A MISSÃO A PARTIR DA PEQUENEZ, DA POBREZA E DO MARTÍRIO

Já foi iniciado nosso Segundo Congresso Americano, para o qual viemos preparando-nos há, já, quatro anos, e por isso queremos, nesta manhã de alegria, agradecer ao Senhor Jesus Cristo e a sua Mãe Santíssima.

Na América Central, o Ano Santo Missionário foi encerrado nas mãos de N. Senhora de Guadalupe e do Senhor das Esquipulas, peregrinos que percorreram as latitudes deste pedaço da América, avivando a Fé e o Amor de nossos povos.

Bendito seja Deus! Benditos sejam estes dias de Graça que viveremos juntos, sob a orientação de nosso Santo Padre João Paulo II, missionário infatigável que nos enviou como seu Delegado a S. Emª o Cardeal Sepe, que inaugurou este Congresso.

O Ano Santo Missionário na América Central guiou-nos passo a passo, acompanhou-nos e fez-nos aprofundar com muitos esforços o sentido daquilo que hoje nos congrega: IGREJA NA AMÉRICA, TUA VIDA É MISSÃO, renovada em tua identidade e a partir dos valores característicos que te definem como o CONTINENTE DA ESPERANÇA.

Na Carta sobre o Novo Milênio (Novo Millennio Ineunte), João Paulo II nos diz que “Cristo... nos convida mais uma vez a nos pôr a caminho. Vão e façam discípulos a todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo (Mt 28, 19)... convidando-nos a ter o mesmo entusiasmo dos primeiros tempos.  Contudo, não é um entusiasmo que brota superficialmente de alguns momentos de alegria e euforia, mas que se originam de fundamentos profundos que, em seguida, passaremos a meditar.”

A missão a partir da pequenez

“Não temas, pequeno rebanho” (Lc 12, 32), é a primeira das instruções que o Senhor Jesus veio trazer-nos. Parece-nos tão enorme a tarefa evangelizadora! Somente uma quarta parte dos habitantes do mundo conhecem o Senhor Jesus Cristo. Em nossas próprias terras da América, quantos batizados vivem verdadeiramente sua fé com todas as conseqüências que dela derivam? Não é verdade que o “divórcio entre a Fé e a vida”, de que nos fala o Papa Paulo VI, permanece atuante em muitas pessoas que chamam a si mesmas de “católicas”?

O plano de Deus, contudo, continua desenvolvendo-se ao longo dos séculos, inclusive o Séc. XXI. E servindo-se de instrumentos humildes e simples, como todos nós, que não valemos grande coisa aos olhos dos poderosos e satisfeitos deste mundo.

Nada melhor que a parábola do grão de mostarda para compreender este ensinamento do Senhor Jesus: “A que se parece o Reino de Deus? E a que o compararei? É semelhante a um grão de mostarda, que um homem toma para lançá-lo em sua horta; e cresce e torna-se uma árvore, e os pássaros do céu se aninham em suas ramagens.” (Lc 13, 18-19.)

O serviço missionário que nos é pedido consiste em transformar-nos nesta pequena semente no meio do mundo. Uma sementinha cabe em qualquer lugar, ou seja, o Reino dos Céus cabe em toda parte e, igualmente, os missionários cabem em qualquer lugar debaixo do céu.

Quando a semente de mostarda cai na terra e cresce entre as demais hortaliças, chega a crescer tanto ou mais que elas. Este é o mistério da missão que Deus nos encomenda. Sabendo cair na terra, devemos chegar a crescer para que todos e cada um possam receber a sombra acolhedora e o ar fresco do anúncio do Evangelho. Nas ramagens de cada missionário, todas as pessoas devem encontrar o amor de Deus, a misericórdia de Deus, o perdão de Deus, a família de Deus.

A partir da pequenez e da insignificância, Deus pode fazer surgir e crescer a grandeza do Reino de Deus. É mais uma vez um dos paradoxos do Evangelho, que revelam essa pedagogia misteriosa de Deus, como no caso da cruz. Da morte gera-se a vida. Assim também, da pequenez e da insignificância se edifica o Reino de Deus.

Poderíamos aqui mencionar também as parábolas do fermento na massa, ou a moeda perdida ou a pérola preciosa. Trata-se de elementos pequenos que geram muita vida, muita alegria, muito amor, muita generosidade.

