A  TIARA  DO  PAPA

TIARA É UMA COROA ESPECIAL

Foi usada a primeira vez pelo papa Clemente V, em 1314. São três coroas superpostas. Significa o poder supremo do papa, acima dos fiéis, dos sacerdotes e dos reis. Este símbolo não é apenas um enfeite. Fundamenta-se numa realidade. Em dois mil anos de história da Igreja, esse poder se manifestou claramente, para o bem e para o mal do Cristianismo.

É importante conhecer esse aspecto do pode excepcional exercido pelos papas para se compreender o Conclave e as disputas ferrenhas que cercaram muitas vezes sua eleição. Ninguém faz guerra por causa de uma barata morta. O domínio do mundo em todas as suas áreas mais importantes, econômica, social, política, religiosa, sempre foi uma realidade na história dos papas.

Apresentamos abaixo uma visão abreviada desse poder, desde os inícios da Igreja

CONSTANTINO E A LIBERDADE RELIGIOSA

Com o edito de Milão, 313, o imperador Constantino deu liberdade à Igreja, depois de três séculos de perseguição por parte do Império Romano. Cresce desde então seu esplendor externo e aumentam sempre mais as riquezas da Santa Sé.

INVASÕES BÁRBARAS

O prestígio dos papas aparece de modo bem visível na época das invasões germânicas. Os prefeitos de Roma, os cônsules, patrícios e o Senado perdiam sempre mais a autoridade. O papa se torna o verdadeiro senhor de Roma.

Os invasores semeavam a ruína e a destruição na Itália: os Visigodos, sob Alarico, invadem Roma, 410. Os Hunos, sob Átila, tomam o norte da Itália, 445. Os Vândalos, chefiados por Genserico, entram em Roma, 455. Os Hérulos, sob o comando de Odoacro, depõem o último imperador romano, 476. É fundado o reino dos Ostrogodos, que dominam até o século VI. Os Longobardos invadem a Itália do norte e fundam ali um reino com sede en Pavia, 468.

O PAPA DEFENDE ROMA E A ITÁLIA

O papa Leão I enfrenta Átila, 452. Os Hunos entram na Itãlia ameaçando devastação total. O papa dirige-se ao chefe bárbaro e pede pela cidade. O mesmo papa se defronta com Genserico, 455. Implora pela vida dos romano. Os Vândalos moderam seu furor. Abstêm-se de incendiar a cidade e maltratar os habitantes. O papa Gelásio tem o mesmo gesto com Teodorico, 492. É fácil imaginar a gratidão dos romanos pelos papas. Sua autoridade cresce sempre mais.

AS RIQUEZAS DA IGREJA

O imperador Constantino, convertido ao Cristianismo, tinha restituído os bens da Igreja, roubados na época das perseguições. A liberdade religiosa fez aumentar os bens temporais da Igreja, principalmente no tempo dos papas Silvestre, 314 - 335, Marcos, 336, Dâmaso, 366 - 84, Inocêncio, 401-17, Sisto III, 432 - 40.

Príncipes e imperadores faziam contínuas doações à Santa Sé, em Roma, na Itália central e meridional, e também fora da Itália, na Salmácia, Numídia, Mauritânia, Egito.

Esses bens consistiam em edifícios, armazens para guardar trigo, banhos públicos, fornos, heranças. Os donativos eram frequentes, e se estendem por um período de 300 anos, desde o século IV ao século VI. Ricos proprietários cedem à Santa Sé seus direitos de taxação, ou seja, o pagamento de pedágio das mercadorias que entravam na cidade de Roma.

Essas doações, espalhadas por toda a parte, foram catalogadas num documento chamado ·polypticus·. Ficavam entregues aos cuidados de gerentes e administradores regionais. O auge dessa administração aconteceu sob o papa Gregório Magno, 590-604.

NOMES DOS BENS DA IGREJA

Chamavam a essas doações com diversos nomes:

- Patrimônio de São Pedro

- Patrimônios regionais

- Patrimônio do Tibre

- Patrimônio da Calábria

- Patrimônio das Apúlias

- Patrimônio Tusculano.

