SANTO  AMBRÓSIO  DE  MILÃO

1. O homem

O homem conhecido como santo Ambrósio de Milão é, na verdade, gaulês descendente de gregos como se pode inferir de seu nome e do de seu irmão, Urânio Sátiro. Nasceu em Tréveros, por volta de 334(1a), onde seu pai exercia alta função na administração do império romano. Depois de residir em Roma por muito tempo, onde se encontrava entre as mais ricas e nobres famílias, seu pai foi posto por Constantino à frente da prefeitura da Gálial. Seu pai faleceu logo após seu nascimento. Sua mãe, então, retomou à Roma com os três filhos: Marcelina, Sátiro e Ambrósio. Em Roma, recebeu a formação dos nobres romanos, estudando gramática, literatura grega e romana, retórica e direito. Não lhe faltaram ainda a freqüência ao circo e ao teatro. Ao lado dessa formação, recebeu, também, educação religiosa, destinada aos catecúmenos, ministrada pelo  sacerdote Simpliciano, futuro sucessor de Ambrósio na sede de Milão. A influência deste sacerdote sobre Ambrósio foi tão marcante que santo Agostinho o chamava de "pai do bispo Ambrósio, segundo a graça" (Conf VIII,2).

Terminados os estudos, Ambrósio partiu para Sírmio, onde iniciou, com seu irmão; a carreira de advogado do tribunal da prefeitura. Sexto Petrônio Probo, prefeito do pretório, o nomeou, em 370, membro de seu conselho, e depois de alguns anos, consularis, isto é, governador da província da Emília e Ligúria, com sede em Milão. Na época, Milão era a segunda cidade da Itália, encruzilhada dos caminhos para a Gália e Constantinopla.

Com a morte do bispo Auxêncio, ariano, acirrou-se a disputa pela vaga entre arianos (2) e católicos romanos. Para assegurar a ordem na eleição, Ambrósio compareceu, pessoalmente, na qualidade de prefeito da polícia. Tinha, então, 40 anos. Agiu com tamanha eficácia, controlou os ânimos das facções com tanta moderação que os partidos opostos se uniram para elegê-lo bispo (3). Reconhecendo na unanimidade a vontade de Deus, Ambrósio aceitou o cargo, não depois de muitas tentativas de recusa. É ainda catecúmeno. Preparam-se as cerimônias do batismo (cf. Vita, 9). Na semana seguinte, recebeu as ordens e foi consagrado bispo a 7 de dezembro de 374 (Epist. 63,65).

2. O episcopado

Como bispo, evitou prudentemente as controvérsias dogmáticas. Sob orientação ainda de seu antigo preceptor, Simpliciano, mergulhou nos estudos das Sagradas Escrituras. Lia assiduamente os autores antigos e contemporâneos, especialmente os gregos. Procurou reformar, interiormente, o clero. Para isso escreveu, sob o modelo da obra homônima de Cícero, o Sobre o ofício dos ministros. Em pouco tempo, capacitou-se para a pregação a tal ponto que o próprio Agostinho se admirava de sua interpretação alegórica das Escrituras. Suas exposições sobre o valor da virgindade provocaram um movimento religioso em toda a Itália(4). Renunciou a seus bens em favor da Igreja e dos pobres, levando vida ascética exemplar (cf. Vita, 38). Ele mesmo preparava os catecúmenos para o batismo, iniciava-os nas celebrações pascais, na compreensão dos ritos. Consagrava-se dia e noite aos deveres de seu ministério.