Aqui está o profundo ensinamento e o chamado que Deus e nossa Mãe, a Igreja, nos fazem neste Congresso Missionário Americano: QUE CADA UM, A PARTIR DE SUA PEQUENEZ, FAÇA CRESCER O REINO DE DEUS. Que cada um, a partir de sua aparente insignificância, cresça em virtudes e valores humanos, sociais, pessoais, cristãos, morais e éticos, para um mundo melhor e mais santo. Isto significa ser missionários do Reino.

Aqui estamos vendo quais são as ramagens que podem crescer de nossas pequenas sementes. Quais são os frutos que nossas vidas devem produzir: a entrega e a missão para edificar o Reino de Deus.

Que bom seria tomar papel e lápis e escrever quais são as ramagens da missão que cada um de nós acredita ter recebido de Deus. Quais são os frutos que temos produzido ou podemos produzir, por menores que eles sejam. E chegaremos à conclusão de que a Igreja não é uma pequena horta, mas, antes, um imenso e frondoso bosque que pode abrigar a todos os filhos de Deus que geram frutos e sombra, onde todos possam sentir-se amados, perdoados e salvos por nosso Senhor Jesus Cristo.

Estes critérios do Evangelho nos recordam que, a partir da pequenez, o serviço da missão é o gozo de uma Igreja que anuncia ao ser humano de hoje, que ele é filho de Deus em Cristo, que se compromete com a libertação de todo o homem e de todos os homens.

Nestes anos de história do Continente, vemos cada vez com maior clareza que o serviço da paz e da justiça é um ministério essencial da Igreja, que nos insere no espírito de solidariedade, na atividade missionária da Igreja Universal, em íntima comunhão com o Santo Padre.

Ser missionário e apóstolo é condição de identidade para o cristão.

Queremos cultivar uma atividade missionária “Äd Gentes” a partir de nossa rica experiência de pequenez, inspirada no Magnificat, cântico de Maria que exalta a ação de Deus nos pobres, que sabem reconhecer o fato de que Deus atua nos simples e pequenos, naqueles que não contam porque não valem.

Reconhecemos que não temos nada de que fazer alarde, por isso oferecemos ao Senhor a única coisa que temos: nossa vontade de servir ao plano amoroso de Deus sobre a humanidade. Como Maria, queremos dizer: Aqui estou, “faça-se em mim segundo a tua vontade”. (Lc 1, 38.)

Nós, os povos centro-americanos, não somos grandes em número, recursos e tamanho. Precisamente porque somos pequenos, confiamos em Deus e experimentamos a força da solidariedade. Cremos que o êxito da tarefa missionária será aquilo que Deus lhe quiser dar. Fazemos nossas as palavras de São Paulo: “Apresentei-me diante de vocês débil, assustado e tremendo de medo. Minha palavra e minha pregação não consistiram em sábios e persuasivos discursos; antes, foi uma demonstração do poder do Espírito, para que a fé de vocês se fundamentasse, não na sabedoria humana, mas no poder de Deus.” (1Cor 2, 35.)

Confiamos na ação poderosa de Deus, que nos fará capazes de enfrentar os desafios e reptos, os problemas e dificuldades, os sonhos e esperanças que se apresentam hoje à missão, com a convicção de que Ele levará a termo a tarefa missionária.

A missão a partir da pobreza

É emocionante ler os encontros do Senhor Jesus com seus apóstolos e discípulos, treinando-os e formando-os para a missão. Um exemplo é o capítulo 10 de São Lucas. Primeiro, ensina-os com o exemplo e, a seguir, com sua palavra. Posteriormente, convida-os a imitá-lo. Quando Jesus faz o primeiro convite aos discípulos para experimentarem a missão do Filho de Deus, ele o faz a partir da simplicidade e da pobreza com que Ele mesmo foi missionário:

- “Do Pai procedo, e foi Ele que me enviou.” (Jo 7, 29.)

- “Aquele que me enviou está comigo.”(Jo 8, 29.)

- “Aquele que me vê, está vendo Aquele que me enviou.” (Jo 12, 45.)

Com toda humildade e simplicidade, afirma:

- “Minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou.” (Jo 7, 16.)

- “Eu não falei por mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, Ele me deu o mandato sobre o que tenho de dizer e falar.” (Jo 12, 49.)

Por isso sua principal preocupação é “que o mundo creia que Tu me enviaste”. (Jo 12, 49.)

Ficamos desconcertados com o fato de que Ele envie seus missionários em total despojamento: “Não leveis bolsa nem alforje  nem calçado...” (Lc 10, 4.) Como é possível enviar missionários nessas condições em uma terra quase de deserto, onde as temperaturas podem ser muito quentes ou muito frias?

