Os presbíteros do futuro - e o futuro dos presbíteros

“E nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam, daqueles que são chamados segundo o seu desígnio. Porque os que de antemão ele conheceu, esses também predestinou a serem conformes à imagem do seu Filho” (Rm 8,28 - 29).

 Prever o futuro não é tarefa fácil, particularmente neste nosso tempo. Tudo muda muito rapidamente e de forma imprevisível. Temos presenciado muitíssimas alterações no estilo de vida e prevemos mudanças iminentes nos contextos eclesiais, nacional e Universal (2). A identidade presbiteral está mudando, a própria Igreja está mudando (3).

 Pretendo apelar aqui para a categoria utilizada pelo padre Libânio, quando ele trabalha os “cenários” da Igreja (4). Neste sentido, as condições do futuro já se encontram delineadas no presente pelas forças dominantes que detectamos. Portanto, com o diagnóstico efetuado pela pesquisa sobre o padre feliz5, acrescido do conhecimento da realidade dos presbíteros, que temos acompanhado em inúmeros encontros, reuniões de estudo, cursos, retiros..., é que pretendo fazer uma espécie de prognóstico.

 Antes de mais nada, devemos olhar para o futuro sem medo e com liberdade, no desejo de acolher o novo que se nos apresenta como uma fonte que deve ser orientada para o leito sadio da grande tradição da Igreja. Como disse o Papa João Paulo II na Exortação apostólica pós-sinodal “Pastores dabo vobis”: “Certamente, há uma fisionomia essencial do sacerdote que não muda: o padre de amanhã, não menos que o de hoje, deverá assemelhar-se a Cristo. Quando vivia na Terra, Jesus ofereceu em si mesmo o rosto definitivo do presbítero, realizando um sacerdócio ministerial do qual os apóstolos foram os primeiros a ser investidos: aquele é destinado a perdurar, a reproduzir-se incessantemente em todos os períodos da História. O presbítero do terceiro milênio será, neste sentido, o continuador dos padres que, nos precedentes milênios, animaram a vida da Igreja. [...] Mas é igualmente certo que a vida e o ministério do sacerdote devem se adaptar a cada época e a cada ambiente de vida. De nossa parte, devemos, por isso, procurar abrir-nos, o mais possível, à superior iluminação do Espírito Santo, para descobrir as orientações da sociedade contemporânea, reconhecer as necessidades espirituais mais profundas, determinar as tarefas concretas mais importantes, os métodos pastorais a adotar, e, assim, responder de modo adequado às expectativas humanas” (6).

Padre Edênio, na leitura psicossocial da pesquisa, lança um grande desafio: “Estabelecer uma prática evangélica que respeite as aspirações e necessidades legítimas dos presbíteros, sem fazer concessões quanto ao que é irrenunciável no testemunho que eles, por sua função na Igreja, precisam dar ao mundo”. Em contrapartida, temos as demandas do próprio povo de Deus que sente a necessidade deste ministério cada vez mais escasso em seu meio. Cada vez mais os presbíteros são em número insuficiente, não acompanham o crescimento populacional e as “necessidades” religiosas se diversificam.

 

 A Igreja deve, com urgência, tratar do ministério dos presbíteros no conjunto das questões que implicam o bispo, o presbitério e o inteiro povo de Deus, na variedade dos seus carismas, vocações e ministérios, tendo como base de toda a sua reflexão a fidelidade criativa a Jesus e à missão que Ele nos confiou.

O próprio padre Edênio, na introdução à pesquisa, apresenta três aspectos que nos permitem delinear um “cenário” que se constrói das aspirações presentes na vida dos presbíteros.

O primeiro aspecto é a preocupação com a subjetividade e a realização pessoal, sem deixar de alinhavar estas aspirações com os valores e exigências de uma vocação específica a serviço de Deus e de seu povo: a renúncia, o altruísmo, a espiritualidade, a consciência ética, a fraternidade, a co-responsabilidade, a colegialidade, a pertença e adesão à Igreja, a motivação e o apreço ao trabalho pastoral. Os presbíteros do futuro demandam uma atenção especial à qualidade de vida e ao grau elevado de realização no ministério.

