A  UNÇÃO  DOS  ENFERMOS

Um Sacramento para viver em plenitude a doença e a última fase da vida

Capítulo de D. Armand Veilleux, OCSO, na Abadia de Scourmont na Bélgica

em 22 de novembro de 1998.

Um de vocês me pediu já há algumas semanas de lhe administrar o Sacramento da Unção dos Enfermos, e assim pensei que seria uma boa ocasião de fazer uma celebração pública deste sacramento e convidar a recebê-lo todos aqueles que, segundo as normas atuais da Igreja, são candidatos potenciais. Seria, então, bom refletirmos juntos um pouco antes sobre o significado desta Unção dos Enfermos, ainda mais que a compreensão que dela temos após o Concílio Vaticano II é bastante diferente daquela dos séculos que o precederam.

Inicialmente, não se fala mais de extrema- unção, como antes. Como a expressão mostra, reservava-se antigamente este sacramento aos doentes graves em artigo de morte. Tratava-se da preparação última para a grande passagem. Na compreensão atual, que corresponde à dos primeiros séculos da Igreja, a Unção dos Doentes é um sacramento dos "vivos", que tem por objetivo ajudá-los a viver bem quer uma doença grave que se espera que com a graça do sacramento dela se recobrarão, quer nos últimos momentos de sua vida, se chegaram a este momento importante de sua existência.

A Unção dos Enfermos, como todos os Sacramentos, é uma celebração eclesial, e portanto, pública em sua natureza, do mistério pascal do Cristo. Este mistério pascal - mistério de vida, morte e ressurreição - é uma realidade indivisível. Em todos os sacramentos, celebra-se na sua totalidade, mesmo que sob ângulos diferentes. O que se celebra na Unção dos Enfermos é esta graça do mistério pascal enquanto graça de cura e de reconforto.

O Filho de Deus se encarnou para que tenhamos a vida e que a tenhamos em plenitude. Mas para chegar a este objetivo, ele se fez um de nós, aceitou os limites de nossa experiência humana, assumiu sobre si as conseqüências de nossos pecados. Assumiu o sofrimento e a morte.

Quanto mais avançamos na vida, mais é normal que a doença venha nos visitar, quer sob formas benignas ou mais graves, e mais a diminuição de nossas forças nos lembra que deveremos um dia passar para a outra margem. Conheci um homem que não era católico, mas era profundamente religioso - tratava-se de um ministro batista - a quem o médico acabara de dizer que tinha um câncer em fase terminal que permaneceu perfeitamente tranqüilo diante desta notícia. Ao médico que se surpreendeu com sua tranqüilidade, respondeu ele: "minha filosofia é que todos nós estamos em fase terminal". Um pouco mais cedo ou um pouco mais tarde, todos seremos chamados a voltar ao nosso Criador. A hora, só Deus a conhece. E por isto, é importante de viver agora plenamente e serenamente. É preciso viver plenamente nosso estado de saúde como nos é necessário viver plenamente nossas doenças, e nos será preciso viver plenamente nossos últimos instantes. O sacramento da Unção dos Enfermos aí está para nos ajudar a viver desta forma, mas também existe para dar uma dimensão espiritual a todas estas etapas de nossa existência.

A primeira finalidade do sacramento, segundo a Carta de São Tiago, é a de nos curar. "Está entre vós alguém doente? Que ele chame os presbíteros da Igreja, os sacerdotes, e que eles rezem sobre ele após ter ungido-o com óleo em nome do Senhor. Esta oração da fé salvará o doente e o Senhor o reerguerá. Se cometeu pecados, serão perdoados." Recebendo-a, manifestamos nossa fé neste poder de cura que o Cristo deu à sua Igreja. Se somos curados, nossa cura, mesmo se ela foi obtida utilizando também todos os meios humanos colocados à nossa disposição, é uma manifestação visível e sacramental do poder e da graça do Cristo. Se nossa doença persiste apesar do sacramento, e se, eventualmente, morremos, o sacramento dá à nossa doença e à nossa morte uma dimensão sacramental, fazendo dela uma manifestação visível e sacramental da Cruz e da Morte do Cristo enquanto fonte de vida nova.

O Novo Catecismo da Igreja Universal menciona quatro efeitos principais deste Sacramento: 1) trata-se de um dom particular do Espírito - uma graça de reconforto de paz e de coragem (nº 1520); 2) é uma união com a Paixão de Cristo (nº 1521); 3) é uma graça eclesial; e, finalmente, 4) trata-se de uma preparação para a última passagem.

