PERFIL DO PRESBÍTERO BRASILEIRO

Perfil do presbítero brasileiro - maio de 2004

Identificação

Segundo os dados do Censo anual da Igreja Católica no Brasil - CERIS, temos um contingente presbiteral de 16.634, sendo 9.793 integrantes do clero diocesano e 6.841 do clero religioso. Em estudo recente sobre a composição do contingente presbiteral no Brasil, Ruiz (2002) indica um aumento da participação dos padres do clero secular no período de 40 anos, entre 1960 a 2000, que passou de 41,5% do total para 54,1%. Na presente pesquisa, a idade média dos presbíteros brasileiros é de 51 anos, sendo que o clero diocesano é um pouco mais jovem do que o religioso, tendo respectivamente a idade média de 48 anos e de 56 anos10. Considerando o tempo de ordenação, o clero diocesano é mais jovem, tem em média 18 anos, já, os religiosos possuem 27 anos em média de ordenação. No conjunto, o clero brasileiro possui uma média total de 22 anos de presbiterato. A maioria das vocações sacerdotais são provenientes da zona rural, 56% dos presbíteros, seguida da zona centro urbana que soma 30% delas. É pequeno o índice de presbíteros que nasceram na periferia urbana, somente 13%. Temos um pequeno diferencial na localidade de nascimento entre o clero diocesano e o religioso. Neste último, 61% tem como origem a zona rural e 26% o centro urbano. Entre o clero diocesano, 53% nasceram na zona rural enquanto 33% no centro urbano. Observa-se portanto, que parece haver uma tendência de crescimento de presbíteros seculares provenientes dos municípios caracterizados como centro urbano. Em relação à nacionalidade do clero, temos 84% brasileiros e 15% estrangeiros. Fato este, também verificado no estudo de Ruiz (2002)11 que aponta um crescimento de 21,5% da participação dos brasileiros na formação do clero entre os anos 1960 e 2000, passando nesta época de 59,1% para 80,6% do seu efetivo. Em nossa pesquisa, o índice de brasileiros no clero diocesano é de 92% e o do religioso, 73%. Esse dado também é verificado no estudo supracitado, demonstrando que a participação dos brasileiros (natos ou naturalizados) no clero diocesano foi a que mais aumentou. Para Ruiz (2002), este fato ocorre devido ao trabalho das igrejas locais no aumento "de agentes institucionais próprios" (p.39). É interessante a observação desse autor de que o contingente presbiteral da Igreja no Brasil "vem evoluindo no sentido de se tornar crescentemente secular, predominantemente autóctone e, hoje, tendencialmente mais jovem." (p.42) O clero brasileiro está concentrado em duas regiões brasileiras: sudeste (45%) e sul (25%). A presença do clero nas regiões nordeste (16%) e centro-oeste (9%) é relativamente pequena. A região norte é a que mais sente a ausência do clero, com apenas 3% do seu total. A presença do clero diocesano é maior do que o religioso na região sudeste (respectivamente 47% e 42%) e região nordeste (respectivamente 20% e 11%), em contrapartida, o religioso possui um maior contingente na região sul (30%) do que o diocesano (22%), o mesmo ocorre na região centro-oeste, onde o clero religioso possui 12% e o diocesano 8%.

Opção presbiteral

Os padres foram solicitados a assinalar a principal motivação que os levou à opção sacerdotal, em um rol de 13 opções. A grande maioria assinalou a opção "serviço a Deus e aos irmãos" (58%). Todas as demais opções tiveram índices abaixo de 10%, a única com esse percentual, é a "desordem ou a falta de estrutura familiar". As opções "amor aos pobres" e o "desejo de lutar contra as injustiças sociais" tiveram índices baixos, respectivamente 5% e 2%, o que demonstra que a "opção preferencial pelos pobres" compromisso da Igreja conclamado em Puebla13 (1979) não tem sido força motriz para as vocações. É interessante observar que duas opções não foram escolhidas nem pelo clero diocesano nem pelo religioso, ou seja, "o desejo de viver uma vida santa" e a "possibilidade de ampliar seus conhecimentos". Quase a totalidade do clero (94%) ao avaliar a própria opção, confirmaria sua opção presbiteral. O desejo de mudança de opção foi sinalizado por 4% do clero diocesano que optaria pelo serviço à igreja como leigo (2%), ou como diácono (1%) ou, ainda, pelo casamento (1%); entre o clero religioso todas essas opções receberam indicação de 1% do seu contingente, em cada uma delas.