Esses patrimônios eram divididos em massas ou prédium, isto é, aglomerados de fundos e propriedades territoriais. Eram áreas tão extensas que se transformavam em dioceses. Só a região da Sicília, no sul da Itália, tinha 400 propriedades desse tipo.

ADMINISTRADORES

Os encarregados da administração recebiam diversos nomes: o reitor era escolhido entre os clérigos e escrivães de Roma, sendo solenemente nomeado e empossado pelo papa na Basílica de São Pedro, como se fosse uma função religiosa. Era o gerente do papa na administração do patrimônio. Tinha a função de juiz nos litígios.

Para auxiliá-lo havia oficiais chamados Acionários. Estes visitavam anualmente massas e recolhiam as rendas. As rendas serviam para custear as necessidades do patrimônio: pagamento de dívidas, salário dos operários, e obras sociais do patrimônio.

O restante das rendas era enviado a Roma, sede da administração central de todo o patrimônio. Ali o próprio papa presidia à administração, auxiliado por arcários, sacelários, escrivães, notários, defensores, juízes, conselheiros.

A administração regional era confiada pelo Reitor a alguma pessoa rica ou influente do lugar. Este administrava uma ou mais massas e fundos. Chamava-se ·condutor· porque conduzia as rendas para a Igreja. Estavam sob sua jurisdição os camponeses, agricultores, servos e libertos que cultivavam os campos. Todos eles formavam a família de São Pedro ou da Igreja Romana. Imagine o poder concentrado nas mãos do papa, responsável por esse exército de funcionários.

AS RENDAS DO PATRIMÔNIO DE SÃO PEDRO

A administração era bem feita, dando origem a grandes rendas. Por vontade expressa dos papas eram elas aplicadas em beneficio dos necessitados. O próprio Patrimônio de São Pedro tinha o nome de Res páuperum (propriedade dos pobres), ou Utílitas páuperum (serviço dos pobres). O papa Gregório dava a si mesmo o apelido de Dispensátor in rébus páuperum (ministro dos pobres).

Em Roma e na Itália não faltavam pobres. Esta situação era consequência das guerras, invasões, fome, peste. Havia também os refugiados, viúvas, órfãos, parentes de prisioneiros dos Longobardos que afluíam a Roma. Recebiam alimentação, roupa e mesmo dinheiro para libertar os parentes presos.

A CAIXA DA IGREJA

O papa Gregório afirmava em carta a um administrador: Não queremos sujar a caixa da Igreja com lucros vergonhosos. O lucro pelo lucro era uma ignomínia para esse papa santo.

No tempo de Gregório, todo dia seis carroções percorriam as ruas de Roma com remédios e alimentos. As sete regiões diaconais de Roma eram centros de assistência pública.

Os bispos tinham ordem de distribuir a quarta parte das rendas aos pobres. O papa enviava cartas aos ricos e pessoas influentes para colaborarem nessa obra. Procurou abrigo em Roma para três mil monjas que tinham fugido dos Longobardos. Estavam expostas ao relento e ao frio do inverno.

Nas Cartas aos reitores o papa enumera o que deve ser distribuído aos pobres:

- moedas de ouro

- ânforas de vinho

- latões de óleo

- vestes

- ovos - galinhas - cavalos - burros.

O papa conhecia os indigentes pelo nome. No palácio do Latrão conservava-se o Registro dos nomes das pessoas auxiliadas pelo papa.

Essa atividade social estendia-se também a regiões fora da Itália. A Igreja pagava até os tributos que o imperador devia pagar aos Longobardos e não pagava. Gregório dava ironicamente a si mesmo o título de ·sacristão do imperador na cidade de Roma.·

Fato inédito em todos os documentos pontifícios na História da Igreja. O papa em seus escritos e cartas mistura céu e terra: fala de Deus, dos anjos, da virtude, do paraíso, dos santos, e também fala de - ovos - galinhas - cavalos - burros - latões de óleo.

PRESTÍGIO DO PAPA

Essa atividade generosa em favor do bem comum fazia aumentar necessariamente o poder e o prestígio do papa na vida pública numa época em que a autoridade imperial decrescia na Itália.

