2º PARTE

SÃO PEDRO 42 - 67

São Pedro era pobre pescador da Galiléia. Chamava-se Simão. Filho de Jonas, da tribo de Neftali, nasceu em Betsaida às margens do rio Jordão, junto ao lago de Genesaré. Ignora-se a data de seu nascimento. Tinha família, e uma vez Jesus curou-lhe a sogra. Seu irmão André era discípulo de São João Batista, mas, ao ver Jesus, correu logo a chamar o irmão, a quem o Salvador trocou o nome de Simão em Cefas, que significa Pedra (Jo I, 36-42). Foi-se confirmando o primado de São Pedro, que em muitas ocasiões, será por Jesus distinguido dos demais apóstolos. Assim, é da barca de Pedro que Jesus evangeliza a multidão no litoral. É a Pedro que Ele dá ordem de lançar a rede para a pesca milagrosa. É a Pedro que Ele sustem sobre as ondas. A Pedro dirigiu Ele estas frases divinamente majestosas: "Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E dar-te-ei as chaves dos Céus, e o que ligares sobre a terra será ligado nos Céus, e o que desligares sobre a terra será ligado também nos Céus." A Pedro foi confiada pelo Mestre a missão de apascentar os cordeiros (Jo 21, 15-17). São Pedro foi condenado a crucificação, mas pediu aos carrascos para ser crucificado de cabeça para baixo. Alegava que não era digno de morrer como morreu o Salvador.

SÃO LINO (67 - 76) - MÁRTIR - 23 DE SETEMBRO

São Lino nasceu em Volterra, na Etrúria. Testemunhou a queda de muitos imperadores romanos e a destruição de Jerusalém. Combateu firmemente a feitiçaria que tentava adulterar a sã doutrina. Sagrou 15 bispos e 18 sacerdotes em duas ordenações, transmitindo com isso os mesmos poderes sobrenaturais transmitido por Cristo ao primeiro papa São Pedro, e aos apóstolos. Segundo a tradição São Pedro antes de ser crucificado transferiu o papado São Lino com as mesmas palavras de Cristo: "Pedro tu és Pedra." Assim Lino passa a ser o fundamento da Igreja visível. Morreu mártir, decapitado por ordens do cônsul Satunino, cuja filha havia curado.

SÃO ANACLETO (78 - 88) - MÁRTIR - 13 JULHO

São Anacleto era grego. Aproveitou um tempo de paz concedida aos cristãos sob o reinado do imperador Vespasiano. Teve assim mais tranqüilidade para organizar a Igreja que crescia rapidamente. Chegou a ordenar 25 sacerdotes em Roma. Foi esse papa quem sancionou a veneração ao túmulo de São Pedro e erigiu um monumento sobre a sepultura do primeiro papa. Recebeu a coroa do martírio após onze anos de intensas atividades no trono de São Pedro.

SÃO CLEMENTE (89 - 98) - MÁRTIR - 23 DE NOVEMBRO

As fontes divergem quanto o local de nascimento de São Clemente: uma diz ter ele nascido em Roma, mas uma longa tradição afirma que ainda jovem fora convertido por São Pedro em Cesaréia da Palestina. Afirmou a superioridade do Pontífice Romano, sucessor de São Pedro, com relação às outras Sés apostólicas. Neste pontificado ocorreu a segunda perseguição aos cristãos. Foi preso no reinado de Trajano e condenado a trabalhos forçados nas minas, converteu muitos presos e por isso foi atirado ao mar com uma âncora amarrada ao pescoço; o mar porém afastou-se e apareceu o corpo num pequeno oratório.

SÃO EVARISTO (98 - 105) - MÁRTIR - 26 DE OUTUBRO

Nasceu em Antioquia; sabemos que São Evaristo em três ordenações criou 17 sacerdotes, 9 diáconos e 15 bispos, destinados a diferentes igrejas. As informações quanto ao seu martírio não são claras, não há documentos para afirmar se este santo papa foi martirizado ou não. Foi durante o pontificado de São Evaristo que faleceu o mais jovem os apóstolos, São João Evangelista, o único a permanecer aos pés da Cruz junto com Nossa Senhora.