As recordações que santo Agostinho deixou escritas nas Confissões podem nos ajudar a compreender sua figura de bispo: "Considerava o próprio Ambrósio homem realizado segundo o espírito do mundo, homenageado pelos poderosos; somente seu celibato parecia-me duro de suportar. Quanto às suas esperanças, suas lutas contra as tentações de grandeza, suas consolações nas adversidades, as saborosas alegrias que experimentava ao ruminar o vosso pão com a boca misteriosa do seu coração, de tudo isso eu não fazia idéia nem tinha experiência. (...) O pouco tempo que não estava ocupado com elas (pessoas carregadas de problemas), Ambrósio o empregava restaurando o corpo com o sustento necessário, ou alimentando a alma com leituras. Ao ler, corria os olhos pelas páginas: a mente penetrava o significa- do, enquanto a voz e a boca se calavam. Muitas vezes, ao entrarmos (pois a ninguém era proibido o ingresso nem precisava anunciar-se), o víamos lendo, sempre em silêncio (...) e depois nos afastávamos, pensando que durante o pouco tempo que lhe restava para restabelecer a mente, livre dos problemas alheios, não quisesse ser distraído por outras coisas" (Cont. VI,3). E para completar as informações sobre esta figura, este modelo mais com- pleto de episcopado cristão, Agostinho, testemunha pessoal, acrescenta: "Assim que cheguei a Milão, encontrei o bispo Ambrósio, conhecido no mundo inteiro como um dos melhores, e teu fiel servidor. Suas palavras ministravam constantemente ao povo a substância do teu trigo, a alegria do teu óleo e a embriaguez sóbria do teu vinho. (...) Comecei a estimá-lo, a princípio, não como mestre da verdade (...), mas como homem bondoso para comigo. Acompanhava assiduamente suas conversas com o povo, não com a intenção que deveria ter, mas para averiguar se sua eloqüência merecia a fama de que gozava, se era superior ou inferior à sua reputação. Suas palavras me prendiam a atenção. (...) Eu me encantava com a suavidade de seu modo de discursar; era mais profundo, embora menos jocoso e agradável do que o de Fausto quanto à forma" (Conf. V,13). É especialmente a Ambrósio que Agostinho deve sua conversão e foi dele que recebeu o batismo.

Pela Páscoa de 381, o imperador transfere sua residência de Tréveros para Milão. A partir de então, desenvolve sempre mais estreita colaboração com Ambrósio. Por outro lado, seu campo de atividade se alarga cada vez mais, desdobrando-se pelo zelo por sua diocese, em numerosos contatos com bispos da Itália, fundando novas dioceses, ordenando novos bispos (Epist. 63). Sua autoridade moral é ilibada e reconhecida pelos inimigos. Por isso, seu desempenho nos relacionamentos políticos é cheio de êxito. Em todos os problemas, acaba sempre vencendo, impondo sua opinião. É assim no caso de sua vitória contra a imperatriz Justina e seu filho Valentiniano que queriam uma igreja para os cristãos arianos. Quando o imperador Teodósio ordena o massacre de Tessalônica, no qual foram mortas mais de 700 pessoas, Ambrósio é o único que, numa conduta corajosa, fez frente recriminando a crueldade do imperador. Quando este, mesmo advertido por carta de Ambrósio, quis entrar na igreja acompanhado de sua corte, Ambrósio o impediu com autoridade e valentia: "Não ousaria, em sua presença, oferecer o sacrifício divino". Como o imperador recalcitrasse e invocasse o exemplo de Davi, Ambrósio o recriminava publicamente e lhe perguntava se aquela boca .que ordenara tão cruel massacre era digna de receber a hóstia sagrada. Convidava-o a imitar Davi não só no pecado, mas, também, na penitência, pois "o pecado só nos é tirado pelas lágrimas e pela penitência" (Carta 51) (5). Na luta contra o paganismo agonizante, venceu o prefeito Símaco de Roma e o próprio senado romano que pleiteavam a reintrodução da estátua da deusa Vitória, na sala do senado (cf. Cartas 17 e 18).

3. Escritos

Apesar de sua imensa atividade pastoral, Ambrósio encontrava tempo suficiente para escrever seus ensina- mentos, dando origem a uma grande série de obras nas diversas áreas: exegese, ética, oratória, epistolar e hinológica. Essas obras revelam a amplitude de seus interesses e de suas preocupações.