Espiritualidade

Um traço característico na opção pela vida religiosa é o compromisso com a vivência da espiritualidade que deveria servir de fundamento para a ação evangelizadora. Nas últimas décadas, com o aumento populacional e o crescimento dos desafios pastorais, o risco do ativismo e da sobrecarga de compromissos na vida dos sacerdotes, muitas vezes, têm sido apontadas como obstáculos ao cultivo da espiritualidade. A espiritualidade tem sido considerada como força motriz para 57% do clero, sendo que 34% apontaram a necessidade de ser melhor cultivada. Entre o clero diocesano e o religioso encontramos índices diferenciados quanto a avaliação da vivência da espiritualidade: os dados expressam que enquanto 40% do clero diocesano acredita que a espiritualidade precisa ser melhor cultivada (40%); entre os religiosos, a proporção dos concordam com essa afirmação, cai para 27%. A consideração da espiritualidade como força motriz é mais indicada entre os religiosos (67%) do que entre os diocesanos (52%). As celebrações eucarísticas são consideradas como um dos principais valores que animam a vida espiritual dos padres (67%). Outro valor que os padres consideram importante são as atividades que exercem em seu ministério (56%), assim como o ideal que os motivou para o ingresso ao sacerdócio (46%). As orações, meditações e leituras individuais são assinaladas por 40%. Os três primeiros valores que animam a vida espiritual dos sacerdotes apontados acima são percentualmente semelhantes tanto no clero diocesano quanto no religioso. As diferenças de valoração se encontram no que diz respeito as orações, meditações e leituras individuais que servem como impulso para a vida espiritual dos religiosos (51%) mais do que aos dos diocesanos (34%); as amizades dentro da comunidade paroquial são mais apontadas pelo clero diocesano (22%) do que pelo religioso (14%) assim como o relacionamento com o clero (diocesano, 16% e o religioso, 4%). Já a luta por justiça e igualdade social recebe uma valorização percentualmente semelhante entre os dois cleros (diocesanos e religiosos, 25% e 22% respectivamente). Segundo Lorscheider o presbítero deve ser um "homem de oração: interiorizar a Palavra de Deus dentro do contexto que vive e exerce o seu ministério." De acordo com a pesquisa, a prática da oração é vivenciada por 96% do clero, sendo que 2% dos padres diocesanos não a possuem e, entre os religiosos, 1%. As condições que se tornam mais favoráveis para a prática da oração segundo os presbíteros são as celebrações eucarísticas (74% entre os diocesanos e 72% entre os religiosos), a Liturgia das Horas (51% entre os diocesanos e 46% entre os religiosos), e em momentos comunitários (37% entre os diocesanos e 41% entre os religiosos). A vivência diária da espiritualidade entre os padres está marcada principalmente pela missa (87%), Liturgia das Horas (64%), meditação (48%), leituras de cultivo espiritual (44%), oração do terço (42%) e leitura orante da Palavra de Deus (41%).

Atuação pastoral

Dos padres informantes,

70% estão atuando em pastorais diversas,

22%´estão envolvidos em atividades administrativas,

14% na pregação ou direção espiritual e/ou em atividades missionárias

13% em formação de seminaristas.

A presença dos padres nos movimentos sociais é muito pequena (8%), assim como são poucos os que trabalham como assessores (8%) e/ou estão atuando como professores de colégios e universidades (7%) e/ou na pesquisa teológica (4%).

Encontramos uma maior presença dos diocesanos nas atividades pastorais (76%) do que os religiosos (60%) e em atividades administrativas (25%) enquanto a participação dos religiosos é de 17% nesse tipo de atividade; por outro lado, nas atividades missionárias os religiosos estão em maior número (21%) do que os diocesanos (11%).

Apenas no âmbito eclesial

Dos padres informantes, 66% têm como maior atividade no campo eclesial a atuação paroquial e aproximadamente 15%, indicaram que atuam em diversas atividades eclesiais de maneira igualitária. Poucos são os que atuam em CEB's (5%) e em outros movimentos (1%).