SANTO ALEXANDRE (106 - 115) - MÁRTIR - 3 DE MAIO

Santo Irineu e Santo Eusébio de Cesária afirmam que Santo Alexandre foi o quinto papa. Recomendou o uso de água benta em casa para aspersão. Morreu decapitado sob o reinado de Trajano, imperador que procurou substituir o culto a Deus pelo culto ao imperador e a si próprio.

SÃO TELÉSFORO (126 - 136) - MÁRTIR - 5 DE JANEIRO

Telésforo era grego. Governou a Igreja em um período de paz, quando os imperadores Adriano e Antonino não publicaram editos de perseguição aos cristãos. Tais imperadores publicaram editados de certa forma generosos com relação aos cristãos. Porém, os pagãos, que não aceitavam as leis puras de Cristo, tentavam acusar os cristãos porque também pretendiam se apossar de seus bens. Devido a esse furor, muitos cristãos foram jogados aos leões. São Telésforo morreu mártir e foi sepultado junto ao túmulo de São Pedro.

SÃO HIGINO (134 - 140) - MÁRTIR - 11 DE JANEIRO

Foi filho de um filósofo grego. Governou a Igreja por 4 anos. Seu governo foi não só perturbado pelas perseguições aos cristãos, mas também pelos focos de heresia que começavam a nascer na Igreja dos primeiros tempos. Contando com a ajuda de São Justino, filósofo, condenou as heresias e os heresiarcas, e conseguiu triunfar com êxito diante desses perigos. Estabeleceu o costume de haver padrinho e madrinha no batismo. Tornou mais precisa a questão da hierarquia na Igreja. Não se sabe exatamente a causa de sua morte, acredita-se que também tenha morrido mártir.

SÃO PIO I (141 - 155) - MÁRTIR - 11 - JULHO

Esse Santo Padre foi eleito após três dias de jejum e oração dedicados pelos fiéis romanos na escolha do novo Pontífice. Era filho de Rufino e nasceu em Aquiléia, norte da Itália. Seu pontificado foi envolvido em questão com os judeus convertidos e com heresiarcas como Valentim e Márcion. Não temos notícias do martírio de São Pio I.

SANTO ANICETO (156 - 166) - MÁRTIR - 17 ABRIL

Nasceu na Síria, morreu mártir e foi sepultado no cemitério de São Calisto nas Catacumbas. Proibiu o cultivo do cabelos de padres para não ser um motivo de vaidade. Reuniu com São Policarpo para tratar de questões disciplinares que atormentavam a unidade da Igreja. Já em 1604 o duque de Altaemps dedicou-lhe uma linda capela, com este elogio: "Se a perfeita inteligência da Escritura, se a inocência e santidade de vida, se a glória do martírio, bastam, cada um de per si, para a imortalidade, o que devemos pensar do mérito de Santo Aniceto, que possuiu todos esses dons?"

SANTO SOTERO (167 - 174) - MÁRTIR - 22 ABRIL

O Pontificado de Sotero coincide com o reinado de Marco Aurélio, o "imperador filósofo", sob o qual os cristãos foram cruelmente perseguidos, ora enterrados vivos, ora despedaçados pelas feras. Os mártires cristãos puderam contar com o auxílio paternal de Santo Sotero. Ele próprio sofreu o martírio. Seu governo foi marcado pela doçura da caridade e a firmeza da fé com relação aos hereges. Coibiu os abusos e ensinou com caridade a verdade.