A maior parte de suas obras é constituída de sermões. Mais que preocupação teológica, elas revelam um esforço pastoral. Os estudiosos de Ambrósio dizem que sua doutrina está em inteira dependência da dos Padres gregos e que, conseqüentemente, não é pensador original nem escritor de primeira grandeza. Contudo, é pensador sempre nutrido do fervor religioso. Seu estilo é vivaz, pleno de metáforas, antíteses e alegorias. Seu latim muito elegante, denso e conciso.

a) Obras exegéticas

Ainda como não batizado, escreveu um comentário aos 4 livros dos Reis e fez tradução do Sobre a guerra judaica de Flávio Josefo.

Hexameron é uma obra em seis livros, celebrando a beleza da criação. Inspirada na obra de S. Basílio traz, inclusive, o mesmo título. Sua exegese é alegórica, em de- pendência direta da escola de Alexandria, especialmente de Orígenes. Sente-se ainda as influências das idéias estóicas.

Exposição do evangelho segundo Lucas, composta em 390, se constitui das prédicas dominicais de muitos anos. É sua obra mais longa. Novamente, a influência de Orígenes é evidente. Os capítulos I e 11 o copiam praticamente.

b) Obras morais

Não se encontra nele um tratado moral, mas é como moralista que bebeu muito nas fontes estóicas que  combate a avareza e a luxúria. Insiste sobre o caráter administrativo da propriedade privada. Admite da moral estóica o que representa de valor universal humano. De acordo com o costume da Igreja antiga, admite a penitência pública uma só vez. Insurge-se contra o rigorismo dos novacianos (6). Combate os que querem repetir amiúde a penitência, pois, se fizessem verdadeira penitência, não pensariam em renová-la com freqüência. Mas há, também, uma penitência particular, sem intervenção da Igreja (Sobre a penitência 1,16; 11,10) pelos pecados leves (delicta leviora).

c) Canto litúrgico

É ainda santo Agostinho quem narra as origens do canto ambrosiano: "Não havia muito tempo que a igreja e Milão começara a adotar o consolador e edificante costume de celebrar com grande fervor os ritos com o canto dos fiéis, que uniam num só coro as vozes e o coração.

Havia um ano ou pouco mais que Justino, (...) perseguia teu servo Ambrósio, por causa da heresia com que fora seduzido pelos arianos. A multidão dos fiéis velava na igreja, pronta a morrer com seu bispo, teu servo. Minha mãe, tua serva, pelo zelo era das primeiras nas vigílias: ela passava aí horas inteiras em oração. Também nós, embora ainda fracos espiritualmente, participá,va- mos da consternação e emoção do povo. Foi então que começou o uso de cantarem hinos e salmos como os orientais, a fim de que os fiéis não se acabrunhassem com o tédio e a tristeza. Esse uso subsiste até hoje e foi imitado pela maior parte das comunidades de fiéis, espalhadas por todo mundo" (Conf. IX,15).

Ambrósio compunha hinos para sua comunidade. O "metro ambrosiano" (oito estrofes de 4 linhas) foi exemplo para os séculos seguintes. É-lhe atribuída, mas não se pode confirmar, a autoria do Te Deum.