No tempo da dominação dos Godos, sob Teodorico e Alarico, o papa tinha tamanha autoridade, que o prefeito de Roma, Cassiodoro, 533, numa carta, convida o papa João II a assumir junto com ele a direção da cidade: Não me deixes sozinho no cuidado da cidade. Ela está mais segura sob a tua proteção.

No século VI os legados papais exerciam o cargo de Gerentes administrativos no Exarcado de Ravena, representando o imperador de Constantinopla.

O ponto mais alto da autoridade pontifícia em questões temporais aconteceu em Roma no tempo de Gregório Magno, sem que oficialmente ele assumisse o poder civil. Agia como mediador entre o Exarca de Ravena e os Longobardos. Percebendo a incapacidade dos imperdores do Oriente de resistir e vencer os invasores, trabalhava em negociações de paz , mesmo contra a vontade da corte. Essas negociações eram feitas oralmente, ou por cartas com todos os chefes civis e militares da Itália que recorriam a ele.

Quando os Longobardos invadiam as cidades, os chefes, representantes do imperador, fugiam, abandonando os cidadãos à sua sorte. O papa assumia sua defesa, enviando para lá seus chefes militares.

PAPA, PRÍNCIPE TEMPORAL

O papa já agia de fato como príncipe temporal, embora sem título oficial. Gregório somente se apelidava Sérvus servórum Dei (o servo dos servos de Deus). Foi o primeiro papa a se chamar assim. Desde então, os papas costumam usar esse título nas suas assinaturas.

Em seu sepulcro, os cidadãos romanos mandaram gravar estas palavras: consul Dei (o cônsul de Deus). Elas resumem com eloqüência sua obra espiritual e temporal. Já não havia cônsules romanos. O Senado foi nomeado pela última vez no ano 603, no tempo de Gregório. Nesta decadência total do poder civil restava em Roma apenas uma autoridade, a do papa.

O  VERDADEIRO  CHEFE  DE  ROMA

Os imperadores bizantinos, além de não defenderem a população contra os invasores bárbaros, se atreviam a intrometer-se em questões doutrinárias da Igreja (questão das imagens, iconoclasmo, problema da natureza de Cristo, monofisitismo).

Esses fatos levaram os italianos ao afastamento progressivo do Império do Oriente. A partir dos séculos VII e VIII, a Itália do centro e do norte tem um vínculo apenas nominal com o Império. Constituíram até mesmo uma administração autônoma.

Por outro lado, os chefes civis romanos, prefeitos, e mesmo chefes militares, eram simples subalternos do papa. O Senado tinha desaparecido no início do século VII.

SENHOR  APOSTÓLICO

Apesar da animosidade dos romanos contra o imperador, o papa Gregório II não repelia a autoridade imperial, nem excitava à desobediência. Pelo contrário, rogava aos romanos a lhe permanecerem fiéis. Mas o papa era eleito pelo povo romano. Era chamado de Dóminus apostólicus (Senhor apostólico). Tratava diretamente com os chefes bárbaros e demais príncipes. Agia em nome de São Pedro, cujo patrimônio dirigia. Não agia em nome do imperador.

Desde o início do século VIII os imperadores não enviavam mais nenhum auxílio militar à Itália contra as contínuas agressões dos Longobardos. Aqui está a razão definitiva da perda de autoridade imperial no Ocidente. Por ocasião da invasão dos Longobardos, o Exarca, representante do imperador na Itália, fugiu de Ravena, em 731. A fuga se repetiu em 742 e 751.

Com esses fatos, extinguiu-se a autoridade imperial. Na Itália restam apenas dois poderes políticos, o dos Longobardos e o da Santa Sé. A primeira era despótica e tirânica e cheia de ambições. A outra fundava-se na autoridade moral e na atividade social em favor da população.

OS PAPAS APELAM PARA OS REIS FRANCOS

Para defender-se dos Longobardos, os papas precisavam pedir auxílio a um rei católico poderoso. O único nestas condições era o rei dos Francos, Pepino o Breve. Sua amizade com Roma começara no ano 751, quando o papa aprovou seu governo, depondo o rei Quilderico III.

