Dos que querem buscar as estrelas

Reflexões em torno do tema da oração

Sonho com uma vida franciscana mais contemplativa na qual, nós frades, venhamos a nos mover com paixão, abertos ao sopro do Espírito. Uma vida enraizada no encontro estupendo e entusiasmado com Jesus Cristo que nos chama a segui-lo com todo o coração, o tempo inteiro, correndo todos os riscos. Sonho com uma vida franciscana que se converta no grito profético do Absoluto de Deus, num mundo onde se multiplicam ídolos e a fé se dilui ou titubeia. ( Frei José Rodríguez Carballo, OFM, Relatório ao Capítulo Geral 2009 ).

 

1. Vamos conversar sobre o tema da oração. À guisa de abertura transcrevemos estas palavras esperançosas do Ministro geral da ordem dos frades menores no capítulo de Pentecostes deste ano de 2009, por ocasião dos 800 anos do carisma. Sonha ele com uma vida mais contemplativa. Devemos acrescentar imediatamente outras duas passagens, também luminosíssimas, estas de Francisco de Assis: “Os irmãos se esforcem, antes de tudo, em desejar o espírito do Senhor e seu santo modo de operar, rezar sempre a ele com o coração puro” (Regra Bulada, 10). “Aqueles irmãos aos quais o Senhor deu a graça de trabalhar, trabalhem fiel e devotamente, de modo que, afastado o ócio que é inimigo da alma, não extingam o espírito da santa oração e devoção” (Regra Bulada, n. 5).

2. Somos eternos noviços no tema da oração. Esta faz parte do dia-a-dia de todos os sinceros e honestos buscadores de Deus. Nunca descansaremos naquilo que já conseguimos. Há momentos em que temos uma imensa saudade do Senhor. Um versículo de salmo, uma palavra da Escritura despertam em nós o desejo de buscar as estrelas, o anseio da união com o Senhor, como a esposa busca seu Esposo. Tudo está feito e tudo precisa ser refeito. Não podemos fracassar em nossa vida de oração, porque, segundo Francisco tudo está submetido a ela. Será que isso é verdade para todos nós?

3. Costuma-se dizer que nossos contemporâneos buscam a oração, ou ao menos, uma oração menos mecânica e formal do que aquela que caracterizou outros tempos. Temos medo da palavra Escritura: Esse povo me honra com os lábios mas seu coração está longe de mim. São incontáveis, na verdade, os grupos de oração que existem em toda parte. Olhamos com simpatia, por exemplo, as Oficinas de Oração de frei Inácio Larañaga e tantos círculos bíblicos que são células de oração e meditação. Muitos movimentos da Igreja em nossos dias levam as pessoas a redescobrirem a oração e há famílias que rezam belamente na Igreja doméstica. Certas liturgias soturnas foram sendo substituídas por outras mais belas. Nossas celebrações eucarísticas foram se revestindo de um caráter festivo, alegre, infelizmente, por vezes um tanto estridente, sufocador e barulhento. Muitas modalidades de oração parecem buscar o emocional, exploram os sentidos e nós, frades, nem sempre nos sentimos bem.

4. Nesse contexto valeria a pena meditar em certas passagens de São Cipriano (sec. III), em seu Tratado sobre a Oração do Senhor: “Haja ordem na palavra e na súplica dos que oram tranqüilos e respeitosos. Pensemos estar na presença de Deus. Sejam agradáveis aos olhos divinos a posição do corpo e a moderação da voz. Porque se é próprio do irreverente soltar a voz em altos brados, convém ao respeitoso orar com modéstia. Por fim, ensinando-nos, ordenou o Senhor orarmos em segredo, em lugares apartados e escondidos, até nos quartos, no que auxilia a fé, por sabermos estar Deus presente em toda parte, ouvir e ver a todos e na plenitude de sua majestade penetrar até no mais oculto . (...) Quando nos reunimos com os irmãos e celebramos com o sacerdote de Deus o sacrifício divino, temos de estar atentos à reverência e à disciplina devidas. Não devemos espalhar a esmo nossas preces com palavras desordenadas, nem lançar a Deus com tumultuoso palavrório os pedidos que deveriam ser apresentados com submissão, porque Deus não escuta as palavras e sim o coração” (Liturgia das Horas, III, p. 314 - 315).

