OS  SUPLÍCIOS  DOS  MÁRTIRES

1. Sentença condenatória

Os cristãos que recebessem sentença condenatória podiam ser destinados ao desterro, à deportação ou a trabalhos forçados.

1.1 Desterro

O desterro era a pena mais suave, não considerada como pena capital, porque não implicava a perda dos direitos civis nem a confiscação dos bens pessoais. Assim foi desterrado o apóstolo São João para a ilha de Patmos, onde escreveu o Apocalipse. Também foram desterrados São Cipriano, São Dionísio de Alexandria e muitos outros. Os desterrados eram tratados com relativa brandura.

1.2. Deportação

A deportação era mais grave do que o desterro, considerada como pena capital, que implicava morte civil. Os deportados eram banidos para os piores lugares. "A vida do deportado deve ser tão penosa que equivalha ao último suplício" (Modestino). Às vezes o chicote dos guardiãs apressava o fim do deportado. Assim morreu na Sardenha, em 235, o papa Ponciano.

1.3. Trabalhos forçados

Esta era cumprida nas minas. Ao chegar, começava o tormento do condenado por açoites, a fim de se lhe deixar claro, desde o início, que era destinado a ser "escravo da pena". Em seguida, era marcado na testa com sinal próprio.

Entre os deportados para as minas, havia bispos, clérigos, leigos e leigas, como também meninos e meninas. Estes últimos, não podendo cavar o solo com as ferramentas dos adultos, eram encarregados de transportar o material em cestos, única modalidade possível para as mulheres. Viviam todos dentro das minas em trevas, que se tornavam mais angustiantes por causa da fumaça pestilenta das tochas. Mal alimentados e mal vestidos, tremiam de frio no subterrâneo. Sem cama nem colchão, dormiam sobre o solo. Era-lhes proibido tomar banho e os sacerdotes não podiam celebrar a Santa Missa.

Os cristãos condenados às minas no Oriente ainda foram mais atormentados. O governo da Palestina em 307 mandou que com ferro candente se queimassem os nervos de uma das cochas dos condenados. Maior crueldade ainda ocorreu com os condenados que foram enviados à Palestina: Sofreram golpes que os deixaram mancos e tortos; arrancaram-lhes o olho direito, cauterizando imediatamente com ferro candente as órbitas ensangüentadas.

Embora sofressem tais calamidades, os cristãos em algumas minas construíram capelas, como ocorreu em Phaenos no ano de 309. Alguns bispos presos conseguiam celebrar a Santa Missa. Porém, esta liberdade redundou em tremendos castigos: os anciãos foram decapitados, dois bispos, um sacerdote e um leigo que se haviam destacado por sua fé foram atirados ao fogo, outros foram enviados para Chipre e o Líbano; assim desapareceu a pequena igreja da mina de Phaenos (Eusébio, De martyribus Palestinae).

2. A pena capital

O modo mais cruel era a crucifixão. A seguir, ocorriam a pena do fogo, a exposição às feras e, por último, a decapitação. No Império Romano a cruz ficou sendo o suplício dos mais miseráveis. A espada era reservada aos cidadãos. O fogo e as feras eram atribuídos aos criminosos que não tinham direitos de cidadania. Todavia a arbitrariedade dos magistrados e o ódio do povo não observavam as leis romanas, como consta dos seguintes testemunhos: São Justino diz: "Cortam-nos a cabeça, crucificam-nos, expõem-nos às feras, atormentam-nos com cadeias, com o fogo, com os suplícios mais terríveis" (Diálogo com Trifão 110).

Tertuliano escreve: "Pendemos da cruz, somos devorados pelas chamas, a espada abre nossas gargantas e as bestas ferozes se lançam contra nós" (Apologeticum 31).

Clemente de Alexandria observa: "Diariamente vemos com os nossos olhos correr torrentes de sangue de mártires queimados vivos, crucificados ou decapitados" (Stromateis II).

2.1. A decapitação

Em Roma a morte dos condenados era para o povo um espetáculo prazeroso. "A dor de alguns é o prazer de todos" (Prudêncio, Contra Symmachum II).

O condenado esperava o golpe mortal de joelhos ou em pé, como o mártir Aquileu. Somente uma arma honrosa, a espada, devia cortar a sua cabeça. Não podia ser substituída por um machado ou outra arma. Tratava-se de uma pena de morte reservada a pessoas de elevada condição.