No mundo, ao menos no nosso mundo ocidental, tenta-se muitas vezes negar a doença e a morte. Antigamente, nos lares, havia em geral três gerações, às vezes quatro, convivendo: pais, filhos e os avós. Os filhos cresciam em contato com a doença e a velhice e se habituavam de modo muito natural a considerar estes estados como etapas normais da existência humana. Hoje, isto se tornou mais raro, e os doentes graves assim como os anciãos são internados em casas de saúde especializadas. Nos nossos mosteiros, felizmente, estamos em contato constante com todas estas dimensões da existência humana. Nossa vida comum de oração e de trabalho confere um sentido espiritual a estas realidades. O Sacramento dos Doentes guarda por tanto toda sua importância, pois vem conferir uma dimensão propriamente sacramental à doença, ao sofrimento e à preparação para a vida depois da morte.

Poder-se-ia dizer que este sacramento se inscreve num programa de formação permanente! Nosso documento sobre a formação considera este programa como um processo que dura toda a vida. Trata-se do processo pelo qual somos gradativamente transformados à imagem do Cristo, desde o momento de nossa entrada no Mosteiro até o momento de nossa entrada no Paraíso. A cada etapa desta transformação gradual, diferentes ajudas e mediações nos são oferecidas. Ora, a doença e os anos de velhice são uma etapa muito importante desta transformação, pois se trata explicitamente da configuração ao Cristo sofredor obediente totalmente ao seu Pai, antes de lhe entregar seu espírito. O meio por excelência que nos é oferecido pela Igreja para nos assistir nesta etapa de nossa "formação permanente", é o Sacramento da Unção dos Enfermos.

Os dois elementos do Sacramento são a imposição das mãos, que é um gesto epiclético que invoca a descida do Espírito, e a unção com o óleo dos enfermos, que foi abençoado pelo Bispo na Quinta-Feira Santa, junto com o óleo dos catecúmenos e a consagração do Santo Crisma. (A imposição das mãos se faz em silêncio enquanto a unção é acompanhada de uma oração). O sacramento une então também aquele que o recebe à missão profética do Cristo: "O Espírito do Senhor está sobre mim pois o Senhor me consagrou pela Unção. Enviou-me a levar a Boa Nova aos pobres, a curar os de coração ferido."

Vamos para uma questão prática. A quem se destina este sacramento? Quem pode e quem deve recebê-lo? Vamos ao Ritual: "Para avaliar a gravidade da doença, é suficiente um julgamento prudente, feito sem ansiedade e sem escrúpulo por aqueles que o podem ou o propõem. Será razoável pois que o doente veja com o sacerdote em que ponto seu estado de saúde, atingido pela doença ou pela velhice, levam-no a uma situação difícil de tal forma que, para vivê-la, tem necessidade de novas forças." E assim conclui o Cardeal Lustiger: "Este sacramento pode ser recebido mesmo que se esteja em boa saúde, se se sabe que estar ameaçado seriamente na sua integridade corporal. Por exemplo, antes de uma cirurgia séria ou num período muito grave da vida. Sentindo que suas forças declinam, as pessoas idosas têm necessidade, para entrar na velhice com coragem, de uma identificação com o Cristo.

Como todo sacramento, não se trata de um assunto puramente individual, mas de um gesto eclesial. Eis porque é normal que o sacramento seja ministrado em público, de preferência na Igreja, e se possível durante a Eucaristia.

Num mosteiro, há algo de muito belo quanto toda a comunidade se reúne em torno de um doente grave na enfermaria no momento em que recebe o viático antes de sua última partida. Mas há também algo de muito bonito, ainda, quando toda a comunidade se encontra na Igreja em torno de alguns de seus membros, que, ainda muito presentes a todos os exercícios da vida comunitária, se sentem muito tocados no seu corpo pela doença ou pela idade, para desejar receber através deste sacramento da Unção dos Enfermos uma nova configuração ao Cristo sofredor e que morre. É um modo de lhes dizer que desejamos que se curem de sua doença, ou se a vontade de Deus for de deixá-los viver esta prova, que desejamos que eles a vivam com serenidade e com plenitude de vida.

Traduzido por Cecilia Fridman - Rio Negro - PR - Brasil
para o Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo, 1999