O Senhor sabe muito bem que aqueles que o estão escutando cresceram e foram educados nas tradições do Povo de Israel. Sabe que seus interlocutores, quando iam ao Templo de Jerusalém, entravam despojados de dinheiro, túnicas ou sandálias, porque assim faz a criatura diante de seu Criador.

É assim que Jesus quer os seus missionários. A pregar de povoado em povoado, de aldeia em aldeia, assim como eles entravam no Templo de Jerusalém. De agora em diante, Deus vai de povoado em povoado e de aldeia em aldeia, em cada um de seus discípulos e em cada um de seus apóstolos, em cada missionário.

Apóstolos, discípulos e missionários levam o próprio Deus em sua boca, em seus lábios, em suas mãos, em seu olhar, em seu coração, em todo o seu ser, e levam acima de tudo o exemplo e a face que Deus lhes mostrou em Jesus Cristo.

A missão a partir da Pobreza é um seguimento de Cristo que, fazendo-se pobre, ensinou-nos, ao fazer-se nosso irmão, pobre como nós, que o melhor serviço ao irmão é a evangelização que o dispõe a realizar-se como filho de Deus, libera-o das injustiças e promove-o integralmente.

Preparamo-nos para celebrar brevemente os 25 anos da Conferência de Puebla, que tão positivamente marcou as tarefas da Nova Evangelização. Há um tópico desse Documento que gostaria de citar neste momento, porque é sumamente eloqüente. Trata-se do nº 368, que diz literalmente: “Chegou para a América Latina a hora de intensificar os serviços mútuos entre Igrejas Particulares e de se lançarem além de suas próprias fronteiras, “ad gentes”.  É verdade que nós mesmos estamos necessitados de missionários. Devemos, porém, dar a partir de nossa pobreza. Por outra parte, nossas Igrejas podem oferecer algo original e importante: seu sentido da salvação e da libertação, a riqueza de sua religiosidade popular, a experiência das Comunidades Eclesiais de Base, a floração de seus ministérios, sua esperança e a alegria de sua fé. Já temos realizado esforços missionários que podem aprofundar-se e devem estender-se.”(DP, 368.) A pergunta que vem espontaneamente é: Que aconteceu, passados 25 anos?

Pobreza, despojamento e desprendimento são condições indispensáveis para a missão. A Igreja na América Latina, que certamente é pobre do ponto de vista econômico, tem sabido partilhar a riqueza de sua fé com muitos de seus filhos e filhas.

Apesar disso, permanece o desafio: em nosso Continente temos 50% dos católicos do mundo, mas não temos ainda 50% dos missionários do mundo. Por isso temos de tornar realidade o lema que nos convoca: IGREJA NA AMÉRICA, TUA VIDA É MISSÃO.

O Plano de Missão Ad  Gentes que se deseja assumir, é focalizado a partir de um profundo sentido de pobreza, já que a autêntica pobreza nos faz entender a realidade alheia e nos move a um verdadeiro sentido de caridade, a qual se projeta para a “prática do amor ativo e concreto com cada ser humano” (NMI 49, 1). Como Pedro, podemos dizer com toda a verdade: “Não temos ouro nem prata” (At 3, 6); queremos, porém, com generosidade, oferecer e compartilhar o que temos: o dom da fé, a certeza de que em nome de Jesus de Nazaré podemos ajudar muitos a se levantarem e poderem caminhar.

Não podemos perder de vista que o seguimento radical de Cristo na missão leva consigo a confiança absoluta na providência amorosa do Pai. Em outras palavras, o discípulo deve viver como Jesus, seu mestre (Cf. Mt 8, 20), e participar de seu destino.

O missionário não pode esperar privilégios. O missionário vive a rica experiência de saber-se pequeno e frágil, como o grão de mostarda. É capaz de se considerar feliz com seu copo de água dado em nome de Jesus. Seu serviço humilde tem toda a eficácia redentora de Cristo. A ação missionária Ad Gentes a partir da pobreza requer oração, sacrifício, humildade, vida ordinária, amor preferencial pelos que sofrem, campos de caridade e serviço, esperança e confiança. Tudo isto traduzido em doação a exemplo de Jesus e de Maria, que sempre foram dóceis e souberam responder com prontidão e generosidade ao projeto que o Pai lhes havia proposto.

Nossa capacidade missionária Ad Gentes dependerá de assumirmos nossa pobreza como uma nova possibilidade de se dar, no estilo do Bom Pastor que dá a vida. Para ser pão comido como Cristo, é preciso passar pela pobreza de Belém e o desnudamento da cruz.