Este rei era um jovem de 18 anos. Tinha o título e a dignidade régia, mas quem realmente governava era Pepino, ministro do rei. Os magnatas do reino dirigem-se ao papa com a questão: Quem deve reinar? Aquele que apenas possui o título ou aquele que realmente governa o país? O papa responde que seria melhor entregar o governo a quem de fato exercia o cargo. O jovem rei foi deposto e encerrado num mosteiro. Pepino foi proclamado rei e ungido pelo monge Bonifácio, apóstolo e missionário da Germânia. Teve início, então, a amizade entre o papa Zacarias e o rei dos Francos, que exercia seu poder em grande parte do Ocidente, Gálias, Bélgica, Renânia, Germânia meridional.

O PAPA FAZ ALIANÇA COM OS FRANCOS

Para não levantar suspeitas do rei longobardo Aistulfo, o papa Estêvão II apela para o rei franco através de peregrinos francos que se dirigem a Roma. Pepino envia dois mensageiros, um civil, outro eclesiástico, a Roma. Estes conseguem permissão do rei longobardo para o papa visitar o rei franco.

Pepino recebe solenemente o papa Estêvão, com sua corte, a rainha e seu filho de 12 anos, o futuro Carlos Magno, 753.

Estêvão expõe a situação calamitosa da Itália nas mãos dos Longobardos, e pede que o ajude na defesa do Patrimônio de São Pedro e da República Romana. O rei promete com juramento atender ao pedido. O papa concede-lhe o título de Patrício dos Romanos.

Roma logo precisou do rei franco. Astaulfo continuava com suas agressões. Pepino realizou duas expedições militares contra os Longobardos, em754 e 756. O rei bárbaro prometeu devolver os territórios.

AS CHAVES DAS CIDADES

Os enviados de Pepino entregaram as chaves das cidades ocupadas, colocando-as sobre o altar de São Pedro. Os embaixadores do imperador bizantino reclamaram seus direitos, dizendo que aquelas cidades pertenciam ao Império. Pepino responde que ·fizera guerra aos Longobardos unicamente em honra de São Pedro, e para remissão de seus pecados. Aquilo que ele entregara a São Pedro, nunca seria retomado. Seria um sacrilégio retomar o que dera.·

Apelava-se para o direito de guerra legítima e sagrada, e também para a liberdade da Igreja e autonomia do Patrimônio de São Pedro. Pepino tinha arrebatado essas terras de um injusto agressor e as entregara à única autoridade que existia na Itália, interessada no bem comum dos cidadãos, a Sé de Roma.

Eram 21 cidades, entre elas Ravena, Pisa e Urbino. Estas cidades constituíam o núcleo do Estado Pontifício, o domínio temporal da Santa Sé. Numa carta ao rei, o papa agradece a liberdade concedida à Igreja.

CARLOS MAGNO E O PAPA

Mais tarde, Carlos Magno, filho e sucessor de Pepino, confirma as doações feitas à Igreja. Com seu auxílio a Santa Sé consolida os seus domínios.

Em 773 o rei longobardo Desidério ataca a cidade de Roma. O papa Adriano, nobre romano, pede ajuda dos Francos. Carlos Magno oferece 14 mil soldos de ouro pela restituição das cidades ocupadas, e para deixar a Itália em paz. Desidério rejeita a proposta. O rei franco, então, desce à Itália com um exército e obriga a cidade de Pavia à rendição, 774.

O rei longobardo é deposto do trono e levado preso para um mosteiro. Foi o último rei longobardo. Carlos Magno assumiu a Coroa férrea dos longobardos. Terminara o poderio bárbaro na Itália.

"Bendito o que vem" - Carlos Magno aproveita a oportunidade para visitar Roma como peregrino. Era a primeira vez que um rei franco venerava São Pedro. O papa Adriano o recebeu solenemente. As autoridades romanas, com o estandarte da cidade, foram ao encontro do imperador, fora dos muros, perto do lago Bracciano. As crianças das escolas, com ramos de oliveira aclamavam cantando: Bendito o que vem em nome do Senhor, era o sábado santo de 774.