A maioria dos padres diocesanos têm na paróquia sua atividade principal (71%), 11% deles atuam em várias atividades eclesiais de maneira igualitária e, não houve menção de atuação no Movimento de Renovação Carismática e/ou Conferência dos Religiosos do Brasil/Comissão Nacional do Clero.

Entre os religiosos, 58% atuam em paróquia, sendo que 22% informaram que atuam em diversas atividades, tais como movimentos, organismos diocesano, arquidiocesano e regionais de maneira igualitária.

Formação no seminário

A avaliação da formação recebida no seminário foi considerada, de uma maneira geral, como sendo boa nos aspectos humano-afetivo, espiritual, comunitário, intelectual e pastoral e, majoritariamente, insatisfatória no campo técnico-administrativo. Considerando cada campo de formação temos a seguinte avaliação: no humano afetivo, 41% do clero consideram boa a formação recebida e 32% como regular; no espiritual, 57% consideram-na boa e 24%, excelente; no campo comunitário, 51% avaliam a formação como boa e 23% consideram-na regular; no intelectual, 58% a avaliam como boa, sendo que 28% consideram-na excelente; no pastoral, 43% consideram-na boa e 26%, regular; no técnico-administrativo, 45% do clero consideram-na insatisfatória e 31%, regular. De uma maneira geral, o clero diocesano expressou-se mais crítico em relação à formação recebida no seminário do que o religioso. Com exceção para a formação no campo pastoral, onde os religiosos expressaram maior insatisfação do que os diocesanos quando considerado os índices de regular, 33% e insatisfatório 8%. Esses dados indicam uma necessidade de melhorar o programa de formação do clero, principalmente nos seminários diocesanos.

Formação permanente

58% dos padres procuram estar em constante atualização e 40% atualizam-se quando possível. Esta atualização se dá sobretudo através de leitura de jornais e revistas (74%), de leitura de livros (68%), de cursos promovidos pela diocese (48%), jornais televisivos (42%) e conferências e palestras (36%). É relativamente baixo o índice dos que utilizam a Internet como meio de atualização (15%). O dado que sobressai quando se compara os diocesanos e os religiosos, é a participação em cursos promovidos pela diocese: entre os religiosos essa forma de atualização ocorre para 30%, entre os diocesanos o índice é de 60%. Esse dado pode ser justificado pela formação dos religiosos através dos próprios Institutos. Quanto à participação em cursos oferecidos aos presbíteros, aproximadamente 43% afirmaram que esta participação é ocasional e 39% participam sempre. Entre os diocesanos a participação nesses cursos é maior do que entre os religiosos, 47% e 27% respectivamente; por conseguinte, a proporção é inversa, quando se trata de uma freqüência ocasional (53% e 37% respectivamente). Observa-se ainda que são os religiosos os que mais se atualizam através de cursos particulares.

Sustentabilidade

Menos da metade dos entrevistados, 45% dos padres, sentem-se suficientemente amparados em caso de doença, velhice, impedimento ao trabalho e/ou aposentadoria. 31% acreditam estar relativamente amparados. No conjunto, 22% afirmam não possuir garantia suficiente. A avaliação neste aspecto do sentir-se amparado é muito distinta entre o clero diocesano e o religioso. Os religiosos majoritariamente avaliam que estão suficientemente amparados (77%) por suas congregações, apenas 19% deles consideram-se relativamente amparados. Entre os diocesanos, o sentimento de falta de garantia é bem maior, apenas 27% responderam que estão suficientemente amparados, contra 39% que consideram-se relativamente amparados e 34%, sem garantia suficiente. É importante que o tema da sustentabilidade receba uma atenção especial por parte das dioceses, a fim de que se desenvolvam mecanismos que permitam garantir ao seu clero um sentimento de segurança e amparo quanto ao futuro. A sustentação do clero vem basicamente de seu trabalho na paróquia (57%). 13% do clero se sustenta a partir de outras fontes e 10% vive de aposentadoria. Entre o clero diocesano, 69% dos padres se sustentam com recursos provenientes de seu trabalho na paróquia. Entre os religiosos, 37% têm seus proventos do trabalho paroquial e 29% de outras fontes.