d) Obras dogmáticas

O imperador Graciano, ainda jovem, pediu a Ambrósio que o esclarecesse sobre a fé cristã. Seu tio Valentiniano era ariano. Queria ser esclarecido especialmente sobre o dogma da divindade do Verbo. Ambrósio responde-lhe por um tratado sobre a fé: Sobre a fé para Graciano Augusto, em cinco livros, no qual confessa: "Gostaria muito mais de exortar sobre a fé, do que discutir sobre ela. Exortar à fé, é uma profissão, discuti-la revela antes uma imprudente presunção" (Prólogo). Em 381, escreveu um tratado sobre a Encarnação do Senhor, dirigido contra os arianos. No mesmo ano, enquanto se realizava o Concílio de Constantinopla, escreveu novamente a Graciano um tratado Sobre o Espírito Santo. Inspirando-se na teologia grega, afirma a identidade da essência do Espírito Santo com o Pai e o Filho. Assim, embora não sendo teólogo, contribuiu para a teologia trinitária. Sua terminologia prepara as formas definitivas para Agostinho. Na cristologia, é o primeiro, no ocidente, que se opõe a Apolinário de Laodicéia (7). Sua terminologia sobre as duas naturezas perfeitas, unidas na pessoa divina de Cristo foram assumidas pelos Concílios de Éfeso (431) e de Calcedônia (451). Quanto ao batismo, Ambrósio insiste sobre o valor do batismo de desejo. Na oração fúnebre de Valentiniano, pronuncia um testemunho de valor sobre esta questão: "Compreendo que lamenteis porque ele não recebeu o sacramento do batismo: (...) não tem a graça aquele que a desejou? Não tem, aquele que pediu? E porque ele a pediu, a recebeu" (Oração fúnebre de Valentiniano 11,51-53). Na Oração fúnebre de Teodósio, delineou o ideal da unidade entre sacerdócio e império. No Sobre os mistérios e Sobre os sacramentos, obras que o leitor lerá, em seguida, trata dos sacramentos da iniciação cristã: batismo, confirmação e eucaristia. São frutos, no fundo, de sermões dominicais que se dirigiam aos neófi- tos, desenvolvendo uma catequese pascal sobre a simbo- logia dos ritos e da Eucaristia.

Nestas obras, Cristo é apresentado como o "sacramento primordial", o "sinal da ação salvífica de Deus". Retomando a exegese tipológica, busca, no Antigo Testamento, as figuras do batismo no dilúvio, na passagem dos israelitas pelo mar Vermelho, na própria libertação da escravidão do Egito, na nuvem que acompanhava os israelitas no deserto vê a sombra do Espírito Santo, na cura de Naamã, rei da Síria, e na piscina de Bezata de Jo 5,4. Dirigindo-se para o Jordão, para se fazer batizar por João Batista, Jesus indica, segundo Ambrósio, a necessidade que todos têm de passar pelo batismo para serem purificados. O batismo é, portanto, fonte de regeneração, de vida nova. Além disso, pode-se acompanhar, com leitura atenta, a explicação do ritual e as várias etapas do batismo ambrosiano.

Ministrada logo após o batismo, a confirmação, ou consignação, é o selo espiritual, a iluminação interior, pois Ambrósio compara os efeitos do batismo e da confirmação ao que ocorreu com o cego de nascença de Jo 9.

Os sinais do sacramento da eucaristia são anteriores aos "sacramentos" dos judeus. Os neo-batizados já formam parte do novo povo de Deus, povo sacerdotal que tem acesso ao verdadeiro santuário e que se alimenta, não mais do maná, mas do verdadeiro pão do céu. Assim, Ambrósio invoca o maná como prefiguração da eucaristia e o sacrifício de Melquisedec como anúncio do sacrifício de Cristo. Se o povo judeu bebeu e se saciou da água da rocha, no deserto, do lado de Cristo jorrou sangue e água: a água para purificação e o sangue para redenção. Se do lado de Adão saiu a mulher da qual veio a culpa, do lado do Novo Adão, Cristo, veio a graça da purificação-redenção. Depois, Ambrósio discorre longamente sobre o sentido místico do vinho nas Escrituras para fazer os neófitos entenderem o sentido do vinho-sangue na eucaristia.

Além dessas obras, Ambrósio compôs ainda obras retóricas nas quais se incluem as orações fúnebres e as Cartas das quais só restam 91.

4. A morte de Ambrósio

Após a eleição do bispo de Pavia, Ambrósio retornou para Milão muito enfermo (fevereiro de 397). Mais algumas semanas e se extingue, fisicamente. O que Ambrósio representava para a Itália, na época, pode ser compreendido na frase do general Sitilicão: "A morte de tão grande homem seria a ruína da Itália", quando soube da grave enfermidade do bispo de Milão. Na sexta-feira santa, 4 de abril de 397, entra em agonia e morre na manhã do sábado santo (cf. Vita, 47). Os fiéis levam seu corpo para a vigília pascal. Sepultam-no junto aos mártires Gervá- sio e Potásio, cujos corpos tinham sido descobertos em 396. Antes de morrer, indica quem será seu sucessor na sede de Milão: Simpliciano: "É velho, mas é bom" - disse Ambrósio.