SANTO ELEUTÉRIO (175 - 189) - 26 DE MAIO

Nascido em Nicópolis do Épiro (Grécia) Santo Eleutério teve um pontificado pacífico no início. O imperador Cômodo, filho de Marco Aurélio, ficou célebre por suas extravagâncias que raiaram pela loucura; entretanto, odiado pela alta classe dominante, foi benigno para com os Cristãos, perseguidos e, em sua maioria, de condição humilde. Contam que Santo Eleutério recebeu cartas de Lúcio, rei de uma parte da Bretanha, pedindo sacerdotes que o instruíssem na fé cristã. Seria esse o primeiro chefe bárbaro europeu a se converter ao Cristianismo. Não se pode, porém, provar historicamente essa conversão. Este papa resolveu a questão, de origem judaica, sobre a distinção entre alimentos puros e impuros. (Certos alimentos, por exemplo a carne de porco, não são usados pelos judeus até hoje). Prende-se esta questão às normas erradas de Montano. Este herege pregava em Pepúcia (Frígia, Ásia Menor) um rigorismo exagerado, um novo reino milenário de Deus, e as "revelações" de duas mulheres como o "novíssimo testamento". Além disso, os montanistas idealizavam um desapego completo, que consistia num jejum quase contínuo, na proibição total das artes, dos espetáculos, das festas, em restrições proibitivas do matrimônio, na necessidade do martírio para se conseguir o Céu etc... Nessa ocasião os fiéis de Lião (França) enviaram Santo Irineu a Roma para tratar do assunto com o Papa. Vemos, nesta questão de fé, que dos pontos opostos do mundo então conhecido, a Cristandade recorre a Roma, ao Sucessor de Pedro. - Eleutério estabeleceu as normas mais antigas que se conhecem das festas de Páscoa. - Provável mártir, sua festa celebra-se em 28 de maio.

SÃO VÍTOR I (189 - 199) - 28 DE JULHO

Vítor I, nascido na África, filho de Félix. É algo incerta a cronologia deste papa. Alguns, seguindo o historiador Eusébio, fazem-no reinar até o ano 202. Teria morrido mártir na quinta perseguição, que foi movida nesse ano pelo imperador Sétimo Severo, ou então pouco antes, em uma sublevação de pagãos. Declarou que água comum, de fonte, de poço, de chuva, do mar etc... pode, no caso de necessidade, servir para a administração do batismo. Isto prova que já era costume em tempo de paz, usar-se a água benta com as cerimônias que usa a Igreja para a bênção das pias batismais. Sob S. Vítor a questão da data pascoal, de novo agitada, deu mais brilho à supremacia do Bispo de Roma. A Igreja conservara do ritual judaico o uso de se consagrarem a Deus vários dias de festas. O sábado (a festa semanal judaica) foi cedo substituído pelo domingo em memória do dia da Rssurreição do Senhor. As festas hebraicas caíram em desuso, menos Pentecostes e Páscoa. Por esta é que se estabelecia todo o calendário judaico cristão. Na Ásia era a Páscoa celebrada no 14o dia do plenilúnio de março. Em Roma pretendia-se que a festa fosse sempre num domingo. Os orientais e sobretudo a metrópole de Éfeso, com seu velho e enérgico bispo dos antigos judaizantes, obstinavam-se na conservação do seu costume. O papa, examinando a opinião das demais Igrejas, fixou a Páscoa para o domingo seguinte ao 13o dia do plenilúnio de março. Mais tarde, 130 anos depois, o memorável Concílio de Nicéia (325) deu plena razão a S. Vítor.