Integração psico-afetiva

A integração psico-afetiva não é algo dado à pessoa, mas é sempre uma busca cotidiana de manutenção do equilíbrio a fim de se obter a integridade da identidade. Por sua vez, a identidade é uma construção psicossocial, uma realidade em contínua formação. A pesquisa procurou verificar o nível de realização dos presbíteros como uma das ferramentas que contribuem para pensar a dimensão psico-afetiva. Para a maioria, a experiência do presbiterato é realizadora e cheia de sentido (72%); para 21%, é realizadora em alguns aspectos e para 5% é difícil. Como nosso estudo não é qualitativo, não podemos aprofundar esses dados, mas citamos algumas respostas que os padres  screveram no questionário sobre esse item, embora não tenham sido formuladas questões abertas. Um padre que assinala que sua experiência no presbiterato é difícil, justifica sua resposta: "Por estar sempre submisso, recortado". (diocesano) Outro que opta pela opção realizadora e cheia de sentido, faz a seguinte ressalva: "Mas, às vezes árdua demais..." (diocesano) Cabe notar que na pesquisa realizada por Edênio Valle15 o grau de realização varia de acordo com o tempo de ordenação. Nesse estudo de Valle (2004) o grupo que possui entre 16 a 20 anos de ordenação é o que demonstra um pouco mais reticente quanto ao sentimento de realização. 

Relacionamento interpessoal

A necessidade de manutenção de vínculos de amizade na vida presbiteral tem sido destacada por alguns autores. Cozzens (2001)16 por exemplo, considera que o padre se encontra em perigo se não possui amigos próximos e íntimos (cf. p.52), além de considerar que esta capacidade de manter amizades próximas e sinceras entre homens, mulheres, sacerdotes e leigos, é uma das características de um sacerdote celibatário saudável (cf. p.52s). Os padres, em nosso estudo, afirmam possuir amigos: aproximadamente 44% avaliam que possuem poucos amigos, mas estes são verdadeiros; 41% acreditam que possuem muitos amigos verdadeiros; dados que evidenciam que os padres percebem-se como pessoas que possuem amizades e as valorizam. É o clero religioso que mais afirma possuir muitos amigos verdadeiros (46%). O clero tem uma avaliação muito positiva de si quando questionados sobre suas relações inter-pessoais, 36% dos padres se consideram comunicativos, 35% atenciosos, 26% próximos e afetivos e 24%, espontâneos. Aproximadamente, 20% definem-se como tímidos e 25% como cautelosos nas relações interpessoais, o que revela alguma dificuldade desses padres no convívio; aspecto que merece atenção já que a vivência do sacerdócio é eminentemente relacional. Lisboa (2000)17, numa perspectiva da antropologia teológica afirma que "saber relacionar-se, conviver com os outros, é requisito básico para que se possa ser considerado verdadeiramente humano" (p.66). O relacionamento do clero entre si é considerado por aproximadamente 44% dos informantes como bem integrado e aproximadamente, 41% o considera amigável.

Lazer

A maioria do clero tem o hábito de cultivar tempo para o lazer (83%) sendo que alguns afirmaram que não o cultivam (15%). Estar com os amigos (52%), visitar a família (46%), ler (39%), ouvir música (37%) e praticar esportes (30%) são as principais formas de vivência lúdica dos padres. Entre os padres diocesanos, estar com os amigos (56%) e visitar a família (54%) são as atividades lúdicas mais mencionadas; entre os religiosos também destacam-se o encontro com os amigos (47%) e a leitura (41%). Ir ao teatro, tocar instrumentos e/ou compor e assistir shows musicais ou de dança são atividades lúdicas pouco vivenciadas pelos padres.

