O TRABALHO COME ATIVIDADE CONTEMPLATIVA

Capítulo proferido por D. Armand Veilleux, OCSO, à comunidade do
Mosteiro Notre Dame de Scourmont em Forges - Bélgica - 2/5/1999.

Como ontem foi o dia do trabalho e, liturgicamente, a festa de são José Operário, desejaria esta manhã partilhar com vocês algumas reflexões sobre o trabalho.

Se desejamos amar a Deus de todo nosso coração, toda nossa alma e com todo nosso ser, devemos amá-lo também com o nosso corpo. O corpo, com efeito, é também transformado pelo amor que temos por Deus e exprime este amor. Amar a Deus com todo nosso corpo, é manifestar-lhe nosso amor, por exemplo, pelos jejuns, pelas vigílias, por diversas atitudes físicas de oração, e também pelo trabalho.

O trabalho tem uma dignidade que lhe é própria no plano de Deus. Logo de início a Escritura nos mostra Deus trabalhando durante os sete dias da criação; e o livro do Gênesis nos diz que Deus confiou este universo criado ao cuidado do trabalho humano. Por nosso trabalho, somos então chamados a participar da atividade criadora de Deus e a continuá-la; e eis aí o primeiro fundamento da dignidade do trabalho.

Temos o exemplo do Filho de Deus que, ao se fazer homem, escolheu ser conhecido como carpinteiro e filho de carpinteiro. Da mesma forma, quando começou o seu ministério, as pessoas se surpreendiam e diziam: "De onde lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que lhe foi dada? Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria?" "Meu Pai trabalha sempre e eu faço o mesmo", dizia Jesus de si mesmo.

Jesus pertence portanto ao "mundo do trabalho". O mesmo ocorria com seus discípulos e a maioria dos seus ouvintes, que eram pescadores, agricultores e operários comuns. Eis porque, quando se fala do Reino de Deus, Jesus utiliza constantemente imagens e um vocabulário ligados ao mundo do trabalho humano: o trabalho de pastor, de agricultor, de médico, de semeador, de faxineira, de servo, de pescador, de comerciante, de trabalhador assalariado, etc. E ele compara a construção do Reino de Deus a um trabalho em comum de ceifeiros e de pescadores.

Há poucas realidades que unem as pessoas entre si como o trabalho. Com efeito, na sua estrutura fundamental, a realidade do trabalho é a mesma em toda parte, em todos os países e em todos os continentes; entre homens e mulheres de todas as raças e nações, falando línguas diferentes, representando diferentes culturas, e professando diferentes religiões pelas quais exprimem de modos diferentes sua relação com Deus. A realidade profunda do trabalho é também a mesma sob formas múltiplas: trabalho manual ou intelectual, trabalho agrícola ou industrial, atividade de serviço ou de pesquisa; trabalho de artesão, de técnico, de educador, de artista, de dona de casa, de operário de usina ou de seu supervisor.

Se bem que viemos ao mosteiro para uma finalidade religiosa, uma comunidade monástica, como toda comunidade ou todo grupo humano, está submetida à lei do trabalho. É-nos necessário trabalhar para ganhar nossa vida e para ser capaz de ajudar os mais necessitados. O trabalho também contribui para o desenvolvimento de um caráter próprio e da personalidade coletiva de uma comunidade. É também uma expressão de comunhão entre os membros da comunidade e de solidariedade com todo o mundo do trabalho.

Para São Bento, o trabalho é um elemento importante no equilíbrio do dia monástico, com a oração (privada e em comum) e a lectio. É um dos elementos pelos quais o monge é chamado a realizar o preceito da oração contínua.

É realmente nossa atitude com relação ao trabalho que revela melhor nossa compreensão da vida contemplativa e da oração. Com efeito, se a contemplação ou a oração é para nós uma "atividade", é evidente que consideramos todas as outras atividades como secundárias, com relação a esta, e teremos como objetivo reservar cada vez mais tempo possível a esta atividade primordial, diminuindo tanto quanto possível o tempo consagrado às outras atividades. O trabalho será então considerado como uma necessidade que deverá ser cumprida no menor tempo possível e tão rapidamente quanto possível. Além disto, nesta perspectiva, se desejamos ser fervorosos, nós nos esforçaremos de nos limitar às formas de trabalho que nos permitam continuar a rezar durante o trabalho e classificaremos os trabalhos como mais contemplativos ou menos contemplativos. Um trabalho será considerado como mais contemplativo, se não exige muita reflexão ou atenção e deixa então o espírito livre para se dar à oração ... (ao menos que ele não se disperse com distrações...). Creio que esta abordagem está errada.

Na verdade, a contemplação não é um atividade, mas sim uma atitude. É uma relação de amor com Deus que não pode ser dissociada não somente daquilo que somos mas também daquilo que fazemos. Se nos tornamos gradualmente verdadeiros contemplativos, não somente nossos momentos de oração silenciosa se tornarão momentos de contemplação, assim como nossa participação no Ofício Divino, mas nossas horas de trabalho se tornarão também momentos de contemplação. Não porque nós nos esforçaremos de recitar orações durante o trabalho, mas simplesmente porque estaremos unidos a Deus através do nosso próprio trabalho. Nosso trabalho não é um participação na atividade criadora de Deus? Duas pessoas que se amam, gostam de trabalhar juntas. Esta comunhão com Deus pelo trabalho se realizará se nós estamos presentes - totalmente e com amor - àquilo que fazemos. Trabalhar sem prestar atenção ao nosso trabalho a fim de aplicar nosso espírito à oração tornaria impossível nestas circunstâncias uma união contemplativa com Deus. Um respeito pelo trabalho implica um respeito pela competência: ao mesmo tempo, a competência que é conveniente adquirir para bem realizar seu trabalho, e também o respeito pela competência de especialistas que convém por vezes consultar.

Se vemos as coisas deste modo, toda forma de trabalho - quer seja uma criação artística ou descascar legumes, um trabalho de informática ou a limpeza dos banheiros, um trabalho na floresta ou na lavagem de roupas - tem o mesmo valor humano pois pode sempre ser um meio de união com Deus.

Se o trabalho não é assim percebido, existem ao menos duas tentações nas quais podemos cair. A primeira é de escapar para o trabalho como forma de fugir das exigências da vida interior. O perigo é real, mas creio que isto acontece muito menos freqüentemente na vida monástica do que se pensa em geral. Quando se foge, é em geral mais para os passatempos do que para um trabalho verdadeiro ao serviço da comunidade. A outra tentação seria pensar que todo tempo consagrado ao trabalho é roubado da oração.

São Paulo escrevia aos Tessalonicenses: " Vós vos lembrais, irmãos, de nossos trabalhos e de nossas fadigas: de noite e de dia, nós trabalhamos, para não ser uma sobrecarga para algum de vós, enquanto vos anunciávamos o Evangelho de Deus!" (1 Tes 2,9) e também, no Livro dos Atos, diz aos Anciãos de Éfeso: "sabeis que provi minhas necessidades e a dos meus companheiros com as minhas mãos" (At 20,34).

É nesta linha que a tradição monástica sempre viu o trabalho não somente como um modo de ganhar a vida, mas também de procurar ajudar os pobres. Isto podemos fazer, quer pelo produto imediato de seu trabalho, quer pelo produto gerado do trabalho dos anos precedentes ou das gerações passadas. É uma forma de solidariedade não somente com todos os trabalhadores, mas também com aqueles, tão numerosos nos dias de hoje, que desejariam trabalhar e não encontram emprego.

Traduziu: Cecilia Fridman - Rio Negro - PR - Brasil
para o Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo - 1999