SÃO ZEFIRINO (199 - 217) - 26 DE AGOSTO

Após a morte de São Vítor, levaram os fiéis de Roma onze dias na escolha onze dias na escolha de seu sucessor. Era grande a responsabilidade do futuro papa, porque negras nuvens de nova perseguição se adensavam sobre a Igreja de Deus. Nessa angustiosa expectativa recorreram à oração. Deus ouviu suas preces. Foi eleito Zefirino, romano de origem. Decretou, entre outras coisas, o uso de pátenas de vidro e que se consagrasse o Precioso Sangue em vasos de cristal, e não de madeira, como o faziam algumas comunidades pela extrema pobreza dos cristãos. Nomeou seu auxiliar o Anzio Calisto, que foi depois papa, encarregou-o de ampliar o cemitério de Via Apla, onde se encontravam os túmulos de ilustres mártires como São Pretextato e São Domitila, parente do imperador Domiciano. Este célebre cemitério, até hoje conhecido sob o nome de São Calisto, tornou-se ilustre por sua extensão e por possuir local distinto para os sumos pontífices. O imperador Severo, no décimo ano de seu governo desencadeou furiosa perseguição (a quinta) aos Cristãos. São Zefirino foi heróico na confiança em Deus e no conforto aos fiéis. "O sangue dos mártires é semente de novos cristãos" (Semen est sanguis Christianorum), exclamava Tertuliano, numa afirmativa inabalável até a consumação dos séculos. Restituída a paz, morto Severo. (Todos os perseguidores possam...) Zefirino empenhou-se em livrar a Igreja da heresia montanista, que reprovava ao Papa o perdão aos relapsos arrependidos... Veio a Roma a grande Orígenes, o fenômeno intelectual de seu século. Não se sabe ao certo se Zefirino foi martirizado; sua festa é celebrada em 26 de agosto e seu túmulo está junto ao de São Tarcísio.

SÃO BENTO I (574 - 578) - 7 DE JULHO

Após a morte de João III a Sé Romana ficou vaga por mais de dez meses: a invasão dos Longobardos, que traziam a ferro e fogo o norte e o centro da Itália, impedia a paz e tranqüilidade em Roma para a eleição do novo pontífice. Além disso vigorava o costume de se apresentar o nome do candidato ao imperador de Constantinopla, que era então o único sustentáculo humano do pontificado. Qualquer comunicação, porém, com Bizâncio, estava impedida pelo assédio dos novos e terríveis bárbaros. Assim mesmo foi eleito, de acordo com o que nos conta o Liber Pontificalis: "Bento, nativo de Roma, que reinou quatro anos, um mês e vinte e oito dias". Em seu tempo o flagelo da guerra trouxe a praga da fome: "houve tão grande miséria, que muitas fortalezas se renderam aos implacáveis bárbaros, só para haverem um pouco de alimento. Deus teve pena de tanta calamidade e o imperador Justino II fez mandar do Egito muitos navios carregados de trigo. Nessas aflições morreu o venerado pontífice, que foi sepultado na sacristia da basílica de S. Pedro". Há quem relate haver Bento I "morrido de susto ao saber da invasão dos Longobardos". Mais acertado é que haja sucumbido a um colapso, por sentir a miséria do seu povo e as condições aflitivas da indefesa e desesperada Roma. A "Cidade Eterna", grandiosa ou humilhada, foi sempre alvo de carinhoso e paternal afeto dos Sucessores de S. Pedro. Bento I confirmou o V Concílio Constantinoplano de 533, como consta de uma carta de Gregório, por ele nomeado arcediago e que foi mais tarde o papa Gregório Magno. Bento I é festejado como santo no dia 7 de julho.

SÃO GREGÓRIO I MAGNO (590 - 604) - 12 DE MARÇO

Gregório, o Grande, estava bem preparado para ser pontífice. Mente vasta e profunda. Extraordinária energia. De família antiga, era filho do romano Gordiano, que mais tarde ingressou no estado eclesiástico, e da nobre Sílvia, que por sua vez terminou seus dias num retiro em obras pias. Um dos antepassados de Gregório foi o papa São Félix III. Gregório estudara Direito e ocupara altos postos civis. Um dia, deixou tudo; distribuiu sua imensa fortuna aos pobres, vestiu-se de monge e transformou seu palácio em mosteiro. Enviado à corruta Bizâncio, a todos assombrou com suas virtudes e ciência. Eleito papa, foi felicitado com alegria pelo imperador Maurício e pelo povo, tendo algumas pessoas afirmado que viram, nos céus, um anjo embainhando a espada; e realmente a peste declinou até desaparecer. Gregório introduziu a fórmula "Servus servorum Dei" (servo dos servos de Deus), como título dos papas. Gregório com excelente reforma atingiu os bispos, padres, mosteiros, ao cântico (Canto Gregoriano), às funções religiosas (Sacramentário, Estações ou rezas populares, Missal) etc... Foi escritor exímio: 900 cartas, os Diálogos, as Morais de Jó etc... Foi um lutador; em defesa de seu povo e da fé; combateu contra Agilulfo longobardo, contra João Jejuador cismático, contra a simonia, a incontinência, o jogo... Foi apóstolo: enviou o monge Agostinho (Austin), que converteu a Inglaterra ("angeli, non angli"): voltaram ao catolicismo os Visigodos (Espanha); os Longobardos abandonaram o cristianismo; na Córsega e na Sardenha extinguiu-se o paganismo; conseguiu-se a paz entre Oriente e Ocidente. Gregório morreu em 12-3-604. O protestante Gregoróvius chama-o "o maior homem do século".

