico ou de aspectos práticos, depoimentos, estudos em grupos, exposição de pesquisa realizada entre presbíteros têm sido componentes de um amplo estudo através do qual o episcopado brasileiro quer refletir sobre seu relacionamento com os seus mais próximos auxiliares que são os padres e ajudá-los na vivência plena de sua vocação, desempenhando sempre com o maior ardor o seu ministério pastoral. O moto principal, portanto, não é propriamente a ação pastoral do presbítero, mas a sua pessoa, o seu lado humano, sua realização pessoal. Assim busca-se estudar, sobretudo seis aspectos da vida dos presbíteros, a saber, a espiritualidade presbiteral, a fraternidade no presbitério, a realização afetiva do presbítero, os problemas comportamentais mais sérios, o presbítero frente aos problemas sociais, e os modelos de presbíteros hoje.

    Proponho aqui, a partir daquilo que se está refletindo na Assembléia, de onde escrevo este artigo, algumas considerações sobre a espiritualidade presbiteral, por ser básica para a vivência e a realização pessoal daquele que se consagra a Deus a serviço de sua Igreja.

    Quando se fala de espiritualidade presbiteral, é necessário entender o termo como um modus vivendi centrado na pessoa de Jesus Cristo, por uma adesão amoroso, com qual o presbítero vai procurando se identificar em sua vivência pessoal, sua relação com Deus, com o próximo, consigo mesmo e com a natureza. Esta identificação com Cristo tem um sentido profundamente trinitário, pois a ação do presbítero, pela sua própria natureza, é comunitária, reveladora do amor do Pai e da ação perene do Espírito. Na vida do presbítero a Trindade se revela também no exército da paternidade, da filiação e amorização.

    O que move a espiritualidade do presbítero é sua consciência vocacional de ter sido escolhido pelo Senhor e chamado pela Igreja para ser consagrado, pela Ordenação Sacerdotal, ao serviço de Deus e dos irmãos concretamente presentes em alguma comunidade, parcela integrante da Igreja Particular. Neste sentido a espiritualidade presbiteral não seria algo delineado por modelos já pré- estabelecidos, como acontece na vida- religiosa (Ordens e Consagrações), onde há uma forma definida pela figura ou pelo desejo do fundador, mais muito mais se firma na vivência do dia a dia com o Povo de Deus, à imitação de Cristo Bom Pastor. Ela se explica na caridade pastoral, na Sequela Christi, na consciência de que, para exercer o ministério apostólico, dever-se-á perseverar sempre na condição de discípulo do Senhor.

    Componente indispensável para a espiritualidade presbiteral é a oração pessoal, através da qual ele busca a efetiva intimidade com Cristo. Estar com o Senhor todos os dias, com tempo e lugar definidos, se torna a base que dará sentido à oração comunitária, à oração litúrgica e ainda a toda a sua ação pastoral. Sendo homem de Deus e da Igreja, o presbítero centra sua vida espiritual na Eucaristia, fonte e ápice de toda espiritualidade. Assim como a Igreja vive da Eucaristia, pode se afirmar também que o presbítero dela vive e a partir dela delineia toda a sua vida e sua ação pastoral.

Na celebração diária do Ministério Eucarístico, ele busca a sua santidade pessoal e a de seu povo. Na Eucaristia centram-se todos os demais sacramentos que o presbítero preside, através dos quais comunica, in personna Christi, a graça santificadora para os fiéis e para si mesmo, proclamando a Palavra, celebrando o ministério pascal.

    O presbítero reza com Cristo e com a Igreja quando celebra a Liturgia das Horas. Através dela, em espírito de união com os demais presbíteros e com toda a Igreja, ele reza com e pelo o seu povo. Na leitura orante da Bíblia ele entra em comunhão com o Povo de Deus da história, a Igreja do presente e a do futuro. Por isso, a espiritualidade se revelará forte, se o presbítero se alimentar pela oração assídua do ofício litúrgico, à semelhança do Senhor que freqüentava o templo nas orações judaicas das horas.    Lugar de destaque para o presbítero deve ocupar o Ofício das Leituras que alimenta não só o conhecimento e a boa interpretação dos textos bíblicos, como também se torna básico para o aprofundamento da vivência dos princípios do evangelho.

Para vencer o pecado e andar sempre na graça que santifica, o presbítero procura com assiduidade e freqüência o Sacramento da Reconciliação, confessando seus pecados com humildade e confiança a outro sacerdote, e também se oferecendo disponível e regularmente para atender as confissões dos fiéis, fazendo deste momento um elemento de sua espiritualidade pessoal.

    A palavra de Deus é também central na espiritualidade presbiteral, fonte de onde ele sacia a sua sede espiritual, se familiariza com o que Deus ensinou ao seu povo e se fortalece para a sua missão de pastor, profeta e evangelizador.

    O presbítero é um homem para a comunidade. Assim o aspecto missionário é componente indispensável em sua espiritualidade. Ele existe para anunciar a Boa Nova de Cristo e para agir na pessoa dele em favor dos irmãos. Assim sua alegre disponibilidade para ir, para sair, para partir de um lugar para outro, e até além das fronteiras, para realizar o que a Igreja lhe indica, mesmo quando lhe custe sacrifícios pessoais, não poderá faltar à sua vivência.

    A assimilação das Bem-aventuranças, sobretudo no que tange ao desapego das coisas materiais, a vivência de uma pobreza efetiva, de simplicidade de vida, de caridade para com os pobres, de socorro a eles com suas próprias posses, e ainda no exercício de ver o rosto de Cristo no rosto dos sofredores, de olhar o rosto dos sofredores, de olhar o rosto do Senhor no rosto do povo, e o exercício do profetismo em favor dos pequeninos, é parte integrante da espiritualidade presbiteral.

    A espiritualidade do presbítero tem um acentuado caráter mariológico, pois para salvar o mundo, Deus não quis fazê-lo sem participação de Maria. Escolhida e bendita entre todas as mulheres, ela tem lugar privilegiado na história da salvação, na ação da Igreja e, muito particularmente, na vida dos ministros consagrados. A oração diária do Rosário, ou em particular, ou com o povo, ajuda o ministro ordenado, a contemplar o rosto do Senhor com os olhos de Maria, como se expressou o Santo Padre João Paulo II na Exortação Apostólica Rosarium Virginis Mariae. Com Maria o presbítero aprende a ser servo sempre disponível nas mãos do Senhor e a ser instrumento vivo e consciente para que o Pai possa fazer chegar seu Filho, pela obra do Espírito Santo, a todo o seu povo.

    Estando no meio do povo que expressa a sua fé de forma variadíssima na religiosidade popular, a presença e integração do presbítero nestas expressões o ajudarão em sua vivência de fé e darão aos fiéis o sinal de sua pertença a um único povo, evitando a errônea idéia de haver uma religião do povo e outra dos padres, e possibilitando ainda até mesmo a correção de eventuais desvios ou imprecisões.

A espiritualidade é a base sólida para uma autêntica pastoral presbiteral.

(Publicado no Jornal "O Verbo" - órgão informativo da diocese de Jundiaí - nº. 178 )

dom Gil Antônio Moreira - Bispo Diocesano de Jundiaí