5. Há os que, experimentando dificuldade na arte da oração, preferem dizer que toda a sua vida é oração. Notamos ainda hoje, de modo particular no Ofício Divino, por vezes, uma recitação mecânica e ritualística, sem alma, sem o interior. Nem sempre nos lembramos das palavras de Francisco: “E embora eu seja simples e enfermo, quero, no entanto, ter sempre um clérigo que reze para mim o ofício, como consta da Regra” (Testamento 29). Pode ser que alguns tenhamos praticamente abandonado a recitação do Ofício. Há, quem sabe, os que abandonaram definitivamente a oração por entraram no processo de perda da fé. Há os que dizem, com razão, que em nossas comunidades franciscanas e paroquiais, há um empenho na busca de qualidade da oração em comum. Talvez sem muita interioridade e com pouco silêncio.

6. É possível que, durante um período mais ou menos longo, por diferentes razões, alguns de nós tenhamos deixado de lado a meditação. Nossa oração se limitou à celebração ou participação da missa. De outro lado, religiosos e leigos, vivendo em ambientes de carência não cessam de confessar que cuidando dos sem-terra e sem- teto, dos doentes nos hospitais e dos leprosos de nossos tempos, encontram neles o Cristo e fizeram de seu trabalho uma oração. Fato é que, mesmo com luzes, conhecemos todos sombras no campo da oração. A bem da verdade se deve dizer que muitas de nossas fraternidades têm uma vida de oração comunitária bem balanceada. Talvez nos falte a busca do contacto íntimo com o Senhor; quem sabe perdemos o esforço da disciplina da meditação e o gosto pela leitura espiritual. Abrimos os livros de oração para preparar coisas para os outros. Não temos gosto pelo ensinamento dos mestres de oração de nossa família franciscana e dos Padres. Pode ser que jovens irmãos, depois da profissão solene, não tenham atinado para a importância da oração. Foram perdendo aos poucos o gosto de voar para as alturas...

7. Nós frades, vivemos inseridos no mundo, na correria do mundo. Há tempos atrás os bispos espanhóis do país basco escreveram certas linhas muito pertinentes relativas ao tema que agora ocupa nossa reflexão: “Por vezes as pessoas se instalam numa forma de viver que afoga a inquietude religiosa que brota do coração humano. Seu ritmo de vida agitado, seu mundo de preocupações e interesses, sua obsessão pelo imediato desfrutar das coisas, sua maneira de consumir notícias e televisão não dão lugar para o crescimento da fé. Esta vida pragmática e superficial impede o indivíduo de chegar ao fundo de seu ser. Só interessa a satisfação imediata. Viver da melhor forma possível. Pouco a pouco a fé desta pessoa se dilui. Fica sem capacidade de ouvir outro rumor a ser não de seu mundo de interesse. Em sua vida não há lugar para Deus. Ou, talvez algo que não seja muito melhor. Só há lugar para uma religião “rebaixada” ao nível do útil e do pragmático, onde o “religioso” se converte num “artigo”, mais a serviço do bem estar, mas onde falta a gozosa adesão a Deus e do fiel seguimento de Jesus Cristo”.

8. Ubaldo Terrinoni, em Projeto de pedagogia evangélica (Paulinas, S.Paulo, 2007) reflete na mesma linha: “Oração em crise? Poderia parecer que sim! O ser humano moderno, filho da ciência e da técnica, educado para acreditar naquilo que vê pode tocar, encontra sérias dificuldades para abrir-se ao mistério de Deus e ao diálogo com ele. A nossa civilização, toda dominada pela lógica do ter e do fazer, exaltada pelo ídolo da eficiência, da produtividade e do consumo, não percebe mais a necessidade de reservar um tempo para a contemplação. Ao ritmo frenético do fazer e produzir, deve corresponder para ele a rapidez do receber e do consumir. Disso resulta que não há tempo para outra coisa: não há espaço para o gesto gratuito, para a escuta do próximo e para um colóquio tranqüilo com Deus na quietude e do espírito e no repouso da mente” (p.103).