Relacionamento com mulheres

A discussão sobre as relações de gênero tem suscitado há algumas décadas vários estudos e reflexões18. O modo como os sacerdotes se relacionam com as mulheres é sempre um tema delicado, porque tem sido associado à sexualidade; também é um tema que a Igreja vem abordando com alguma dificuldade. Neste sentido, falar de relacionamento com as mulheres implica tratar da questão da afetividade e da sexualidade, tema caro no universo sacerdotal pela condição celibatária que a própria opção do presbiterato exige. Alguns autores têm contribuído para o enfrentamento dessa questão. A pesquisa procurou investigar as opiniões dos padres quanto ao relacionamento com as mulheres. Procurou-se avaliar este relacionamento a partir da formulação de algumas afirmações sobre as quais eles deveriam responder se concordavam ou discordavam. 90% do conjunto de informantes concordam que a convivência com as mulheres tem se dado de forma madura e respeitosa. 12% avaliam que a convivência com mulheres tem sido difícil pelo risco do envolvimento afetivo. A possibilidade do envolvimento afetivo com mulheres é considerada remota para 55% dos padres, mas não para 35%. Da mesma forma, 50% dos padres nunca se envolveram afetivamente com uma mulher na condição de presbíteros, porém 41% já viveram este tipo de experiência em algum momento de sua vida presbiteral. 16% declararam que a convivência com as mulheres foi difícil pelo envolvimento afetivo no passado. Não há diferenças relevantes de opiniões entre o clero religioso e o diocesano. Esses dados revelam que o tema do celibato necessita de maior aprofundamento na vida sacerdotal.

Dificuldades pessoais

Quando os padres passam por alguma dificuldade no campo afetivo (crise vocacional, sexualidade, relações interpessoais etc.) recorrem geralmente a um padre amigo (37%) ou a Deus (20%). Há outros que recorrem: ao confessor (8%); a um diretor espiritual (6%); a amigos/as leigos/as (4%), e ao bispo (1%). Alguns padres declararam que nunca passaram por dificuldades no campo afetivo (4%), outros, quando encontram-se em dificuldades, não recorrem a ninguém (5%), assim como não costumam procurar pessoas da família para partilhar seus problemas pessoais.

Celibato

O celibato, condição inerente à opção presbiteral, tem sido alvo de críticas e proposições de revisão, principalmente diante de escândalos sobre pedofilia e abuso sexual, como os que foram divulgados amplamente pela imprensa, na Igreja de Boston/EUA em abril de 2002. Não se pode vincular atos de perversão sexual com a opção pelo celibato; mas antes, esta opção deve resultar numa experiência saudável de vida, sem negar a sexualidade21. Em seu estudo sobre os votos na pós-modernidade, Lisboa (2001) afirma Tenho a mais absoluta convicção de que o atual estilo geral de profissão dos três votos de castidade, pobreza e obediência não diz mais nada para o homem e a mulher dos nossos dias. Por isso é fundamental refundar a maneira de assumir e de viver cotidianamente esses três compromissos. Uma maneira nova que toque aquele ou aquela que foi seriamente afetado pelo fenômeno da pós-modernidade. Um jeito diferente, com um significado antropológico empolgante (cf. VC, 87)." p. 40.

As opiniões dos padres a respeito do celibato, é que ele é importante para a vivência da vocação (48%) e é assumido com serenidade e alegria (41%). No entanto, 42% dos padres - percentual expressivo - concordam que o celibato deveria ser facultativo para o clero diocesano. 14% declararam que o celibato já foi fonte de crises, mas atualmente é bem vivenciado, sendo que 10% afirmam que ele dificulta a vivência da vocação e gera crises pessoais.

A afirmativa de que o celibato é importante para a vivência religiosa teve maior adesão do clero religioso (56%) do que o diocesano (44%). O celibato como fator que dificulta a vivência da vocação e gerador de crise é avalizado por 13% do clero diocesano e, percentualmente quase a metade, pelo religioso, 6%. Com índices próximos (42% e 44%) o clero diocesano e religioso concordam que o celibato deveria ser facultativo para o clero diocesano. A opinião da população metropolitana sobre este tema foi apurada pela pesquisa Desafios do Catolicismo na Cidade. entre os católicos das regiões metropolitanas, 33,1% são a favor do casamento para padres e freiras e 34,5% são contra esta possibilidade, num total de 3.513 pessoas católicas entrevistadas; dados que expressam uma divisão de opinião entre os católicos urbanos quanto ao celibato religioso.

Vivência sacerdotal

Realização pessoal não é algo que possa ser medido por números e índices. Entretanto, foi solicitado aos presbíteros que dessem uma nota para sua realização pessoal no sacerdócio a fim de servir como termômetro à sua vivência pessoal da opção presbiteral. A nota média dada pelo clero foi 8,2, sinalizando uma boa avaliação da vivência pessoal dos presbíteros, ainda que não seja plena. Avaliando a motivação, dedicação e entusiasmo no ministério, 60% do clero sente-se motivado, 32% muito motivado e 5% pouco motivado. As opiniões são semelhantes tanto para o clero religioso quanto para o diocesano.