Sempre compreensivo, mas firme, ninguém ousava discutir suas decisões. Há unanimidade em reconhecer sua lealdade: "Ele dá a impressão de total integridade naquilo que exige, e, então, mesmo que seja duro na ação, não se mostra jamais intratável, desumano, sem escrúpulo. Pode acontecer que se detestem os objetivos que ele persegue e a maneira como procede, (...) mas seus inimigos não podiam lhe recusar estima e consideração" (8).

Roque Frangiotti - Coleção Patrística, Vol 5

Notas

(1a) A data de nascimento é incerta: 333-34 para uns, 339-40 para outros, segundo a interpretação que estudiosos fazem de uma passagem da Epist. 59,4.

(1) Cf. Vita, 3; De excessu fratris I, 32-37; Simaco, Epist. 1,63; 111,30-37.

(2) Cristãos seguidores de Ario (condenado no Conc. de Nicéia, em 325). Ne- gavam a consubstancialidade do Filho com o Pai. Apesar da condenação de Nicéia, por muito tempo ortodoxos e arianos alternavam nas sedes episcopais. Foi sustentado pelos imperadores Constâncio 11, Valentim e Valentiniano 11. O Concilio de Constantinopla, 381, sob Teodósio I, renovou sua condenação.

(3) Vita 7-9; Epist. 21,7; 63; 65. Que uma criança tenha gritado, no meio da multidão: "Ambrósio, bispo", é considerado lenda já por seu próprio biógrafo, Paulino, secretário de Ambrósio que, 25 anos depois da morte de Ambrósio, a pedido de Agostinho, escreveu o Vita Ambrosii.

(4) Ambrósio escreveu várias obras sobre o valor e a importância da virgin- dade: Sobre as virgens; Sobre as viúvas. Com estas obras, inaugura sua ativi- dade como escritor eclesiástico. Para minha irmã Marcelina, por ocasião de seus votos pronunciados na presença do papa. Exortação à virgindade; Sobre a instituição das virgens e Sobre a virgindade perpétua de Maria.

(5) o historiador Tedoreto narra com pormenores a penitência pública que o imperador teve que fazer.

(6) Novacianos eram os seguidores de um sacerdote romano do século 111, mas antipapa, Novaciano. Contra o papa Fabiano, nomeou-se bispo de Roma. Acusava o papa de ser muito complacente com os lapsi, isto é, com os cristãos que durante a perseguição de Décio, tinham renegado a fé. A igreja chamada novaciana conseguiu se estabelecer não só em Roma, mas também na Gália, na Espanha e só desapareceu no século VIII.

(7) Apolinário foi bispo de Laodicéia. Literato, teólogo, exegeta e polemista, homem de vasta erudição em matéria teológica e profana, foi um dos princi- pais escritores eclesiásticos de ~u tempo (310-390). Combateu Juliano Apóstata, defendeu a ortodoxia confl'a os maniqueus, os arianos, Marcelo de Ancira, Eunômio e outros heréticos: Sua pedra de tropeço foi o mistério da união das duas naturezas, humana e divina, na pessoa de Jesus Cristo. Em seu zelo para salvar a divindade de Jesus e preocupado em ver comprometida a unidade pessoal pelo dualismo da escola antioquena, Apolinário cometeu o erro oposto, da negação parcial da humanidade de Jesus. Partindo do princí- pio platônico que o homem é composto de corpo, de alma sensitiva (comum também aos animais) e de alma racional (própria do homem) e apelando para a passagem de Jo 1,14: "E o Verbo se fez carne", e que "Deus se manifestou na carne", acabou atribuindo a Jesus um corpo e uma alma sensitiva, mas não a alma racional, porque o Verbo tomou o seu lugar.

(8) A. von Compenhause, Les Peres latines, Paris, 1967, "Libre de Vie, n. 96", p.110.