O segundo aspecto demarca alguns campos que se tornaram um entrave à realização pessoal: a realização afetivo-sexual, a espiritualidade e a colaboração e convivência no presbitério (incluindo a pessoa do Bispo). Aqui o cenário se revela mais pelos seus bastidores, pelas ausências e aspirações presentes na vida dos nossos presbíteros. Não pode faltar uma atenção especial, com relação ao futuro, a estes três importantes campos. Eles são nevrálgicos para a realização dos futuros presbíteros.

O terceiro aspecto identificado pela pesquisa é traduzido pela afirmação do VIII Encontro Nacional de Presbíteros: “como se poderia pensar, no futuro, uma solução mais adequada – humana e teologicamente – da relação entre a realização pessoal do presbítero e seu ministério?” (7).

Aqui se definem três aspectos de um cenário que se impõe a nós e que exige muita atenção e sensibilidade.

 Um outro aspecto revelador da mesma pesquisa poderá trazer sérias conseqüências para o futuro: aquilo que se define como a “adultescência”. Esta situação imporá condições para se elevar o limite mínimo da idade para a ordenação sacerdotal.

Não podemos nos esquecer, também, dos questionamentos que a sociedade faz à pessoa e ao ministério dos presbíteros. Aqui estamos num campo vasto e muito complexo. Os presbíteros do futuro não podem deixar de se questionar diante da problemática levantada pela modernidade. Ela atinge a própria identidade dos presbíteros, pois esta já não se “forma” pela influência das “Instituições”, mas tem sido construída mais em base às práticas que deixam de lado imagens e definições institucionais. Na construção prática da identidade, a subjetividade (1º aspecto) faz um “entrecruzamento” de interpretações face aos desafios da realidade. Os presbíteros do futuro terão que ter uma maior capacidade ao diálogo e saber equacionar os desafios com as exigências de uma opção livre e madura.

Um empecilho para o surgimento do novo está na dificuldade de superar alguns modelos que foram sendo criados pela influência de muitos meios e que dão respostas pouco eclesiais ou evasivas aos problemas de nossa época. Eles foram bem caracterizados pelo padre Antoniazzi na palestra que conferiu em recente Assembléia da OSIB8. Somente acrescentaria àquele elenco – padres-pastores, midiáticos-carismáticos, tradicionais, profissionais – a figura dos presbíteros ordenados para os Movimentos. Estes modelos revelam uma busca meio que desesperada para enfrentar o abalo provocado pela modernidade, mas eles têm apresentado sérios riscos de perda do sentido eclesial do ministério ordenado. Apresentam, na prática, uma fundamentação teológica muito superficial e sujeita a sérios questionamentos do ponto de vista teológico-pastoral.

Além disso, faz-se necessário recolocar no centro da vida presbiteral e de todo o presbitério a “alma pastoral” que parece ter se enfraquecido nestes últimos anos. Quem de nós não reconhece a urgência de se provocar um reencantamento com a missão? Nota-se uma certa desmotivação generalizada. É preciso criar um novo “élan” ou um “novo ardor” no coração de nossos presbíteros e de toda a Igreja.

É de se perguntar: na prática eclesial não existiriam outros elementos que apontariam para o futuro do ministério presbiteral? Quem, hoje, nas práticas eclesiais, inaugura o amanhã do ministério presbiteral? Que futuro podemos vislumbrar para os presbíteros? É possível pensar nos presbíteros do futuro sem pensar em formas diferentes de estruturação da comunidade cristã? Os presbíteros de movimentos, midiáticos não caem do céu e nem vêm do inferno. Estão numa sociedade concreta da qual, até certo ponto, são fruto. Eles não estariam nos propondo um questionamento mais radical sobre as formas de presença e atuação da Igreja no mundo e, assim, formas diferentes de estruturação da comunidade cristã? Sob esse aspecto, esse “tipo” de presbítero não é o problema, mas sintoma. Eles estão se tornando um modelo eclesial para os leigos e para os seminaristas.