O rei franco confirmou as promessas feitas por seu pai Pepino, jurando defender o Patrimônio de São Pedro. As Atas escritas dessa aliança foram colocadas sobre o altar de São Pedro. A doação era feita a São Pedro. No ano 781, o rei franco vai novamente a Roma e estabelece definitivamente as possessões doadas à Santa Sé. Estas doações foram, mais tarde confirmadas por Ludovico Pio, filho de Carlos Magno, ao papa Pascoal I, 817.

UMA MUDANÇA SIGNIFICATIVA

Até o ano 781 os papas costumavam colocar nos documentos a data relativa ao imperador de Constantinopla. Desde 781, o papa Adriano I não faz mais nenhuma menção do Império do Oriente. Em vez disso coloca nos documentos a data do seu pontificado (Annus Pontificatus nostri). Depois da coroação de Carlos Magno, 800, o papa Leão III acrescenta o Ano do Império de Carlos Magno, em sinal de gratidão ao protetor do Cristianismo.

O PAPA CUNHA MOEDAS

Cada vez mais aumentavam os símbolos da soberania temporal do papa. No ano 780 o papa manda cunhar a primeira moeda pontifícia. Cunhar moeda era um direito exclusivo dos soberanos.

Parece que o imperador bizantino, ao menos tacitamente, reconheceu essa nova situação. Continuavam as relações epistolares entre papa e imperador.

Podemos dizer que os reais fundadores dos Estados Pontifícios foram os papas Estevão II e Adriano I, bem como Pepino o Breve, e seu filho Carlos Magno. O ambiente vinha sendo preparado desde Constantino, e posteriormente sob os imperadores Justiniano e Teodósio, além das ações dos papas Leão Magno e Gregório Magno.

CRIAÇÃO DO IMPÉRIO ROMANO OCIDENTAL

As relações entre Carlos Magno e a Santa Sé tornaram-se mais estreitas no tempo do papa Leão III, 795 - 816. No início do seu pontificado o papa é agredido por seus inimigos, durante uma procissão, 25 de abril de 799. Acusam o papa de perjúrio e escândalo.

O papa foge para a Alemanha. Até Paderborn, para pedir auxílio a Carlos Magno. O imperador oferece uma escolta militar que acompanha o papa até Roma. O próprio imperador vai a Roma e preside, na basílica de São Pedro, a justificação do papa, 23 de dezembro de 800.

Os bispos e abades presentes declaram não Ter competência para julgar o papa, chefe de todas as igrejas. O papa Leão profere um juramento, dizendo-se inocente dos crimes imputados. O juramento bastou para provar sua inocência.

DIA DE NATAL DO ANO 800

Dois dias depois era instaurado o Império romano do ocidente. No final da missa de Natal, o papa Leão III impõe a coroa em Carlos Magno, na presença dos fiéis romanos e do clero, diante do altar de São Pedro.

O povo cantava vida e vitória a Carlos, piíssimo Augusto, coroado por Deus como grande e pacífico imperador.

Através da coroação imperial, Leão III completava a obra político-religiosa da união entre a Santa Sé e a corte Carolíngia. Ficava estabelecido um vínculo de paternidade espiritual entre o Sumo Pontífice e o imperador. Terminara a obra iniciada com Estevão II e Adriano I. Pepino, pai de Carlos Magno, recebera o título de Patrício dos Romanos , 754. Carlos Magno recebe o título e a dignidade imperial, 800. Era o agradecimento da Igreja por sua prontidão em defendê-la.

FATO NOVO

O papa teve toda a iniciativa desse gesto. Não foram os magnatas da França, nem se procurou o consenso do imperador de Constantinopla, na época imperatriz Irene. Nunca imperador algum tinha sido coroado pelo papa. Tratava-se de um fato novo, realizado pelo papa, com a intenção de dar à Igreja um protetor oficial, chefe da sociedade cristã em questões temporais, em colaboração com o papa, seu chefe espiritual.

Essa coroação representa o momento culminante na História dos Estados Pontifícios. Ficavam confirmadas todas as doações e possessões territoriais da Santa Sé, a plena liberdade na eleição do papa, feita só pelos romanos, sem interferência, nem dos Francos, nem dos Longobardos.