Homossexualismo

O homossexualismo desde o início da década de 90 deixa de ser considerado como doença mental, por ocasião da revisão e publicação da 10ª edição da Classificação Internacional de Doenças – CID 10 conjuntamente com a Organização Mundial de Saúde/OMS, órgão da ONU (Organização das Nações Unidas). No Brasil, o Conselho Federal de Medicina, desde 1985, não considera mais o homossexualismo como desvio sexual. Na Igreja Católica a prática da homossexualidade é considerada como antinatural e, por este motivo, condenada. Na Declaração do Conselho Permanente da Conferência Episcopal Francesa de 1998, afirma que Não há equivalência entre a relação de duas pessoas de mesmo sexo e a formada por um homem e uma mulher. Só esta última pode ser qualificada como de casal, porque implica a diferença sexual na dimensão conjugal, na capacidade do exercício da paternidade e da maternidade. A homossexualidade, é evidente, não pode representar este conjunto simbólico. Em relação a este tema a pesquisa apresentou cinco afirmativas sobre as quais os padres foram solicitados a opinar. Temos então as seguintes opiniões: 1. 68% dos padres concordam que a homossexualidade é uma patologia que precisa ser tratada; no entanto, 24% discordaram desta afirmativa; 2. 63% discordam de que a homossexualidade é uma forma aceitável de vivenciar a própria sexualidade, sendo que, 23% concordam com esta afirmação;
3. 69% concordam que é uma orientação sexual que deveria ser vivida na castidade, 17%, ao contrário, discordam; 4. 44% discordam que a homossexualidade é um sintoma claro de falha na formação familiar, quase o mesmo índice, 42% concordam com essa afirmativa; 5. 62% discordam de que a homossexualidade é uma negação da vontade de Deus para o ser humano, 19% concordam com esta premissa. Analisando a partir destes posicionamentos podemos afirmar que os padres, de uma maneira geral, avaliam a homossexualidade como patologia que precisa de tratamento, discordam que seja aceita como uma forma de vivência da sexualidade, e concordam que deva ser vivida na castidade. As opiniões se dividem quanto a consideração de ser a homossexualidade um sintoma de falha na formação familiar. As demais opiniões se assemelham tanto para o clero religioso quanto para o diocesano. A opinião dos católicos metropolitanos é de concordância com o posicionamento do clero em relação à homossexualidade: 60,6% são contrários e 10% são a favor26. Dados que expressam um posicionamento que está em descompasso com o debate da sociedade quanto à orientação sexual.

Visão e relacionamento com leigos

Desde que o Concílio Vaticano II (1962) proclamou que "toda a Igreja é missionária e a obra da evangelização é um dever fundamental do povo de Deus27", a consciência da importância do papel do laicato na Igreja tem crescido e, segundo o Documento 62 da CNBB – Missão e Ministérios dos Cristãos Leigos e Leigas, cresce também a reflexão sobre a validade permanente deste mandato missionário nas Conferências Episcopais Latino-Americanas de Puebla (1979) e Santo Domingo (1992) e na Encíclica Redemptoris Missio (1990). Nestes quarenta anos de Vaticano II, os leigos vêm ampliando sua participação na Igreja através dos movimentos e pastorais, assumindo alguns ministérios, na sua própria articulação (Conferência Nacional dos Leigos – CNL), e na formação teológica. No entanto, é necessário avançar no debate sobre a participação dos leigos bem como nas práticas eclesiais que formulem modos de participação mais autônomos. Na pesquisa, solicitamos aos padres que avaliassem sua relação com o laicato e, de uma maneira geral, esta avaliação é muito positiva; 52% a consideram próxima e respeitosa, 33% solidária na missão. Para 5%, a relação com os leigos se dá de forma distante, porém fraterna, e para 4%, formal na relação pastor-comunidade. Num rol de 7 opções, os padres foram solicitados a escolher 3 (três) que melhor definissem sua visão sobre a pessoa do leigo/a. Temos as seguintes opiniões:

1. 75% consideram que é necessário oferecer formação ao leigos;

2. 51% consideram que "há muito discurso sobre o protagonismo dos leigos, mas os leigos ainda são dependentes do padre";

3. 43% concordam que a "maioria do clero procura estimular e valorizar o trabalho do leigo/a";

4. 29% consideram que "é uma relação onde há co-responsabilidade com o trabalho pastoral";

5. 24% acreditam que "os leigos estão sendo cada vez mais protagonistas de sua ação eclesial";

6. 24%, consideram que a relação com os leigos "é ainda uma relação onde ocorrem muitas disputas";

7. 16% indicam que a "maioria do clero não procura estimular e valorizar o trabalho do leigo/a".