Como evangelizadores, somos conscientes de que este tesouro, nós o levamos em vasos de barro, para que todos vejam que uma força tão extraordinária procede de Deus, e não de nós” (2Cor 4, 7). De fato, os meios e recursos humanos, sejam financeiros, técnicos ou de pessoal, que outras Igrejas e em outros tempos puderam pôr a serviço da missão, já não estão ao nosso alcance. Queremos continuar sendo apóstolos de Jesus a partir de nossas humildes e simples possibilidades. Damos o que temos recebido, entregamos nossa fé e nossa alegria.

Por isso, a missão que podemos impulsionar desde a América Central se fundamenta na pobreza e é levada a cabo por homens e mulheres que não têm outros recursos para o anúncio do Evangelho, a não ser o coração sincero, cheio de fé e esperança, mãos generosas para partilhar e pés pressurosos para transmitir com urgência a Palavra do Senhor, verdadeiro dom de Deus para todos os povos.

A missão a partir do martírio

No Novo Testamento, percebemos que a missão e o Martírio são dois elementos inseparáveis. O primeiro testemunha é o próprio Senhor Jesus Cristo. Segue-se o diácono Estêvão, protomártir. Celebramos liturgicamente aos Apóstolos com paramentos de cor vermelha, simbolizando o sangue que derramaram por serem fiéis ao Senhor Jesus.

Conhecemos o Martirológio Cristão, sem contar os mártires missionários anônimos, sobre os quais, talvez, nunca se escreverá uma única página, mas que em sua entrega silenciosa e fiel à missão a eles confiada, realizaram na História o fato de que “o sangue dos mártires é semente de cristãos”. (Tertuliano, Apol., 50, 13;  CCL I, 171.)

A tradição de celebrar a Santa Missa sobre uma “pedra de ara” pretendia recolher o antiqüíssimo costume dos primeiros cristãos de celebrar a “fração do pão” sobre a tumba dos mártires. Ali estão, ao pé dos altares, ou nas patenas e nos cálices, o rosto e os nomes dos mártires de ontem e de hoje.

Mataram o corpo de Cristo, mas não o Filho de Deus. Despedaçaram os corpos dos apóstolos, dos discípulos e dos missionários das primeiras comunidades cristãs, mas não a certeza da Ressurreição e da vida eterna.

Ao longo destes 2003 anos de História da Igreja, correu injustamente muito sangue doloroso, desperdiçado. Não puderam, porém, matar a Deus nem aos filhos do Deus da Ressurreição. Hoje em dia, nosso Continente continua banhado pelo sangue dos mártires: leigos, sacerdotes, religiosas e religiosos, Bispos e um Cardeal.

É oportuno recordar aqui uma página da Carta do Papa na preparação do Jubileu do Ano 2000. “A Igreja do primeiro milênio nasceu do sangue dos mártires. Os fatos históricos ligados à figura de Constantino, o Grande, jamais teriam podido garantir um desenvolvimento da Igreja como o verificado no primeiro milênio, se não fosse aquela semeadura de mártires e aquele patrimônio de santidade que caracterizaram as primeiras gerações cristãs. Ao término do segundo milênio, a Igreja voltou a ser novamente a Igreja dos Mártires. As perseguições contra os fiéis produziram uma grande sementeira de mártires em várias partes do mundo. O testemunho oferecido a Cristo, até o derramamento de sangue, tornou-se patrimônio comum de católicos, ortodoxos, anglicanos e protestantes. É um testemunho que não pode ser esquecido...” (TMA, 37.)

Mons. Oscar Arnulfo Romero, Mons. Roberto Joaquín Ramos Umaña, Mons. Isaías Duarte Cancino, o Cardeal Juan Jesús Posadas Ocampo. Não podemos deixar de mencionar que hoje temos nossos pés, nossa fé e nossa missão pousados sobre esta bendita terra guatemalteca, que ainda não acaba de encerrar as contas de seus mártires, desde o Pe. Hermógenes até Mons. Juan Gerardi Conedera, e dezenas de sacerdotes, religiosas e leigos.

Bendita seja esta terra de mártires e bendita seja a missão que aqui se realiza, regada com seu sangue. A missão da Igreja se vê fortalecida por esses titãs da fé!

Nosso compromisso com a missão Ad Gentes se inspira no testemunho de fé e martírio que caracteriza nossa Igreja na América Central, o qual se constitui um fato de especial relevo não apenas para nós, mas também para a vida da Igreja do continente. Se o sangue é semente de cristãos, esta semente deve fazer florescer em todo o universo a força dinâmica e multiplicadora do Evangelho.