SÃO BONIFACIO IV (608 - 615) - 5 DE MAIO

Em agosto de 608, dez meses após a morte de Bonifácio III, foi eleito Bonifácio IV, nascido em Valéria e filho de um médico. Governou a Igreja por seis anos em meio à desolação geral deixada pelas inundações, pela fome e pela peste. Roma oferecia um quadro entristecedor. O vasto campo de Marte guardava as ruínas do antigo esplendor da cidade - seus monumentos antigos, que o tempo derruíra ou os Bárbaros arruinaram, jaziam agora enverdinhados pelo musgo. Restava incólume somente um. Era o monumento de Agripa, que por 600 anos resistira às inundações do Tibre, o Panteão, dedicado outrora a outros deuses. O magnífico vestíbulo, com as 16 colunas de granito e capitéis de mármore branco, estava ileso. As armações do teto, com zimbório de 46 metros de diâmetro, formada de traves de bronze dourado, triunfara das intempéries. Bonifácio IV aproveitou esse milagre de arte para transformá-lo em magnífica igreja. "O papa pediu então ao imperador o templo chamado Panteão, dedicando-o a Maria Virgem e todos os Mártires". A nova igreja foi solenemente consagrada em 13 de maio de 609. De lá irradiou-se para todo o mundo cristão a doce veneração por Todos os Santos - festa mais tarde fixada, por Gregório IV, em 1o de novembro. O papa salvou assim o belo monumento da devastação das guerras ou da cobiça de algum nobre a transformá-lo em fria fortaleza. No Oriente os Persas devastaram Jerusalém e arruinaram a igreja do Santo Sepulcro. Essas notícias magoaram profundamente o piedoso Bonifácio, que morreu em maio de 615, venerado como santo.

SÃO ADEODATO I (615 - 618) - 8 DE NOVEMBRO

Adeodato I Deusdedit (dado por Deus), filho de Estevão, nascera provavelmente em Nápoles. No Oriente terminara tragicamente seus dias o cruel imperador Focas; em seu lugar reinava o piedoso Heráclito. No norte da Itália, sob a regência da nobre rainha Teodolinda, o pequeno rei longobardo Adaoldado inspirava tranqüilidade e paz. O nosso pontífice dedicou-se ao cuidado do clero secular, restituindo-lhe os pastos que seu antecessor, discípulo de Gregório Magno, havia conferido aos monges. Não é certo que Adeodato tenha ordenado a celebração de uma segunda missa em cada basílica. A fonte histórica, donde se pode inferir essa ordem, refere-se provavelmente ao ofício litúrgico da tarde. Em agosto de 616 um grande terremoto abalou Roma, seguido de uma epidemia tão violenta que desfigurava horrendamente os cadáveres. O papa desenvolveu extraordinária caridade, a tal ponto que se conservou uma tradição, de ter ele curado os empestados beijando-lhes heroicamente as chagas. Morreu Adeodato em novembro de 618, sendo sepultado na basílica de São Pedro e tendo logo culto de santo. Seu testamento estipulou uma gratificação em prata aos clérigos, costume seguido por outros pontífices. Deste papa conservamos o mais antigo selo (sigilo) pontifical conhecido: uma placa de chumbo, tendo a figura do Bom Pastor com suas ovelhas, com o Alfa e o Ômega, símbolo de Cristo, princípio e fim de todas as coisas. No reverso lê-se: Deusdedit Papa. Embora não conste seu nome em alguns martirológios, Adeodato é festejado como santo em 8 de novembro.