A modo de indicações:

a) Os futuros presbíteros deverão viver um ministério voltado para a Igreja local, presidida pelo bispo, e a partir da compreensão da Igreja no seu conjunto, valorizando a co-responsabilidade de todos. Um ministério visto no interior e a serviço da Igreja em missão, valorizando a diversidade dos ministérios (diaconal e laicais) e a emergência dos cristãos leigos e leigas também nos encargos eclesiais;

b) Espera-se um ministério mais sinodal, tendo como referência a inteira comunidade eclesial. Um ministério vivido em correlação com os Conselhos e as Assembléias (estruturas participativas que promovem verdadeira comunhão eclesial). Os presbíteros serão chamados a viver uma modalidade comunitária no exercício de seu ministério;

c) Um ministério que será chamado a ser o animador da comunidade, associado a um grupo de colaboradores que, com ele, coordenarão a pastoral. Presbíteros, portanto, que sabem condividir a responsabilidade pastoral com o apoio de um grupo qualificado de animação pastoral. O presbítero presidirá a comunhão dos irmãos e irmãs abandonando uma prática monopolizante do ministério;

d) Necessitaremos de presbíteros com uma formação tal que os possibilite compreender a sua identidade e missão a partir do enfoque teológico da adesão a Cristo, ao povo de Deus e ao Bispo e seu presbitério. Igualmente o capacite para se situar em meio aos desafios do mundo. A complexidade da vida moderna atinge diretamente as formas de religiosidade e o presbítero se encontra despreparado para responder de modo adequado;

e) Há que se forjar um presbitério com profunda sensibilidade às situações onde o clamor dos pobres soa mais intensivamente e onde os presbíteros assumam, com a caridade de Cristo, a dor dos sofrimentos humanos como se fosse a sua própria dor (9);

f) Um ministério presbiteral arraigado numa espiritualidade ancorada na caridade pastoral. Um verdadeiro místico capaz de conduzir as pessoas e as comunidades ao aprofundamento da experiência de Deus. Um homem que expresse a própria vivência da sua fé e transmita um testemunho pessoal;

g) Um presbítero mais amadurecido em idade para dar conta de ser um homem de relação para organizar o diálogo, estabelecer relacionamentos e realizar uma comunicação adequada aos novos tempos;

h) Não podemos deixar de lado a insegurança dos presbíteros com relação ao futuro. Há muitas inseguranças no campo da afetividade, da saúde, da aposentadoria, etc. O problema precisa ser enfrentado em seus vários níveis.

Talvez tenhamos que ter presente a recomendação do profeta Jeremias (Jer 18, 1-10) de descer à casa do oleiro e aprender dele o jeito de Deus trabalhar na história o seu projeto a respeito de cada um de nós e da pessoa do presbítero. Qual é o vaso que Deus quer fazer hoje e no futuro da pessoa e do ministério dos presbíteros que provocaria reconhecimento e cumprimento de Seu desígnio?

Tudo deverá começar pela formação inicial dos futuros presbíteros e atingir a formação permanente dos atuais.

padre  Paulo  Crozera - Arquidiocese de Campinas

1. Sobre este assunto cf. a reflexão de A. BORRAS, “I preti fra sacramento e pratica”, in Il Regno-documenti, 3/2002, p. 120-128.

2. No contexto nacional temos um  grande número de Bispos que já atingiram ou estão para atingir a idade dos 75 anos (Segundo o Diretório Litúrgico de 2003, no total de 428 Bispos, temos 187 na faixa de 70 anos – 43,69% e 130 na faixa dos 75 anos ou mais – 30%). No contexto da Igreja Universal a idade do Papa e seu estado de saúde determinam, de forma natural, uma mudança inevitável.

3. Cf. L. BRESSAN, “Preti di quale chiesa, preti per quale chiesa. Mutamenti di funzione, mutamenti di identità nella figura presbiterale odierna”, in Scuola Cattolica 130 (2002), p. 507-538.

4. Cf. J. B. LIBÂNIO, Cenários de Igreja, S. Paulo, Ed. Loyola, 1999, p. 12-13.

5. Cf. CNBB/ CNP, sob a organização de Pe. Edênio VALLE, SVD, Padre, você é feliz? Uma sondagem psicossocial sobre a realização pessoal dos presbíteros do Brasil, Brasília, 2003.

6. PdV, 5.

7. Comissão Nacional de Presbíteros, Presbíteros do Brasil construindo história, S. Paulo, Ed. Paulus, 2001, p. 429.

8. Cf. A. ANTONIAZZI, “A história da OSIB e os desafios atuais da formação”, palestra proferida na 13ª Assembléia da OSIB, Belo Horizonte, 28 de janeiro de 2003.

9. Cf. GS,1.