Não podemos perder de vista que a história da evangelização é sempre história de sangue de mártires como semente de cristãos. Esta rica experiência de martírio nos dará força e convicção para nos mantermos firmes diante do sofrimento e das dificuldades.

Nossas Igrejas particulares da América Central estão marcadas por uma história recente de perseguição e martírio. Essa história marca nossa atividade missionária de tal maneira que a memória de tantas testemunhas da fé nos motiva no trabalho pastoral e nos fortalece para estarmos sempre alegres no Senhor. “Felizes serão vocês quando os injuriarem, perseguirem, e disserem contra vocês todo tipo de calúnias por causa de mim. Alegrem-se e regozijem-se, porque será grande a sua recompensa nos céus.” (Mt 5, 11-12.) Quem fundamentou o valor de sua vida na amizade com Deus, está disposto a dá-la e não teme os poderes deste mundo nem as incertezas da história. O autêntico mensageiro do Evangelho põe sua alegria exclusivamente no Senhor. “Alegrem-se por compartilhar os padecimentos de Cristo, para que também se rejubilem quando Ele se manifestar em sua glória.” (1Pd 4, 13.)

Somente uma Igreja imersa na história e aberta ao Espírito dos Ressuscitado se converte em sujeito responsável da missão. Partindo desta experiência evangelizadora é que se pode assumir responsavelmente o compromisso da missão Ad Gentes, a exemplo das primeiras comunidades cristãs, segundo nos relata o livro dos Atos dos Apóstolos.

O compromisso dos bispos

Na Exortação Pós-sinodal que o Santo Padre João Paulo II nos entregou no dia de seus 25 anos como Sumo Pontífice, lemos um compromisso missionário muito concreto para nossos bispos: “Cada Bispo deve ser consciente da índole missionária do próprio ministério pastoral.  Toda sua ação pastoral, pois, deve estar caracterizada por um espírito missionário, para suscitar e conservar no ânimo dos fiéis o ardor pela difusão do Evangelho. Por isso, é tarefa do Bispo suscitar, promover e dirigir na própria diocese atividades e iniciativas missionárias, inclusive sob o aspecto econômico. Ademais... é sumamente importante animar a dimensão missionária da própria Igreja Particular, promovendo, segundo as diversas situações, valores fundamentais como o reconhecimento do próximo, o respeito pela diversidade cultural e uma sã interação entre culturas diferentes.  Por outro lado, o caráter cada vez mais multicultural das cidades e grupos sociais,  sobretudo como resultado da emigração internacional, cria situações novas das quais brota um peculiar desafio missionário.” (Pastores Gregis, 65.)

Aqui, tocamos com a mão um problema sumamente atual: da Argentina, Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala e México, quantos milhões de nossos irmãos e irmãs emigraram para o Norte em busca de melhores condições de vida. Que fazemos para acompanhá-los pastoralmente com sacerdotes, religiosos e religiosas?  Não ressoam, por acaso, com dramáticos gemidos aquelas palavras do Evangelho: “Compadeceu-se deles porque caminhavam como ovelhas sem pastor” ? (Mc 6, 34.) Que resposta nós damos a este gravíssimo problema a partir da pequenez, da pobreza e do martírio?

Logicamente, esta Conferência tem a finalidade de animar os trabalhos do Congresso, mas eu me atreveria a sugerir que se pensasse nesta temática em suas Conclusões. E igualmente no que se refere ao compromisso face à missão Ad Gentes. Existe já um Projeto de Plano de Missão Ad Gentes a partir da América Central, que esperamos possa vir a ser uma esperançosa realidade.

Mons. Luis Augusto Castro, grande missionário e missiólogo, presenteou-nos uma obra intitulada “O Gosto pela Missão”. Creio que nossas comunidades, especialmente na América Central, tenham experimentado este sabor no decorrer do Ano Missionário.

Peçamos para todos a graça do Espírito Santo que forma os missionários e desperta valores, que como artista estupendo modele em nós o rosto de Cristo, o enviado do Pai, com o coração missionário de São Paulo, que nos faça palpitar com um generoso “ai de mim, se não evangelizar”. (1Cor 9, 16.)

Guatemala de la Asunción, 26 de novembro de 2003
 

Cardeal Oscar Andres Rodriguez Maradiaga, SDB - Arcebispo de Tegucigalpa - Honduras

Tradução: Sebastião Sant'Ana – O Lutador