SÃO MARTINHO I (649 - 655) - 12 DE NOVEMBRO

O papa Teodoro morreu sem ter tido tempo de combater o Tipo, edito herético do imperador Constante II. Esse espinhoso dever coube a Martinho, nascido em Todi, na Umbria. O novo papa, de caráter indomável, era profundo conhecedor dos insídios da Corte bizantina, onde residira longos anos como apocrisiário (núncio). Sua eleição não foi submetida ao reconhecimento imperial. Apenas eleito, convocou uma reunião de 150 bispos, os quais, apoiados nas decisões dos cinco primeiros maiores concílios, condenaram os editos heréticos Ektésis e Tipo, dos imperadores Heráclio e Constante II. A esperada reação bizantina foi brutal. Constante enviou um seus comissário, Olímpio, para matar o papa. Deus, porém, cegou o assassino quando empunhava a arma. Veio então o próprio delegado Calíope, governador de toda a Itália, com muitos soldados. O papa, velho e enfermo, apresentou-se-lhe na igreja de Santa Maria Maior, transportado num leito. O povo gritava: "Excomungado seja quem julgar Papa Martinho capaz de trair sua fé". À noite, porém, e às escondidas, os gregos levaram pelo Tibre preso numa barca o velho papa. Meses e meses viajou ele pelas ilhas do Mediterrâneo, chegando a Constantinopla somente em 645. Julgado em praça pública, manteve sua dignidade. Não reconheceu autoridade em seus juízes. Não respondeu. Foi despido de suas vestes pontificais e, quase desnudo, conduzido acorrentado pelas ruas da cidade. Exilaram-se depois para Criméia, onde então se prendiam os escravos e os assassinos condenados ao mortífero trabalho das minas. De lá São Martinho escreveu aos Romanos duas nobres cartas, em que narra seu martírio causado pelas enfermidades e pelo abandono. Lá morreu em 16-9-655.

SÃO EUGÊNIO I (654 - 657) - 2 DE JUNHO

Faltam-nos dados históricos que elucidam como foi eleito o romano Eugênio, ainda em vida de Martinho, aos 10-8-654. Eugênio havia sido núncio em Constantinopla; conhecia bem as insídias bizantinas. Era homem de grande valor moral e intelectual. O papa Martinho, em sua última carta aos Romanos, faz dele grandes elogios. Atesta o Líber Pontificalis: "Foi benévolo, doce, cheio de mansidão, afável com todos. Favoreceu os pobres, deixando-lhes seus bens, após ter-lhes feito muitas esmolas". Íntegro na fé, teve atritos com os monotelitas. Em 650 o novo patriarca de Constantinopla, Pedro, enviou-lhe, como de costume, o aviso de sua ascensão àquela Sé importante, com sua profissão de fé. Tinha este documento um sentido ambíguo e o papa contemporizou em subscrevê-lo. Influíram na questão os monges de São Máximo, que chegaram ao ponto Maior, enquanto não se rejeitasse o documento bizantino. Receavam os monges que Eugênio, eleito com o beneplácito imperial durante a vida de Martinho, caísse nas tramas de Constantinopla. Eugênio, porém, mostrou-se à altura das circunstâncias, reprovando o erro e mantendo a unidade da fé. Morreu santamente em 2-6-657. Havia cuidado muito dos mosteiros da França. Os Árabes, entretanto, sob o Califa Otmã, arrasaram Alexandria e passaram a fio de espada os habitantes de Cartago, onde o patrício Gregório e sua bela e valente filha pereceram heroicamente na defesa da gloriosa cidade (654); ocuparam Rodes, destruindo o célebre Colosso, cujos destroços, vendidos a um judeu de Edessa, carregaram 900 camelos .

SÃO VITALINO (657 - 672) - 27 DE JANEIRO

Nasceu Vitaliano em Segui, perto de Roma. "Consagrou-se aos estudos sagrados com tal dedicação, que chegou a ser um dos sábios do seu tempo. Aos 25 anos foi elevado ao sacerdócio, havendo-se no ministério de modo exemplar". Seu pontificado assinalou-se logo de início por uma transformação inesperada nas atitudes do imperador Constante, o algaz de São Martinho. Aproximou-se ele do pontífice, sonhando talvez residir na "eterna Roma". O novo eleito enviou a Constantinopla legados, que foram recebidos com grande honras, até pelo patriarca herético Pedro. O espírito conciliativo e caridoso de Vitaliano chegou a receber em Roma a visita do imperador, na esperança de que a idade e o remorso houvessem modificado a índole de Constante. Este, porém, não era sincero. Recebido com festas memoráveis, pois havia 200 anos que Roma não via um imperador, Constante abusou de seus direitos. O ódio de seus súditos, devido às exações, e o remorso de família, por haver trucidado seu irmão Teodósio, fizeram-no mais cruel. Saqueou quanto pôde nas ruínas de Roma. Até as telhas douradas do Panteão já transformado na igreja de Santa Maria ad Martyres, foram levadas. Ao voltar para Bizâncio, morreu na Sicília; durante o banho um escravo esmagou-lhe o crânio com um vaso de bronze roubado em Roma. Seus furtos caíram depois nas mãos dos Sarracenos. Vitaliano ocupou-se com zelo da Inglaterra, escreveu longas cartas à França, à Espanha e ao rei Oswin dos Saxões (Alemanha). Condenou os "monges-andantes", pseudos monges que viviam de esmolas e até de roubos, chamando-os "filhos de Satanás". - Morreu em 27-1-672.

SAO AGATON (678 - 681) - 10 DE JANEIRO

Agaton nasceu em Palermo, na Sicília. Fora, por muitos anos, tesoureiro da Igreja. Pela sua humildade, pelo seu caráter e pela santidade de vida, bem mereceu ocupar o sólio pontifício. Contando com a boa vontade do imperador Pogonato, extinguiu o cisma monotelita. Convocou o VI Concílio Ecumênico em Constantinopla, de novembro de 680 a setembro de 681, o chamado Trulano por se realizar no palácio imperial num salão sob esplêndida cúpula (troullion, trullum). A presidência honorária coube ao imperador e a efetiva aos legados do Papa. Estavam presentes todos os patriarcas, pessoalmente ou por delegados; ao todo 174 conciliares. A grande maioria acolheu as cartas do Papa com palavras de confiança: "O Chefe supremo dos Apóstolos, por seu discípulo e sucessor na mesma sede, ilustrou com suas cartas os mistérios de Deus. Uma confissão escrita pelo dedo de Deus foi-nos dada pela antiga Roma; uma luz esplêndida brilhou-nos do Ocidente. Aqui vemos uma folha escrita, mas foi Pedro quem falou por boca de Agaton". E o imperador repetia: "Pedro falou por boda de Agaton". Uns poucos recalcitrantes pretenderam envolver o nome do papa Honório como monotelita também, mas a maldosa pretensão não vingou. Atestam-nos outras cartas de Agaton, que ele cuidou muito da disciplina nos mosteiros. O arcebispo Vilfrido, injustamente privado de sua sede (York, Inglaterra), recorreu ao papa. Este, convocado um sinodo, reconduz o prelado à sua Sé. Em 680 voltou terrível o flagelo da peste. "Passava o anjo do mal batendo às portas das coisas e, quantos golpes dava, tantas pessoas lá morriam", afirma um cronista, que diz haver passado a epidemia após uma promessa a São Sebastião.