Morreram decapitados: são Cipriano, são Paulo, Flávio Clemente com outros nobres, São Justino e seus discípulos, o senador Apolônio, vários mártires de Lião. O papa Xisto nem sequer foi julgado; surpreendido em flagrante a pregar aos fiéis foi decapitado ali mesmo, sentado em sua cátedra. Em Lambesa, após vários dias de execuções, os carrascos mandaram que os mártires se ajoelhassem em fila e passaram por eles cortando-lhes a cabeça.

2.2. A fogueira

Foi aplicada pela primeira vez em 153 ao bispo são Policarpo em Esmirna. Então, tornou-se mais freqüente. Era uma pena reservada à gente de condição inferior. Vinha aplicada sob forma de espetáculo para o povo. Acendia-se a fogueira no circo, no estádio ou no anfiteatro. O condenado era despojado de suas vestes, que se tornavam propriedade dos seus carrascos. Uma vez despido, era atado a um poste, geralmente com as mãos levantadas para o alto, como nos casos de Carpos, Papylos e Agathonice. Em outros casos, como no de são Policarpo, as mãos eram atadas e ficavam pendentes para ser atingidas pela chamas. Algumas vezes a corda se queimava; então o mártir se punha de joelhos com os braços em cruz em meio às chamas. A morte costumava ser rápida.

No fim do séc. III, a pena de morte pelo fogo tornou-se ainda mais cruel: com freqüência as vítimas eram enterradas até os joelhos para que as chamas as envolvessem melhor. Aos poucos o caráter espetacular do suplício foi-se apagando. O público foi-se cansando de presenciá-lo.

Além da fogueira propriamente dita, havia outros tipos de morte pelo fogo: assim a caldeira de azeite fervente, onde terá sido submerso o apóstolo são João, conforme Tertuliano; também a caldeira de betume acesa, na qual morreu santa Potamiana; a cal viva na qual foram atirados Epímaco e Alexandre; por último, a grelha, que deu morte ao diácono são Lourenço; este e outros foram assados vivos.

2.3. As feras

O suplício mais dramático dos mártires cristãos foi a exposição às feras perante a multidão pagã. Tal espetáculo era geralmente reservado para os dias de festa ou alguma solenidade especial.

A proximidade de alguma celebração importante levava os juízes a condenar os cristãos às feras. Às vezes, porém, era o próprio povo que gritava: "Os cristãos aos leões!". Além disso, a força física da vítima motivava o juiz para ditar-lhe a execução pelas feras a fim de agradar ao povo.

Santo Inácio de Antioquia foi enviado a Roma para ser degolado pelas feras em 22/12/107, ano em que se celebrou a vitória de Trajano sobre os dácios com 123 dias de festa.

A exposição às feras era organizada de modo espetacular. Os condenados eram previamente apresentados ao público entre ultrajes e crueldades. Por vezes eram anteriormente chicoteados ou marcados com ferro em brasa. Deviam marchar em procissão em torno da arena sob o chicote dos carrascos. Também podia ocorrer que, para intensificar o tom teatral do espetáculo, se impusessem máscaras às vítimas, máscaras essas de deuses pagãos como Saturno, Danaos, Circe e Ceres.

Quando as feras não chegavam a matar suas vítimas, os algozes se encarregavam de arrematar o suplício. Tal foi o caso de Perpétua, Felicidade e Saturo. Em Cesaréia, Adriano, Eubulo e Agapito, depois de passar pelas feras foram degolados (os dois primeiros) e atirado ao mar o terceiro.

O historiador Eusébio foi testemunha ocular de fatos semelhantes. Observa que as feras por vezes pareciam respeitar as testemunhas de Cristo. Assim relata: "Estive presente a este espetáculo e percebi muito manifesta a assistência do Senhor Jesus, de quem os mártires davam testemunho. Os animais vorazes ficavam por muito tempo sem ousar tocar nos corpos dos santos; ao contrário dirigiam toda a sua ira contra os pagãos que se esforçaram por atiçá-los. Por vezes lançavam-se contra os condenados cristãos, mas imediatamente recuavam como se fossem rechaçados por um poder divino.

Vi um jovem de vinte anos com os braços em cruz; rezava pela paz sem se mover, aguardando o urso ou o leopardo, que pareciam ferozes, mas que uma força misteriosa detinha. Vi também cinco outros cristãos expostos a um touro bravo; este havia lançado ao ar vários pagãos; quando ia atirar-se contra os mártires, não podia dar um passo, ainda que provocado por um ferro candente. Parecia a mão de Deus intervir nestes casos" (História Eclesiástica, VIII).

Nunca os mártires lutaram contra as feras. Não se conhece caso algum. Deixavam ser atacados sem se defender.