Podemos analisar a partir deste quadro de opiniões que há uma visão predominante de que os leigos precisam de formação, que seu protagonismo ainda é mais discursivo do que real, ainda existindo uma relação de dependência do clero. Em nível nacional, poucas são as atividades na Igreja que são predominantemente e exclusivamente realizadas por leigos/as como há as que são realizadas por sacerdotes. Neste sentido, a pesquisa revela que para 59% dos entrevistados, embora os leigos assumam a maioria das tarefas, os padres sempre colaboram. Segundo 18% dos informantes, são os padres que assumem a maioria das atividades, sendo os leigos/as, colaboradores. Se por um lado, estes dados podem revelar uma integração e participação colaborativa no ministério, por outro, em vista dos dados já mencionados sobre a visão sobre o laicato, pode ser sinal de pouca confiança na condução das atividades pelos leigos. As atividades que, na realidade de inserção dos padres, são realizadas exclusivamente por leigos/as são: as celebrações da Palavra (58%); as atividades sociais29 (45%); a liderança de movimentos espirituais (42%); a liderança pastoral (41%); a organização de campanhas comunitárias e mutirões (38%); a participação em associações locais ou centros comunitários (37%); no Conselho Paroquial (37%); em atividade de formação (30%). 

Relação com a diocese

Para 53% do presbiterato o relacionamento com o bispo de sua diocese é próximo, sendo que, aproximadamente, 34% o consideram ocasional. Para 10% do clero, a relação com o bispo é considerada distante. Entre os padres diocesanos, pelo vínculo próprio com a diocese, observou-se uma maior proximidade com o bispo do que entre os do clero religioso (61% e 41% respectivamente). Avaliando a linha pastoral adotada na diocese em que os presbíteros estão inseridos temos as seguintes opiniões: 38% avaliam que ela atende aos anseios do povo e 32% acreditam que ela é provocadora e suscita engajamento. 31% dos presbíteros afirmaram que a linha pastoral é com alguma freqüência revista e atualizada e 22% afirmaram que no momento atual está sendo revista. Já para 18%, ela é formal e não provoca engajamento e para 12% dos padres, a linha pastoral diocesana não atende aos anseios do povo. Olhando cuidadosamente as respostas, não encontramos uma maioria que acredite que a linha pastoral de sua diocese atenda aos anseios do povo. Estes dados provocam a reflexão sobre a missão mesma da igreja neste mundo cada vez mais marcado pela pluralidade e exclusão.

Considerações finais

Como vimos, a pesquisa traz importantes luzes para a compreensão da situação dos presbíteros na Igreja católica do Brasil. Não se pode, entretanto, cair no risco de realizar uma leitura dos extremos a partir dos altos ou baixos índices, mas aprofundar a análise sobre as tendências manifestas nos números "do meio", ou seja, nas respostas que, embora não sendo majoritárias, evidenciam realidades que podem contradizer, confirmar, ou claramente indicar novas percepções sobre a realidade presbiteral. Vale dizer que a resistência de muitos em responder à pesquisa, como observou-se no capítulo metodológico, já é por si só reveladora. O quê os padres não querem dizer? Ou ainda, por quê não querem dizer? Um primeiro "problema" que identificamos a partir de escritos em alguns questionários é o da identificação. Alguns padres que atenderam às várias solicitações do CERIS de resposta ao questionário, o fizeram com ressalvas evitando preencher devidamente os campos de data de nascimento e ordenação. O que se pode extrair desse dado? A não resposta em muitos casos vinha justificada pela discordância com a pesquisa em si, ou da formulação de algumas questões; enfim os padres encontraram várias justificativas para não dizer. Não haveria aqui baixa credibilidade na proposta de conhecimento do corpo presbiteral para que se avance na reflexão sobre o mesmo; ou a não identificação estaria relacionada a algum tipo de receio em manifestar a própria opinião diante das autoridades eclesiais? Faremos aqui alguns comentários com o intuito de contribuir para posterior aprofundamento. A experiência do presbiterato é realizadora para a maioria dos entrevistados, mas é considerada difícil para 5%, como vimos no texto acima. Observando nos dois estratos da pesquisa (religiosos e diocesanos), são os diocesanos que indicam maior índice de dificuldade (7% contra 3% dos religiosos que marcaram esta opção). Neste sentido, vale a pena aprofundar sobre quais aspectos reside ou em que consiste a dificuldade da vivência presbiteral para os diocesanos. No conjunto dos padres entrevistados esta formação humano afetiva é considerada insatisfatória para aproximadamente 17%. Mais uma vez fica evidente que a dimensão humana do presbítero merece atenção e reflexão que produza mudanças efetivas. No campo pastoral 60% do clero sentem-se bem formados ou preparados para o enfrentamento dos desafios pastorais e 10% deles declararam que a formação nesse campo é insatisfatória. Vimos que os padres estão atuando em regiões que apresentam muitos desafios à Igreja. São áreas de grande concentração populacional e que trazem consigo todas as contradições do urbano. Trabalhar as dimensões da alteridade (valorização do outro em suas diferenças), do trabalho conjunto e co-responsável com os leigos, sem fortalecer a idéia de centralidade da figura do sacerdote, nos parece fundamental. Trata-se de demonstrar abertura e ser de fato aberto às mudanças sócio-culturais, onde a dimensão religiosa é apenas mais uma na mentalidade do homem e da mulher modernos. Vale a pena observar detidamente os dados sobre as relações de gênero ou mais especificamente sobre a experiência dos padres no relacionamento com as mulheres. Um aspecto que apresenta índice baixo, mas não menos preocupante do ponto de vista da missão e vocação presbiteral, é que para aproximadamente 5% dos presbíteros a convivência com mulheres não tem se dado de forma madura e respeitosa. Além disso, 35% do conjunto de sacerdotes não considera remota a possibilidade de envolver-se afetivamente com uma mulher e aqui, não se faz a distinção entre padres diocesanos ou religiosos. Este dado pode ser considerado natural sabendo-se que o sacerdote é um homem. Contudo, a confirmação de que eles não consideram remota a possibilidade de envolvimento afetivo com mulheres confirma a importância de se trabalhar mais detidamente esse aspecto na formação (consistência e clareza da opção celibatária), pois o presbítero é um homem em constante relação. Torna-se ainda,mais premente debruçar-se sobre este tema quando a pesquisa aponta que 41% dos padres já se envolveram afetivamente com uma mulher em algum momento de sua vida presbiteral. Sobre o homossexualismo, além dos dados já vistos queremos chamar a atenção para o fato de que 17% do clero não concordam com a idéia de que o homossexualismo seja vivido na castidade e 23% acreditam que é uma forma aceitável de vivência da sexualidade. Aqui as opiniões de diocesanos e religiosos se assemelham e colocam pra Igreja um novo desafio diante de um tema controverso para a sociedade em geral e de parecer definitivo do ponto de vista da teologia moral. A opinião desta parcela do clero revela a penetração da mentalidade pós-moderna no corpo clerical que parece apostar na idéia de que os indivíduos devem escolher a própria orientação sexual baseados em critérios subjetivos. Suas opiniões revelam a existência de novos contrastes entre a norma e a vivência cotidiana, pois os sujeitos em condição de modernidade avançada "não aceitam passivamente condições externas de ação", mas tendem a realizar o chamado processo reflexivo já indicado pelos teóricos da modernidade. Temos aqui novos impasses e novas questões. Em relação à motivação pessoal no ministério sacerdotal os padres demonstraram estar bastante motivados. Esse dado revela que a Igreja conta com um contingente presbiteral que procura "vestir a camisa" da instituição embora se manifeste de modo mais crítico em relação a algumas situações. Assim, compreende-se que é esse mesmo contingente que poderá, a partir de sua vivência e de suas questões, contribuir para o amadurecimento da reflexão sobre o papel do presbítero na sociedade brasileira.