Os imperadores seguintes confirmaram esse pacto. Em 817 o papa Pascoal I e Ludovico Pio. Em 824, Eugênio II e Lotário, filho de Ludovico Pio.

Ficava assim instaurado o domínio temporal da Santa Sé e o patrimônio de São Pedro. Na decadência do Império Romano, num ambiente de violência, o papa tinha liberdade e independência no exercício do seu apostolado universal. Papas, reis e imperadores.

Vimos acima o imenso poder econômico, social e político dos papas. Reis, imperadores e famílias nobres romanas procuram aliar-se com ele e também usurpar seus poderes. A história dos conclaves ficou sendo a história das disputas pelo poder. Entende-se assim que alguns conclaves tenham durado até três anos. Ninguém briga tanto por um tijolo. A Sé de São Pedro era mais que um tijolo. Era o domínio da Itália e do mundo.

 

GREGÓRIO VII (1073 - 1085)

* Numa carta ao bispo de Metz declara que o papa está acima dos bispos e reis.

* Excomunga bispos, abades, clérigos, duques, condes que se atrevem a comprar e vender bens eclesiásticos.

* Excomunga o rei Henrique IV da Alemanha. Depõe o rei do trono.

* Desliga os súditos do juramento de fidelidade ao rei.

* Transfere a coroa para outro, Rodolfo da Suábia.

INOCÊNCIO III (1198 - 1216)

* Exerce arbitragem na eleição do imperador. Escolhe Frederico para seu candidato.

* Excomunga Felipe Augusto da Suábia e seus partidários

* Fulmina a excomunhão contra o imperador Otão I da Alemanha.

* Oferece a coroa ao jovem Frederico.

* Excomunga o rei João Sem Terra, da Inglaterra.

* Desliga os súditos do juramento de fidelidade ao rei. Depõe o rei do trono.

* Lança o interdito em toda a França, Espanha e Portugal.

* Intervém nos reinos da Noruega, Suécia, Dinamarca, Polônia, Hungria, Bulgária, Boêmia.

INOCÊNCIO IV (1243 - 1254)

* Depõe do trono ao imperador Frederico, da Alemanha.

BONIFÁCIO VIII (1294 - 1303)

* Proíbe aos clérigos franceses pagar impostos ao rei.

* Declara na Bula Unam Sanctam que toda criatura humana, inclusive o rei, está sujeita ao papa.

* Afirma que a autoridade temporal dos reis e imperadores deve submeter-se à autoridade espiritual.

JOÃO XXII (1316 - 1334)

* Excomunga 80 bispos e arcebispos numa única audiência, porque se negavam a pagar suas dívidas à Santa Sé.

* Manda o imperador Luiz da Baviera abdicar e comparecer a seu tribunal.

GREGÓRIO XI (1370 - 1378)

* Confisca todos os bens dos habitantes de Florença, cidade que liderava a rebelião de outras 80 cidades italianas contra o papa.

MARTINHO V, 1417-1431

* Na Bula ·Rex regum· entrega a Portugal o domínio de todas as terras conquistadas, para os reis atuais e todos os seus sucessores.

EUGÊNIO IV (1431 - 1447)

* Na Bula Etsi cunctos fulmina de excomunhão aqueles que inquietarem os habitantes de Ceuta, na África. É conquista e domíno apenas de Portugal.

CALIXTO III (1455 - 1488)

* Em 40 Bulas reconhece a soberania dos reis de Portugal sobre as terras descobertas. No século XV, Portugal recebeu dos papas cerca de 70 Bulas, confirmando seus direitos sobre os mares.

ALEXANDRE VI (1492 - 1503)

* Na Bula Inter caetera faz a demarcação do mundo em duas partes: metade para Portugal, metade para a Espanha.

PIO V (1566 - 1572)

* Depõe do trono a rainha Isabel da Inglaterra. Declara nulos todos os seus direitos ao reino.

PIO VII (1800 - 1822)

* Excomunga Napoleão Bonaparte, que invadira a Itália, para se apossar dos territórios pontifícios.