2.4. A crucifixão

O suplício da cruz, considerado pelos romanos como infamante, foi aplicado com grande freqüência aos cristãos. Além da crucifixão do Senhor Jesus, tornou-se famosa a do apóstolo Pedro. Orígenes relata que Pedro foi crucificado de cabeça para baixo, pois o próprio Pedro pediu que fosse assim fixado à cruz.

Escreve Sêneca, filósofo estóico: "Vejo cruzes de diversos modos; alguns são levantados na cruz com a cabeça para baixo." (Consolatio ad Marciam, 20).

Muitos cristãos sofreram a pena da cruz nos jardins de Nero. Na cruz morreu também são Simeão, bispo de Jerusalém. Cem anos mais tarde um pagão escrevia ao cristão Minúcio Félix em tom de triunfo: "Este não é o tempo de adorar a cruz, mas de padecê-la".

Foram crucificados: Cláudio, Astério e Neón, Caliope, Teodulo, Agrícola, Timóteo e Maura. Eusébio refere-se a muitos mártires que morreram crucificados no Egito: "Foram crucificados como o são os malfeitores. Alguns, com particular crueldade, foram pregados à cruz de cabeça para baixo. Assim permaneceram vivos até morrer de fome em seu patíbulo" (História Eclesìástica VIII, 8).

Na Ata do martírio dos santos Timóteo e Maura, lê-se que dois cônjuges cristãos permaneceram crucificados frente a frente e assim ainda viveram nove dias, padecendo, além do mais, o tormento de uma sede ardentíssima.

2.5. A submersão

Outro modo de executar os mártires, a partir do final do séc. III, era o afogamento por imersão.

Eusébio narra que em 303 inumeráveis cristãos foram amarrados, levados em barcos até alto mar, onde foram atirados dentro da água. Em 304 na cidade de Roma 2 mártires foram lançados no rio Tibre. Em Cesaréia foi afogada uma jovem de 18 anos. Na Panônia o bispo Quirino foi lançado no rio Save com uma pedra de moinho no pescoço.

O afogamento era uma pena legal. Podiam as vítimas ser lançadas ao mar dentro de um saco em companhia de animais daninhos; este era o suplício destinado a quem matasse seu pai. Todavia, foi aplicada aos cristãos de maneira ilegal. O próprio imperador Galério suprimiu em seus Estados a mendicância mandando afogar os mendigos.

3. Outros suplícios

São quase incontáveis os tipos de suplício a que foram submetidos os cristãos pelo ódio dos pagãos.

Em Alexandria o povo enfurecido apedrejou as santas mártires Meta e Quinta e atirou do alto de uma casa o mártir Serapião. Em Roma foram encerrados numa cripta das catacumbas cristãos que assistiam aos sagrados mistérios. Em Antioquia cortaram a língua do diácono Romano; após o quê o estrangularam. Dorotéia, Gorgônio e outros fiéis foram estrangulados em Nicomédia.

O historiador Eusébio narra que na Arábia mataram vários fiéis a golpes de machado, suplício proibido pela lei. O mesmo informa que na Capadócia mataram cristãos quebrando-lhes as pernas. Em Alexandria cortaram-lhes nariz, orelhas e mãos. No Ponto enfiaram-lhes espinhos debaixo das unhas e derramaram sobre as vítimas chumbo derretido.

São Cipriano escrevia a um magistrado africano: "Tua ferocidade e tua desumanidade não se contentam com os tormentos habituais; tua maldade é engenhosa e inventa novas penas" (Ad Demetrianum 12).

Eusébio atesta a mesma coisa, referindo-se aos magistrados que inventavam tormentos desconhecidos e pareciam rivalizar entre si pela crueldade. Mais ainda: os magistrados romanos podiam sempre se sentir absolvidos da crueldade pelo fato de que jurisconsultos prestigiosos, como Cláudio Saturnino, estipulavam o seguinte princípio: "Às vezes acontece que as penas são exacerbadas quando se trata de certos malfeitores, pois isto é necessário para que outros muitos tenham medo" (Digesto XLVIII, XIX).

Conclusão

É realmente digno de admiração o fato de que homens, mulheres e crianças de regiões muito diversas tenham suportado heroicamente os suplícios apontados, quando podiam livrar-se deles mediante uma palavra ou um simples gesto que significasse renúncia a sua fé.

É necessário reconhecer que os terríveis sofrimentos dos mártires cristãos constituem um caso extraordinário, único e sem semelhante nos anais de qualquer povo e de qualquer religião. Isto faz pensar que a atual geração de cristãos é descendente de heróis e pertence a uma nobre família de testemunhas da fé.