9. Fala-se, assim, de uma crise de oração. Se é crise mesmo não há que temer. Superando-se a crise, chega-se a um novo equilíbrio. Talvez não seja apenas uma leve turbulência. O Ministro Geral se refere a um mundo onde a fé se dilui e cambaleia ou titubeia. Os bispos espanhóis abundam no mesmo sentido. Falam da debilitação da fé. “ A fé se debilita por falta de interioridade. Cada vez há menos espaço para o espírito em nossa vida diária. Muitos consideram a “vida interior” como alguma coisa completamente inútil e supérflua. Organizam sua vida a partir do exterior. Quase tudo o que fazem tem como objetivo alimentar sua personalidade mais externa e superficial. De outro lado, a vida do espírito aparece tão desprestigiada que facilmente se qualifica de evasão qualquer tentativa de se cultivar o mundo interior. Privada, no entanto, de interioridade, a fé se extingue. Revestimo-nos como que de capas de projetos, ocupações e expectativas, mas o “homem interior” se debilita. Para que a fé seja fonte de luz e de vida, o ser humano precisa adentrar-se em seu mistério e chegar ao âmago de sua vida onde está total e unicamente diante de Deus. Quando a pessoa perde contacto com o nível transcendente de seu ser se apaga a experiência religiosa, mesmo que se continue praticando uma religião externa. De fato, não poucos são os cristãos que não conhecem o desejo do Absoluto nem a experiência de uma comunicação pessoal com Ele. Buscam segurança religiosa nas crenças e práticas que encontram a seu alcance, sem nunca conseguirem penetrar numa relação viva com a realidade misteriosa de Deus”. Importante a afirmação: perdendo-se a ligação com o transcendente não temos mais experiência religiosa. O que resta então da oração? As linhas que acabamos de transcrever não poderiam ser aplicadas, mutatis mutandis, à nossa vida de oração dos frades?

10. Normalmente o homem não está em consonância com Deus. Sente o peso da terra, é terreno. Tudo o arrasta para o visível, o sensível, o palpável. Algumas vezes se lembra do sagrado, mas isso não quer dizer que se trata de um retorno ao religioso. A vida interior cristã é mais do que um fenômeno psicológico. É dom e manifestação do espírito de Deus. Aos gálatas Paulo forjou esta frase: “Deus enviou aos nossos corações o espírito de seu Filho, que clama Abba! Pai” (Gl 4,6).

11. Francisco será alguém guiado pelo Espírito. Vai de canto em canto, vive nos eremitérios, retira-se do burburinho, reza o ofício. Suas biografias estão pontilhadas de expressões como estas: fortalecido pelo Espírito, movido pelo Espírito, no fervor do Espírito. O segredo de sua fecundidade apostólica e contemplativa é sem dúvida sua disponibilidade à ação do Espírito. Boaventura afirma: “Toda sua vida interior foi hospitalidade total ao Espírito, perfeita docilidade aos seus ensinamentos” (Leg. Maior 11,2).

12. Rezar nada mais é do que prestar atenção a esse gemido do Espírito que mora em nós. Trata-se de acolhê-lo e não sufocá-lo. Pode ser que, em alguns dias ou determinados tempos, o desejo de Deus parecerá morto. Em outras ocasiões ele brotará de novo. “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos juntos (Ap 3,20). Abrir a porta significa não caminhar sozinho, mas desejar ser acompanhado por esta presença misteriosa. Os que se fecham ao Senhor se esterilizam.

13. Reflexão e recolhimento, momentos de estudo e outros de silêncio, o Oficio da Igreja e o júbilo da missa de todos os dias!!! Para que isso seja possível será fundamental não perder o caminho do coração. “O Espírito abre o ser humano ao futuro imprevisto de Deus. Nele desperta-se uma “faculdade interior” e se descobre que o homem é dotado de um sentido interior – que a Bíblia chama de “coração” – capaz de relacioná-lo com Deus. Se para o homem é difícil entrar em relação com Deus, é porque perdeu o caminho do coração que, como diz São Paulo, foi privado de inteligência e deixou-se envolver pelas trevas. Francisco encontrou de novo o caminho do coração onde o “Espírito se une ao nosso espírito”, se formos atentos à sua ação” (M. Hubaut, op.cit., p. 55).

14. Francisco, com efeito, é visitado pelo Espírito. Ele “sempre procurava um lugar escondido em que pudesse unir a seu Deus não só o espírito, mas também cada membro. Quando era subitamente agraciado em público pela visita do Senhor, para não estar sem cela, fazia do manto uma pequena cela. Muitas vezes, faltando-lhe o manto, para não revelar o maná escondido, cobria o rosto com a manga. Sempre interpunha algo aos presentes, de modo que, inserido entre muitos no estreito espaço de um navio, rezava sem ser visto. Finalmente, não podendo nada destas coisas, fazia do peito um templo. O esquecimento de si e a absorção em Deus fizeram desaparecer tosses e gemidos, respirações duras e gestos externos” (2Celano 94).

Os verdadeiros orantes buscam as estrelas....

frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM